KOURIN

15 ESPECIAL com Kyo parte ll


Notas iniciais
Hoee, moçada linda e maravilhouser! Parte dois e final do especial da história de Kyo com Mary Anne. Espero que tenham gostado! Qualquer coisa a mais, é assunto atual (no tempo da fic) e vou esclarecendo ao longo dos capítulos regulares. Sejam bem vindos, novos leitores e principalmente você (é, você!) que chegou hoje, uma semana depois da última atualização. Criatura... COMO VC ACHOU KOURIN?? hauhahuaha! Enfim, sem mais delongas, boa leitura!

"SEIS MESES", com Kyo

Mary Anne tinha um olhar sério e os punhos fechados. Eu ainda estava sentado em sua cama e o silêncio estava pesado.

Não sei o que se passou pela minha cabeça naquela hora, não lembro nem mesmo se disse alguma coisa antes de levantar e começar a andar em direção a entrada do apartamento.

– Kyo! — ela gritou vindo atrás de mim e eu não me virei até sentir minha camisa sendo puxada.

– Me solta! — mandei e ela recuou como se eu a tivesse agredido ou algo assim. — Como assim?! Quem é esse Johnathan? É melhor explicar essa história direito!

Eu não sou burro. Entendi muito bem tudo o que ela disse. Mas não podia... Não queria acreditar no que acabara de ser revelado.

– Sou eu, Kyo! Mas um eu que não existe mais! Será que não entende?

– Não, eu não entendo! — mexi no meu cabelo e acho que devo tê-lo bagunçado, mas não conseguia me controlar direito. Estava tremendo de nervoso e sem saber o que fazer. — Eu não sou gay, Mary Anne! De onde... De onde tirou essa ideia absurda?

– Eu sei que você não é gay, Kyo! Me escuta! Para de ir embora! — ignorei suas súplicas e acelerei o passo até chegar a porta. — Pare agora onde está!

Nesse momento eu só parei porque a raiva se misturou com a desilusão e eu precisava por para fora tudo o que estava sentido. Aquilo não era justo! Como pôde fazer isso comigo?

– Era uma brincadeira? Nada disso foi sério para você? — minha voz estava baixa, quase um sussurro — Pretendia manter essa mentira para sempre?

– Eu devia ter contado antes... Mas eu não estava brincando com você, Kyo. Eu juro...

– Não! Não jure! Nada do que você disser pode ser levado como verdade — explodi — Você me enganou, Mary Anne! Ou devo chamá-lo de John?

– Não diga isso... — ela baixou o rosto e as mechas douradas caíram sobre os olhos, o que por alguma razão que incomodou profundamente. Talvez porque agora sei que não passa de uma peruca cheia de mentiras, assim como todo o seu corpo.

– Então é por isso que não vai à piscina, né? A maquiagem pode sair, o cabelo não iria fixar e principalmente, a parte de baixo ficaria bastante chamativa. Belo disfarce, Anne, bela desculpa. "Tenho hidrofobia." Por favor! Alguma coisa nesses seis meses foram reais?

– Eu te amo. — disse simplesmente.

Quase caí na gargalhada. Mas uma gargalhada psicopata e descontrolada. Eu estava preso num pesadelo. Tudo que eu queria era acordar e voltar a minha vida perfeita com minha namorada perfeita.

– Desculpe por isso. — declarei.

– Mas você disse que me amava! — ela estava chorando agora e por pouco sucumbi a vontade de abraçá-la.

– Acontece que eu não sou gay.

– Você já disse isso, damn it*! Pare de tentar rotular o que somos... Você não ama o sexo de alguém... você ama a pessoa, o que ela é! Eu não sinto nada que não sentiria se você fosse uma mulher! Para mim não faz diferença. Eu amo você, Kyo.

Não tenho mais nada a dizer. Por favor não me siga, sua aberração. — pedi girando a maçaneta e pegando os sapatos na mão. Não iria calçá-los ali.

– Kyo... — ela caiu de joelhos com as mãos no rosto e senti lágrimas se formando em meus olhos a cada passo que dava no corredor escuro. Memórias de nós dois vinham em flashs rápidos e desorganizados e eu lutava para focar no caminho e não tropeçar.

Por sorte seu apartamento era no térreo e em pouco tempo eu já estava na rua. Pessoas passavam em câmera lenta, suas vozes e risadas se misturavam com as buzinas dos carros e os faróis me confundiam. Parei de andar percebendo que estava ofegante e a apenas alguns passo de distância do edifício.

