Kadamon, A Travessia
10 Canto 10
O Kyrion tocou por diversas vezes. Mostrou aos habitantes de Kadamon mundos inteiros que lhes eram desconhecidos. A outros, mostrou-lhes mundos das quais sentiam saudades imensas. Era uma surpresa até mesmo para ele qual mundo surgiria a seguir, pois se apresentavam por vontade própria, segundo seu próprio capricho. Logo ficou claro que essa era uma habilidade rara do mendeva que lhes prestava visitas, e não foram poucas as especulações que dali surgiram. Mas respostas francas e educação foram aos poucos dizimando boatos, e dali ficaram somente a expectativa e ansiedade para uma apresentação seguinte.
E grande foi essa expectativa, como grande tornou-se o público. Este se limitava somente pelo alcance do som de seu instrumento. Foi uma mudança muito rica e feliz para aquele povo, já acostumado à estética e à arte, mas que estava sempre mais que disposto a descobrir uma nova experiência, uma nova vivência do belo.
Isso proporcionou ao Kyrion certo alento, pois podia pela primeira vez retribuir um pouco das grandes ofertas que recebera de seus anfitriões. Dava-lhe também uma razão, um propósito, o que lhe acalmava. As preocupações com seu elemento e suas perspectivas de futuro foram postas de lado por algum tempo. Por um tempo feliz.
***
Ladeira, casarios, chão de pedras, grande templo. Solidão. Todos familiares. O mesmo sonho, depois de um longo tempo.
Kyrion encaminhou-se sem pressa para o templo no final da ladeira. Tinha ainda alguma esperança, talvez agora que já criara para si um propósito na torre que o abrigara e acolhera. Lá chegando, estendeu a mão que trazia toda sua súplica e fé, para a porta secundária à direita das grandes portas principais. Mas estava fechada.
Dirigiu-se para a outra à esquerda, a apreensão apertando-lhe o estômago, enquanto o desânimo formava um peso incômodo em suas costas. Peso este dobrado, quando imóvel a porta continuou.
Kyrion suspirou e olhou ao redor. Aquele templo de fato se negava a revelar-lhe os segredos. Sentia que deveria entrar ali, mas algo não lhe permitia, algo o julgava incapaz ou indigno de fazê-lo. Temia que o sonho acabasse antes que pudesse ter qualquer coisa revelada, uma vez mais.
Uma ideia lhe perpassou a mente, como uma brisa areja o quarto trancado. Desceu do templo, e encaminhou-se para uma das construções brancas ao redor. Era simples, parecia uma casa singela, sem jardim. Em sua entrada, uma porta lisa de madeira clara e uma janela fechada. Bateu à porta, por precaução. Repetiu o gesto mais duas vezes. Por fim, tocou a maçaneta e girou-a.
Entrou na casa singela.
***
Nokto se aproximou suavemente, e sentou-se do outro lado da pequena mesa em que Kyrion estava lendo, no salão maior da biblioteca.
“Perdão por interromper sua leitura. Não é algo que eu faça muito, acredite. Poucos valorizam isso como sagrado na mesma proporção que eu.” Disse ele, em voz baixa.
“Não se preocupe, é só por distração.” Respondeu o mendeva, fechando a capa, e olhando o amigo.
“Eu sei. Li ‘Nosso Jardim de Esperanças’ duas vezes. É uma boa escolha, por sinal. Há nele algum motivo especial?”
“Eu quis um livro que me trouxesse boa inspiração para compor, mas percebi que não escolho aquilo que se manifestará como música. Devo deixar vir naturalmente, a canção escolhe a si mesma. No entanto, apreciei a leitura, e não consegui deixar o livro de lado.”
“Compreendo. Aliás, foi por isso que cometi a descortesia de interrompê-lo. Você tem feito um trabalho formidável com a música, e gostaria de parabenizá-lo formalmente. Tive o prazer de assisti-lo várias vezes, mas nunca expressei diretamente meu encantamento.”
