Kadan
1 Capítulo Único
Notas iniciais
ROTINA
O fardo é pesado. Ser líder da Inquisição é ser capaz de tomar decisões das quais mais ninguém quer se ver responsável. É ser O Escolhido. O Arauto de Andraste. É ser capaz de fechar a Brecha e suas inúmeras fissuras, é enfrentar Arquidemônios e destruir criaturas sombrias com aspirações à divindade. É acabar com as mazelas sofridas pelo povo e manter a ordem de um império à beira da ruína. É ser o divisor de águas. O ascendente. A esperança de Thedas. O que todos precisam. O Inquisidor.
Mas, será que houve alguém e em algum momento que se perguntou o que o Inquisidor precisa?
Será que eu mesmo cheguei a me perguntar o que preciso? Acho que não tive tempo. Em retrospecto, não tive tempo nenhum para nada além de tentar salvar o mundo. Todos os dias, quando abro os olhos, sei que existe algum perigo nas aldeias, nas vilas, nas cidades-estados e até mesmo dentro da corte imperial. Se bem que este último não me parece ser melhor do que estar em um campo de batalha rodeado por mortos-vivos. Como Josephine descreveu uma vez: a corte é como os demônios, a diferença é que estes seguem a moda. Só comprova que, hoje em dia, o perigo não tem mais um rosto familiar. Ele pode usar máscaras, mudar de forma, até mesmo ser civilizado. Céus, estou tão cansado disso... Varric me aconselhou a escrever um pouco: “esvaziar a mente”, ele disse, mas não queria começar escrevendo uma reclamação.
Hoje foi um dia cansativo, mas muito produtivo – se eu começar assim, é melhor – já que matamos um dragão. Meu primeiro dragão. Estávamos em Caminhos do Oeste, investigando os Venatori, conheci um professor de dragonologia da Universidade de Orlais, Sr. Frederic de Serault. Que nos explicou como atrair a criatura alada conhecida como Dragão Supremo Abissal. De fato, era uma criatura magnífica. Sobrevoou de forma majestosa uma ruína acobertada de areia; local onde colocamos as iscas e esperávamos enfrentá-la. No momento em que a vimos, confesso que fiquei quase sem fôlego. Senti que Cassandra estava temerosa, com a postura rígida, como eu estava. Vivienne estava calada, concentrada demais em nos manter vivos para apreciar a chegada daquilo que poderia ser o nosso fim. Portanto, Touro fora o único mais empolgado, devo dizer. Ele estava enérgico e dizia praticamente aos gritos frases em sua língua nativa antes do dragão pousar na nossa frente até o instante em que o mesmo fora morto. Não ouso perguntar o significado de todas aquelas palavras, pois suspeito que há conotação sexual nelas.
Voltamos à Fortaleza do Céu muito satisfeitos, consegui tirar um momento para tomar um banho e avaliar os danos crescentes em meu corpo após essa batalha. Ainda sinto meu ombro doer. Madame de Fer me alertou que acabei deslocando-o e Touro conseguiu colocá-lo no lugar com perícia inacreditável. Mas acho que com as ervas fornecidas por Solas, não sentirei mais dores. “Basta descansar”, ele disse. Tá bom...
Largo a pena, convencido de que não vou escrever outra coisa a não ser reclamações, e ergo meus olhos que perpassam pelo quarto vazio que me fora dado como aposento e me sinto estranho, acho que solitário mesmo com o barulho constante das atividades dentro da fortaleza, abaixo de mim. O vento vindo das montanhas a oeste consegue congelar meus ossos, embora eu esteja bem agasalhado no momento. Levanto-me da mesa, caminho até à varanda do lado oeste e recebo de bom grado a ventania. A cadeia de montanhas que nos cerca é uma vista desoladora. Posso ver alguns pontos de pequenas avalanches se formando enquanto as nuvens tão densas tocam a superfície. Eu deveria parar para pensar no que será daqui para frente, quando alcançarmos o objetivo. O que será de mim quando tudo isso acabar? Sinto um frio na barriga, porque devo tomar as decisões cruciais até da minha vida, sozinho. E sozinho já tomo conta de tantos... Suspiro resignado. Meu cabelo dança junto a lufada incessante, me distraio, penso que está grande demais – as pontas douradas roçam em meu pescoço pálido e a franja já está se tornando um problema dentro do meu elmo. Talvez, devesse amarrá-lo... É trivial, mas anseio por esses momentos de tranquilidade e pensamentos banais, às vezes.
O sol da tarde é muito fraco por aqui, a lareira está acesa, mas não quero ficar enfurnado neste quarto. Vou seguir com a rotina, certificar se todos estão bem e descansados. Preciso revezar para nossa próxima expedição. Dorian ficou enjoado de tanta água quando fomos à Costa da Tormenta, espero que ele preze pela água desta vez quando formos aos Desertos Sibilantes. Temo que eu vá reclamar do outro mar de areia que enfrentaremos por lá. Eu ainda não tirei o suficiente das minhas botas dessa última viagem... Ossos do ofício.
Bem, disseram que há muitas ruínas anãs por lá, Varric pode ser útil. Blackwall ficará no lugar de Cassandra, desta vez. Preciso arrancar dele alguma informação sobre os Guardiões Cinzentos e os desaparecimentos destes. Às vezes, tenho a impressão de que ele não sabe realmente de nada. É estranho ele ser o único que não desapareceu... Algo está me escapando, devo conversar com Leliana mais tarde sobre isso.
Desço as escadas sem ao menos perceber, fecho a porta do meu quarto e sigo pelo estreito corredor com paredes de pedras frias, ornadas com arandelas de ferro com archotes acesos e, ao lado, uma baixa amurada de madeira. Três corvos estão pousados no tablado que acomodam também blocos grandes de pedras e madeiras. Quando é que vão arrumar essa parte do forte? Preciso me lembrar de perguntar ao Gatsi, o pedreiro. E ao Ser Morris sobre nossos suprimentos. E vem como turbilhão as obrigações e lembretes que tenho pendentes. Chega doer minhas têmporas. Quando é que vou conseguir pensar em outras coisas que não sejam obrigações? Ou quando vou dormir bem? Só quando isso tudo acabar... ou nem depois disso, quem sabe.
Chego à sala do trono e passo pelos guardas e nobres que estão alojados ou de visita sob os cuidados de Lady Montilyet e cumprimento-os com breves menear de cabeça ao ouvir “Inquisidor” ou “Vossa Excelência”. Pensei que nunca me acostumaria com esse tratamento, mas, de tanto que me chamam assim, às vezes, pego-me chamando-me de Inquisidor até mesmo em pensamentos, como se eu tivesse perdido meu nome. Eu tento ignorar a minha auto avaliação antes de ficar deprimido com a minha atual realidade; sou o rosto da coragem e autoridade para muitos, enquanto sinto-me reduzido aos julgamentos... e falho miseravelmente. Sinto-me aliviado por nenhum dos nobres ter tido o ímpeto de me abordar, talvez a expressão de poucos amigos que eu carrego tenha ajudado a afastá-los. Vejo Varric atarefado com pilhas de cartas que mal me ouve chamá-lo. Não insisto, depois eu o aviso sobre a nossa expedição. Entro na sala ao lado e encontro Solas conversando com uma elfa apóstata, eles parecem entretidos demais na conversa para me notarem, por isso, passo em silêncio pela sala oval e entro pelo acesso lateral da escada que me leva ao segundo andar daquela torre. Subo os degraus com determinação espantosa, esperando encontrar minha biblioteca reorganizada pelo mago tevinteriano. Surpreendo-o em sua leitura, confortavelmente acomodado na poltrona alta e estofada, cercada de mais livros que mais servem de apoio as velas.
— Por tudo que é mais sagrado, homem, não se aproxime tão silenciosamente! — diz Dorian, fechando os olhos e o livro em seguida, sobrepondo seu suspiro. Não pensei que ele pudesse estar tão distraído a ponto de se assustar com a minha presença.
— Desculpa-me... — digo surpreso. — Não vou perguntar o que está lendo que o deixou tão distraído assim. Só quero dizer que você irá comigo na próxima expedição, tudo bem? — Sorri, pronto para seguir o meu caminho e evitar qualquer protesto do moreno.
Dorian, então, se levanta, se aproxima de mim com a testa franzida e cautela, e suspira. Ele toma a liberdade de alisar distraidamente a gola do meu traje casual.
— Sabia que daqui pude ouvir as histerias de Vivienne quanto as suas roupas estarem cheias de areia? Pobre mulher. Você nos odeia, Inquisidor — responde em tom conspiratório e quase sedutor. Noto que ele havia bebido, seu hálito exala vinho tinto, e que se divertia com os infortúnios de nossa elegante encantadora antes mesmo de eu chegar. — Mas você sabe que eu irei. Gosto de vê-lo matar os fanáticos.
Ri anasalado. Dorian é divertido, muito tevinteriano pro meu gosto, mas interessantíssimo em outros aspectos. Flertávamos, é verdade, mas nunca passou disso. Dorian tem problemas para resolver com sua família, seria injusto de minha parte simplesmente jogar os meus para cima dele, caso estivéssemos juntos. E eu sei que, nessa altura do campeonato, se alguém me oferecesse um ombro, estaria inclinado a aceitar contando que pudesse me ajudar a carregar o meu fardo. E senti-me dividido quando Dorian não ofereceu-me o seu. Aliviado e frustrado? Não sei bem dizer. Não penso muito nisso, pois imagino que se eu estivesse no lugar dele, não optaria em me envolver com alguém tão... atarefado, para dizer o mínimo. Me despeço dele e sigo o caminho até Vivienne, que fica alojada numa espécie de mezanino, acima da entrada do castelo. Encontro-a deitada em um divã almofadado. Ela tem a mão repousada na própria testa. Sofria de dores de cabeça, suponho.
