Júpiter e Vênus
10 Que porra. Para de me coisar
Notas iniciais
GABRIEL
Era um dia chuvoso de verão. A lama corria violenta pelo chão da grande fazenda Liberal. Cruzei os braços, sentindo um pouco de frio. Olhei para minha mãe. Ela tinha uma expressão séria no rosto. Era hora de conversar com a tal de dona Juliana. Precisávamos daquele emprego. Se ela conseguisse, metade de nossa vida estava resolvida. Se não... Bem... Tínhamos que ser otimistas.
— Gabriel, lembra do que a gente combinou. — disse alto, num tom profundo. — Fica quietinho.
— Tá bem. — prometi.
Subimos a escada de pedra que levava até a casa principal. A porta da sala, devia ser sala, estava aberta. Uma mulher de cabelos loiros nos esperava, sentada num confortável sofá branco. Ela usava umas roupas bonitas. Tinha olhos azuis marcantes e uma pele clara de porcelana.
— Nadia. — sorriu. — Esse deve ser o Gabriel, certo?
— É. O meu caçula. — minha mãe confirmou.
— Bonito. Parece com você. Mas sente-se. — apontou para o lugar vago ao seu lado.
Minha mãe me puxou pelo pulso e sentou-se comigo no colo. As duas mulheres começaram a falar de assuntos aleatórios, que nada tinham a ver com o tema trabalho. Isso era bem estranho. Encostei-me junto ao seio de minha progenitora com uma carinha bem entediada. Quando de repente, um menino magrelo, da minha idade com certeza, passou correndo com um carrinho na mão. E que carrinho! Eu conhecia o modelo, o via diariamente nos comerciais de TV. Endireitei minha posição, bastante interessado.
— Ah, esse é meu filho Pedro. — dona Juliana mencionou. — Pedro, vem cá.
Ele estacionou os passos com aquela expressão de quê? Tá falando comigo?.
— Mas mãe! — resmungou.
— Agora, Pedro. — a dona deu um olhar bem enfático.
Pedro, com o maior bico, aproximou-se. Notei que seus cabelos eram loiros como os da mãe, embora levemente mais escuros. Os olhos eram castanhos. Tamborilei os dedos na coxa, somente pensando no carrinho que ele segurava como se fosse um objeto qualquer.
— Essa é a Nadia. E esse é o Gabriel. Diga oi pra eles.
O menino franziu as sobrancelhas claras.
— Oi. — murmurou zangado. — Posso ir?
— Não quer chamar o Gabriel pra brincar? — dona Juliana continuou.
— Claro que não. — e saiu antes que houvesse protestos. Encolhi-me, tendo a vasta certeza que meu coração estava despedaçado. O carrinho...
A mulher suspirou.
— Desculpa. Pedro é um pouco... Ele dá um pouco de trabalho. Muito, na verdade. — sorriu amarelo. — Só quero saber isso, você pode dar conta?
— Não, tudo bem. — minha mãe respondeu. — Claro que posso. Cuidei de muitos meninos nessa vida. É tudo uma questão de jeito.
***
Meti o rosto no travesseiro depois de me recordar daquela cena. Pedro sempre foi antipático desde o início dos séculos. Ele insistia em mostrar a cara prepotente. Cruzei os braços e olhei para a janela aberta do quarto. Já seria umas três da manhã. Não tinha certeza se o playboy já havia dormido. Torci para que sim. Por mais que o loiro fosse um idiota total, eu não gostava de vê-lo sofrer. De jeito nenhum. Quer dizer, não gostava de ver ninguém sofrer. Pedro não era especial, que fique bem claro.
Apoiei a cabeça no cotovelo. Seria a segunda noite seguida que eu não dormia direito. Era difícil. Eu troquei os lençóis da cama mais cedo. Contudo, a essência da mistura de álcool com o perfume caro de Pedro impregnava o lugar. O que eu faço?
Ele nem lembrava. Não que eu quisesse isso. Pedro realmente não podia lembrar. E era o que dava, certo? Ter beijos gays por aí com bêbados inconsequentes.
Eu não s...
Arranhei as bochechas. Uma semana negando algo pra quê? Pra se jogar nos braços do filho da mãe? Suspirei zangado. Eu aceitava bem a homossexualidade de todos os homossexuais que conhecia. Nunca fui preconceituoso. O problema era em a coisa acontecer comigo. Mas tudo bem! Se era pra acontecer, que acontecesse! Mas tinha que ser com o Pedro? Sério, tem muito homem no mundo. Deve ter uns três bilhões de homens no mundo. Muito homem. Cara, são três bilhões! Por que com o Pedro, por quê?
