KOURIN

9 Talvez um tanto... Sentimental


Notas iniciais
Boa tarde! Como vão? Estou mantendo a promessa de um capítulo por semana! Yahooo! (Não faz mais que sua obrigação, autora..!) Lembrando que no meu perfil há links para a imagem dos personagens da fic (é preciso copiar e colar para que alguns funcionem). E também tenho um pequeno aviso nas notas finais. Isso é tudo! Espero que gostem!

– Mas eu só tenho que comer alguma coisa!

– Não quero saber, pirralha. Eu disse que esperaria cinco minutos.

A cena estava ridícula. Haruka parada embaixo do portal que separava a cozinha da sala, com as chaves do carro na mão e eu agarrada ao seu casaco impedindo que ela saísse de casa.

– Eu não vou me meter... — declarou Nanami enquanto fatiava legumes. — Hoje tenho faculdade e volto tarde para casa, portanto não quero encontrá-la fora da cama, Kourin-chan. Se dormir cedo, acordará cedo e essa situação não vai acontecer de novo.

Ignorei sua "ordem". Quem ela pensa que é? Minha mãe?

– Haruka, por favor! Eu vou comendo no carro, só espere mais um pouco...

– Há! Quem disse que você pode comer no carro? — ela me empurrou até o sofá e eu acabei desequilibrando e caindo sobre ele. — Amanhã tente ficar pronta dentro do tempo. Eu já estou atrasada, adeus.

– Não! — gritei, mas já era tarde demais. A porta de entrada já havia sido ultrapassada.

– Devia ter levantado quando te acordei. — seus olhos ainda estavam fixos nas cenouras.

– Não acredito que ela realmente me deixou aqui!

– Eu posso te levar até o ponto de ônibus. Não é longe e ele te deixará a um quarteirão de Yatobi.

Assenti cabisbaixa e preparei uma torrada. Pelo menos eu poderia comer com calma...

X

A parada realmente não ficava nem a um minuto de distância de casa. Mesmo assim eu não queria usar o transporte público pois o considero um antro de velhotes tarados... mas o que eu poderia fazer agora?

– Boa aula, Kourin. Tenho que voltar agora. — ela virou de costas, mas parou por um segundo — A propósito, você está uma gracinha de maria-chiquinha!

– Obrigada... — respondi sem graça.

Pouco tempo depois eu já estava subindo no automóvel que estava levemente cheio. Bufei em desaprovação.

– Não acredito... — ouvi uma voz masculina conhecida vindo de algum espaço do ônibus. Parecia perto. — Kourin-chan!

Dessa vez identifiquei a direção e olhei para trás. De pé, assim como eu, estava ninguém mais, ninguém menos que Hakeshi Asuma.

– Isso só pode ser um mau presságio.

– Do que você está falando? — ele riu — Animada para mais um dia?

– Não. Animado para mais aulas cabuladas?

– Nossa, que mau humor... — resmungou — Você mora por aqui então?

– Parece.

– Caramba! Somos quase vizinhos! Me pergunto se Kyo-chan sabe disso...

Então me toquei.

– Onde ele está?

– Por causa de suas responsabilidades no conselho estudantil, ele sempre vai mais cedo para a Academia. Até porque — ele aproximou o rosto do eu até ficarmos da mesma altura e pôs as mãos em concha antes de sussurrar — ele não pode sair de casa vestido de Kaede.

Arregalo os olhos em surpresa. A Presidente não passa todo o tempo como uma mulher? Uma curiosidade enorme brota em mim e observo os traços do rosto do garoto parado a minha frente. Se Asuma é tão bonito, imagino que Kyo-kun também seja, mesmo que mais magro e mais baixo. Qual será a cor do seu cabelo? Aquela peruca parece tão real...

– Kourin?

– Hm..? — quando fui trazida de volta de meus pensamentos, o garoto estava a, talvez, cinco centímetros de mim, com os olhos fitando os meus. — Caramba, o-o quê está fazendo?!

Quase posso sentir seu hálito fresco e ouvir sua respiração. Tento ao máximo expulsar o que me vem a mente: é assim que deve ser a visão antes de um beijo.

– Você respeita meu irmão? — ele perguntou sem usar seu tom brincalhão de sempre e toda a minha inquietação é banida.

