Kagerou
1 Único - Kagerou
Notas iniciais
Outra manhã quente. E sequer precisei abrir meus olhos para saber que ele estava aqui.
Ainda meio inconsciente, eu arfava ante o calor; muito suor escorria pela minha testa, e meus pulsos estavam tão quentes que poderia haver marcas de queimadura ali. O mesmo valia para o lado do meu pescoço em que ele tinha a cabeça pousada.
"Me solte" sonolento, foi a primeira coisa que eu disse. "Não" foi sua resposta "se eu soltá-lo, você irá atrás dela novamente".
Quando enfim abri meus olhos, pude meio que ver aquela sombra quente e distorcida que me prendia na cama pelos pulsos tão quente quanto um irritante dia de verão.
"Você não se cansa?" ele disse, enfim erguendo o rosto para o meu "Tem ideia de há quanto tempo estamos nesta mesma rotina? Apenas desista de uma vez" seu tom era de agonia, tão cansado de tudo aquilo quanto eu.
"Enquanto tivermos objetivos opostos, eu não me renderei. Eu salvarei Hiyori custe o que custar."
Quantas vezes já havíamos repetido aquele diálogo? Eu já perdi a conta dos dias em que fui despertado por Kagerou me dizendo para não ir.
Quis me levantar, mas ele não deixou; seu calor era tão forte que eu sequer conseguia me mover ou enxergar. Respirar perto dele também não era uma tarefa fácil. Senti meus pulsos ainda mais apertados.
"Você nunca vai chegar a lugar algum assim! Ela não tem salvação!" ele sempre dizia isso, e a cada '14 de agosto' mais desesperado.
Mas no fim, aquele desespero tornava-se malícia.
"Se você não for, não a verá morrer outra vez." sorriu "Apenas encontrá-la já será sentenciá-la à morte" depois aproximou o rosto do meu, me tomando ainda mais o ar: "Então, não vá, fique comigo".
Eu nunca entendi a fixação do Kagerou por mim, ou porquê ele sempre causava a morte da Hiyori. Por quê não queria que eu a visse. Por que me beijava daquela forma passional e faminta. Eu sequer sei o que ele é.
Tudo que sabia sobre ele era que me queria tanto a ponto de me prender numa espiral de tragédias e que cada um de seus toques me queimavam sem deixar marcas e deslizavam com facilidade pelo resto do meu corpo graças ao meu suor que ele mesmo me provocava.
"Não desmaie" ele riu "não está tão quente assim".
"Sim, está." eu arfei.
Então ele me livrou das cobertas e me retirou minha camisa já encharcada. "Melhor?" perguntou de forma cínica, como se ver meu peito magricelo pulsando tão desregular não fosse nada. Aquilo o agradava e muito, na verdade.
Não sei porquê ele falava comigo se sabia que eu era incapaz de responder. Ele apenas sorria e me lambia o pescoço como se quisesse beber meu suor, mas aquilo só me deixava era ainda mais quente; a língua atrevida dele mais parecia água fervente. Não queria, mas acabei gemendo incomodado e me remexi por espasmo.
Kagerou riu, mas não parou. Subiu do meu pescoço pela lateral do meu rosto, passando por minha orelha até finalmente chegar à testa, onde se afastou.
"Está tão quente quanto eu agora, Hibiya" a forma como ele sussurrava meu nome era o único feito dele que me dava calafrios. Suas mãos foram até minha nuca, uma de cada lado como se ele quisesse me enforcar, mas o fazia na verdade para mover meu rosto à bel prazer.
"Não vá" ele sussurrou antes de me beijar outra vez. Depois de tantas reprises isso já não me perturbava mais. Porém ainda era desprezível tudo ele fazia comigo "Se for, isso não terá fim. Vocês não podem ficar juntos no final." disse ao trocar minha pelo meu pescoço.
Eu pensei "não podemos ficar juntos?" e continuei em voz sem querer "Então se não ficarmos juntos, ela pode salva?"
Ele riu, na certa dando minha pergunta como desistência. "Quem sabe" entendi como sim desdenhoso. Então, aquela era a resposta.
"Eu posso salvar Hiyori se não ficar com ela". concluí. Kagerou pareceu feliz, ele sorriu e me beijou a bochecha.
"Então já se decidiu."
"Sim". respondi num suspiro, fingindo rendição. Eu entendi o que precisava ser feito, mas não podia deixar Kagerou descobrir, então deixei que ele brincasse com meu corpo um pouco mais. Ainda nem eram meio-dia.
Senti que Kagerou descia a boca de meu pescoço para meu peito; suas mãos iam junto. As palmas quentes passaram juntas no centro do meu tórax quando ele se ergueu para me admirar. Eu não o via bem, mas sempre o achei como um espelho de mim mesmo em cores quentes e distorcidas. Sei que suas pernas me cercavam e ele tinha o mesmo sorriso vitorioso de todas as vezes que antecederam meus despertares em 14 de agosto.
Não vi bem, o calor dele me fez perder a linha de raciocínio, mas em algum momento estávamos ambos despidos. Cada parte do meu corpo já tinha sido tomada por ele. Perguntava-me como ainda estava vivo, como sobrevivia à todo aquele calor.
"Eu quero seu calor também" ele falou como se fosse um fim de frase, eu não sei, não estava prestando atenção, apenas queria que o tempo passasse logo. E mesmo que estivesse, minha respiração desregular era um grito se comparada aos sussurros dele "Hibiya".
Depois do meu nome, ouvi-o gritar e então se conter. Estava sentando-se me mim, pondo-me dentro dele. Asqueroso, mas incrivelmente prazeroso. Senti-me incendiar. Kagerou deitou-se sobre mim, enquanto movia apenas o quadril, indo e voltando, me dificultando mais a resipação.
Não duramos muito, pois como eu imaginava, seu corpo era tão imaturo quanto o meu. Ele riu doloroso quando me satisfiz dentro dele.
"Este é todo o calor que eu poderia desejar" ofegava, mais do que eu até. Estava satisfeito e feliz.
Deu meio-dia.
"Pode me deixar beber alguma água agora? pedi num fio de voz "Eu preciso me recompor pra quando você quiser de novo." menti, e ele caiu. Kagerou gemeu e rolou para um lado. Me libertava, enfim.
Juntei as forças que me restavam para me arrastar até o banheiro. Tomei um banho rápido, finalmente livre de todo aquele calor e disposto a enfrentar o sol de 14 de agosto, o último 14 de agosto. Vesti a roupa que havia deixado no banheiro "no dia anterior" e saí de casa antes que ele percebesse.
[...]
Em meu último vislumbre dele, ele estava chocado. Triste. Por um segundo, seu calor pareceu ter sumido, ele se tornou uma imagem fria, assim como ele me fez ficar depois de tantas reprises.
"Vá se ferrar" eu gesticulei. "Por que?" li em sua expressão. Para minha surpresa, ele chorava.
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