K²
2 Não da forma mais romântica...
Acordei, tomei banho, café, o ritual matinal de sempre e fui até a escola. Procurei pelos corredores, na biblioteca e até em outras salas de aula, mas não encontrei Kyle, não era comum ele faltar, mas talvez não estivesse se sentindo bem. Tentei ligar e mandar mensagens algumas vezes, mas ele não respondeu.
As aulas foram entediantes como sempre, ainda mais devido ao fato de Kyle não estar lá. Joguei PSP durante algumas aulas, em outras dormi, em outras fingi prestar atenção para fazer rabiscos, normal.
De vez em quando me pegava pensando no ruivinho, em seu aroma, em sua voz, ah... Como eu queria que ele soubesse o que sinto. Quando as aulas acabaram vi em meu celular uma mensagem.
‘Estou passando mal.’- KB
No dia seguinte foi o mesmo, ele faltou novamente. Quando fui perguntar ao Stan o que havia acontecido com Kyle, ele evitou responder minhas perguntas e me evitou o resto do dia. Será que haviam brigado? Kyle ainda não atendia o celular então resolvi ir pessoalmente a sua casa.
Passando mal, doente ou não, nada era motivo para se excluir do mundo exterior. Ainda mais depois da forma como Stan reagiu, tenho quase certeza de que os dois brigaram ou algo assim.
Toquei a campainha e bati na porta algumas vezes, ninguém atendia. Seu pai trabalhava o dia todo e sua mãe devia estar assistindo a algum jogo de seu irmão. Estava quase indo embora quando vi a janela de seu quarto aceso.
Dei meia volta e voltei a insistir na porta, depois de um tempo ela se abriu. Entrei logo, pois estava muito frio lá fora, nada como o delicioso inverno de South Park para congelar até os ossos. Quando fechei a porta me deparei com Kyle em uma expressão muito diferente da habitual, estava deprimido, pra baixo, olhava para seus pés como se fossem interessantes e pude ver seus olhos avermelhados e rosto molhado como de quem andou chorando.
“O que foi?” Ele me perguntou, sua voz estava péssima.
“Eu tinha algumas dúvidas e queria sua ajuda” menti.
Ele esfregou seus olhos em sua manga, usava uma camisa grande branca de manga comprida e uma calça de pijama azul. Ele fez um sinal para que eu o seguisse até seu quarto. Normalmente seu quarto é impecavelmente arrumado, mas estava bagunçado, com folhas no chão e cama desarrumada, não tão pior que o meu quarto, mas não é habitual dele deixar as coisas assim.
Ele andava sobre a bagunça como se não ligasse, pisou em algumas folhas e num lápis e mal pareceu perceber. Acendeu a luz, sentou-se em sua bagunçada cama ainda sem me olhar no rosto.
“Você está bem?” Tentei colocar minha mão em seu ombro para reconforta-lo, sentando-me ao seu lado.
“Como assim? Eu estou ótimo, digo...” Ele coçou a garganta para ajeitar a voz. “É só um resfriado. Quais são suas dúvidas?”
Já basta, eu não sou idiota. Ótimo? Desde quando ficar até tarde largado em casa, na bagunça, no escuro é o seu estado de “ótimo”?! Ele vai me contar o que está acontecendo de qualquer maneira! Não aguento ver a pessoa de quem mais gosto se corroendo e ficar fazendo vista grossa, quero que ele confie em mim.
“Cara, olha só para você, não vai à aula há dois dias, está obvio de que estava chorando e não quer me dizer o motivo! Eu até perguntei para o Stan, mas-”.
“STAN? O que você ouviu do Stan?” Ele me interrompeu um pouco assustado e elevando consideravelmente seu tom de voz, foi inesperado, acho que fiquei com uma expressão de assustado muito óbvia porque ele logo sacudiu a cabeça e tentou corrigir o que havia dito. “Digo... ele disse alguma coisa... de mim?”
“Vocês brigaram?”
“N-não...” Ele voltou a desviar o olhar de mim. “Não é nada.”
“Já chega!” Segurei seu rosto em minha direção para que pudesse encarar bem seus olhos verdes com meus olhos azuis.
Seu olhar sempre tão vital se encontrava completamente estarrecido, seu rosto rosado sem vida, me doía o peito ter que vê-lo nesse estado sem poder ajuda-lo, sem saber o que se passa.
“Porra Kyle! Não vou sair daqui até que me conte o que aconteceu, nunca te vi tão arrasado, chorando, deprimido, nem parece você! Alguém da sua família morreu? Foi o Cartman que aprontou?”
