KOURIN

1 O que me trouxe até... Aqui


Notas iniciais
Hoee, minna! Como vão? Estou com esse projeto novo e queria que dessem sua opinião. Obrigada a quem me acompanha desde minha primeira fic "Abstinência" e, pra quem é leitor novo, SEJA SUPER BEM VINDO! Agora... Enjoy ;3

Fazia mais de meia hora que eu me encontrava sentada no sofá ouvindo o desabafo/sermão de minha mãe.

– Eu sempre lutei por um futuro grandioso para você e sua irmã! E a Nanami nunca me deu esse trabalho! — ela andava em círculos na sala de estar. Olhei para o relógio cuco antigo que estava na parede acima da televisão desde que me entendo por gente. Oito e cinquenta e sete. – Matriculei nas melhores escolas, comprei todos os materiais caríssimos, levei aos cursos de caligrafia... E é assim que você me retribui, Kourin!? Depois de 15 anos de esforço? Foi tudo em vão? Me diga!

Eu não estava querendo discutir. Sabia que nada do que eu dissesse poderia mudar a opinião dela. Contudo, dando uma segunda olhada no relógio, percebi que se não desse logo um fim nisso, chegaria atrasada à festa de vola às aulas da Yuka.

– Okaa-san, acalme-se! — gritei.

Isso a fez parar de andar em volta do sofá e olhar fixo nos meus olhos. Engoli em seco. Talvez esse não tenha sido o melhor modo de entrar em seu monólogo.

– Me acalmar!? Como você pode me pedir algo assim logo depois de ser expulsa por fumar na escola?

– Eu não estava fumando! — declarei enquanto me levantava e ficava de frente para ela — Alguém armou isso e quando eu descobrir quem foi ess-

– Armar para você, Kourin? Francamente, você já foi melhor inventando desculpas... — Suspirei alto e sentei-me novamente. – Espero que não esteja planejando sair esta noite, porque está de castigo!

Arregalei os olhos e senti que tudo estava perdido. Não podia faltar aquela festa. Todos da escola estariam lá. Essa seria minha chance de descobrir o culpado. A única chance!

– Não pode fazer isso! — praticamente implorei — Eu sou inocente!

– Assim que seu pai chegar, vamos decidir o que fazer sobre sua vida escolar arruinada!

Deixando-me boquiaberta e sem reação, saiu do cômodo indo em direção as escadas. Mas antes de sumir totalmente no andar de cima, pude ouví-la murmurando "Onde foi que eu errei?"

Tudo bem, vamos deixar algo claro: É verdade que não sou a "senhorita certinha". Não gosto de seguir regras e estou acostumada a mentir para me livrar de encrenca mas, definitivamente, eu não sou uma delinquente! Não tenho cabelos descoloridos, não tenho piercings nem uso maquiagem forte. Sou até normal demais: Morena, estatura normal e olhos de um castanho bem claro.

Porém, para minha mãe, o mundo é um belo lugar onde as pessoas são amáveis e nunca seriam capazes de fazer algo realmente maldoso como por exemplo plantar provas falsas no seu armário de sapatos na escola!

Meus pensamentos foram interrompidos pelo pássaro amarelado que saía da pequena casinha de madeira localizada acima dos ponteiros do relógio.

Cuco! Cuco! Cuco!

Nove em ponto.

É claro que seria mais sensato obedecer as ordens da "chefe" e ficar em casa. Assim evitaria um conflito futuro e quem sabe, eu conseguiria conversar com os dois quando estivessem mais calmos, mas...

Cuco! Cuco! Cuco!

...Quando foi que eu disse que era sensata?

E antes do pássaro dar seus últimos três cantos, eu pulei a janela e passei pelo portão de entrada correndo feito doida.

X

Subindo a rua, já pude ouvir o som que vinha da casa de Yuka. Quando cheguei mais perto, pude reconhecer a música: "The invisible wall" do The GazettE tocava a todo volume e eu tive de tocar a campainha três vezes até que alguém viesse abrir a porta.

Enquanto esperava, dei uma boa olhada na casa que conheço e frequento desde os meus 7 anos. Nunca deixei de me assombrar com o tamanho do lugar.

– Kou-chan! — gritou a menina de cabelos alaranjados e óculos de armação preta antes de se jogar em cima de mim.

