KOURIN
4 Muito prazer... Eu não sou gay
Notas iniciais
– Eu não vou estudar numa escola dessas! Você me matriculou de propósito! Isso... Isso é um absurdo! — eu gritava e agitava os braços no ar enquanto dava voltas no sofá onde minha irmã e Haruka estavam sentadas — É quase imoral! Libidinoso! Uma blasfêmia!
– Pirralha! Será que dá para relaxar? — pediu a de olhos azuis aumentando o volume da Tv.
– Aposto que nem sabe o significado dessas palavras todas... — acrescentou Nanami apoiando-se de forma graciosa no braço do acento.
Parei a frente delas, bloqueando a visão da tela.
– Ei! — protestou a outra.
– Eu estou falando sério! Já não faz o menor sentido existir uma escola assim. Eu estudar lá sendo hétero torna tudo ainda mais ridículo!
As duas caíram na gargalhada, o que me irritou profundamente.
– Kourin-chan, você tem ideia de como está parecendo a mamãe? — arregalei os olhos — Quer dizer, andando de um lado para o outro dando sermão... Está hilário!
– Vou ignorar seu comentário idiota, Nanami. — disse sentindo raiva e tristeza ao mesmo tempo. Mau tive tempo de pensar em meus pais desde que embarquei no trem para cá. E a verdade era que, ao mesmo tempo em que eu odiava o modo como me tratavam, sempre me pondo como inferior a eles e a Nanami, eu os amava. Muito. E droga, sinto saudades dos dois babacas...
Para não chorar ali mesmo, decidi voltar a discussão. Até porque ela era importantíssima para mim.
– Você me matriculou numa escola para gays! — repeti dando ênfase a última palavra — Como teve coragem de fazer isso comigo?
Nanami suspirou e olhou para Haruka, que bufou antes de apertar o botão de desligar do controle remoto.
– Ok. Kourin, antes de fazer drama reflita sobre suas ações: Primeiro, foi você quem escolheu onde iria estudar — ela me olhava nos olhos enquanto eu me sentava na poltrona ao seu lado. Mostrou o número "dois" com os dedos indicador e médio e continuou — Segundo, eu sempre aturei suas piadinhas e provocações infantis. Não acha que isso é mais que justo?
O quê?
– Claro que não! Isso não é uma briga de irmãs, onee-chan! ISSO É O MEU FUTURO ESCOLAR!
– PARE DE GRITAR, GAROTA! — berrou Haruka, o que fez sua ordem soar irônica.
– E terceiro, — ela continuou como se nós não tivéssemos dito nada — a Academia Yatobi não foi criada para a frequentação única de japoneses homossexuais, como você vai entender melhor quando for pesquisar sobre a escola, coisa que deveria ter feito antes.
O modo como pronunciou a última oração fez com que as palavras se transformassem em punhos e eles me acertaram em cheio.
Ela estava me chamando de otária. Praticamente pisou em cima de mim, me esmagou até a morte e depois dançou sobre o meu cadáver.
– Ótimo! Se é assim que você quer, espero que esteja pronta para o que vem. — blefei sabendo muito bem que era ela quem estava no domínio da situação.
Por incrível que pareça, Haruka não fez nenhum comentário e Nanami não tentou ficar com a última palavra. Talvez porque sentissem que aquela já era uma batalha ganha e de nada adiantaria discutir comigo. Então, com os punhos cerrados e os dentes trincados, levantei da poltrona e saí em direção as escadas.
– Eu não quero pesquisar porra nenhuma e também não vou jantar! — declarei pondo força em cada pisada até estar de frente para meu novo quarto — Suas lésbicas nojentas!
Bati a porta fazendo barulho e fingi não ouvir quando a de cabelos negros praguejou contra mim.
Olhei a minha volta, para meus móveis. Tudo ali era familiar, mas parecia errado. Não era o meu quarto. Eu não estava no lugar certo.
Minha respiração estava cada vez menos rítmica e eu podia ouvir as batidas do meu coração. Tinha raiva de Nanami por ter feito isso comigo, de Haruka por estar ocupando um terceiro espaço na minha nova vida com minha irmã, de meus pais por não ligarem para os meus sentimentos e principalmente das barbies que eram a causa primeira de toda essa sequência de desastres.
Caminhei até a cama que estava recém-feita e me joguei em cima do cobertor cor de cereja que ganhara de Yuka no Natal passado, quase um ano atrás.