— Indisposta? — digo como anúncio de minha chegada enquanto termino de subir os degraus daquele piso.
— Inquisidor. — Ela desperta e se levanta, recompõe-se como se estivesse diante da própria Imperatriz, Celene Valmont, mas esse vislumbre passa e Vivienne novamente passa a me tratar conforte seu julgamento. — Precisa de mim, meu querido?
— Preciso saber se está bem, somente. — Faço um gesto para que ela volte a se sentar enquanto eu mesmo sento-me na cadeira de encosto alto à frente. — Se tiver algum problema, quero que me diga.
— Direi quando for relevante, querido. Tomar-lhe tempo com assuntos não relacionados a Inquisição não faz parte de minha função, e ouvi-los não deveria ser parte da sua. — Ela sorri forçadamente e se serve de uma bebida. — Nome de Cassandra está sendo mencionado como indicação à Divina a sentar-se no trono do Raio de Sol. Ela não tem graça e carisma, apesar de eu acreditar que ela possa ser uma Divina admirável.
E lá vamos nós.
— Já me abordaram sobre isso antes mesmo de eu colocar os pés na fortaleza. Ela e Leliana são cruciais, chego a pensar que é uma manobra da Chantria para enfraquecer aos poucos a Inquisição. Cassandra, nossa investigadora e Leliana, nossa espiã-mestre, membros fundadores. Que conveniente, não?
Vivienne inclina a cabeça ao me encarar, depois de sorver de um gole da bebida. Percebo que hoje é o dia em que todos estão se entorpecendo com álcool. Ela está pensativa ou está me julgando como “um Inquisidor idiota”, como sempre tenho a impressão em nossas conversas, mas não demora em responder. Colabora, Vivienne, eu sequer pedi para ser tão importante assim.
— Estão desesperados, é verdade, mas não acredito que esta ação seja para enfraquecê-lo, Inquisidor. Como deve saber, Cassandra e Leliana eram mãos da Divina Justinia V. É absolutamente previsível que elas sejam indicadas. Com o apoio sutil da Inquisição, porém, podemos indicar alguém tão relevante quanto e que favoreça-nos dentro da Chantria, sem afetar os membros fundadores, assim, não ficaremos desfalcados.
A conversa se estende por mais tempo do que eu quero. Posso ver em seus olhos o quanto ela quer que eu diga seu nome como indicação, trabalhando em cada palavra para me fazer pensar que tal ideia veio de mim. Estou tão cansado desses jogos sinuosos que desisto de tomar o controle daquela conversa. Na verdade, não consigo pensar em mais nada para manter um diálogo com aquela mulher. Acho que Vivienne ainda sofre com a perda de seu amor e está desesperada, a seu modo, para ocupar-se com algo que possa trazer-lhe mais benefícios do que perdas. E, com certeza, sou o pior tipo de ajuda que ela possa precisar agora.
Retiro-me solenemente sem satisfazê-la com uma resposta, volto por onde eu vim, descendo as escadas – dos inúmeros acessos e corredores da fortaleza – e Varric continua arduamente com a cara enfiada nas cartas. Prometo a mim mesmo que na volta eu o aviso sobre a próxima expedição. Passo pela porta dupla da entrada e saio do castelo principal.
Fortaleza do Céu é enorme, cabe facilmente um exército inteiro nela, e consigo ver todo o tipo de gente daqui, do patamar da escada; soldados humanos, anões, elfos e qunaris, seres gigantes e chifrudos. E no meio disso tudo, os magos. Cullen perguntou-me uma vez sobre minha escolha; sendo eu mesmo um guerreiro, como poderia ter escolhido os magos ao invés dos Templários para ajudar-nos contra Corypheus? Para ele, pude confessar que se tratava de uma simples estratégia do que de fato apoio, dada a situação dos magos em Rocha Vermelha. E que preferiria enfrentar os Templários do que Magos Rebeldes ensandecidos em batalha. De fato, estava com medo, assim como ainda estou, de perder as vantagens que temos sobre Corypheus. E ter magos tão poderosos ao nosso lado, é mais favorável do que tê-los contra nós. Acho que Cullen estaria mais à vontade se seus amigos estivessem por perto, não posso culpá-lo por se sentir assim. Só espero que, por conta disso, ele não se sinta arrependido por ter sido um dos que me escolheram como líder da Inquisição.
De repente, me vejo na área aberta onde designei os construtores em transformá-la numa grande enfermaria. Ao fundo, Cassandra desfere golpes certeiros nos bonecos de treino emparelhados quando tenho a intenção de chamá-la para conversar, mas, em dado momento, a cabeça de um dos bonecos de palha voa longe com o golpe degolador de sua espada e, instintivamente, resolvo não me aproximar daquela tempestade humana. Assim como nós, Cassandra deve ter sabido sobre sua indicação à Divina e está se expressando nos bonecos. Acho que vou esperar ela esvair suas forças quando for abordar o assunto. Embora eu ainda me pergunte como ela consegue ficar treinando mesmo depois de uma missão exaustiva.
Tomo o caminho em direção à taberna, O Descanso do Arauto. Ainda que eu goste do nome, é o lugar em que menos consigo descansar de fato, mas seria presunção demais pensar que a taberna só servisse a mim. É o lugar de descanso para todo infeliz que lutou contra demônios ou templários manipulados pelo lírio vermelho. Sendo bem recebido pela melodia da menestrel Maryden e servido com caneca de cerveja por Cabot, o bartender. A enorme lareira eternamente crepitante, te leva a uma atmosfera acolhedora, junto com as conversas triviais e jogos entre os frequentadores. Mas quando eu entro no recinto, sou transportado para uma celebração caótica. Não ouvira a algazarra até abrir a porta. Ergo os olhos, surpreso com a movimentação das pessoas. Muitos são soldados já completamente bêbados – uns lutando para se manterem em pé e outros que desistiram da realidade que o cercam, ocupando as mesas e apoiando suas cabeças dormentes nos próprios braços –, mas a grande maioria está sorrindo e aos berros, como quando incentivam alguém a fazer algo. E, de repente, a explosão de gritos quando a caneca é posta brutalmente no balcão, ressoando junto com a alegria exaltada dos soldados. Se trata de alguma competição de quem bebe mais, aposto. Confesso que me sinto contagiado por um momento, queria estar tão despreocupado a ponto de me entorpecer com qualquer goró servido. Mas eu não posso me dar a esse luxo, não é? Sigo para o fundo da taberna, para onde Touro costuma ficar, para conversar e saber se precisa de algo. Talvez sou eu que precise, só não me dou conta disso. Mas que seja.
Touro de Ferro é um espião dos Ben-Hassrath, um dos muitos bons que havíamos contratados e aprendi que alguns de seus hábitos eram automáticos pela profissão exercida. O lugar escolhido por ele não fora à toa; praticamente escondido atrás da lareira, na área debaixo da escada. Sentado ali, podia observar quem entrava ou quem saía e quem estava sentado em cada mesa disposta, sem ser notado. Muito útil, principalmente, por conta das decorrentes denúncias de agentes infiltrados na fortaleza. Touro identificava-os e nós os prendíamos para interrogatório.
Consigo chegar ao meu objetivo, desviando dos bêbados, mas não o encontro em seu lugar, que deveria estar sentado de costas à parede. Vejo Krem, ao invés disso, que demora para me reconhecer, e de sua expressão inquietante quando consegue. Ele busca com os olhos pelo seu chefe e me aproximo para acalmá-lo.
— Pela sua cara devo deduzir que Touro é quem promove a festa, certo? — Entrego-lhe o meu melhor sorriso, mas a gritaria de uma música que começam a cantar, me deixa com dor de cabeça.
— Ele não consegue ficar parado, Vossa Excelência. Está há horas contando sobre o dragão que vocês caçaram — diz Krem com a voz rouca de tanto que deve ter gritado com eles. — Eu queria ter visto uma criatura dessa. Mas, sim, ele está no balcão, obrigando a todos a beber aquela merda qunari que conseguiu trazer. Não vai te deixar forte, vai te deixar com uma bola de ferro dentro da cabeça por três dias!
— Neste caso, acho que volto daqui há três dias, então. — Tenho a intenção de voltar para a saída quando ouço Krem chamar pelo Touro no momento oportuno de quase silêncio uníssono.
— Chief! Inquisidor está aqui!
Todos viram-se para mim e Touro esbraveja pela minha possível demora em aparecer e juntar-se a ele, chamando-me com a mão, freneticamente. Acho que já está há muito bêbado. Os soldados se dispersam aos poucos, embora eu tenha dito que todos continuassem, sem se importarem com a minha intromissão. Finalmente, aproximo-me do balcão ao lado de Touro. Cabot está praticamente soltando fumaça pelas ventas.
— Ah, não se preocupe, Chefe — diz Touro, repousando seu braço em meus ombros. — Todos estarão dispostos amanhã, para qualquer emergência. Eles são fortes. Você é forte, consegue conceber que nem mesmo dragões são páreos a você?
— Não lutei contra um dragão sozinho, Touro. Afinal, você também estava lá. Eu teria virado espeto humano chamuscado se estivesse. — Sento-me ao balcão e Touro alivia o peso em meus ombros tirando seu braço musculoso de cima. Sinto-me minúsculo perto dele, mas quem não se sente assim?