Tentei pôr os sapatos e vi que não conseguiria fazer nada enquanto não me acalmasse, mas o problema era esse: não tinha como. Respirei fundo e peguei meu celular. A força do hábito quase me fez discar os números dela, mas me concentrei e liguei para ele.

E aí, pegador?– sua voz soava alegre demais do outro lado da linha.

– Onii-san... — a minha estava abatida — Vem me buscar. Rápido.

Não ouvi sua resposta, apenas desliguei o aparelho e sentei no chão. Talvez eu tenha cochilado, porque não pareceu ter passado nem um minuto e me senti puxado pelos ombros.

– O que tá fazendo do lado de fora? O que aconteceu? — vi seu carro estacionado bem a minha frente com a porta do motorista escancarada — Kyo, me responde.

Tentei dizer algo, mas todas as minhas forças se esgotaram naquele segundo e a única coisa que fiz foi vergonhosa: comecei a chorar.

X

Passei as duas próximas semanas inteiras no quarto. Estávamos de férias, afinal. As vezes chorava como uma menininha e as vezes socava o travesseiro por puro ódio. Quando tive coragem para contar tudo a Asuma, ele me olhou por certo tempo e então fez a pergunta mais absurda de todas:

"Está zangado por Mary ser um homem, por ter sido enganado ou porque ainda a ama?"

Não respondi e virei de costas para meu irmão. Ele desistiu de esperar que eu voltasse e foi para sua própria. Só quando ouvi sua respiração ritmada indicando sono profundo é que me permiti relaxar e fitar o dormente. Asuma sempre foi bom para mim, até quando eu não merecia e eu sei que aquela pergunta não foi uma provocação. No fundo, não queria saber qual alternativa estava certa. Senti raiva mais uma vez e apertei o cobertor com toda a força que tinha.

Como ela pôde? Era isso que eu pensava a todo momento.

Eu estava fragilizado pela perda, óbvio. Mary Anne era o amor da minha vida e eu nunca sentiria algo tão intenso outra vez e por isso mesmo doía tanto.

"Você não ama o sexo de alguém... você ama a pessoa, o que ela é!" a voz dela ecoando em minha mente.

– Isso não é verdade... — sussurrei olhando teto. Nunca me incomodei com homossexuais, sério. Achava que como eu e outros héteros, eles tem todo o direito de amar e viver com quem quisessem. A questão aqui é outra!

– Kyo..? — ele acordou e virou-se em minha direção coçando os olhos — Está falando enquanto dorme?

– A questão é puramente a mentira. Como aquela pessoa pôde me fazer amá-la por seis meses para só então revelar a verdade? — uma verbalização de meus pensamentos foi o que ele teve como resposta.

– Talvez tivesse medo da sua reação. — disse enquanto se sentava.

– Será que está satisfeita agora que conseguiu me enganar direitinho? — zombei sentando-me também — Aposto que foi muito melhor assim.

– Kyo-chan, ela estava apaixonada. Como você também estava.

– É, estava. No pretérito. — deixei bem claro.

– Se ela fosse mulher, vocês estariam juntos até agora, certo?

– Lógico! Ela era perfeita. Perfeita demais... Não sei como não desconfiei antes... Tinha que ter algo errado!

– Então — ele me olhou fundo nos olhos — o que está me dizendo é que a única coisa que impediu seu relacionamento de continuar foi isso? Ela ser um homem?

Não disse nada. Na ponta de minha língua, um "sim" estava bem escrito e pronto para sair, mas eu não queria dizê-lo.

– Então se tivesse dito a verdade desde o começo, você ainda estaria com ela? É isso? — ele prosseguiu mesmo tendo sido ignorado na pergunta anterior.

– Asuma, eu não sou gay.

– Está dizendo isso pra mim ou pra você?

– Pare com isso! — gritei jogando o cobertor longe e saindo da cama.

– Quer acordar o papai? — ele me olhou feio mas não se levantou.

– Eu não ligo! Escutou as asneiras que você disse!? Eu. Não. Sou. gay! A culpa não é minha se me apaixonei por uma mulher e do nada descubro que é um cara! Não foi por ele que passei noites acordado, não foi para ele que escrevi mensagens românticas de boa noite e com certeza não foi com ele que passei os melhores momentos da minha vida!