– Yu-chan! — levantei de pressa indo em direção a minha mochila, onde ainda estavam as coisas que trouxe comigo pois tive preguiça de arrumar de manhã, apanhei o celular e fitei a tela inicial. Confesso que fiquei um pouco decepcionada com o que vi: Nem mesmo uma única mensagem.
Está certo que nos vimos pela última vez faz apenas dois dias, mas o fato de hoje ter sido o seu primeiro dia sozinha na escola desde que nos conhecemos ha 7 anos, não a deixou nervosa nem abalada? Quer dizer, eu esperava algo como:
"Oh, Kou-chan! Foi realmente estranho na escola sem você."
E então eu responderia:
"Não diga isso, Yu-chan! Pelo menos você conhece algumas pessoas que fizeram o fundamental conosco.. Vai se enturmar."
"Mas senti saudades!" Ela insistiria.
"Também senti sua falta hoje, Yu-chan! Não vai acreditar no que me aconteceu (...)"
E então ficaríamos horas conversando e sentindo pena de nós mesmas até que por fim, ela advertisse:
"Kou-chan, tente não se meter em encrencas. Estou torcendo por você!"
De repente senti um pingo d'água cair no meu pé direito. Pus uma das mãos sob a face e só então notei que estava chorando. Fungando e enxugando as lágrimas, disquei o número de Yuka e aguardei até que ela atendesse.
– Yu-chan... — minha voz saiu fina e rouca. Eu não lembro de já ter me sentido tão só.
– Kourin! Kami-sama, o que aconteceu? Eu estava prestes a te ligar...
– Estou com saudades de você! Não sabe como está sendo difícil viver aqui!
– Kou-chan, não desista tão facilmente. É isso o que aquelas garotas oxigenadas querem!
Então como se minhas forças tivessem sido recarregadas, eu engoli as lágrimas junto com a auto-piedade.
– Aquelas... — comecei.
– Não deixe que elas te derrubem!
– Não vou deixar! Vou dar o meu melhor na nova escola! Juro! E é assim que vou passar por cima delas! — declarei ainda respirando com dificuldade.
– Falou bonito, Kourin! Tenha cuidado e...– ela pigarreou — Vamos tentar manter o contato, ok?
Precisei de alguns segundos para assimilar suas palavras. "Tentar manter contato?" Nós iríamos manter contato... Não é? Nós somos melhores amigas... Certo?
– Como assim, Yu-chan?
– Ah... Minha mãe está chamando para o jantar. Boa sorte e beijos!
Ela desligou antes de me dar a chance de despedir. Ok. Isso foi estranho, mas eu estava exausta demais para me preocupar agora. Tudo o que queria era dormir apesar de não estar nem um pouco animada para acordar...
Saí do quarto rumo ao banheiro para escovar meus dentes. A escova de dentes já havia sido posta junto das outras por Nanami, a perversa (Esse será seu novo nome a partir de agora).
Enquanto usava o banheiro pude ouvir as duas conversando no andar de baixo. Falavam sobre algum seriado de Tv. Nanami insistia em dizer que era um dos melhores que vira em toda a vida. Já Haruka (ou como estava sendo chamada durante o diálogo, Rukya) enumerava os motivos que a faziam odiar o programa.
Revirei os olhos e dei a descarga. Olhei-me no espelho e ajeitei a franja, mesmo sabendo que iria dormir. Voltando para o quarto, ouvi as "namoradinhas" rindo alto e por isso acelerei o passo.
Olhe, eu não tenho nenhum problema sério com os homossexuais, juro. Só acho que confundem as coisas. Tenho certeza de que tudo não passa de um gigante mau entendido: quando duas garotas são muito próximas e uma delas não se dá bem com os meninos, é mais fácil fazer dessa amizade um caso de amor. O mesmo vale para os homens. Para mim, basta apenas que eles percebam a confusão que fizeram para que todos sejam heterossexuais novamente. Pelo menos é o que eu penso...
Deitei-me na cama e fechei os olhos já sentindo um novo bocejo que vinha.
Se o que Nanami disse for verdade e nem todos na escola são gays, qual seria a minha chance de encontrar um garoto legal que não esteja comprometido? Percebendo a triste resposta para minha pergunta, levei o cobertor até o topo da cabeça e aguardei o sono me buscar.
X
Acordei com um afagar gentil em meus cabelos.
– Hm...