O qunari ri, servindo-me de uma dose da bebida de sua terra natal. Tomo três goles durante nossa conversa para satisfazer o prazer visível em meu companheiro de batalhas. E não duro por muito tempo, pois lá estamos, bêbados e erguendo brindes para deuses e o mundo e para nós mesmos. Entramos em consenso que, os dragões são criaturas magníficas e de puro poder brutal, que deveriam ser combatidas. E como eu havia deduzido, a gritaria de Touro durante a batalha havia conotação sexual. No momento, pouco me lembro do que aconteceu, mas acho que fora a coisa mais divertida que já fiz em toda a minha vida.
DIA SEGUINTE
NUNCA ESQUECER: Jamais volte a beber com Touro de Ferro! O que foi que eu fiz comigo? Não quero mais pensar, foi difícil pensar em levantar da cama. E não sei por que estou escrevendo isso, mover meu pulso e pensar em escrever o que estou pensando, dói. Tudo dói. Meus olhos não aguentam a claridade desse quarto, pedi para que me arrumassem tapeçarias longas o bastante que pudessem tampar os vitrais, passarei o dia inteiro aqui dentro, longe de qualquer um que queira falar com o Inquisidor. Não, hoje, sou ninguém, não, sou alguém morrendo de dor de cabeça e com uma ressaca que nunca pensou que pudesse sofrer. Pelo sopro do Criador, estou com vontade de chorar!
A dor é tão forte que desisto de tudo. Levanto-me da cadeira com muita dificuldade. Sinto-me um inválido. Enrolo-me em meu roupão de seda-linho. Todas as minhas articulações parecem ranger, meus próprios passos são como golpes em minha cabeça. Ver a luz do dia me causa vertigem. E o enjoo não me permite pensar em comer. Caminho arrastando os pés descalços de volta para cama e, com todo o cuidado do mundo, pego a jarra de barro e torno a beber da água limpa que me deixaram, próximo da cabeceira. O pão e queijos que me trouxeram, estão intactos desde o amanhecer. Não consigo comer. Nada para em meu estômago. Também desisti de forçar. Deito e ouço alguém subindo as escadas de forma quase exagerada, como se quisesse avisar-me de sua presença. O barulho retumba em minha cabeça, causando-me uma dor absurdamente aguda, e meus olhos se enchem de lágrimas. Sinto-me patético.
— Está acordado... — Touro se pronuncia. Viro-me com os olhos flamejando em fúria e deparo com Leliana ao seu lado, que também veio presenciar minha patética situação.
— O que querem? — consigo rosnar com muito esforço para demonstrar uma imunidade inexistente, falhando miseravelmente. Volto a segurar as têmporas com as duas mãos quando sento-me em meu leito.
— Touro me disse a causa de seu mal-estar. Viemos ajudar. — Leliana não se deteve em se aproximar e me entregar um punhado de folhas secas. — São para o chá. Mas pode mastigá-las para obter um efeito mais rápido, porém, esteja avisado que são extremamente amargas em seu estado atual. Com o chá, poderá misturar com mel e o gosto melhora significativamente. Touro garante sua eficácia.
— Folhas de quê? Da última vez que tomei algo que Touro ofereceu... bem, vocês estão vendo o resultado. — Ouvir-me falar me causa pena. Sinto uma angustia profunda como nunca senti antes.
— Er... É, peço desculpas por isso, Chefe. Não devia tê-lo incentivado a tomar Maraas-lok além do aceitável. Mas as folhas de Kunra-eb vão ajudá-lo; a ruiva vai me punir se o senhor não melhorar ainda hoje.
Pego as folhas das mãos de Leliana e aventuro-me a mordiscar a ponta de uma delas, sendo mais do que suficiente para não me encorajar a fazer o mesmo com uma inteira. Minha boca está terrivelmente amarga, mas tenho a dignidade de manter o pedaço da folha na boca até os dois saírem de meus aposentos. Touro se propôs a fazer o chá, devia estar se sentindo muito culpado, mas recusei seu pedido. Qualquer castigo ou punição que Leliana pudesse proporcionar a ele, isentar-lhe-ia de qualquer culpa. Faço eu mesmo o chá e, mesmo com o mel, fica quase tragável. O pão seco ajuda a ingerir essa merda. Porém, admito que esperei poucas horas e agora sinto-me como novo, novamente. Não sei se Touro vai lamentar ou comemorar a minha melhora. No fundo, ele queria ser castigado pela ruiva, presumo. Lamento, Touro.
As pendências do dia anterior, se tornam pendências do dia consequente. Foco-me em resolver as mais necessárias, antes de ser bombardeado com as estratégias de guerra de Cullen e das atuais tendências em Val Royale por Josephine. Leliana também tira para si o pouco de mim que ainda me resta. Agentes infiltrados na Fortaleza do Céu, nobres brigando entre si para chamarem atenção da Inquisição e Templários corrompidos que buscam rotas alternativas para o tráfico de lírio vermelho. Pouco tempo depois, Touro apresenta para mim uma possível aliança Qunari. Consigo ler sua preocupação no modo como ele age, tentando ensinar Krem um golpe de escudo e se irritando com o esforço mínimo demonstrado pelo tenente dos Bravos. Temo que os Ben-Hassrath tentam evangelizar as pessoas ao Qun, do qual me parece ser o mesmo temor de Touro, mas guardo a questão para mim. Acredito nas palavras do meu companheiro de batalha em relação ao Qun, de que o sistema poderia funcionar – e que funciona – para algumas pessoas, porém, não via outro sob o Qun dentro do nosso grupo além dele mesmo. E que era, no mínimo, diferente conceber a possibilidade de Qunaris tão ao Sul de Thedas.
Não prosseguimos com a conversa, voltamos à Costa da Tormenta para ajudar na operação dos Ben-Hassrath contra os Venatori. Eu havia sido avisado por Touro que seria uma operação incisiva e discreta. Gatt, um antigo colega de Touro, nos apresenta argumentos sustentáveis do porquê ser tão arriscado utilizar de mais soldados da Inquisição contra os magos Venatori. Mas não gosto do sujeito. Ele discute com Dorian, parece disposto a alfinetar Touro com essa história de “Hissrad”. Não consigo confiar que teremos sucesso nessa empreitada. Penso que os Ben-Hassrath estão testando nossa força ou a lealdade de Touro. E o quanto isso vai nos custar? Antes de eu sanar minhas dúvidas, Touro designa aos Bravos a tarefa de manter a posição conforme o plano orquestrado por Gatt. Somos precisos ao acabar com os Venatori do nosso lado, assim como os Bravos, do outro lado da praia. Sinalamos ao couraçado qunari para destruir a pequena embarcação dos Venatori e pronto. Operação concluída, assim pensei. Mas, como eu também havia deduzido, a lealdade de Touro é testada naquele momento crucial e cabe ao Inquisidor decidir o que ele deve fazer.
O dia parece não ter fim. E o efeito da Kunra-eb não acompanha meu ritmo. De volta à Fortaleza, no fim da tarde, estou derrotado. Não tive a intenção de me esconder, embora o acesso que faz parte da amurada de pedra que circunda a fortaleza seja bastante visível para quem está nas torres janeladas e adjacentes, é pouco utilizado pelos transeuntes comuns; somente os soldados que fazem a vigília permanecem rondando a área. E se eles me viram sentado ali, abraçando os próprios joelhos, fingiram que não sabiam quem eu era.
Demoro entorno de uma ou duas horas ao resolver pensar em voltar ao castelo principal. Não sinto-me feliz com a escolha feita. Entretanto, sei que Touro também precisa lidar com a consequência desta. Encontro-o na amurada seguinte da qual eu estava, carregando uma espécie de urna cilíndrica nas mãos. Touro não se surpreende ao me ver ali, permitindo que eu me aproxime. Acompanho o ritual que ele escolhe para homenagear aqueles que o acompanharam por anos, jogando pelos ventos suas cinzas ou o que havia sobrado de seus homens. Dos Bravos. E tento consolá-lo da melhor maneira possível. Desde o momento em que o conheci, após ele me contar sua situação com os Ben-Hassrath e de seu interesse em entrar na Inquisição, confiei em Touro. Como poderia explicar? Não vi Touro de Ferro se esforçar além do necessário para ganhar minha confiança, e sua franqueza em nosso primeiro contato foi inesperada. Ele tinha motivos para mentir, e se o fizesse, sabia que corria o risco de ser descoberto, então, não manteve segredo. Seu pragmatismo nessa questão me foi muito bem avaliado.
— Você é um bom sujeito, Touro. Não deixe de ser o que é de verdade. É o que eu preciso de você. — Minha voz vacila pela emoção contida enquanto observo o qunari impassível, embora estivesse sofrendo mais que qualquer um.
Deixo Touro em seu luto e chego em meus aposentos com o espírito destruído. Perdemos bons homens à custa de uma aliança com os Qunaris, mais precisamente com os Ben-Hassrath, e ainda não sei se valeu a pena. Para ser sincero, acho pouco provável que valha. Kunra-eb me abandona por completo e sinto um vazio ainda mais profundo dentro de mim. Sinto-me insuficiente, impotente, incapaz de enfrentar qualquer coisa. Não consigo evitar, o choro preso à garganta toma força e se liberta como uma forte correnteza. Agarro-me ao travesseiro e desaguo como uma criança cheia de desesperança e medo. A possibilidade real de perder para Corypheus e levar a todos junto comigo à desgraça e ao fim do mundo, só intensifica meu desespero. Choro copiosamente e sem pudor, quando mãos firmes me erguem da cama e me acolhem num abraço apertado, mas aconchegante. Desta vez, eu não ouvi seus passos exagerados. Touro havia sido incrivelmente silencioso ou eu fora muito barulheiro em meu choro que ocultou sua chegada. Não quero me afastar de seu abraço, agarro-me nele a ponto de quase desmaiar pelo esforço em me manter ali, como pelo choro sufocante. Touro tenta me acalmar com sussurros de “está tudo bem”, “estou aqui”, até eu retomar o controle de mim mesmo e conseguir falar de maneira compreensiva.