Asuma apenas continuava me encarando sem expressão. Depois de talvez uns 30 segundos de silêncio absoluto ele resolveu dizer algo. A voz foi aumentando a cada frase:

– Quando se declarou para ela, foi porque admirou seu jeito carinhoso no maid café. Quando a pediu em namoro, foi porque viu que suas qualidades eram maiores ainda do que as que você conhecia como cliente. Quando passou as noites acordado, impedindo que eu dormisse por causa dos seus risinhos irritantes, foi por ter percebido que conversar com ela era mais interessante que com qualquer outra. — se pôs de pé e ficamos cara a cara com ele levemente abaixado para ficarmos da mesma altura — E quando você prometeu que a amaria independente do que acontecesse, foi porque acreditava sem receios que aquela pessoa era a ideal.

Engoli em seco. Ele parecia querer me dar um soco e eu queria que o fizesse. Só assim ele perderia a razão em todos aqueles argumentos e eu poderia dizer tranquilamente que ele não passava de um idiota.

– Eu não posso... — baixei a cabeça quando minha voz soou fraca e vencida.

– A única pessoa que te impede de ser feliz é você mesmo, Kyo. Não perca a chance por causa de algo ridículo como sexualidade. Eu acredito que você não seja gay, — ele suspirou — mas também acredito você ame aquele cara por trás dos trajes femininos. E essa é a única verdade que importa.

Ouvimos batidinhas leves na porta e então ela abriu. Era nosso pai nos mandando parar de gritar. Ele tinha de trabalhar no dia seguinte, então pedimos desculpas e fomos cada um para o seu lado do quarto. Asuma não disse mais nada durante todo o tempo que ficamos deitados tentando pegar no sono.

X

A manhã chegou chuvosa e deprimente. Não havia sequer uma parte de mim disposta a levantar para o que quer que fosse, mas não tive escolha quando papai esmurrou a porta quase me provocando um ataque do coração.

– O que aconteceu?! — gritei enquanto pulava da cama me sentindo um pouco tonto.

– Foi mal aí, Kyo. Preciso pegar uns documentos do seu irmão, aquele bosta. -vejam bem, meu pai não é uma pessoa ruim nem nos trata mal. Infelizmente isso não o torna necessariamente uma pessoa boa que nos trata bem.

É, é confuso. Mas você aprende a amar esse barrigudo de apenas 38 anos de idade.

– Por quê? — perguntei enquanto ele seguia para a escrivaninha e abria todas as gavetas.

– Ele conseguiu dessa vez. — disse entredentes — Foi expulso.

– O-o quê?

Papai me olhou com impaciência.

– Você ouviu o que eu disse, então me ajude a encontrar a identidade e o cpf daquele garoto. Puta que pariu... Era só o que me faltava. Em plenas férias escolares e ele sendo expulso!

– Mas o que ele fez?

– Aquela coisa com as fotos. Não sei como descobriram só agora, mas recebi um telefonema no trabalho dizendo que não havia nem como pedir revisão de histórico. — ele remexeu mais fundo atrás de papeis amassados — Achei!

– Cadê o Asuma? — quis saber.

– Está me esperando no carro. Vamos fazer matrícula na escola pública que fica a alguns quarteirões daqui.

Pensei por alguns segundos.

– Academia Yashimo Yatobi? — ele murmurou algo como um "uhum" — Mas aquele lugar é para desajustados socialmente.

– Pense nisso como um castigo. — respondeu e me encarou com os olhos cor de mel que meu irmão herdou — E como um aviso. Não acho que terei problemas com você, mas se andar fora da linha, lá será o seu destino.

Concordei meio receoso. Asuma iria para a escola mais estranha da cidade... Talvez de todo o Japão. Aquilo era chocante demais.

– Eu já ouvi rumores sobre eles abrigarem garotos bichinhas, delinquentes e outras maluquices. Espero que seu irmão aprenda alguma coisa quando não estiver cercado de menininhas com saias rodadas. — foi a última coisa que disse antes de sair do quarto.

Tive poucos segundos para pensar a respeito do que ele disse, bolar a ideia, decidir se era uma boa decisão e verbalizá-la, portanto... Não foi a melhor coisa que já saiu de minha boca:

– Pai, eu também vou para Yatobi. — declarei.

