KOURIN

7 ESPECIAL com Haruka


Notas iniciais
Hoe! Eu tava viajando, gente. Desculpem a demora. Hoje tem um capítulo especial e talvez a amanhã já saia o regular. Aqui vocês ficam sabendo um pouco da história de Haruka. Espero sinceramente que gostem.

"A FESTA", com Haruka

Seus olhos brilhavam demonstrando excitação e impaciência. Provavelmente desejava que eu começasse logo, então foi o que fiz:

– Eu tive muitos problemas para me adaptar a minha nova vida fora da Inglaterra. Meu pai morreu quando eu fiz 8 anos e minha mãe decidiu voltar para sua terra natal pois se julgava incapaz de me criar sozinha num lugar onde não conhecia quase ninguém nem dominava o idioma.

– Espere! Foi rápido demais. E tudo o que aconteceu na Europa?

– Não lembro de quase nada da minha antiga vida. Se quer mesmo ouvir minha história, terá de se contentar com o que aconteceu depois da morte do meu pai. — dei um gole no copo de cerveja que tinha em mãos.

Quando vi que acentiu, senti uma ponta de desapontamento em seu rosto. Que pessoa fácil de ler! Posso saber exatamente o que se passa em sua mente. Sorri antes de continuar. Dessa vez com um pouco mais de calma e detalhes.

– Morei na casa de meus avós por alguns anos e apesar de não gostar muito dos coroas rabugentos, era o lugar onde me sentia mais a vontade. Na escola primária, era zoada pelo meu forte sotaque inglês e principalmente pela cor dos meus olhos — apontei para eles — que na verdade são azuis. Uso lentes de contato castanhas desde os 15 anos.

– Posso ver? — a curiosidade voltou.

– Não. — respondi seca.

– Por quê?

– Porque não posso tirar as lentes assim. Tenho que trocar a água do estojo, ter as mãos limpas... Nada que eu possa fazer agora no meio de uma festa.

– Entendo. — vi seus olhos percorrerem a sala — Parece que não tem ninguém mais aqui. Pra onde foram?

– Acho que estão nos fundos, onde a música está. Devemos ir também? — comecei a me mover para sair do sofá, mas senti sua mão segurar a meu pulso e aquilo me fez congelar.

– Não. Por favor, continue. Sua vida parece tão excitante!

Me ajeitei na almofada, mas antes dei uma olhada no cômodo. Se eu não tivesse sido avisada, acho que jamais perceberia que estávamos a sós. Senti meu coração acelerado e retirei meu braço de seu alcance antes que meu pulso me denunciasse. Tossi para disfarçar meu desconforto.

– Não é necessário dizer que não tive muitos amigos ao longo da infância e se hoje sou carrancuda, grosseira ou algo do tipo, é devido a essa época. No entanto, houve uma menina no alto dos meus 16 anos que me fez tornar uma pessoa quase social. Mizuka. Ela se sentava na minha frente na sala de aula e tocávamos algumas poucas palavras durante o dia até que uma tarde chuvosa nos forçou a ir para casa juntas. Ela costumava ficar até tarde estudando e eu costumava ficar até tarde dormindo.

– Dormindo? — seus lábios escondiam uma risada. E só isso me fez quase rir também.

– Minha mãe trabalhava até as primeiras horas da noite e voltar para casa significava ficar sozinha num cubículo dentro de um bairro perigoso. Eu realmente preferia ficar na escola.

– Entendo. — seus dedos tocaram meu ombro de leve e eu tive de me segurar para permanecer fria e desinteressada naquilo tudo. Não queria que aquela pessoa tão gentil e, confesso, talvez um pouco embriagada, me interpretasse mal.

– Bom, estávamos as duas na escola e começou a chover...

– Ela está nessa festa?

– Não, seus pais foram transferidos e ela se mudou. Não a vejo desde o terceiro ano de ensino médio. Quando soube dela pela última vez, estava morando na cidade vizinha, mas isso faz quase três anos.

– Ah, ok. Continue! Prometo que não vou mais interromper! — sua boca ficou fechada por dois segundos apenas — Você está rindo!

– N-não estou! — me defendi. A voz mais alta do que o necessário — V-vamos para onde a festa está. Vão pensar que estamos...

Me calei antes de dizer qualquer besteira. O que aquela pessoa tinha que me desconcertava tanto?

– Estamos..?

– Estávamos na escola quando começou a chover — continuei a história ignorando seu questionamento — e eu estava a caminho da entrada quando a vi saindo pelo portão sem nem mesmo uma capa. Na mesma hora corri para alcançá-la com o meu guarda-chuva e para encurtar a história, nos tornamos amigas desde então.

Saíamos, estudávamos, ríamos e até mesmo chorávamos juntas durante os dois anos seguintes. Foi a primeira e única amiga que eu tive e foi ela quem me sugeriu usar as lentes e me ensinou a ser mais legal com as pessoas. Talvez por isso eu esteja tendo tanta paciência com você e suas perguntas.

– Talvez. — concordou sorrindo. — Mas você disse que ela foi transferida. Não manteram contato?

– Não. — me limitei a responder apenas isso.