Cogito, então, todas as respostas possíveis. A princípio, claro que o respeito. Ele é um ser humano. No entanto, tenho quase certeza de que a pergunta remete a mais que isso. Confesso não me sentir totalmente confortável com essa história de crossdesser* e principalmente por ter de fingir que ele realmente é uma mulher quando estou a sua presença. Mas por outro lado, depois de todas as vezes que conversamos, seria impossível mentir e dizer que não gosto dele... Dela? Arg! É disso que estou falando! Confuso demais, trabalhoso demais! É um homem, afinal de contas!

– Eu o respeito sim. Mas não entendo qual é a necessidade de se transvestir todos os dias. — respondo.

Ele continua me olhando em silêncio por alguns segundos. Quando começo a me sentir desconfortável, sou salva pela freada do ônibus e o som de portas se abrindo. Asuma olha pela janela e desaproxima-se de mim. Suspiro aliviada.

– Temos que descer aqui, Kourin-chan. — ele sorri e me puxa pela bolsa.

– Dá pra me soltar?! — reclamo quando finalmente estamos na calçada.

– Eu estava te ajudando a sair. Havia muitas pessoas no caminho.

– Eu conseguiria sozinha. Obrigada.

Ele olha feio para mim, mas logo depois cai na gargalhada.

– O que foi? — pergunto olhando para minhas roupas em busca de algo errado.

O sorriso continua estampado no rosto enquanto remexe em sua mochila e tira o celular de um dos compartimentos. Juro que não supus o lógico e não entendi quando ele posicionou o aparelho a minha frente. A razão só veio a mim quando ouvi o "click".

– Asuma! — corri em sua direção para agarrar o telefone. — Dessa vez eu vou destruir isso em mil pedaços!

Ele continuava rindo e levantou o braço para que eu não pudesse alcançá-lo.

– Desculpe... Não posso evitar. Você está com o cabelo preso igual a uma menininha de anime.

– Apague isso agora! — berro enquanto pulo para ficar mais alta. Infelizmente, não chego nem perto do objetivo.

– Vamos fazer um trato então?

– Nada disso! Apague a foto imediatamente! — pulo mais uma vez e quase alcanço seu pulso.

– Apenas me escute, baixinha.

Bufo e cruzo os braços esperando.

– Isso, fique calma. — ele provoca — Se você prometer respeitar o Kyo-chan independente do seu jeito de ser, eu apago essa imagem fofa.

– Mas eu já disse que o respeito! — explodi — Eu não ligo pra essa escolha bizarra que ele fez. Só quero terminar meu ensino médio logo!

O garoto parece mudar de estado de espírito e vejo quando suas mãos fecham em punho com força (inclusive a que segura o celular). Seus olhos parecem ao mesmo tempo tristes e raivosos. Engulo em seco.

– Escolha bizarra? — ele praticamente sussurra — Então você acha que é a isso que tudo se resume? Uma escolha bizarra?

– Não... E-eu...

– Acha que um belo dia ele acordou e disse "nossa, quero ser gay e me vestir como uma mulher!"? — seu tom de voz mudou novamente, e dessa vez estava quase assustador.

– E-eu não disse...

– Acha que todos os homossexuais escolheram uma vida cheia de ódio e preconceito? Você acha que eles desejam isso?

Tento interrompê-lo, mas minha garganta está fechada e só consigo dar um passo para trás.

– Qual é o problema com vocês?! — ele agora está gritando. Transeuntes e alguns alunos da Yatobi param seus percursos para assistir. — Será que não entendem que isso não tem nada a ver com uma questão de escolha?

– Asuma... Eu não quis dizer isso... — tento.

– Sinceramente, o que muda no dia-a-dia de vocês se eles gostam de pessoas do mesmo sexo? No que isso os afeta? — ele olha ao redor e volta para mim — Em nada! E quer saber, nada devia mudar na vida deles também. Mas graças a essa cultura homofóbica mundial, algo que seria banal se transforma numa enorme confusão e exala tanta ignorância que chega ao ridículo!

Ele respira forte antes de virar o corpo bruscamente em direção aos observadores.

– Cuidem das suas vidas! Vão embora! — a maioria saiu imediatamente, mas alguns ainda esperaram alguns segundos antes de obedecer.

Ele ficou olhando enquanto todos deixavam a rua até só estarmos os dois e carros que passavam a mais ou menos 40km/h sem reduzir. Não estavam interessados em nós.

Só então voltou a me encarar. Seus olhos voltaram a cor de mel e seu rosto parecia mais suave, mas mesmo assim não quis arriscar e mantive a boca fechada.