— Eu não sei... o que está acontecendo... Não pensei que eu ficaria afetado dessa forma... pelo o que aconteceu. Os Bravos merecem nossas lágrimas, mas... sinto-me desesperadamente triste por... tudo. Porque eu... não sei mais se eu serei... capaz de derrotar Corypheus — digo pausadamente, sendo assolado por soluços de um choro infinito.
Touro suspira antes de tomar a palavra.
— Eu sei como se sente, mas acho que é o efeito colateral da bebida Maraas-lok que foi intensificado com a perda do efeito da Kunra-eb. Ou seja, parte do seu momento de vulnerabilidade pode ser a potência das folhas diminuindo drasticamente. Os soldados estão cabisbaixos, você, pelo contrário, está a flor da pele.
Não sei se era para me consolar, contudo, fico pensativo e imóvel na cama ao me afastar, a vontade enlouquecedora de chorar passa com o tempo, como uma nuvem desgarrada das maiores, dissipando-se com o vento. Touro volta a me abraçar como se eu fosse uma criança, estou tão entorpecido que não reivindico o direito de ser tratado como um adulto, até aquele momento, considerável. Estou avaliando ainda se é bom ou ruim que somente Touro tenha presenciado meu estado patético, e acabo ficando sonolento em decorrência das leves carícias em meu cabelo e pelo aconchego de seu abraço que me fora oferecido. Quero me deitar e Touro percebe minha breve movimentação. Ele me conduz ao leito e pela primeira vez, naquela noite, vejo seu olho bom avermelhado. Touro havia chorado, então, sinto-me menos compelido em ser indelicado.
— Fique bem, Touro. E eu ficarei bem... — sussurro ao fechar meus olhos enquanto sinto suas mãos me deixarem com a sensação ruim de frio ao se afastarem. — Um aviso: nunca mais vou beber o que você me oferecer...
Ouço Touro rir anasalado antes de me perder no breu do inconsciente.
Acordo antes do amanhecer, com minhas narinas saturadas de um cheiro tão particular, sendo impossível de pensar em outra pessoa que não fosse o próprio dono, Touro de Ferro. E por incrível que pareça, sinto-me bem ao cataloga-lo, ou mesmo ao relembrar do que aconteceu. Afundo meu nariz em minha camisa e desfruto do seu aroma impregnado junto ao meu. Como um viciado que busca o prazer atingido anteriormente. Volto a pensar na incrível sensação que era estar em seus braços, de suas mãos me segurando com tanta firmeza e de sua voz que tentava me acalmar. Minhas bochechas ardem odiosamente quando percebo minha visível animação involuntária. Deito-me de lado, forçando-me a pensar em outras coisas que pudessem minar minha súbita vontade carnal, mas quanto mais eu tento evitar, mais forte fica a tentação. E eu cedo. Sinto-me doente quando termino, completamente envergonhado pelo meu ato tão obsceno. Consequência disso? Passo uma semana inteira evitando aquele que começou a mexer com meus brios. Como eu poderia estar tão carente a ponto de me aliviar pensando no cara que só me abraçou uma vez em um momento de vulnerabilidade decorrente de ervas? Seria também um efeito colateral da maldita bebida que tomei na taberna, essa paixonite? Os soldados estão agora constrangidos por estarem vendo seus amigos de campo com outros olhos? Maldito seja você, Touro, com suas bebidas, suas desculpas e suas carícias que me fazem tanta falta!
Não evito de pensar nele nos últimos dias, guardo a camisa para dormir com ela e quando percebo minha atitude, fico irritado comigo mesmo, jogando-a no embutido para esquecê-la para sempre atrás da porta. Mas, em dado momento, durante a noite, volto a pegá-la e a dormir aconchegado com ela amassada em meu travesseiro. Eu noto minha mudança de comportamento e noto também que não consigo mais fingir indiferença ou mesmo pensar em desculpas convincentes para continuar evitando meu espião.
Ele resolve me procurar, assim como na noite passada, cansado de esperar que eu apareça na taberna, para saber o motivo de eu não levá-lo à nossa última caça ao dragão, mas a vergonha me toma por completo, fazendo-me evitá-lo, sempre por um tris. Agora, estou com Cassandra diante de mim, escutando-me com atenção.
— Touro será útil numa próxima caçada. Ou nas expedições que estamos prestes a realizar — digo por fim. Explicar a razão que julguei adequada para justificar a não-convocação de Touro, deixa-me visivelmente desconfortável.
— Não falou com ele, não foi? — Cassandra ergue a sobrancelha e cruza os braços diante do peito. Não parece convencida de meu argumento.
— Tem de concordar que Touro está se arriscando demais, ficando inconsciente constantemente quando enfrentamos uma criatura como um dragão. Não posso contar com ele se continuar com essa postura na batalha. Não tive tempo de falar com ele pessoalmente, mas...
— Ele acha que você está o evitando, mas ele não me disse o motivo. Se é algo entre vocês, resolvam como homens. Se não pode tratá-lo como seu companheiro de batalha, não me venha pedir para que eu o faça em seu lugar.
Quase falho em encontrar minha própria língua.
— Eu não te pediria para tomar o meu lugar.
— Pediu, e o que é pior ainda, está fazendo indiretamente. Seja o que for, converse com ele você mesmo. Touro vai entender e se esforçará a não cair em campo com frequência. Mas entenda que sua habilidade é justamente essa; ferido, ele causa muito mais danos aos inimigos. E pedir para que ele não use sua habilidade é o mesmo que pedir para ele se conter quando claramente deveria se exaltar. Nunca funciona.
Engulo em seco. Terei de falar com Touro de qualquer maneira. Se eu pedisse a outra pessoa, seria só mais uma a desconfiar de que algo está acontecendo. Quero evitar os boatos desnecessários. E de verdade, o que estava acontecendo comigo? Por que agia feito um jovem imaturo e covarde para com Touro? E do que eu estava com medo? Essas perguntas me inundam constantemente desde a breve conversa que tive com Cassandra. Ela não iria me ajudar, tão pouco estou propenso a pedir para outro. Então, em meu quarto, volto a deleitar a vista gélida das montanhas e reúno a coragem que eu preciso para me aproximar de Touro. Começo a planejar cada diálogo que pretendo ter com ele, presumindo suas respostas e contorná-las ou enfatizá-las para chegar no objetivo, que é...
— Entendi o que está acontecendo, e você tem razão em ser cauteloso e me evitar. — Touro está sentado em minha cama com a minha camisa, tão necessitada de seu cheiro, em suas mãos. E eu estou petrificado.
A VERDADEIRA NECESSIDADE
Não quis sair da cama, embora tenha sido por um motivo benéfico. Acho que encontrei a paz que eu precisava. Minhas dores foram amenizadas, ainda que as físicas sejam sentidas a cada movimento que faço, mas elas se tornaram dores boas, na falta de uma palavra mais adequada. Encontrei a minha paz. Estou em completo relaxamento e em estado de espírito tão leve que, de olhar para varanda, sinto-me capaz de sobrevoar o pátio da fortaleza por horas a fio. Mas deixo essa vontade à imaginação, somente. Nunca antes quis tanto estar vivo como agora. Encontrei minha paz em Touro. Pensar nele, agora, não me traz constrangimento como antes. Vejo com tanta clareza que me questiono se minha insensatez também era provida pelos efeitos colaterais das malditas bebidas oferecidas a mim pelo Qunari.
Não importa, estou no controle de minha mente outra vez. Acho que aprendi a descarregar as frustrações do dia, e obter um enorme prazer no final. Minha vontade de viver só se iguala com a sensação de quase morte que tive na noite passada. Digo “morte”, mas não se trata da propriamente dita. É difícil explicar, colocar em palavras o que senti em todos os momentos em que estive com ele, em suas mãos. Sim, devo admitir que ele me domou, completamente.
A sensação é de que seu corpo não vai conseguir conter o que foi provocado; como uma comporta de drenagem que explode com a pressão, deixando escapar a violenta corrente de água que se forma. Acho que sou péssimo em analogias, mas não sou escritor, portanto, devo me contentar com isso. E a pergunta que me persegue no momento é a do “por que eu não fiz isso antes?”.
Releio meu escrito e fico imaginando a cara do agente de Leliana que provavelmente será mandado discretamente para cá, como forma de certificar de que estou em plenos juízos. Pego-me rindo. Deixo o pergaminho enrolado junto aos demais e levanto-me da cadeira com a incrível sensação de liberdade. Não sinto tanto o peso do mundo em minhas costas. Tenho consciência de minhas responsabilidades, mas estou encarando de outra forma, não só como obrigações. Tento me lembrar de todos os momentos passados e uma ansiedade me contagia. Pego um papel a parte e volto a mesa para escrever, como se precisasse narrá-lo para se lembrar sempre que quisesse.