– Kourin, ohayo! Arrume-se logo, é seu primeiro dia em Yatobi — cantou minha irmã.
– Não quero ir... — Nanami apenas deu uma risadinha.
– Se quiser carona, deve estar pronta em 40 minutos. Ela abriu as cortinas antes de sair do quarto ainda cantarolando.
Droga... Prometi a mim mesma e a Yuka que não iria desanimar! Pensando nisso, levantei com dificuldade e fui direto para o banheiro do andar de cima.
Tomei uma ducha rápida e desembaracei os cabelos mantendo os olhos fechados a maior parte do tempo. Quando passei a toalha ao redor de meu corpo e olhei no espelho pela primeira vez não acreditei. Nele estava escrito com batom vermelho as palavras "Kourin-chan e uma menina sentadas numa árvore... Bom primeiro dia de aula! 'Haruka"
Senti que ia surtar, descer as escadas mesmo despida, apanhar uma faca e cometer um assassinato. Mas não fiz isso. Apenas respirei fundo e abri as gavetas do armário ao meu lado até encontrar o estojo de maquiagem delas. Despejei tudo na pedra da pia sem nenhum cuidado, escolhi aquele que me parecia o mesmo tom rubro da mensagem e, usando bastante força para afundar o bastão no vidro, escrevi: "Me ame menos 'Kourin". Sentindo-me bem mais leve, saí do banheiro deixando a bagunça para trás.
Quando acabei de abotoar o blaser, dei uma olhada no meu reflexo no espelho de parede — que ainda estava no chão por falta de uma furadeira para pendurá-lo — e não pude deixar de sorrir. Aquele uniforme era tão bonito... E já que eu não tinha como evitar, talvez devesse tirar o melhor da situação. Desci as escadas e sentei-me a mesa, onde as duas já estavam tomando café.
– Parece mais bem humorada agora — observou Nanami com um sorriso sincero. Eu me pergunto como ela pode sempre achar que está tudo bem. Como não respondi, ela revirou os olhos.
– Deve estar ansiosa para fazer novas amizades — riu Haruka e eu revirei os meus também.
– Quantos anos você tem, hein? — provoquei.
– 27 muito bem vividos — declarou. Balancei a cabeça negativamente. Imagino como ela era aos 15...
– Rukya, você vai levar a Kourin-chan, certo?
Engasguei com meu onigiri* e encarei Nanami a espera de uma explicação. Mas quem respondeu foi a outra:
– Claro, Nami. Passo pela Yatobi todos os dias quando vou para a loja.
Pensei em protestar, mas quando olhei de volta para Haruka, seus olhos estavam brilhando de excitação e eu resolvi não dar esse gostinho para ela.
– Eu adoraria que me desse carona! Obrigada pela boa vontade — sorri.
Vi quando seu sorriso zombeteiro sumiu dando lugar a dúvida e dei uma mordida orgulhosa no bolinho.
X
A viagem não durou mais que 5 minutos. E por incrível que pareça, não houve nem mesmo uma única briga durante o percurso.
Quase não falamos nada, na verdade. Ela prestava atenção ao trânsito e reclamava consigo mesma sobre as notícias que eram transmitidas na rádio local. Eu me distraí com as pessoas e carros na rua enquanto fingia não estar nervosa.
– Vai descer ou prefere que te leve até a porta da sua sala? — reclamou.
– Hm? — sacudi a cabeça como que para voltar a realidade. Então vi que estávamos paradas ao lado do portão da escola, então abri a porta do carro e saí puxando minha mochila que estava no banco de carona.
Quando olhei para trás, vi que Haruka sorria para mim. Mas não como aqueles que vinham seguidos de algum comentário maldoso ou zoação. Apenas um... Sorriso.
– Boa sorte — disse enfim antes de dar a partida e sumir na próxima esquina.
Não respondi, claro. O choque não me permitiu. O que foi isso? Ela foi... Gentil?
Mas então ouvi um grito fino e desesperado vindo de trás de mim, de dentro do campus e esqueci do que acabara de acontecer. Com o susto, dei um pulo e busquei com os olhos a autora do escândalo.
Vi que mais ao longe um grupo de pessoas se juntavam formando um círculo. Na mesma hora comecei a andar em sua direção. Já participei de brigas o suficiente para saber quando uma estava acontecendo.