[...]
Quase soltei uma risada no momento em que Pedro colocou o pé na cozinha. Ele estava tão engraçado e tão... fofinho. Seus finos cabelos loiros misturavam-se num bolo confuso, como se cada fio possuísse vida própria. Os olhos inchados e as bochechas amassadas davam um toque especial. Bem, pelo menos, pelo menos, o playboy havia se vestido. Ficar de toalha como na noite anterior não seria uma coisa muito legal para mim... Droga.
— E então? Como tu tá hoje?
— Bom. — resmungou já sentando-se junto a mesa.
— Hmmm. — até parece que Pedro me agradeceria. Não era do feitio dele.
Observei-o catar duas fatias de pão e metê-las na boca sem muita cerimônia. Ele nem se preocupou de pegar manteiga e café. Comecei a mexer no celular para disfarçar meu olhar indiscreto. E eu nem sabia por que raios estava encarando. Ou sabia?
— Vai sair hoje? — questionei ao mesmo tempo que checava as milhares de mensagens do WhatsApp.
— Talvez. — murmurou com comida entre os dentes. — Não está nos meus planos ficar olhando pra essa tua cara azeda.
— E tu acha que tá nos meus? — retruquei.
Pedro revirou os olhos.
— Vai pra onde?
— Estudar. — encolhi os ombros.
— Nerd. — suspirou entediado. — Devia beber, sei lá.
— Você devia beber de vez quando, Gabriel. Cala a merda dessa boca. Ah pera, sei um ótimo jeito de calar ela.
Mordi o lábio com força. Tanto que uma gotinha de sangue acabou descendo. Obrigado, Pedro, por evocar a porcaria da memória do beijo. Eu devia ter cometido um pecado extraordinariamente grande. Era castigo.
— Pra que beber? — murmurei.
Ele parou de mastigar e pôs seus orbes castanhos dentro dos meus.
— Pra... Pra... Pra... Me... Pra gente... Pra se divertir, trem idiota. Para de ser certinho ao menos uma vez na vida. Que porra. Para de me coisar. Para de fazer perguntas difíceis. Para de ser babaca. Para de ser você, Gabriel.
E sem mais nem menos, levantou-se e saiu.
[...]
Para minha mais completa frustração, não foi Iara quem veio abrir a porta para mim, e sim, Bianca. Ela usava uma vestido branco ligeiramente curto. Seus fios dourados estavam presos num rabo-de-cavalo. Sorri amarelo.
— Cadê a Iara? — questionei, procurando não ser grosso.
— Foi na rua, comprar alguma coisa. — respondeu. — Entra.
Com as sobrancelhas arqueadas, entrei. Pus a mochila num canto qualquer e sentei-me no sofá. Eu não tinha muita ideia do que fazer.
— Então. — Bianca sentou-se ao meu lado. — Nem me ligou ontem.
— Achei que tu tivesse de ressaca. — dei de ombros. — Não sei se você lembra, mas bebeu pra caramba na festa.
A loira mordeu o lábio.
— Pior que nem sei o que fiz. Só me recordo da Iara me puxando pra algum lugar e depois... Branco total. Droga. — riu. — Nunca bebi tanto. Que vergonha.
Eu me recordo do que tu fez, pensei meio incomodado. Iara transou com a guria bêbada no carro do playboy. Eu sabia de todo o esquema. Minha amiga sempre inventava coisas loucas assim. Durante a festa não raciocinei direito sobre o que estava acontecendo. Só queria me livrar de Bianca. E após, a preocupação com o bendito beijo de Pedro apossou-se dos meus pensamentos.
— É... Acho que é normal, sei lá. — ergui as mãos no ar, tentando expressar indiferença.
— É, talvez. Uma vez na vida não mata.
Abri a boca para mudar o assunto. Mas a fechei assim que senti o toque delicado de Bianca na minha perna. Baixei a cabeça. Seus dedos brancos subiam devagarinho. Segurei seu pulso e a fiz parar. Ela franziu o cenho. Cerrei os dentes. Depois de sexta, uma certeza irritante começou a nascer: eu curtia a fruta. E não adiantava fugir disso. E não era meu direito usar a garota como eu estava usando.
— Bianca... — disse. — Nós dois... Isso de nós dois... Não rola. — suspirei. — Não gosto de você. Eu deixei levar, mas... Não posso te machucar.
Ela fechou os punhos. Seus olhos azuis, de repente, pareceram carregados de mágoa. Engoli em seco. Eu realmente detestava machucar as pessoas. Cruzei os braços, esperando alguma palavra.