E eu começo:
Touro alegou que eu mesmo não sabia o que estava pedindo a ele. Que eu não fazia ideia do estrago que poderia me causar. E eu insisti. “Última chance de salvar o seu rabo”, disse-me ele. E me vi implorando para que não fosse embora. Eu estava tão perdido em meus desejos, inebriado pelo seu aroma natural, que arfei ao ser segurado com tanta habilidade. Em dado momento, não estava mais vestido, e meus pulsos estavam amarrados na cabeceira, e eu senti suas mãos tão grandes e ásperas, passearem pelo meu corpo que implorava há dias pelo seu toque. Nunca estive tão submisso. Touro me guiava, me controlava e me podava em momentos precisos e explorava-me, testando meu limite. Desfiz-me por três vezes, naquela noite. Estava exausto, mas consciente que Touro não se proporcionou o mesmo prazer que ele se dedicou a mim, completa e unicamente. Outra vez, me vi implorando para que ele pudesse aproveitar tanto quanto eu, mas sua resposta foi sucinta. “Hoje, é você quem precisa”. Soltou-me os pulsos, beijou o meu rosto com ternura e pretendia esperar eu adormecer para ir embora, mas com a força que ainda me restava, segurei seus chifres e o puxei para perto de mim. Acho que Touro ficou surpreso, desta vez, não por eu tê-lo beijado nos lábios, mas por ele mesmo ter correspondido com tanta voracidade. “Boa noite, Chefe”, ele me desejou em um sussurro rouco que ecoa até o presente momento em que escrevo.
Relembrar dos fatos tem o seu preço. Sinto a pulsação incomoda, a ardência no interno de minhas coxas e virilhas, toco-me com bastante carinho, e me acabo de joelhos no chão, quase abraçando a cama e mordendo o colchão. Recupero-me da minha explosão prazerosa e junto-me ao lavabo. Banho-me, faço a barba e troco de roupa, guardando o papel em um bolso interno do meu traje usual para, então, fazer meu dejejum. Novamente, me dirijo à nossa mesa de guerra com os nossos especialistas para debater estratégias e diminuir cada vez mais as chances de Corypheus ser bem sucedido em sua loucura. A expedição que se segue durante a semana, é exaustiva e muito compensadora. E Cassandra, Touro e eu, tornamo-nos os guerreiros que mais caçam dragões em toda a Thedas. Dá para imaginar a grande excitação de Touro quanto a isso? Nem eu mesmo fazia ideia. Sempre que voltamos à Fortaleza, lá está ele, n’O Descanso do Arauto, bebendo com os soldados e narrando seus feitos contra os dragões. E percebo que ele tem grande prazer em me exaltar em sua história quando surjo na taberna para conversar com ele; mudando o foco de sua narrativa para mim, instantaneamente. E é impressionante eu nunca estar preparado para isso. Os olhos são fixados em mim com uma paixão e devoção que não vejo constantemente nos soldados. Leio admiração em suas feições, o que me deixa ainda mais sem palavras que pudessem afirmar como a recíproca é verdadeira. Oras, são com eles que iremos vencer e salvar o mundo!
— Vocês fazem parte disso — digo-lhes com sinceridade. — Vocês salvam o mundo praticamente todos os dias quando são mandados para todos os cantos de Thedas e combatem todo o tipo de inimigo errante. Talvez a ideia não passou pela cabeça de vocês, mas eu os admiro pelo o que fazem e pelo o que são. Pois vocês são a Inquisição.
O pequeno discurso é ovacionado com canecas erguidas e gritos de guerra. Touro está sentado em seu habitual lugar, olhando-me sobre a caneca de seu trago, revelando um sorriso muito sutil. Qualquer um poderia ver um filete em seus lábios, mas eu sei o que é. Com os soldados se dispersando ao seu redor, Touro me convida para sentar-se ao seu lado esquerdo.
— Não tive tempo para te falar, mas você estava com a cara boa... — ele começa. — E estava andando com firmeza. Devo reconhecer que tem bastante resistência, Chefe.
Fuzilo-o com os olhos e ele gargalha com a minha expressão. Em qualquer outro momento, acho que eu ficaria muito constrangido ao ouvi-lo falar assim. Mas eu tenho em mente que, até então, ninguém sabe do que ele está falando e eu não preciso levantar uma bandeira com dizeres “Touro e eu transamos!”. Deixo que termine de tomar seu goró, quando percebo a ironia ao me chamar de “Chefe”. Quando estivemos juntos pela primeira vez, ele foi o Chefe.
— Se está testando minha convicção, está perdendo seu tempo. — Faço uma pausa. Observo Touro se ajeitar na cadeira para olhar-me seriamente. — E não pode me culpar por...
Ele me interrompe ao se aproximar de mim, para sussurrar. Sua aproximação me causa um leve arrepio na espinha.
— Quando você quiser, Chefe.
O ar sai de meus pulmões involuntariamente. Penso “agora!”, mas ainda é tão cedo, qualquer um pode acabar entrando em meu quarto e me flagrando nas mãos do Qunari. Vão me achar promiscuo se descobrirem? E como Touro será tratado daqui para frente, vão achar que ele se aproveitou de mim? Muitos sabem que ele é um espião, vão achar que se aproximar de mim foi a maneira que ele encontrou de obter informações. No entanto, eu mesmo descartei essa possibilidade, porque Touro nunca tentou me manipular. E se ele precisasse de informações, ele tentaria algo diretamente com algum dos agentes de Leliana, o que já seria um desafio e tanto. Tento dizer alguma coisa para mostrar que ainda estou ali, movo meus lábios que só abrem e fecham em meu rosto pálido. Touro repousa sua mão em meu braço e o aperta de modo que me faz ver e ouvir somente ele. A taberna fica muda e vazia ao nosso redor, estamos a sós em minha mente. Contenho-me a súbita vontade de beijá-lo. E ele mantém-se sério.
— Deixe que eu cuido dessas preocupações. Você está seguro comigo.
De súbito, a taberna volta estridente aos meus ouvidos, consigo respirar profundamente e perpassar meus olhos no lugar. Ninguém parece nos notar, pouco se importam com quem o Inquisidor está falando, e se está falando com Touro, pouco se importam sobre o que estamos falando. Sinto-me aliviado por tudo voltar ao normal. Volto a olhar para Touro que se ajeita na cadeira para ficar o mais confortável possível. Ele me olha de canto de olho e ergue a caneca.
— Pode apostar que será mais divertido.
— Andou bebendo sangue de dragão, adquiriu novas habilidades; você está lendo meus pensamentos? — indago como uma tentativa pífia de mudança de assunto. Touro sorri com a oportunidade de me revelar suas skills.
— Não. Leitura corporal. Sei que está preocupado com a sua integridade física e moral. Estranharia se não estivesse. Mas o ideal é não levar essas preocupações consigo nas sessões.
Ergo minhas sobrancelhas. Ele chama o que tivemos de “sessão” e pretende conceder-me o prazer de repeti-la. Ainda estou muito confuso em relação ao seu costume e imediatamente o convido para uma reunião particular, e todas as minhas preocupações anteriores são obliteradas de minha mente. Voltamos ao meu quarto e escuto com atenção todas as suas advertências. E para não exceder o meu limite, entramos em acordo sobre a palavra usada para quando eu não me sentir mais à vontade em continuar. Touro, em todo o momento, enfatiza o foco principal da sessão; me proporcionar o prazer e o relaxamento. Confesso que a conversa me deixa preocupado por ser uma sessão tão egoísta.
— Mas quando eu poderei te retribuir? — Fico sentado em minha cama enquanto observo Touro próximo da mesa de meu pequeno escritório. Soo de certo modo desapontado com a possibilidade de nunca acontecer e não o disfarço.
Touro cruza os braços acima do peito nu e depois as pernas à frente. Em pé, encostado na mesa, ele pensa no que dizer, pois demora a responder.
— Não pense que não está. Mas as coisas não funcionam como acontecem entre vocês, humanos. Nós, Qunaris, não fazemos sexo por amor ou retribuição, ou algo semelhante. Fazemos sexo pelo prazer do ato. Trata-se de poder, em certo ponto.
— Entendo... — Suspiro resignado. — Sente-se retribuído pelo fato de dominar o Inquisidor, uma figura de poder. — Sinto o amargor em minhas palavras. Não evito seu olhar sobre mim.
— Colocado dessa forma, parece que estou sendo leviano com você. Usando-te para massagear meu ego. Eu não preciso disso. — Sua movimentação faz-me pensar que deseja ir embora, me deixar pensando sobre nossa conversa. Levanto-me da cama, com relativa calma, e caminho alguns passos em sua direção. Touro me observa atentamente e continua dizendo em seu tom sereno. — Não estou aqui para rebaixá-lo diante de mim, eu estou tirando as rédeas de sua vida por um breve período, do qual você determina quando deve retomá-las. Porque vejo que você não quer estar sempre no controle. Você quer ser conduzido, desta vez.
E com essas palavras, pego-me entregue em seus braços, recebendo carícias em meu rosto antes de ser dominado com força. Ele mantém meus braços para trás, segurando com uma só mão os meus pulsos. Meus joelhos vacilam por um instante, embora Touro não me deixa cair. Sua mão livre, às vezes, aperta meu rosto quando não está removendo as peças de minha roupa ou brincando comigo. Ele me provoca a cada momento oportuno, mordiscando meu lóbulo e sussurrando em meu ouvido tudo o que ele pretende fazer comigo daqui em diante. Meu coração retumba dentro de minha cabeça, quase me deixa surdo. Não consigo controlar a respiração, e canso no mesmo instante em que tento fazê-lo. Touro percebe minha pífia tentativa de me conter e arqueia a sobrancelha como resposta; aquilo poderia servir de último aviso, deixando-me à beira da loucura como uma punição mais severa. Em que momento eu poderia reconsiderar o que estávamos prestes a fazer absurdo? E por que o seria? Não posso negar que precisava dele. Que preciso dele mesmo agora. Que minha vida está sendo baseada nas próximas sessões, ou como queira chamar. E que só Touro se propôs a me conduzir de volta a sanidade, embora, até hoje, acredito que o que já fizemos fora pura loucura. Touro entende que, em algum momento da minha vida, eu não desejo ser mais o Inquisidor.