Não que eu goste de lutar, eu nem sou tão forte. Mas nunca deixei de expor meu ponto de vista, não importando as consequências. E por esse motivo, queria ver de perto o tipo de encrenca em que poderia me meter nesta nova escola. Infelizmente quando alcancei o grupo, havia muitas pessoas bloqueando minha visão. Tentei me espremer e passar pelas frestas, o que deu certo.
– É a Tanuri do segundo ano! — alguém gritou bastante próximo ao meu ouvido.
– Parece que essa chibi** se interessou pela namorada dela! — riu uma voz masculina em resposta.
Olhei com atenção para o centro da roda. Eram duas garotas, sendo que uma (Tanuri?) era gigantesca e parecia dar conta da menor (chibi sem nome?) sem muito esforço.
– Ela vai matá-la! — gritei ao me dar conta do desequilíbrio da luta.
– Alguém já chamou a Presidente! — um garoto que estava ao meu lado se virou e respondeu.
Acenti apesar de não acreditar que alguém pudesse de fato controlar aquela menina enorme.
– O QUÊ ESTÁ ACONTECENDO AQUI? — uma voz feminina, porém firme e grave passou por cima de todas as outras e aos poucos a roda foi se tornando um semi-circulo, dando abertura para a pessoa. E esta voz por algum motivo não me era estranha...
– Presidente! — gritou a agressora tentando ajeitar as roupas (que diga-se de passagem eram do uniforme masculino, com calças).
Tentei desviar das cabeças curiosas e enfim pude reconhecer a garota. Era Kaede-san, a mesma que me recebera tão bem um dia antes.
– Tanuri-san, pode me dizer por quê está importunando uma de nossas novatas do Ginásio? — perguntou com ares que exalavam autoridade.
– Porque ela não sabe se gosta de meninas ou meninos. — a mulher gigantesca se virou novamente para a menor que ainda tremia — Se está indecisa, procure outra escola.
Alguns que assistiam soltaram risadinhas , mas eu permaneci quieta. Queria ver no que tudo aquilo chegaria, pois temia pela vida da chibi e pela minha própria. Então, sem nem demonstrar alteração de humor, Kaede-san caminhou até o meio da roda.
– Muito prazer, pequenina. Me chamo Hakeshi Kaede. Sou a presidente do Conselho Estudantil. — ela estendeu uma das mãos para a menina que a fitava com admiração. — E você, quem é?
Todos aguardamos ansiosamente pela resposta no mais absoluto silêncio. A garotinha devia ter uns 11 anos. Tinha todos os traços de irmãzinhas de animes: ultra fofa, cabelo curtinho cor de mel, olhos grandes e negros. Ela nos encarava com um pouco de dúvida, mas enfim se decidiu por falar:
– Você não acha que toda essa maquiagem apenas enfatiza o fato de você não ser uma mulher?
Silêncio.
Todos prenderam a respiração por alguns segundos e eu pude ouvir quando uma folha caiu de uma árvore próxima. Kaede-san não se moveu. Nem mesmo baixou a mão que havia estendido. A agressora, Tanuri-san, também estava imóvel. Não sei o que me deu coragem para fazer o que fiz, mas antes que tudo acabasse em tragédia, saí de meu posto e me juntei as três. Olhei para a menina que ainda não tinha nome.
Abaixei um pouco o rosto para que pudesse sussurrar:
– Melhor vir comigo se não quiser ter um fim hoje mesmo. — e então agarrei seu pulso delicado e acelerei o passo para sair de lá. Talvez porque ainda estavam muito chocados, ninguém tentou nos impedir. Apenas abriram caminha na roda e observaram calados enquanto nos afastávamos.
Continuei o trajeto sem olhar para trás. Demorei até perceber que não fazia ideia de para onde estava indo, por isso quando vi, já estávamos quase no ginásio esportivo, lugar onde não havia ninguém além de um jardineiro que assobiava enquanto regava um canteiro, a alguns metros de nós.
Parei por ali mesmo e me recostei na grade que separava a rua da área escolar.
– Ahn... Obrigada por me tirar de lá. — ela parecia sincera.
– Não há de quê — disse suspirando, sentindo o peso de minhas ações.
– Eu me chamo Yui. Por que fez aquilo? — a voz dela, apesar de bem fina, parecia se empolgar a cada frase dita.
Levantei o rosto e tentei sorrir. A culpa não era dela se eu acabara de arruinar minhas chances de ser bem aceita na escola...