“K-Kenny...”
“Nem tente me enrolar!” Estava elevando consideravelmente meu tom, quando o soltei. Pude percebê-lo assustado comigo, mas mesmo assim continuei. Sentei-me na porta para mostrar que ele só sairia dali por cima de mim. “Confie um pouco em mim, droga!”
Deu um soco na porta do quarto, enquanto encarava com uma expressão bem séria o ruivo, minha respiração era pesada, e eu já estava praticamente gritando com ele.
Ele segurava nas pontas de sua camisa e olhava para os lados nervosamente, voltou a encarar o chão tentando segurar as lágrimas que voltavam a preencher seus olhos. Respirou fundo e me contou.
“Eu me confessei para o Stan.” Ele disse quase que sussurrando.
Demorei um pouco para processar o que havia me dito, fiquei alguns segundos parado na porta abaixando meu braço e olhando para ele, que esperava uma resposta minha, segurando alguns soluços. Não pude deixar de esconder que estava surpreso, eu já havia suspeitado, mas ouvir da boca do Kyle é bem diferente.
“O que?” Foi a única coisa que consegui dizer.
“Eu me confessei Kenny! Eu gosto, gostava do Stan! Eu sou gay, sempre fui, mas recentemente comecei a ter sentimentos por ele! Mas que se dane porque ele me rejeitou! E de forma tão cruel...” Ele apoiou sua cabeça nas mãos e não conseguia mais conter as lágrimas que escorriam pelo seu rosto. “Eu achei que como meu amigo ele seria ao menos compreensivo, mas não foi. Ele me olhou como se eu fosse um estranho, como se eu fosse uma aberração! Éramos melhores amigos há dois dias e agora ele nem quer falar comigo, eu estraguei tudo. É tudo... culpa minha.”
Kyle estava totalmente desarmado, continha seu choro a todo custo, falhando a cada lágrima que escorria de seus olhos e soluçando fortemente. Eu sentia uma mistura de sentimentos entre pena de vê-lo em tal estado, esperança de saber ele gostava e homens e ciúmes por não ser a mim que ele gostava. Confesso que o ciúme foi a parte mais forte, e depois se tornou em um pouco de raiva.
“E você Kenny, vai rir de mim? Também vai me abandonar? Também me acha estranho e nojento? Agora é questão de tempo até toda a escola descobrir e fazer os meu ultimo ano um verdadeiro inferno!”
Senti-me bastante ofendido com esse comentário, o que provava que Kyle realmente não me conhecia tão bem quanto eu o conhecia. Estava um tanto furioso com o fato de ele achar que eu o descriminaria por algo tão besta, até porque EU gosto dele, e muito.
Fui até Kyle e segurei seu rosto para que me olhasse nos olhos novamente, meu peito doía com a ofensa, eu precisava de algum jeito conseguir transmitir o que sentia. Aproximei meu rosto do seu até que pudesse sentir nossas respirações se misturarem.
Eu o beijei da forma mais apaixonante que pude quando ele tentou dizer algo, aproveitei a brecha para colocar minha língua em sua doce e vulnerável boca. Passei meus dedos por entre seus cachos, sentindo seu cheiro que acelerava a cada segundo mais o meu coração.
De repente, Kyle interrompeu nosso beijo empurrando-me e separando nossos corpos. Estava um tanto ofegante.
“O-o que está fazendo?!” Disse levando lentamente sua mão até seus rosados lábios.
Eu o abracei forte e falei calmamente.
“Eu gosto de você Kyle, saia comigo.”
“O que?” Ele estava tão surpreso que não chorava mais.
“Eu gosto de você. Muito, e quero que você saia comigo, que me de uma chance.”
“Kenny...” Ele me olhava um pouco confuso.
“Recomponha-se, amanhã não tem aula. Pense um pouco e descanse um pouco.” Eu me levantei e fui em direção à porta. “Olhe, eu posso não ser o Stan, mas eu realmente gosto de você... então amanhã passarei aqui para ouvir sua resposta.” Deixei clara a determinação em minha voz e sai de seu quarto, desci as escadas e fui pra casa.
No caminho chutei algumas latas, estava realmente com raiva, não da forma não romântica como tive que confessar minha queda, mas por ver a pessoa que fazia meu coração bater mais forte chorando o nome de outro. Nunca pensei que eu fosse capaz de sentiu ciúme tão facilmente.
Mas de uma coisa eu tinha certeza, agora que tinha começado algo iria terminar, iria fazer Kyle se apaixonar por mim de qualquer maneira!
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