– Yu-chan, assim você vai me sufocar! — Ela me soltou e pediu desculpas entre uma risada e outra. Estava entrando quando Yuka fez menção para que eu parasse.

– O que foi? — eu quis saber.

– Você sabe que a escola inteira está nessa festa, não é?

– Claro que sei! E pode deixar porque eu vou descobrir quem armou para mim hoje na escola. — sorri sentindo-me vitoriosa.

Ela revirou os olhos.

– Não estou falando disso, Kou-chan... Você ao menos se olhou no espelho antes de sair de casa?

Então eu paralisei.

– Ai, Kami-sama! — pus as mãos em volta de meu corpo, como se escondesse a mim mesma. — Eu tive de sair rápido de casa e nem lembrei de me trocar... Socorro, Yu-chan! Como vou entrar agora? — perguntei soltando-me e levando as mãos até os ombros de minha amiga.

Ela riu.

– Não esquenta, Kou-chan. Me espere na garagem que eu trago uma muda de roupas pra você, está bem?

Soltei o ar aliviada. Não sei o que seria de mim sem a Yuka.

– Obrigada...

X

Depois de me ajudar com a maquiagem que ela também trouxera, nós duas fomos até a porta de entrada.

– Lembre-se de se divertir também, Kourin. Isso é uma festa. — disse alto, a voz um tom acima da música.

– Não vou prometer nada. Não posso perdoar o que me fizeram. — olhei em volta e avistei de longe três cabeças de cabelos cacheados e super descoloridos. Fitei meu alvo — Te encontro daqui a pouco, Yu-chan.

– Não cause problemas... — pediu de forma estranha, quase implorando.

Não respondi.

Segui desviando-me de várias pessoas sem nem mesmo parar para cumprimentá-las. Afinal, porque deveria? Não conheço a maioria delas, e, a partir de hoje, nem mesmo estudaríamos na mesma escola!

– Sumire-san, Megura-san, Watanabe-san.

As três garotas super bronzeadas e de penteados altos me olharam de cima a baixo.

– Naruma-san. O que faz aqui? — perguntou a primeira, mostrando-se indignada com minha presença e pronta para uma boa briga.

– Isso é uma festa restrita, você sabe... — provocou Megura-san que, apesar de estar sorrindo tinha um olhar maléfico.

– Sim, é só para alunos. — completou a terceira.

Olhei para cada uma delas não me sentindo nem um pouco ameaçada.

– Eu sei o que fizeram — comecei com calma mas firme — e quero que saibam que a brincadeira de vocês não chega nem aos pés do que eu vou fazer em resposta.

Então elas começaram a rir. E quando eu digo rir, eu quero dizer gargalhar mesmo. Esperei que acabassem mais por choque que por paciência. Não esperava essa reação das três Barbies, que era como eu as chamava pelas costas.

– Você pensa que fomos nós que colocamos as bicas de cigarro no seu armário? — perguntou Megura-san ainda sorridente.

– Como foi uma vingança simples e pouco elaborada, achei a cara de vocês. — ataquei.

– Vingança? — Sumire-san ignorou meu insulto e continuou — Acha que ainda queremos nos vingar pelo que aconteceu no primário? Por favor, Naruma-san, cresça!

O quê?!

– É claro que querem! O garoto por quem estavam apaixonadas se declarou para mim e vocês juraram me matar! — lembrei no intuito de mostrar-lhes quem estava no controle dos fatos.

– Ah, bons tempos aqueles não é, Hana-chan? — perguntou Watanabe-san para Sumire-san. — Me trás boas lembranças...

– Sim, como aquela vez em que perseguimos e batemos na Naruma-san depois do festival cultural. — respondeu ajeitando o cabelo.

– Eu me lembro! Ela estava se achando linda vestida de maid com a vadia da Oosaki-san. — finalizou Megura-san parecendo nostálgica.

– Não fale da Yu-chan! — irritei-me — Vadias são vocês que além de se vestirem como tal, ainda armaram para que eu fosse expulsa!

As pessoas a nossa volta começavam a prestar atenção, mas eu não estava afim de parar agora. Duas das loiras me olhavam zombeiras, mas Megura-san não.