Ele tira uma fita de couro de sua calça e a coloca sobre meu rosto, amarrando-a firme envolta de minha cabeça, tampando meus olhos, perguntando se o aperto está adequado, e ele o faz com a sua boca próxima ao meu pescoço, causando-me arrepios. Com ansiedade, assinalo positivamente, e noto que minha voz sempre desaparece nos momentos iniciais, mas ganha potência no decorrer da sessão. Meus pulsos são amarrados também, mas tenho a impressão que este é improviso. Cego e indefensável, sou guiado até a mesa de meu escritório. E sou posicionado como Touro estivera encostado ali, minutos atrás. Percebo sua presença diante de mim, ainda que eu não consiga ver absolutamente nada, e antes que eu pensasse em dizer alguma coisa, sinto seus lábios colarem junto aos meus. A língua é macia e exploratória, me invade sem me deixar brecha para respirar. Suas mãos, tão grandes e firmes, me arrancam gemidos guturais ao se dedicarem em provocar-me mais prazer. Mas arfo surpreso quando Touro se coloca entre minhas pernas, afastando-as e sinto a ausência de suas vestimentas. Com habilidade, ele segura nossas intimidades rígidas, coladas uma na outra e quase congelo com sua exuberância. Finalizo aquele longo beijo em protesto pela minha visão obstruída.
— Touro... Por favor... Eu quer... — Um novo beijo me cala.
Touro diz rente aos meus lábios trêmulos:
— Você o terá.
A DERRADEIRA
Há mais de duas semanas, Touro e eu temos nos encontrado com mais frequência. Para ser franco, nos vemos todos os dias e em horários alternativos – duvido que alguém além de Dorian já não saiba – e, às vezes, duas vezes no mesmo dia. Não sei o que isso pode significar para ele. E não sei se ele pensou no que poderia significar para mim. Porque sinto-me ligado a ele. De corpo e alma. Mas os Qunaris não sentem... isso, eu sei. Ele mesmo me alertou. Porém, eu sinto que algo está acontecendo e só não sei como Touro vai chamar. Eu perdi o papel que relatava minha primeira noite com Touro. Ainda desconfio que esteja com ele, mas fingirei ignorância.
Estávamos em Sepulturas Esmeraldas e conseguimos um bom lugar para acampar. Os outros tomaram a dianteira e seguiram em busca de lenha para uma fogueira e caças, pois precisávamos melhorar nossas provisões. O lugar em si era magnífico, a floresta densa era convidativa para uma fuga, uma exploração despretensiosa. E, por incrível que pareça, Touro teve a mesma ideia. Ele convidou-me para uma caminhada, afastamo-nos o bastante do acampamento, fomos para perto de um pequeno riacho e eu sugeri que o lugar era incrível demais para passar batido. Ele acatou. Então, nós transamos. Não foi uma sessão, não foi uma terapia qunari, foi uma transa. Intensa e prazerosa a ponto de mexer comigo até o presente momento. Foi uma transa com direito à exclamações fogosas em sua língua nativa. Disse “kadan” algumas vezes. Não foi casual por nenhuma das partes. E isso faz alguns dias. Depois disso, as sessões continuaram, embora acabamos sempre por dormir juntos...
Por que está fazendo isso comigo, Touro? O idiota aqui está perguntando num papel que você talvez vai ler. Mas ele gostaria muito de saber o que você pretende fazer... Céus, eu juro que tentei deixar para lá. Que tentei evitar de me acostumar com sua presença em minha cama, no meu quarto, comigo. Mas não consigo. Mal flerto com Dorian, ele mesmo percebeu isso, o que serviu para confirmar suas suspeitas sobre mim e você – e eu sei que continua flertando com as cozinheiras, Touro!
Hoje, entretanto, pretendo me avaliar. Talvez, avaliar a nós dois.
Largo a pena dentro do tinteiro, como tantas outras vezes que me dispôs a sentar-se à mesa e escrever sobre meus dias, afogando a ponta na tinta enegrecida, todas as vezes. Quero me avaliar, se irei suportar a ausência de Touro esta noite. Obviamente, não posso dizer o motivo a ele. Quero testá-lo também. Quero saber se, mesmo com a minha negativa, ele virá sorrateiramente até meu quarto e me pegará na cama, me dirá que não quer ficar longe de mim. Se isso acontecer, sei que não terei forças para mandá-lo embora. Talvez, eu vá procurá-lo no meio da noite, desesperado pelo seu corpo e afeto – o que acho bem mais provável. Ainda assim, não sei mesmo afirmar nada disso. Por isso, quero fazer essa avaliação. Depois de concluída, terei uma conversa séria com ele. Também quero ensinar-lhe um pouco do meu costume sobre esse nosso não verbalizado relacionamento.
No mesmo dia, viajamos para Planícies Exaltadas, o lugar está completamente destruído pela guerra civil. Ajudamos alguns cavaleiros a retomarem os postos avançados e nos reagrupamos no acampamento. Conhecemos um clã dalishiano e chegamos a recrutar um jovem elfo para Inquisição. Talvez, proporcionaremos mais experiências a ele estando conosco do que permanecendo em seu clã nômade. Assim espero. Ainda não vejo uma utilização para ele, muitos elfos ainda se recusam a compartilhar de seus conhecimentos, principalmente aos humanos, dado o histórico de guerras e conflitos entre as raças. Mas ele parece se comprometer com a nossa causa. Cullen pode recrutá-lo.
Estou cansado, mas me recuso a entrar na barraca antes de me alimentar de verdade. Os outros me acompanham na fogueira e iniciamos uma conversa despretensiosa e trivial sob a luz prateada da lua. Dorian e Cassandra falam sobre um primo da investigadora, que parece ser um cara enorme de gordo e conhecido por ter “mão boba”. Estou comendo guisado com pão seco e Touro junta-se aos outros na conversa. Observo os três e sinto-me feliz por estarmos juntos, é um grupo muito bem entrosado. Em expedições onde dificilmente haverá chances dos ladinos serem aproveitados, transformo-nos em um grupo de ataque bruto com três guerreiros e um mago para nos suportar, literalmente. O lugar tem muitas serpes enormes e lobos; ataques rápidos, mas brutais, são mais precisos do que os ataques sorrateiros da minha equipe “mãos leves”. Esses animais são muito perceptivos, é muito difícil atacá-los de surpresa. E para falar a verdade, não aguento as estranhezas de Sera com Solas, ou de ouvir os apelidos que o anão dá ao Dorian. E muito menos das frases sem o menor sentido de Cole, que, às vezes, gera desconforto no grupo inteiro.
Acho que me disperso um pouco da conversa e quando volto a mim, ouço somente Dorian e Touro trocando flertes. Cassandra nem está mais presente em frente à fogueira e me pergunto quanto tempo eu fiquei desligado. Touro está malicioso com o nosso mago, embora Dorian não corresponde diretamente as investidas descaradas do qunari. Mas ambos estão muito à vontade. Dorian é atraente, imagino que deva ser difícil até para Touro resistir em dominar um tevinteriano. Como resistir a essa possibilidade? Eles formam um casal interessante, até. Embora muito contraditório. E me vejo totalmente excluído não só da conversa como que do campo de visão deles. Eu não existo para eles. Meus pensamentos me precipitam, me calam, e sou dominado por uma sensação odiosa em meu estômago. Não quero interrompê-los, movo-me o mínimo possível para não atrair suas atenções. Meu peito está doendo de uma tal maneira que não sei explicar. É agonizante o esforço que tenho de fazer para não explodir em questionamentos para cima de Touro. O que diabos ele está fazendo? Por que está dizendo a Dorian que o conquistaria da mesma maneira que ele me conquistou? Dorian me devota um olhar estranho, quase confuso, como quem pergunta “mas vocês não estão juntos?”. Céus, ele fala sobre uma espécie de amuleto que os qunaris se presenteiam quando o relacionamento é mais aprofundado, pois não existe demonstrações de amor similares aos dos humanos, como dizer “eu te amo”. Mas o amuleto é o significado da importância que um tem para o outro. Ele diz isso para Dorian. Estou tão desnorteado que não consigo mais decifrar meus sentimentos no momento. Levanto-me pouco me importando com a minha abrupta interrupção, ao jogar com certa violência meu prato de guisado na fogueira, quase a apagando. E saio de perto deles pisando firme em direção aos cavalos. Não vejo Cassandra quando ela passa por mim, ignorando completamente sua presença. Chego em um dos cavalos e o monto para cavalgar. Não digo nada a ninguém e pouco ouço as indagações da investigadora. Galopo sem rumo, carregando minha angustia em meu peito por todo o caminho. Sigo pela margem do rio até onde é possível ir e vejo-me basicamente na outra ponta da região. Desço do cavalo, pesadamente. Quase me ajoelho ao lado da montaria, mas consigo me dignar a manter-se em pé e caminhar a uma grande pedra para me sentar. A luz do luar tremula sobre as águas do rio silencioso. O cavalo bufa recuperando o fôlego da disparada e se aventura a beber mais água da margem. Observo o animal até sentir meus olhos encherem de lágrimas. E explodo em raiva. Penso que a reação do cavalo é pela minha abrupta movimentação, mas não percebo a chegada de uma matilha inteira atrás de mim. Lobos cinzentos, dos grandes e de olhos brilhantes sedentos de fome, sangue e morte. Não aguentam mais comer cadáveres dispostos pela guerra, querem carne quente e fresca. A do cavalo ou a minha, o que conseguirem primeiro. Esfrego meus olhos com as costas das mãos ao ouvir um rosnar quase imperceptível, misturado com a corrente serena do rio. Os lobos começam se dividir, a cercar a mim e ao cavalo pelos flancos. Nossa única saída seria o rio, se quiséssemos. Levo a minha mão à bainha e sinto o vão. Olho para minha cintura e não acredito que havia deixado minha espada no acampamento. Bato na traseira do cavalo a tempo dele correr de volta para lá, como forma de avisar aos outros e da própria montaria escapar da morte certa. Um lobo tenta segui-lo, mas minha agitação e berros chamam de volta a sua atenção para mim. O cerco dos lobos aos poucos vai se fechando ao me redor. Penso em trazê-los para mais perto, pois tenho uma arma muito poderosa em minha mão. Sinto minha marca formigar só de pensar em usá-la. Mas nossa atenção é desviada. Um cavalo a galope se aproxima com rapidez, os lobos se dispersam, desmanchando o cerco, quando Touro de Ferro os espanta com uma tocha. Ele desce de seu cavalo com muita agilidade e graça, jogando-me a tocha para que eu tenha algo com o que me defender.