– Por quê? Quer dizer, ela parece ter sido tão importante pra você, Rukya-san.

– Haruka. — consertei.

– Oh, d-desculpe! — suas bochechas ficaram rosadas.

– Tudo bem. Eu também esqueci o seu nome — era verdade, mas eu também estava meio desesperada para mudar o rumo da conversa. Não sei o que me levou a contar a um total estranho sobre minha vida, mas esse pequeno detalhe eu não iria revelar.

"Não agora." me permiti pensar. "Talvez quando formarmos um laço de amizade."

Me surpreendi com a verdade em meus pensamentos. Eu queria me tornar íntima desse ser curioso e irritante. Queria sua energia por perto. Uma essência que irradiava vida e mais que isso: me lembrava dela, de Mizuka. Por quase cinco anos me fiz de forte para não pensar no quanto aquela vibe vibrante me fazia falta, mas agora que alguém tão semelhante estava tão próximo de mim, a menos de um metro de distância... Oh, Deus... Não! Não vou sucumbir a isso! É a bebida, deve ser isso.

– A-acho que vou por isso numa mesa — fiz menção ao copo em minhas mãos.

– Nanami.

– O quê?

– Meu nome. Você disse que também havia esquecido. Eu me chamo Nanami. Naruma Nanami.

– Ah! — ri de nervoso — Claro! Desculpe. Vou por essa cerveja em outro lugar, Nanami.

– Se não quiser mais, eu aceito. Na verdade estava com sede, mas não queria ser rude e interromper mais uma vez a sua história. — ela apanhou o copo e deu um gole longo. Pareceu se deliciar com o líquido amargo — Aliás, pode continuar. Por quê não manteram contato?

Droga! Achei que ela já havia trocado de área de interesse.

– Não sei. Ela parou de falar comigo... — desconversei coçando o queixo. E também não era totalmente mentira.

Ela deu outro gole e por um momento desejei beber daquele copo mais uma vez. Mas só por um momento.

– Continuando, depois dela ir embora, não tive nenhum amigo em especial. Apenas algumas pessoas com quem estudava ou colegas de trabalho.

– E agora? Nenhum namorado ou amigos?

– Não. Alguns namorados durante a faculdade, mas nada importante... Mas você é bem direta né? — ela riu.

– Sim, desculpe por isso. Também não sou mestre em convivência social. Meus pais forçam muito a barra no quesito de estudos, então quase não tenho tempo para conhecer pessoas novas. — e então piscou duas vezes fazendo com que seus enormes cílios prendessem toda a minha atenção. Pode parecer loucura, mas o seu jeito de se mover e falar insinuava algo mais e eu quase desejava que não fosse coisa da minha cabeça.

– Mas é amiga dos donos da festa? — eu estava realmente interessada, isso é estranho. Mas também estava nervosa. Sua intensidade parecia ter dobrado e eu quase não estava aguentando me manter passível. Ela estava ou não estava dando em cima de mim? E eu iria ou não iria me permitir cair em sua tentação?

– Sim. Na verdade são meus vizinhos. Eu moro na casa esverdeada — ela apontou pela janela como se no escuro da noite eu pudesse identificar a cor da casa ao lado. — Se não fosse por isso, jamais poderia entrar numa festa universitária dessas...

Agora meu coração quase saiu pela boca.

– Quantos anos você tem, Nanami?

– 17.

Mal ela havia terminado de falar, arranquei o copo de sua mão esquerda e vi seus olhos me encararem com tristeza.

– O que você pensa que está fazendo num lugar desses?! Sabe que horas são? E pelo amor de seus pais, não beba se não tiver 21 anos!

– Não me trate como criança! Sou muito madura e inteligente. Talvez mais que você... — e indo de encontro a tudo o que disse, cruzou os braços em frente aos seios e revirou os olhos.

– Não acredito que deixei uma estudante beber minha cerveja... Eu poderia ser presa! E pior, eu estava pensando em te beijar! Isso sim seria motivo para ir pres...

Arregalei os olhos quando ouvi as palavra que saíram de minha boca. Arrisquei olhar em sua direção na esperança tola de que não tivesse me escutado.

Seus olhos estavam igualmente abertos em espanto e ela estava imóvel. Acho que devia significar que sim, ela ouviu o que eu disse.

Entrei em pânico e imediatamente me lembrei de quatro anos e seis meses atrás: Estava esperando Mizuka na saída da biblioteca como sempre fazia as tardes. Mas dessa vez seria diferente, eu tinha algo a dizer e não tinha nada a ver com álgebra ou história. Quando a vi se aproximar, meu peito se encheu de alegria e nem mesmo a cumprimentei antes de me declarar. Eu não tinha dúvidas, eu amava aquela menina e queria mais que tudo que ela fosse minha de vez.

Uma pena que ela não pensasse o mesmo...

– H-haruka? — a voz das duas se confundiu em minha cabeça e eu não sabia se estava num sofá ou num corredor de escola. Não importava muito, pois em ambos eu estaria sozinha com a pessoa que estava prestes a me rejeitar e a dor que a ansiedade causava parecia duas vezes maior.