Kyrion ficou constrangido com as palavras do amigo, embora parecessem sinceras. Nokto tinha um rosto difícil de ler, trazendo sempre as feições relaxadas e expressões atenuadas. Ainda assim, parecia haver nele sinceridade. E algo mais. Mais complexo que encantamento, sem sombra de dúvida.
“Obrigado pela gentileza das palavras, mas não sou digno de recebê-las. Como disse, as canções se compõem por vontade própria, de forma que eu só as repito quando estão dispostas a aparecer outra vez e fazer do ‘bis’ seu próprio capricho. Eu sou no máximo mediano quando uso seu instrumento. As imagens causam maior encantamento do que a canção em si.”
Nokto ficou em silêncio por alguns instantes, pesando as palavras. “Eu o congratulei por sua capacidade de encantar, e esta você possui, seja pela canção ou pelas imagens prodigiosas que conjura. De qualquer forma, no mínimo, você se faz um excelente veículo para essa arte, o que já é por si só um mérito.”
“Obrigado, realmente é muita gentileza.” Kyrion virou as orelhas para trás, sinal de seu desconforto. “Gostaria de um dia ouvi-lo tocar. Acho que seu instrumento também gostaria de se reencontrar com seu dono original.”
O olhar do bibliotecário brilhou com uma nova intensidade à percepção de Kyrion, como se estivesse toldado por nuvens que se esgarçaram pela força do sol, reluzindo naquele rosto impassível. “Estou lisonjeado pelo pedido. Não posso negar que há em mim algo como uma saudade da música. Entenda bem, não me arrependo que esteja ele em sua posse. Sentia essa saudade mesmo quando ele estava ao alcance de minha mão, próximo à minha mesa.” Nokto cruzou os dedos sobre a superfície plana, olhando para baixo “Algo me faltava, e não consegui mais tocar. Mas acho que vê-lo deslindando uma nova arte me serviria de incentivo. Além da posição curiosa em que toca.”
Kyrion sorriu tanto pela aceitação do amigo em tocar alguma coisa, quanto pelo comentário. Mesmo com o braço totalmente curado, Kyrion continuou tocando com o instrumento atravessado no colo, dedilhando de forma totalmente diversa, e mesmo batendo de leve na caixa de ressonância com os dedos.
“Posso buscar o instrumento se desejar. Basta dizer onde gostaria de tocar.” propôs o cinzento.
Nokto levou ainda uns segundos para responder. “Bom, acho que esse momento é tão bom quanto qualquer outro para um reencontro. Não deveria protelá-lo mais.” Ergueu-se da mesa “Sabe do senhor idoso que pinta quadros, com um atelier próximo à praça com um pequeno chafariz?”
“Perfeitamente. Tenho um quadro dele em meu quarto.” Kyrion lembrava-se do senhor que fizera questão de presenteá-lo com um quadro de uma pequena e poética ponte de madeira, cruzando um riacho entre dois jardins, uma beleza bucólica. Era um senhor vivaz na pintura como era na vida, mesmo que seus passos fossem curtos e seus braços pouco fortes. Tinha uma tez corada que Kyrion poucas vezes vira em algum habitante de Kadamon.
“Pois então me encontre no andar de cima do atelier, onde há uma sala vazia. Vou orientar o rapaz que está me ajudando sobre o que deve fazer quando estiver sozinho. Está aqui há pouco tempo.” Nokto apontou um rapaz que Kyrion vira nas últimas vezes que fora à biblioteca, que parecia colocar em ordem os volumes de uma enciclopédia. Tinha cabelos crespos avermelhados, estatura mediana, brilhantes olhos verdes. Kyrion sabia o nome de seu povo: humano. “Aprende muito rápido e tem boa vontade, mas ainda é inexperiente.”
“Tenho certeza que se acostumará no trabalho. Você merece uma ajuda.”
