Kagamine Twins
29 Entendimento
Gaku me levou para casa naquela tarde, logo depois de eu conseguir me recompor. Ele foi totalmente gentil e atencioso, não me perguntando mais sobre o porquê eu chorei. Na porta de casa, ele passou levemente a mão no meu cabelo, sorriu melancólico e foi embora. Mais tarde eu perceberia que geralmente o sorriso de Gakupo tinha sempre esse sentimento de melancolia junto, e que a sensibilidade que ele tinha para comigo era devido a algo do passado que causou muita dor e tristeza para ele.
Mas naquele momento, eu estava envolvida demais e cega demais com os meus próprios problemas para conseguir escutar e ajudar ele da forma como ele merecia.
“Se você precisar de alguém para conversar, eu posso te ouvir a qualquer hora.” Foi o que ele me disse antes de ir embora, e suas palavras ainda ressoavam na minha mente.
Duas semanas. Fazia duas semanas que eu e Len não nos falávamos direito. Achávamos que o fato de não conversarmos direito na escola não afetaria nosso relacionamento em casa. Mas estávamos enganados. Cada vez mais sentíamos menos necessidade de conversar. A cereja do bolo (ou pelo menos eu achava que fosse) foi a nossa discussão na escola.
Estava tão perdida, tão confusa. Mas acima de tudo isso, estava a raiva. Raiva do Len. Raiva da Lily. Raiva principalmente da Lily. Eu posso ter passado a vida inteira em um hospital, mas eu não sou assim tão simplória. Todo aquele papo de que o Len podia estar me restringindo e que eu deveria me afastar dele, foi só para me afastar dele e abrir uma janela para ela!! Sim, porque se não fosse tudo que ela me disse naquele dia, assim que o Len chegasse em casa eu iria direto para o quarto dele conversar e tentar entender o motivo daquela acusação contra o Gakupo.
Algumas horas que eu duvidei do amor do Len por mim foi o suficiente para que ele saísse com outra pessoa. E a culpa de certa forma é minha!!
Não.
A culpa É minha. Não adianta ficar culpabilizando A ou B. O fato é que eu duvidei dele, e com isso entreguei-o de bandeja para outra pessoa... Mmm... Mas ele também! Porque logo na primeira oportunidade ele já me trocou?
Essa profusão de sentimentos me deixa exausta, mas eu não consigo dormir. Deitada na cama fico pensando nos porquês de tudo isso. Pelo menos a uma conclusão eu cheguei: Eu estava mesmo com meu mundo restringido. Mas não por causa do Len. Eu mesma não estava buscando expandir o meu mundo. Eu estava tão focada no Len que esqueci de mim. Fora um pequeno grupo (ou seja, Kaito e Piko) eu não tinha nenhum outro amigo. Não me esforcei em conhecer ninguém e nem permiti que os outros se aproximassem de mim para me conhecer. Talvez disso tudo, eu consiga ao menos tirar uma lição positiva. Afinal, foi graças a isso que eu conheci a Mayu e o Gakupo.
Ouvi leves batidas na minha porta e uma voz familiar me chamando baixinho:
– Rin... Abra por favor.
Só ouvir a voz do Len já me machucava e fazia com que as lágrimas escorressem pelo meu rosto.
– Eu não quero te ver. – Falei, achando que talvez minha voz tivesse saído baixa demais e ele não tivesse escutado.
– Certo... Me desculpe. – Eu ouvi ele dizer.
Não! Não! É mentira!! Len me desculpe, eu quero te ver! Eu quero que você me explique o que eu não entendo! Quero que me abrace e diga que vai passar.
Antes que eu me desse conta já tinha levantado da cama e corrido até a porta, abrindo-a. Len virou-se para mim e eu já não conseguia segurar as lágrimas que deixavam longos caminhos úmidos pelo meu rosto. Ele avançou em minha direção, entrou no quarto e fechou a porta.
Lá dentro, ele me abraçou, nós dois sentados no chão. Eu só chorava. Minha boca tremia e eu não conseguia dizer uma só palavra. Tanta dor, tanto sofrimento.