– Eu não quis dizer isso! — fechei meus olhos com força enquanto minha voz se perdia entre as duas cenas. Eu estava repetindo o meu maior pesadelo. A memória que lutei para manter presa nas profundezas de minha mente.

– Haruka, olhe para mim. — era Mizuka falando? Não. Abri os olhos e vi apenas uma pessoa: Nanami, a menor de idade que eu mal conhecia mas que já me sentia tão conectada. — Você disse que queria me beijar.

– Não quis dizer isso... Me desculpe, eu... — tentei controlar a situação, mas nada me vinha. Palavras me faltavam. Mas eu tampouco desejava fugir. Era ela. Aquela energia que me mantinha presa aqui.

– Acho que eu vou para casa. Está tarde. — declarou enfim e eu senti a garganta apertar. Era isso. A rejeição.

– Mesmo assim foi bom te conhecer, Nanami... — baixei o rosto por pura vergonha e tristeza. Nunca mais estaria perto daquela essência intrigante e inquieta novamente.

– Me leve até lá. — sua ordem disfarçada de pedido me surpreendeu e demorei alguns segundos para responder.

– Claro.

Não foi necessário nos despedirmos dos demais (eles não sentiram nossa falta por tanto tempo), então apenas pegamos nossos casacos e bolsas e saímos pela porta que já estava aberta.

O caminho até sua casa era obviamente curto, mas eu pedia desesperadamente por algo. Qualquer coisa que estendesse nosso tempo juntas.

Chegando ao seu portão que, pude observar, dava acesso a um jardim, ela parou. Não trocamos nenhuma palavra antes disso, então achei que eu devia começar com a despedida.

– Boa noite. — tentei não deixar transparecer como dizer aquilo doeu em mim, mas àquela altura, duvido que fizesse alguma diferença. — Vou andando... Minha casa é bem longe daqui.

– Boa noite, Rukya.

Sorri mas senti meus lábios tremendo.

– É Haruka, eu já disse antes.

– Eu sei. Mas acho que combina com você. Pode ser um apelido.

– Nunca tive apelidos.

– Então acaba de ganhar um — ela parecia um pouco desconfortável, mas mantinha a serenidade. Sua mão pousou sobre a maçaneta, mas não girou. — Quer entrar?

Não acreditei de início no que ouvi.

– Você disse que morava longe. Pode entrar e pedir um taxi se quiser. Aqui fora não é exatamente seguro.

Assenti sem pronunciar uma palavra, nem mesmo para agradecer por tamanha vergonha que sentia. O que eu pensei? Que ela estava me convidando para dormir em sua casa? Tenho 23 anos, está mais do que na hora de crescer! E já desisti de meninas faz séculos!

– Vamos entrar pela porta dos fundos então. Meus pais vão surtar se souberem que estou chegando a essa hora.

– Estou atrás de você.

Seguimos pelo jardim e demos a volta na casa que não era tão grande. Chegamos a uma pequena porta de madeira ao lado de onde um carro estava estacionado.

– Faça silêncio — pediu ponto o indicador na frente dos lábios enquanto usava a outra mão para buscar o molho de chaves dentro da bolsa — O quarto da minha irmãzinha é bem acima da garagem e ela é bisbilhoteira.

– Tudo bem. — respondi e esperei por a chave no trinco, mas ela não o fez — O que foi?

– Essa Mizuka — ela não estava olhando para mim então pela primeira vez não pude ler o que se passava em sua cabecinha equanto cochichava — não era... Como você.

Não foi uma pergunta. Finalmente seus olhos pararam em mim e pude ver que estava corada, mesmo com a luz fraca da lua e de um lampião decorativo que pairava sobre nossas cabeças pendurado por um fio quase invisível.

Assim como o fio que me ligava a ela: de aparência frágil e quase inexistente, e no entanto tão forte.

– E se... Eu fosse como você?

– Não estou entendendo — sussurrei com os lábios secos e o pulso acelerado como nunca.

Ela levantou o rosto de vez e me encarou com determinação, mas seus olhos denunciavam o medo.

– E se não fosse só você? E se eu também quisesse te beijar?

– Nesse caso, acho que teríamos que tomar uma providência — respondi enquanto uma força sobrenaural movia meu corpo em direção ao dela. Minhas mãos encontraram seus cabelos longos e sedosos quando segurei sua cabeça e fiquei ciente do peso que joguei sobre ela assim que suas costas tocaram a parede com força, mas sua expressão não sinalizou nenhum traço de dor.

Não tinha como voltar atrás e, de verdade, eu não queria voltar. Com a respiração ofegante de ambas se juntando num único som, decidi ignorar a parte de mim que alertava quanto as consequencias do que iria acontecer naquele momento precioso.

Seus olhos brilhavam demonstrando excitação e impaciência. Provavelmente desejava que eu começasse logo, então foi o que fiz.

Notas finais
Repararam no primeiro e último parágrafos? Estou orgulhosa por ter feito isso (sim, me contento com muito pouco hahaha) E agora é a vez de vocês! Me digam oq acharam! Agradeço desde já. Beijos e até!