– Kourin, — ele finalmente começou — meu irmão não escolheu nada. Ele é assim e acabou. Quanto ao hábito de se transvestir... Existe muito mais por trás disso do que você poderia imaginar. Por favor, apenas entenda que o amor é algo inexplicável e não segue linhas retas apenas para se adequar a sociedade. Consegue aceitar isso?

– Sim. — digo.

– Ótimo. — ele suspira — Desculpe pelo modo como falei com você, mas... Eu não consigo suportar o jeito como as pessoas o tratam. Tente se por no meu lugar. E se você tivesse um parente... Uma irmã na mesma situação?

Não digo nada e ele me pega pela bolsa novamente.

– O sinal vai tocar em breve e temos de estar na sala de aula. Vamos antes que ganhemos uma suspensão.

Permito ser puxada até os portões da escola sem reclamar. Mil coisas se passam pela minha mente, inclusive o fato de que não preciso imaginar-me em seu lugar. Eu tenho uma irmã homossexual.

– A gente se vê por aí, baixinha.

Acompanhei seus passos a medida que ia se distanciando de mim e só comecei a andar quando ouvi o sinal ecoando pelos corredores. Apertei o passo para subir as escadas antes de Sumi-sensei que vinha da sala da direção.

Chegando à sala, todos já estavam mais ou menos nos seus lugares e conversavam em alto som, portanto, não me notaram e só parei para cumprimentar Momo e Chichi. As duas estavam idênticas com as armações azuis para as lentes. Hm... Tenho certeza de que não usavam óculos ontem.

– Bom dia Kourin-san. — responderam de forma polida e em uníssono.

Segui até minha própria carteira e vi um ser desmaiado a minha frente.

– Sakuya, — sacudi seus ombros — Sumi-sensei deve chegar a qualquer momento. Ela levantou vagarosamente e me fitou com os olhos vermelhos.

– Que isso?!

– Bom dia, Kourin... — e caiu de cabeça na mesa.

Pensei em chamá-la novamente, mas então me lembrei: não é problema meu.

– Bom dia, pessoal. — a professora entrava em sala com seu material e já começava a escrever no quadro com seu pilot de cor azul — Hoje o dia vai ser puxado. Quero que deem o seu máximo, está bem?

Todos reclamamos, mas puxamos os cadernos e livros das mochilas e bolsas.

Sakuya nem se mexeu. Pergunto-me se esse cansaço se deve ao emprego noturno. O que será que ela faz depois da escola que possa deixá-la assim?

Fecho os olhos com força para tirar esse pensamento da cabeça. Não estou preocupada com ela! Mal a conheço! Matemática, Kourin. Vamos lá.

X

O alarme indicando a hora do almoço veio como um herói de filme de ação: quando ninguém mais acreditava que havia esperança, quando todos já haviam desistido de lutar, ele aparece e salva o dia. Minha mão estava tremendo de tanto que escrevi esta manhã. Não acho que serei capaz de segurar os hashis...

– Já acabou o dia? — a voz de Sakuya veio do nada. Esqueci completamente de sua existência durante as aulas.

– Não. Vamos comer agora. — respondi já me levantando.

– Que ótimo... Eu adoraria comer... — ela mal abria os olhos, mas pôs um enorme sorriso no rosto e pegou seu almoço com rapidez.

Descemos as escadas em direção aos jardins como no dia anterior, mas assim que pus os pés fora do prédio fui assediada por uma criatura minúscula e escandalosa.

– Kourin-senpai! — ela me agarrou pela cintura e me sacudiu com os olhos enormes cheios de lágrimas — Como pôde me trair desse jeito? Eu confiei em você e você faltou com sua palavra!

– Yui? — questionei enquanto lutava para me equilibrar.

– Esqueceu até do meu nome!? — agora ela estava realmente chorando — Que cruel, que cruel, que cruel, Kourin-senpai!

– O que tá acontecendo aqui? — a de cabelos longos ao meu lado assistia a cena boquiaberta. Assim como alguns alunos que passavam.

– Yui, pare de chorar e... Me solte, cacete! — gritei.

Ela tirou os braços de mim com cuidado e fungou uma última vez.

– Ok... Eu não esqueci seu nome. Só me assustei. Agora me diga do que você está falando!

– Kourin-senpai prometeu almoçar comigo ontem e Yui-chan ficou sozinha, abandonada e largada.