— O que pensa que está fazendo, saindo desarmado do acampamento? — ele rosna, parece furioso como nunca o vi antes. Furioso comigo. Ele avança para os lobos que voltam a nos enfrentar, prontos para o ataque.
Limito-me a erguer minha mão esquerda, bem acima de minha cabeça, e uma explosão de luz verde surge acima dos lobos. Uma pequena brecha é aberta do Imaterial, que suga os animais quase que instantaneamente. Touro, com o seu machado em mãos, fica paralisado até aquela claridade cessar e o barulho ensurdecedor sumir, engolidos por aquela fissura. Quando o silêncio se faz presente, Touro volta a guardar seu machado nas costas e se aproxima de mim.
— Às vezes, esqueço que você tem essa marca e pode acabar com a brincadeira num piscar de olhos, kadan. — Não parece mais furioso.
— Parece que você esquece muita coisa sobre mim. — Eu devolvo a tocha e retiro-me de perto dele, tiro a poeira de minha calça e tomo o caminho até o seu cavalo.
— Er... Certo, sobre o que eu disse ao Dorian, é verdade... — Ele segura meu braço, impedindo-me de subir na sela.
O terror e ódio mesclam-se sobre meu rosto diante daquela afirmação, e não consigo encontrar minha língua dentro da boca. Empurro Touro com muita força para trás, conseguindo voltar minha direção ao cavalo que serviu-lhe de montaria e subir na sela para galopar de volta ao acampamento, deixando-o para trás sob seus próprios protestos. A raiva é tanta que me cega, me ensurdece e me deixa de certa forma imprudente. Touro não havia voltado ao acampamento aquela noite. Cassandra, voltando da expedição, me questiona cheia de preocupação e censura diante do meu comportamento hostil, e deixo claro para a investigadora e ao mago para deixarem-me em paz, que nada do que está acontecendo é importante ou diz-lhes respeito. Então, o silêncio se faz presente durante a viagem de volta. Enquanto isso, eu remoo minha dor ao lembrar-me das palavras de Touro para com Dorian, na fogueira, e dele mesmo me afirmar que são verdadeiras. Ele quer conquistar Dorian, portanto, devo deixar o caminho livre para eles.
Na Fortaleza do Céu, descubro que Touro havia sido requisitado por Leliana, um batedor e agente da Rouxinol que o encontrou nas Planícies, orientou-o a voltar para fortaleza o quanto antes. E que havia um corvo para mim no acampamento e que Cassandra tentou me dizer sobre a ausência de Touro. Porém, não dei-lhe ouvidos. Fico aliviado por saber que Touro já estava de volta, mas não estendo esse alívio a ponto de querer vê-lo na taberna. Subo aos meus aposentos. Uma terrível dor de cabeça me assola. Penso em me deitar, esquecer de minhas dores físicas e sentimentais, mesmo sendo quase impossível de desviar-me da dor que parece sangrar meu coração.
Estou sentado na cama, segurando as têmporas. Touro é sorrateiro desta vez, subindo as escadas com cautela, mas outra pessoa parece surgir da varanda. Sua sombra me cobre no instante em que Touro encontra-se no andar com um machado nas mãos. Viro-me antes do ataque do invasor, que entra no quarto, e do contra-ataque surpresa de Touro. O invasor, no entanto, parece muito habilidoso e consegue desviar do ataque do machado do qunari, como se o esperasse. Demoro para perceber que é um outro qunari, o invasor. Embora seus chifres estejam tão rentes ao couro cabeludo, seu porte físico é inconfundível.
— Malditos Tal-Vashoth! Malditos Desertores! — Touro esbraveja enquanto desfere golpes com o machado contra seu adversário.
— Morte aos Ben-Hassrath! — O invasor consegue uma oportunidade de feri-lo com sua adaga, fincando-a no peito desnudo do maior. Touro grita de raiva misturada com dor e ataca com uma cabeçada no indivíduo que cambaleia. O meu qunari não perde tempo, avança contra o invasor e o arremessa para fora da varanda, que não consigo impedi-lo de fazê-lo, e observa seu algoz cair em queda livre até estatelar-se nas pedras cobertas de neve.
Aproximo-me de Touro, apoiando minha mão em seu ombro e meu corpo enregela ao ver a adaga completamente fincada em seu peito, próximo da dobra do braço esquerdo. Touro me olha, sem dizer uma palavra sequer, e sorri. Caminha alguns passos para dentro do quarto, comigo o acompanhando, mas desaba sem qualquer aviso. Seu joelho falha, o girando para cair de costas no chão. Minha força não é suficiente para segurá-lo e acabo no chão, ao seu lado. Touro tem certa dificuldade de levar a mão direita ao cabo da adaga e eu me coloco próximo para tentar ajudá-lo de alguma forma.
— Não deve tirá-la, vai causar ainda mais sangramento — digo antes de notar uma espécie de óleo junto ao sangue do qunari, às bordas da ferida, escorrer por sua pele acinzentada.
— Veneno... — ele sussurra, voltando a pegar o cabo da adaga para removê-la. Eu auxilio com a força extra que ele precisa e o som de sua carne sendo mais uma vez cortada, é agonizante.
— Pelo Criador, você precisa de um curandeiro! Vou chamar ajuda...
— Está tudo bem, kadan... — interrompe-me segurando minha mão que segura a adaga. Sua voz está fraca, como eu nunca a ouvi antes. — Vai passar... E eu quis dizer... sobre o amuleto... o que eu disse a Dorian...
— Por favor, Touro, não é hora para isso! — Não entendo por que ele precisa tocar nesse assunto logo agora, quando estou a ponto de ficar desesperado com a possibilidade de perdê-lo para morte!
— O que eu disse a Dorian... sobre o amuleto é verdade. E... quero dá-lo a você, kadan...
Aquilo me pega de surpresa que mal ouço os passos apressados de Leliana e Cullen para dentro do meu quarto, acompanhados por alguns soldados da Inquisição. Leliana se aproxima somente alguns passos, avaliando o estado de Touro e seguindo para a varanda e olhar o corpo do invasor ainda imóvel nas pedras. Cullen designa um soldado a chamar um curandeiro, este sai correndo para cumprir com a ordem. Leliana toma a palavra.
— Eles são ousados e muito perigosos. Souberam de nossa aliança com os Ben-Hassrath e quiseram se vingar, atacando a Inquisição por dentro. Meus agentes descobriram a intenção dos rebeldes, mas precisávamos saber seus planos e seus executores. Cullen foi atacado em sua própria sala, em plena luz do dia, Cole ajudou a neutralizar a ameaça para interrogatório. Josephine está traumatizada, teria sido ela a morrer envenenada se a serva que trazia sua comida não tivesse experimentado antes. Blackwall não teve a mesma sorte quando o envenenador escapou pela cozinha. Agora, eles quiseram atacar o próprio Inquisidor.
Nessa altura, o curandeiro chega e se aproxima, ajoelhando-se do outro lado de Touro e deposita rapidamente folhas amassadas em seu corte. Touro está suando frio e não consegue manter o olho aberto. Repouso minha mão em sua testa e com a outra, em segredo, seguro sua mão ao lado de seu corpo. Aperto em busca de alguma reação do qunari.
— Eles são resistentes a maioria dos venenos, Inquisidor — diz o curandeiro numa clara tentativa de me tranquilizar. Mas não consigo levar para o lado positivo. Pois corro o risco de perder o cara que eu amo.
— Então, vamos torcer para que o rebelde que o acertou, não tenha usado um que ele não seja resistente. — A morbidez de minha voz deixa o curandeiro desconsertado. Ele volta sua atenção ao ferimento, enquanto torno acariciar a mão inerte do sujeito que, agora, eu sei que daria sua vida pela minha. Não teria outra demonstração de afeto que pudesse comparar com a sua devoção para comigo. E, no fundo, torço para que tal demonstração não seja pelo fato de eu ser o Inquisidor, ou seja, que ela não seja uma obrigação.