– Olhe aqui — ela baixou o tom de voz e aproximou o rosto do meu. Éramos do mesmo tamanho, mas por causa de seu penteado, ela parecia bem mais alta — Por mais que gostemos da ideia de ter você longe pelos próximos três anos, não sabemos quem foi o responsável. Talvez não fôssemos só nós a ter problemas com você.

– Que mentira mais deslavada! — Eu não podia acreditar no que ouvia. Elas estavam mesmo negando? — Sei que me detestam e fariam de tudo para se livrar de mim.

Ela deu uma risadinha cínica e se afastou. Aumentando novamente o volume da fala e olhando para todos os convidados que paravam para admirar a pequena briga, disse:

– Por favor, Naruma-san! Não queremos entrar no mundo do crime com você! Não basta ter sido expulsa por fumar na escola, ainda quer estragar a festa dos outros? — Ela dizia cada frase com um toque de tristeza, como se ela fosse uma vítima e eu um bandido.

Falsa!

Então as vozes ao meu redor se transformaram num murmúrio e não se podia mais ouvir a música.

Delinquente!– alguém gritou e eu olhei para trás. Não consegui identificar a voz, mas logo depois mais um:

Não estrague a festa!

Todos começaram a me olhar de modo raivoso e eu me senti encurralada. Não importava a direção para qual eu olhasse, havia pessoas, de rostos conhecidos ou não, me julgando e apontando.

Por que faziam isso? Eles não sabiam da verdade. Ninguém sabia!

O ar ficava cada vez mais pesado e eu não podia respirar.

Quando foi que as Barbies aprenderam a jogar sujo assim? Como eles podiam acreditar nelas?

Minha visão estava turva e a festa parecia cada vez mais distantes.

– Yu...chan... — chamei. Mas ninguém veio ao meu socorro e a última coisa que vi foi o sorriso das minhas três inimigas.

Depois disso, o escuro.

X

Acordei na minha cama com o sol entrando pela cortina mal fechada. Ouvia os carros que passavam, pois meu quarto é de frente para a rua.

Sentei-me e uma compressa de pano caiu da minha testa para o meu colo.

– Por que isso..? — mas antes que pudesse finalizar a pergunta, me lembrei. Lembrei da festa, das loiras, dos convidados e das vaias. Fechei os olhos quando senti a cabeça latejar.

– Kourin? — ouvi a voz de minha mãe vindo da porta. Ela entrou no quarto trazendo uma bandeja com o café da manhã. – Quando descer, eu e seu pai queremos conversar com você, está bem? Beba este remédio depois de comer.

Concordei sem muito ânimo e ela se retirou.

Aquilo era um desastre!

Estávamos na primeira terça-feira letiva do ano e eu estava em casa, sem escola para estudar e mais do que encrencada por ter saído de casa mesmo estando de castigo.

Comi sem nenhuma vontade ou pressa. Nem conseguia imaginar o que meus pais eram capazes de fazer. Talvez me matriculassem num internato! Oh, Kami-sama, não!

Depois de engolir o comprimido para dor de cabeça, saí do quarto e desci corajosamente as escadas.

– Ah, Kourin, sente-se aqui conosco. — pediu meu pai ao me ver. Respirei fundo e obedeci.

Eles se entreolharam antes de minha mãe começar:

– Filha, você já deve saber o tamanho do problema que arrumou para você mesma ao ser expulsa da escola. — ela me olhava friamente apesar do tom de voz tranquilo — E não satisfeita, você ainda fugiu do castigo, como se o que eu disse noite passada não significasse nada.

– Eu queria provar minha inocência descobrindo quem-

– Fique quieta, Kourin. — ordenou meu pai com se típico olhar repreendedor.

Me calei imediatamente.

– Eu nem sei o que dizer... — continuou ela — Não esperava isso de você e certamente nunca passei por nenhuma situação parecida. Sua irmã é um exemplo que você devia seguir.

Revirei os olhos.

– Dizem isso porque não sabem o que eu sei.

– Kourin! — gritou ele.

– Desculpe! Mas a Nanami não é tão perfeitinha quanto vocês pensam...