Aquela discussão poderia ter levado horas, mas ele estava com pressa e eu fui rápido em pegar meus documentos (que estava organizados em uma pasta separada, lógico), então apenas me mandou trocar de roupa.

X

A matrícula de Asuma estava feita (e podem achar estranho, mas foi oferecido a ele a oportunidade de usar o uniforme feminino ao invés do masculino. Papai ficou ainda mais irritado e disse que ele não andaria de saia por aí). A minha só poderia ser concluída no dia seguinte, quando a escola atual fosse avisada e emitisse os papéis necessários para a transferência. Demos uma olhada na escola que estava vazia devido a época e achei tudo bem agradável. Grandes jardins, boa decoração e até mesmo um cheiro convidativo. As salas de aula eram espaçosas e bem iluminadas, mas o que mais me chamou a atenção foi a biblioteca com sala de estudos. Perfeita!

– Por que exatamente você também está aqui, Kyo-chan? — Asuma me cutucou em dado momento.

– Eu não pensei muito antes de falar. — dei de ombros — Mas agora está feito.

– Não vai me dizer que quer me proteger da galera barra pesada que tem por aqui né? Quer dizer, sou muito mais alto que qualquer um e não sou um fracote como você.

– Há-há. — ironizei — Eu apenas... Quis ver por um outro ângulo.

Onii-san que esteve avoado até agora, mostrou uma expressão de preocupação pela primeira vez no dia.

– Kyo-chan, isso quer dizer que vai... Ver pelo ângulo dela?

– Não sei. E não quero falar sobre isso.

Ele fez um gesto de paz com os dedos. Brega.

– Calma, irmãozinho... Tudo bem. Desculpe. — então sorriu e eu olhei feio para ele. Não estava vendo nada engraçado ali — Estou feliz que esteja comigo.

Antes que eu pudesse responder, ele me envolveu com um dos braços e com a mão do outro bagunçou meu cabelo. Eu tentaria revidar se naquele exato instante a voz grave de nosso pai nos chamando não tivesse ecoado pelos corredores.

X

No dia seguinte, acordei uma pilha de nervos. Sonhei com... Aquela pessoa.

Em busca da acalma, pensei na transferência escolar, o que não ajudou nem um pouco. Acabei me dando conta do que fiz e das consequências inadiáveis que aquela decisão acarretava. Inadiáveis não... A matrícula não estava totalmente realizada e eu ainda podia voltar atrás.

Isso! Não preciso de nada assim! Como pude me deixar levar tão fácil pelo momento? É claro! Eu não preciso ver as coisas por outro ângulo! Há! Como me sinto mais leve agora...

Papai não faltaria ao trabalho outra vez, portanto deixou tudo em minha responsabilidade. Recusei a carona de Asuma e fui sozinho até a Academia Yatobi para esclarecer a mudança de planos logo de manhã.

Assim que pus os pés dentro do prédio, disse a mim mesmo que aquilo seria um erro e eu não deixaria que ela movesse minha vida. Afinal, ontem foi apenas um reflexo do trauma que sofri dias atrás. É, tinha que ser isso!

Abri a porta da secretaria com determinação. Eu não iria estudar naquele lugar!

X

– Demorou a beça, hein, Kyo. — meu irmão estava tranquilo sentado ao sofá comendo batatinhas e lendo um mangá qualquer.

– Eu fiz algo horrível. — declarei fechando a porta com cuidado.

– O que aconteceu? — levantou a cabeça e olhou para mim.

– Papai já chegou? — ele negou e então abri a mochila jogando um pacote em cima de seu corpo. Demorou até ele entender que teria de abrir o saco plástico. Quando o fez, abriu a boca em espanto e puxou algo de lá.

Asuma não disse nada e nem eu. Não havia o que explicar pois estava tudo claro e explícito.

Em seu colo estava um casaco e um colete escolares, junto com papeis assinados e carimbados. Em suas mãos, uma saia quadriculada.

É... Agora sim...

Consequências inadiáveis...

E piores do que antes.

Notas finais
-Damn it*: o mesmo que "merda", "droga", "caralho" etc. Do mesmo jeito que usamos essas palavras e outras para dar ênfase, "damn it" faz esse papel no inglês. -Curiosidade: quando usamos o "etc", não é correto por um "e" ou vírgula. Deve ser escrito como pus ali na definição da expressão. - Não deixem de comentar e até quinta que vem!!!