Touro é posto em minha cama, com a minha ajuda e a dos soldados. Outros são designados a vigiar a torre por completa e Leliana e Cullen me deixam sozinho com o qunari adormecido. Touro está delirante, sussurra a palavra “kadan” algumas vezes, enquanto geme de dor e febre. Ofereço em silêncio mais um gole de leite-de-papoula para que ele possa descansar decentemente. Inclino o copo com o leite e deposito em sua boca murmurante. Com o tempo o sussurro cessa. E ele parece finalmente dormir. Vejo o aspecto da ferida sob as folhas e o unguento usado pelo curandeiro e cubro-a novamente. Não posso fazer muita coisa no momento, a não ser esperar. A conclusão que chego é que, de fato, não suportaria vê-lo com outra pessoa, mas pior seria vê-lo morrer por minha causa. Olho para meus companheiros, todos os dias, e tenho certeza de que eles viverão comigo, para sempre. Hoje, ao ver aquela adaga fincada em seu peito e presenciar seu estado debilitado, a realidade é outra; a consciência me alerta que ainda todos podem morrer. A dor que sinto é insuportável. Não quero perdê-lo para uma entidade! Minhas motivações tornaram-se outras quando me encontrei nos braços de Touro, sei que será quase impossível encontrar as antigas, estas praticamente soterradas no fundo do mar do esquecimento, para que eu possa seguir em frente sem ele. Não consigo ver meu futuro... Deito-me no pequeno sofá ao lado para vigiá-lo. No meio da noite, um soldado me desperta para avisar-me que fará a vigia àquela hora e me questiona se preciso de algo. Anuo sobre a vigília e tiro de suas costas a responsabilidade de checar-me do que preciso nas próximas vigílias, agradecendo-o pela preocupação. Volto a olhar para Touro, quando o soldado se retira. Aproximo-me da cama e sento-me ao seu lado.
— Não morra, Touro... — digo como uma prece após beijar seu tapa-olho. — Droga, você me chamou disso... E não faço ideia do que seja.
— Meu coração. — Ele respira pesadamente, despertando com um olhar mais saudável, embora sua voz ainda esteja embargada e aparentemente muito fraca.
Sobressalto-me ao vê-lo acordado.
— Espera, Touro! Seu coração, chamarei o curandeiro! Por favor, não... — A princípio, penso que se trata de uma reclamação, mas Touro sorri e afaga meu rosto com sua mão áspera.
— Não. Kadan quer dizer “meu coração”. É como chamo você, kadan.
Engulo em seco ao perceber que ele vem me chamando assim há semanas, desde Sepulturas Esmeraldas. Algo estava acontecendo, de verdade. E hoje eu sei que me tornei seu coração. Beijo sua boca, suas mãos me apertam em resposta, tendo o beijo correspondido com desejo. Por um momento, esqueço que Touro está enfermo, somente quando ele sibila de dor que me afasto, um tanto constrangido, ainda que retomo a postura firme com ligeireza.
— Ótimo... precisou um mercenário quase te matar para você se declarar para mim. Maldito seja você, Touro. Ainda estou furioso com você. Dizendo aquelas coisas para Dorian, na minha frente... Você é um desgraçado!
— Um desgraçado que foi infeliz em te provocar, peço desculpas por isso, kadan. Dorian é mago tevinteriano, nem por brincadeira me aventuraria numa dessa. — Ele ri ao receber um soco no braço bom ao persistir no assunto que ainda me é incômodo. — Você faz mais o meu tipo, kadan. É tão branquinho que todas as marcas que faço em você ficam adoravelmente por semanas. Gosto de ver o estrago que deixo em você, ficando todo vermelho nas partes mais judiadas.
Não quer ver anúncios?
Com uma contribuição de R$29,90 você deixa de ver anúncios no +Fiction durante 1 ano, além de outros benefícios.
Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!— Touro, cala essa boca! — Aperto seu corte o suficiente para fazê-lo parar. Ele parece me xingar mentalmente quando rosna de dor e fuzila-me com o olhar. Coloca a própria mão no ombro, protegendo a ferida de unguento contra um possível e novo ataque meu. Eu me afasto e removo algumas peças de minha roupa enquanto falo. — Agora, sou eu a ensinar-lhe algumas coisas que nós, humanos, detestamos quando acontece. Principalmente, quando estamos completamente envolvidos com alguém.
O olho do qunari me acompanha em cada movimento, querendo engolir-me por inteiro. Hoje, no entanto, é hora de trocar os papeis.
NÃO EXISTE FIM
Volto da sala de Ser Morris bastante satisfeito. No caminho, uma agente de Leliana me entrega uma carta da própria espiã-mestre que diz do sucesso da operação que Touro organizou contra os Tal-Vashoth assassinos. E que, por enquanto, não precisamos nos preocupar com novos ataques ou ameaças. Agradeço com um sorriso a agente que, tão logo, desaparece da minha frente num piscar de olhos. Guardo o papel em um dos bolsos internos do traje e volto a cumprimentar as pessoas que passeiam pelo pátio da fortaleza.
Caminho até a escada, dirigindo-me ao portão principal da fortaleza. Vejo Touro passando por ele, acompanhado de alguns soldados; ele voltava de sua missão especial. Vou de encontro a ele, sempre cumprimentando os homens que lutaram ao seu lado e que passam por mim, até me tornar um obstáculo para o qunari, fazendo-o parar. Olho para seu rosto, vejo grande satisfação em seu serviço e alegria por me ver ali. Eu interrompo qualquer tentativa sua de cumprimento formal para com Inquisidor, pois estou disposto a demonstrar a ele e a todos os presentes, meu amor por aquele qunari.
— Não importa para onde nossas vidas vão nos levar... — Tiro de meu traje uma pequena peça amadeirada que protegia desde então o dente de dragão dividido em dois. Ofereço-lhe uma boa visão da peça em minhas mãos antes de abri-la. — Mas com isso, eu estarei sempre contigo. E você sempre estará comigo.
A expressão do qunari me arranca sorrisos largos de meu rosto. Ele está completamente em choque, surpreendido e indeciso sobre o que fazer. Ele respira pesadamente, cansado pela viagem, pela luta, mas é visível seu esforço para se conter em me agarrar.
— Kadan... — É o que ele diz com lasciva, antes de finalmente avançar contra mim e beijar-me com voracidade. Enlaçando-me pela cintura enquanto eu o seguro pelo rosto, me entregando completamente ao beijo bruto e sedento de Touro.
— Eu amo você — consigo dizer rente aos seus lábios quando o beijo é finalizado. As testemunhas daquela demonstração de afeto começam a bater palmas ou assobiar, sendo que outras, em sua maioria nobres, estão chocadas demais com o que veem. Ele me diz uma frase sussurrada em qunari, antes de eu pegá-lo pela mão e o levar comigo aos meus aposentos.
Faço-o descansar, primeiro. Então, passamos horas e mais horas dentro do meu quarto. Nunca pensei que eu possuísse tanto desejo por aquele qunari e vê-lo demonstrar a mesma necessidade, é contagiante. Touro encontra-se atravessado na cama, deixando pendente sua cabeça com os largos chifres e eu encosto-me em seu braço. Aliso com a ponta dos dedos a cicatriz deixada pela adaga envenenada. Ainda recente, mas que, aos poucos, ganha uma tonalidade acinzentada como as outras que Touro possuí. Ambos usam o dente repartido como pingentes. Vejo Touro segurar o seu com carinho. Eu estou mais que orgulhoso de mim e mais do que feliz por estar completamente ao lado dele. Levanto-me da cama e sigo o caminho até a minha mesa. Touro se remexe no leito para me acompanhar com os olhos.
— Quero ler o que for escrever, kadan... — diz aos suspiros ao me ver afastar-se de si.
— Você vai. E eu sei que você lê meus escritos, mesmo antes de estarmos tão próximos. Não dê um de desentendido. — Eu pego a pena de ponta enegrecida e a deposito num papel branco a parte, circulando-a nas formas de cada letra das minhas palavras.
— Gostei do que escreveu naquele que guardou em sua roupa.
— Eu sabia! — exclamo com certo alívio, pois cheguei a cogitar que Sera pudesse tê-lo pego. Mas este alivio desaparece quando, ao remexer nos papeis à mesa, vejo um com uma frase escrita numa caligrafia desajeitada e, ao lado, um desenho grotesco da elfa desmiolada com enormes corações no lugar dos olhos.
Arauto Brilhoso, vou devolver seu diário se falar com o Touro para me apresentar uma amiga qunari.
Pego aquele pedaço de papel, perplexo, e perpasso meus olhos por cima da mesa à procura do meu diário, até se dar conta que o tomo não está lá. Fico congelado só de pensar em como encontrarei Sera na próxima vez. Touro percebe meu silêncio e relato tudo com terrível espanto em meu rosto. Touro começa a rir desesperadamente.
— Não entendi a graça... — Devolvo a pena ao tinteiro e volto a atenção ao Touro, esperando por uma explicação.
— Já resolvi esse problema. Acho que ela não teve tempo de tirar o aviso daí — ele diz com olhos fechados, ajeitando-se na cama como quem pretende voltar a dormir.
— Como assim “resolveu”? Onde está meu diário?
— Isso... — Ele se levanta subitamente e se aproxima da mesa com calma extraordinária. É tardio quando percebo sua malicia e leviandade expressas em sua face. Culpo-o pela distração exuberante exibida. Touro apoia-se na mesa e segura meu rosto com firmeza ao me levar para perto de si. — Só quando você implorar...
Fale com o autor