“Tem razão. A princípio temi que ele se tornasse trabalho extra, e não repouso. Sou muito criterioso para manter um colega aqui dentro. Mas ele tem correspondido às minhas expectativas.” Nokto deu um de seus meio-sorrisos, provando a Kyrion que o rapaz realmente cativara aquele seu amigo tão sério. Só podia imaginar o rigor a que o rapaz devia estar submetido todos os dias.
“Então está certo. Vou ao atelier tão logo busque o instrumento. Até mais!” Kyrion despediu-se de Nokto com um gesto e precipitou-se para seu quarto. Estava ansioso para ver seu amigo tocando, como um amante apaixonado, seu instrumento novamente.
***
O chafariz tinha um som agradável no centro da praça. Kyrion várias vezes se perguntou como aquele chafariz (assim como vários outros, as canaletas, os jardins) se mantinha sempre tão limpo e funcionando. Poucas vezes flagrara um ou outro funcionário limpando o chão, os bancos ou a pedra de algum daqueles pontos públicos, normalmente cedo pela manhã. Embora educados, esses funcionários falaram muito pouco, e ele nunca mais os viu em outro lugar. Aliás, nunca vira o mesmo funcionário duas vezes.
Esses pensamentos – como em toda mente desejosa ou ansiosa com algum espetáculo – foram rapidamente substituídos quando a entrada aberta do atelier do pintor se fez visível por trás de um grupo passando. Para lá o mendeva se dirigiu a passos largos, com o instrumento atravessado nas costas e sua alça no ombro.
“Boa tarde, senhor Arborie. Sinto muito incomodá-lo.”
O senhor saiu detrás de uma grande tela. Tinha ambas as mãos cobertas de tinta e empunhando pincéis: um largo manchado de azul, e um mínimo, com a ponta tingida de amarelo. Kyrion imaginou que tipo de coordenação aquele idoso teria para pintar ao mesmo tempo coisas diferentes. ”Não há incômodo nenhum, jovem Kyrion. Seja bem- vindo ao meu recanto das artes! Ora vejam, teremos nova arte aqui outra vez! Este lugar precisava de música!” Sua voz era terrivelmente rouca, talvez por inalar odores fortes dos produtos que usava por tantos anos. Mas era tão amigável que isto logo se tornava secundário.
“Eu não vim para tocar, senhor Arborie...” começou a desculpar-se o mendeva, mas foi interrompido.
“Sei disso, meu caro. O jovem Nokto subiu há poucos minutos, e meu coração se alegrou ao vê-lo depois de tanto tempo! Os deuses sabem como senti falta dele e de sua música!” o senhor parecia realmente esfuziante “Não menosprezo em absoluto suas obras, senhor artista! Mas meus melhores quadros foram feitos embalados por aquelas jovens mãos, posso lhe dizer sem dúvidas. Só de vê-lo de novo senti vontade de pegar esta tela, parada há semanas porque não sabia o que fazer dela! Se ouvir o jovem Nokto outra vez, sei que ela será magnífica.”
Kyrion sorriu largamente, incentivado em suas esperanças pelas palavras de seu interlocutor. “Formidável, senhor Arborie. Quero ver sua tela quando estiver pronta!”
“Claro que a verá, jovem Kyrion! A propósito, quando descerem, lhe entregarei algo especial.” Disse o senhor, sorrindo por sua vez mostrando todos os dentes ainda fortes, enquanto sua pele marcada fazia covas ainda mais fundas.
“Não há necessidade, posso lhe garantir...” o jovem apressou-se em dizer.
“Oras, toca há muito pouco tempo para compreender todos os caprichos de um artista, meu caro jovem! Sei bem do que há necessidade, e entregarei o que desejo. Mas vamos, não vou atrasá-lo mais, suba! Nokto o espera lá em cima.”
Assim instigado pelo velho, Kyrion agradeceu uma vez mais antes de subir as escadas no fundo do atelier, subindo em curva para o silencioso segundo andar.
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