– Oh... — pus a mão que não segurava a sacola com o almoço na testa. Que droga, eu realmente havia prometido ficar com ela. — Yui, desculpe por isso...

– Kourin, quem é essa criança?

– Sou Chibihara Yui. Estou um ano atrasada, mas sou da idade de vocês. Não sou criança!

– Yui, acalme-se... — pedi.

– Mas ela é tão fofinha! Parece muito com meu irmão Kipei e ele só tem sete anos.

– Não sou tão pequena assim... — ela parecia querer chorar outra vez.

– Yui, ignore ela. Olha pra mim. — pedi e ela obedeceu. Sakuya pareceu não ligar — Vou compensar meu esquecimento. Hoje você almoça com a gente.

– Não quero comer com essa peituda arroganta.

– Como é que é?! — a outra finalmente parecia voltar ao seu jeito de sempre, mas o cansaço ainda era evidente em seus olhos.

– Yui, o que eu disse sobre dizer as coisas sem pensar? — eu tentei parecer séria, mas "peituda arroganta" foi demais até para uma mal humorada como eu.

– Mas eu não gosto dela! É a vândala que te machucou ontem.

– Vândala? Quem está sendo arrogante - Sakuya a corrigiu em forma de deboche, mas ela não pareceu notar — é você, garotinha. Se enxergue!

– Eu enxergo meus pés. Você pode dizer o mesmo? — rebateu. Yui pode ser pequena, mas é muito afiada.

– Podem parando. As duas! — apartei antes que fosse longe demais. — Yui, ela está comigo agora então você tem que decidir: ou almoçamos as três ou você fica sozinha de novo.

Ela estava pensativa.

– Posso cuspir na comida dela?

– Agora você vai ver! — gritou já partindo pra cima da mais baixa. Eu fechei os olhos e repeti o mantra que criei mais cedo:

– Não é problema meu... Não é problema meu...

X

O caminho de volta para casa era um pouco mais longo devido as leis de trânsito. Quando paramos num sinal vermelho, refleti sobre algo: Graças aos nossos horários, Haruka sempre pode me levar e trazer da escola e isso fazia com que eu passasse mais tempo em sua companhia do que na de Nanami. Que droga!

– Rupia, — chamei pelo apelido que eu mesma criei — acho que vamos passar muitas horas da minha vida juntas.

– E daí? — ela olhou pelo espelho apenas por um segundo antes de voltar a fitar o semáforo.

– E daí que por esse motivo, acho que você devia me tratar melhor de agora em diante.

– E eu acho que você pode ir a pé a partir de amanhã. Que tal?

Arroganta. — repeti baixinho o que Yui dissera mais cedo.

– O que?

– Nada... — ri.

Chegando em casa, fui direto para o meu quarto e deitei de barriga para cima. Logo comecei a pensar nos meus colegas da Yatobi, não sei bem o motivo.

Peguei um caderno dentro da bolsa, um lápis e comecei a fazer uma lista de todos que havia conhecido até então. Depois, escrevi minhas primeiras impressões de cada um. Quando cheguei a Hakeshi Asuma, senti um aperto no peito ao lembrar das palavras fortes que disse em defesa de Kyo. Aquilo me veio a cabeça algumas vezes durante o dia.

Rolei o lápis pela cama algumas vezes antes de decidir apanhar o celular e buscar o número que eu queria.

Esperei chamar algumas vezes até ouvir sua voz.

Kourin-chan? O que houve? Aconteceu algo?

Oi... Não. Está tudo bem.

Bom, por que ligou então? A aula acabou de terminar e a próxima é em cinco minutos. Se for algo importante, diga logo.

– Eu... Eu te amo, onee-chan.

Notas finais
Crossdresser* : Homem que se veste com roupas de mulher, mas não é necessariamente homossexual. Acho que estou forçando a barra com a questão dos reviews, mas é que eu preciso de um controle. Só comentem quando tiverem vontade, claro, mas é difícil saber oq estão achando da história ou se estão ao menos acompanhando devido a quantidade pequena de leitores presentes nos reviews. Se você é leitor mas nunca deu sinal de vida, diga algo só para eu saber que você existe. Se não, parece que estou escrevendo para uma meia dúzia enquanto o resto apenas apertou "acompanhar" e nunca mais leu um capítulo. (Não que eu tenha problemas em escrever para essa meia dúzia, mas é chato pensar que do total, muuuito menos da metade está de fato lendo). Obrigada a quem leu e até semana que vem! ^^