– Pare já de tentar desviar a conversa inventando coisas sobre sua irmã! E saiba que eu estou envergonhada com o modo como se portou ontem a noite! Quando eu fui fazer compras nessa manhã muitas mães me olharam de lado e comentaram umas com as outras sobre você! — ela continuou com os olhos ficando vermelhos. Não pude identificar se era de raiva ou se ela estava prestes a chorar — Ouvi coisas horríveis sobre você estar tentando comprar briga na casa da Yuka-chan. Como pôde?

Essa era minha mãe. Sempre preocupada com as aparências e com a reputação da família. Isso nem me incomodava tanto, mas o fato de ela realmente não dar a mínima para o que eu tenho a dizer... Isso sim machuca.

– Vocês não estão nem um pouco preocupados comigo? Só com essa maldita vizinhança?

– É claro que estamos preocupados com você. — entrou meu pai — E foi por isso que decidimos isso esta manhã.

– Decidiram o que? — perguntei raivosa.

– Você vai ainda hoje para casa da sua irmã. — declarou ela pegando a mão de meu pai para dar ênfase a sua fala.

Ri com ironia.

– Então acham que a "santa Nanami" pode me benzer e me transformar numa miniatura dela? Vai precisar de mais de uma tarde para isso...

– Então você pode ficar tranquila, — continuou — porque sua estadia lá é mais longa do que pensa. Três anos para ser exata.

Olhei profundamente para seus rostos. Então era assim que eles planejavam resolver as coisas? Mandando o problema para longe?

Eles não disseram mais nada, provavelmente esperando meu protesto mal-criado. E eu teria feito exatamente isso se estivesse no meu juízo normal, ou seja, se eu não tivesse sido expulsa da escola por algo que não fiz, se eles não ficassem me comparando com minha irmã mais velha a todo tempo, se ninguém tivesse me julgado e condenado na festa.

Mas como tudo isso de fato aconteceu, o que pude responder foi:

– Ótimo! Saio antes do almoço! — e com isso saí pisando forte em direção as escadas.

X

Em menos de uma hora, já estava de malas prontas. Tudo o que era meu e que eu podia carregar estava comigo.

Livros, roupas, meu iPod e outras coisas.

O resto mais pesado como cama, armário e mesa de estudos iriam de caminhão mais tarde como meu pai advertira.

A cidade onde minha irmã morava desde que saiu de nossa casa era vizinha a nossa e ficava a duas horas de metrô, mas eu não conseguia deixar de ter a impressão de que estava indo para outro país.

– Lembre-se de respeitar a Nanami. Ela pode ser sua irmã, mas é a dona da casa. As regras dela são lei. — começou meu pai trazendo uma das malas consigo até a entrada de embarque.

Fiz uma careta, o que irritou o homem.

Entenda: eu gosto de minha irmã, apesar de tudo. Quando ela morava conosco, costumávamos passar bons momentos juntas. O problema eram nossos pais, sempre comparando-me com ela. Tratando-na como uma deusa.

Como eu queria que eles soubessem de seu segredo...

Chegamos a estação bem rápido e a fila para compra de passagens estava curta.

– Veja se consegue aprender algo com ela, está bem? – pediu minha mãe ao me dar um beijo na testa.

– Também vou sentir saudades. — respondi irônica enquanto observava o trem parando e as pessoas da fila se movimentando, mostrando as passagens e seguindo até seus lugares para a viagem.

– Não seja assim, Kourin. — ela pediu — É para o seu bem que fazemos isso.

– Claro que sim. — bocejei. Estava realmente com sono, mas exagerei para me mostrar indiferente — Adeus.

Não olhei para trás quando entrei no vagão. Em parte porque não aguentava mais ficar na companhia daqueles hipócritas, mas também porque sabia que eu choraria assim que desse conta do que estava acontecendo.

Por isso, procurei meu acento e ajeitei minha bagagem de modo a não ficar caindo e pus os fone de ouvido dando play no aleatório de meu aparelho.

"The invisible wall".

– Claro... Que outra música seria mais adequada? — O metrô começou a se mover e foi aí que eu senti as lágrimas descerem por meu rosto.

Dane-se. Pelo menos seremos só eu e Nanami por um tempo...

Foi o que eu pensei.

Mas como tudo na minha vida, isso também estava errado.

Notas finais
E agora? A vida de Kourin não podia estar pior. E qual seria o segredo tão terrível de Nanami? Deixem reviews com suas opiniões. Ja nee!