– Me perdoe Len. A verdade é que eu não quero ficar longe de você. Eu não queria desde o começo. Eu não gosto de me afastar. Eu não gosto de ter que te ignorar. Eu queria que a gente tivesse lutado contra o que estava acontecendo juntos! – Eu chorava e balbuciava, eventualmente esfregando os olhos.
Len continuava quieto, me abraçando. Ele esperava pacientemente que eu me acalmasse para que conseguíssemos conversar. Eu sentia o movimento ritmado do seu peito subindo e descendo com sua respiração. Aos poucos, eu ia me acalmando. Tive a impressão de que já tínhamos vivido essa situação antes.
– Melhor? – Ele perguntou.
– Melhor...
– Rin, acabou.
– O que? – Perguntei, incrédula.
Claro, ele percebeu que queria ficar com a Lily. Que ter ela de namorada é muito menos trabalhoso do que eu. Eu estava pronta para recomeçar a chorar quando ele disse:
– Finalmente nós descobrimos quem estava te maltratando. Não precisamos mais ficar afastados. Nunca mais.
Olhei incrédula por alguns instantes. Eu não conseguia conceber o significado daquelas palavras.
– O que? – Perguntei débilmente.
– Eu, Kaito e Piko finalmente encontramos os responsáveis por te fazer sofrer tanto.
Eu não sabia como reagir e olhava bobamente para Len.
– Escute, amanhã é muito importante que você vá atrás da escola... No local onde elas destruíram o seu cabelo.
– Porque?
– Só faça isso. Amanhã nós vamos encerrar esse capítulo macabro da sua vida.
Len me beijou na testa e acariciou meu rosto.
– O que você estava fazendo com a Lily hoje? – balbuciei, quase sem pensar no que estava dizendo.
– Hã?
– Você e a Lily... Vi vocês dois juntos hoje.
– Ah... Você viu... Espera! Como você viu?
– Não mude o foco! Eu quero saber o que você estava fazendo com a Lily hoje?!
– Calma, calma... É que sabe... Muitas coisas não se encaixavam no discurso da Lily e eu queria investigar. Só isso.
– E para isso você tinha que sair com ela?
– Bom, me pareceu uma boa oportunidade para verificar algumas coisas...
– Tipo?
– Olha... Eu não fiz nada de errado. Muito pelo contrário. Ter saído com a Lily pode ter sido o fator determinante para entender tudo o que está acontecendo.
– E porque você não me diz tudo que está acontecendo?
– Porque isso tiraria a emoção do próximo capítulo.
– Len, não faça gracinhas. Eu estou sofrendo aqui!
– Mas não vai ter que sofrer mais.
Ele sorriu e fechou os olhos.
– Mas voltando ao assunto... – Len continuou. – Como você sabia que eu estava saindo com a Lily?
– Eu... Estava saindo com o Kamui-senpai... Estávamos numa lanchonete quando vocês dois passaram por nós.
– Ah, então quer dizer que eu não posso sair com outras pessoas mas você pode?
– Não é isso. Lily me disse algumas coisas que me fizeram pensar, sabe? Disse que o meu mundo é muito restrito e que ainda há muitas coisas para ver, muito para conhecer. Mas que eu estou tão presa a você que é como se você estivesse restringindo o meu mundo. Depois de pensar um pouco, vi que ela tinha razão e que eu precisava sair mais, conhecer mais pessoas, lugares. Sair! Ver e ser vista. O mundo é muito mais do que a escola e a nossa casa. Então Kamui-senpai, quase como se tivesse escutado meus pensamentos, me ligou e me chamou para ir ao parque de diversões. Foi isso o que aconteceu. Nada mais, nada menos.
– Espera... Deixa eu ver se eu entendi: Lily te diz que seu mundo é restrito, você concorda com ela e coincidentemente no mesmo dia Kamui Gakupo aparece com ingressos para o parque de diversões. Isso não te parece estranho?
– Não...
– Hm... Talvez essa Lily tenha mesmo razão. Mas não se preocupe. Amanhã, Rin, eu infelizmente vou expandir o seu mundo e te apresentar à maldade humana. Quem sabe você deixe de ser tão ingênua depois disso.
– Mas...
– Não se preocupe com isso agora. Durma, pois você vai precisar estar descansada amanhã. E Rin...
– Sim?
– Aconteça o que acontecer, saiba que eu te amo.
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