– Muito prazer, Yui... Eu sou Kourin. Acho que te salvei porque estou acostumada a defender minha melhor amiga. Ela já foi pequena igual a você. — disse confessando em voz alta o que não queria admitir para mim mesma: A enorme saudade de minha antiga vida.
Seus olhos brilharam e ela acenou com a cabeça.
– O que aconteceu com ela?
– Como assim?
– Ela não é gay e não quis te beijar?
– O QUÊ? — como a conversa chegou a isso? O que eu perdi? — Espera, você não entendeu direito...
– Eu ainda não decidi e gosto de meninas ou meninos. Mas sinto que estou me apaixonando por você, Kourin-onee-san. — ela mantinha os olhos enormes bem abertos e chegava cada vez mais perto de mim.
– E-espera! — bloqueei seu corpo com as mãos — Eu não sou lésbica!
– Não precisa negar, eu tenho bons sentidos. Aquela Tanuri-san era um nojo. Mal pus os pés aqui, já veio dar em cima de mim. Já a Hakeshi Kaede... Bom, já sabemos que seu nome verdadeiro não é esse! — e riu enquanto se agarrava aos meus braços.
– É sério! Eu estou aqui por engano! — eu não sabia como reagir aquele ataque, por isso gritei — PARE DE SE ESFREGAR EM MIM!
Agora eu tinha sua atenção.
– Olha, eu não sou apaixonada pela minha amiga, nem estou sentindo nenhum tipo de atração por você. Tudo o que fiz foi te ajudar quando precisou. E... KAMI-SAMA, QUANTOS ANOS VOCÊ TEM?
– 15. Mas ainda não estou no primeiro ano. Tive de repetir um ano por causa do meu tamanho. Os professores disseram que eu seria esmagada graças ao meu comportamento espontâneo.
– Eles tinham razão... — suspirei aliviada por pelo menos não se tratar de uma criança abusando de mim — Você não filtra o que fala, não?
– Não. — ela olhou para a área dos meus seios — Posso tocar? Os meus são muito pequenos... Queria saber como é...
– NÃO! — explodi tampando-os.
Então o sinal tocou e ambas olhamos em direção ao prédio principal.
– Sabe qual é a sua sala? — ela perguntou ajeitando os cabelos que caíam no olhos.
– Está escrito em algum documento aqui na minha mochila... E você?
– Não sei. A Tanuri-san roubou minha mochila. — Só então notei que realmente ela não usava uma. Fiquei com pena.
– Quer ajuda para encontrar? — perguntei já me arrependendo.
Ela sorriu e apanhou meu braço, cruzando com o dela.
– Esse é um comportamento bastante sedutor, Kourin-onee-chan. — riu.
– Eu não sou gay. Já disse. — declarei impaciente pensando seriamente em largá-la por ali mesmo e ir sozinha para a classe.
– Tudo bem... Nem eu sou. — disse ela por fim.
Aquilo era demais para mim. Apenas tirei meu braço de seu aperto e segui na frente. Mesmo quando já estava nos corredores das salas de aula, pude ouvir seus passos ligeiros atrás de mim.
– Eu fico por aqui, Yui. — disse virando-me de repente e assutando a pequena — Vê se acha logo o seu andar.
– Você sabia que eu estava aqui?
– Claro que sabia... — revirei os olhos — Você tentou ser discreta?
– Não me trate mal depois de salvar minha vida! — choramingou. — É só que... Eu não sei quando parar de falar. E você foi a primeira pessoa a se preocupar comigo sem querer nada em troca.
Ai caramba... Eu sei que não devia ter dito o que eu disse em seguida. Mas ela realmente me lembrava a Yuka!
– Yui... Agora temos aula. Se quiser, podemos passar o intervalo juntas. Mas entenda uma coisa: Eu. Não. Sou. Gay.
– Tudo bem... Eu já entendi essa parte. — riu alegre — Nos vemos mais trade então!
Observei enquanto saltitava em direção as escadas.
– Que figura, não? — alguém atrás de mim perguntou, o que me fez virar rapidamente, com o coração aos pulos. — Espero que ela encontre sua sala sem problemas.
– Ka-Kaede-san... E-eu...
Ela levantou uma das mãos pedindo para que eu me silenciasse.
– Por favor, não estou chateada com nenhuma das duas — sorriu antes de pigarrear e dizer com uma voz mais grave que eu ainda não conhecia — E a propósito, pode me chamar de Kyo.
Fale com o autor