— Tudo bem. — falou olhando para o nada. — Sempre percebi que tu não correspondia. Mas... Tinha a esperança que fosse impressão minha. — sorriu. — Tudo bem, Gabriel.
O som estrondante da porta se abrindo com força salvou minha pele. Nós dois nos viramos. Obviamente, era Iara. Ela segurava uma sacola branca, cheia de salgadinhos. Seu rosto exibia uma expressão cansada.
— Estudar, jovens. — ordenou, largando a sacola no raque. — Chega de nheco-nheco aí.
[...]
Estudamos como gente civilizada. Claro, não exagera. Iara deu umas bizoiadas nada discretas em Bianca, Bianca evitou olhar para a minha cara. Mas fora isso, tudo normal. Quando já estávamos nos aproximando das seis da tarde e uma tempestade dava seus primeiros sinais no céu, Bianca se despediu. Disse que não queria pegar chuva. Iara e eu, então, largamos as apostilas num canto qualquer e começamos a conversar sobre as gatinhas do campus. Não preciso nem dizer que era Iara quem guiava o assunto.
— Aí tem a Paula do sétimo período. — a garota comentou animada. — Que mulher maravilhosa, gente... Dá até um calor. — abanou o pescoço. — Uau. Mas a Laura da Medicina, acho que tu não conhece, céus, nem sei o que dizer.
Fez uma pausa e continuou num outro tom:
— Mas tem a Bianca. — suspirou. — E a Bianca... Pera... O que tu fez com ela? Senti o clima.
— Eu disse que não gostava dela. — respondi pausadamente. — E que nós dois não dávamos certo. Acho que ficou magoada, sei lá.
Iara deu um soco na minha testa.
— Seu bruto! Por isso que ela foi embora cedo.
— Eu disse a verdade! — repliquei.
Ela revirou as órbitas.
— Homens.
— E o que eu tinha que fazer? — franzi o cenho, completamente confuso.
— Eu não sei, mas não era assim! — exclamou.
— Socorro. — ergui as mãos no ar.
A índia, de repente, abriu um sorriso do tamanho do Universo.
— Pera. Então, admite que me enrolou a semana inteira. Interessante. O que aconteceu pra tu parar de dar uma de super hétero? Porque o teatro não convenceu ninguém, jovem.
Abracei os joelhos. Não dava para guardar aquilo comigo mesmo. Iara poderia me ajudar. Mas... Por que era tão difícil verbalizar uma única frase? Fechei os olhos e movimentei os lábios. A princípio, um som ininteligível saiu. Contudo, logo começou a fazer sentido.
— Beijei um cara.
Entreabri as pálpebras, com a respiração pesada e o coração descompassado. Iara, ao meu lado, me encarava embasbacada.
— Finalmente saindo desse armário!
— Vai se fuder. — sorri, tentando me acalmar.
— Mas quem tu beijou?
Mordi o lábio. Ajoelhou, tem que rezar. Cerrei os punhos.
— Pedro.
Iara levantou-se num pulo e começou a andar pela sala feito doida.
— Puta que pariu, puta que pariu, puta que pariu, puta que pariu, puta que pariu. Caralho, cacete, merda, droga, buceta, porraaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa. Aquele Pedro? — puxou os próprios cabelos. — AQUELE PEDRO?
Se minha situação não fosse meio trágica, eu teria gargalhado.
— Unrum.
A menina parou.
— Não, Gabriel.
— Sim.
Ela novamente começou a andar pela sala feito doida.
— Ai Alá, Vênus, Tupã, Jesus, Amon-Rá, Thor e não sei mais quem... Puta que pariu, Gabriel Mendes! Tem tanto bofe maravilhoso no mundo. Já viu os jovem da Medicina? Só pitel! — disse. — Aí tem os do Direito. Os da Biologia... Os da Moda. Os da Moda são bofes só o filé... Mas porra! Tu tá fudido. Dá nem pra comemorar tua saída do armário. Ah Buda...
— Não precisa me lembrar que tou fudido. — murmurei.
— Tá, mas me conta isso direito. — replicou, voltando a sentar.
Por uma hora, fui torturado. Iara me arrancou todas as informações que podia e mais um pouco. Tive que contar todos os detalhes da coisa, como por exemplo, a cor da toalha de Pedro (algum deus tenha piedade de mim). Ela riu pra caramba da minha pobre pessoa. Quando finalmente consegui terminar a história, espreitei minha mochila. Discretamente, agarrei uma alça.
— Se bem que tanto ódio entre vocês... — comentou. — Droga, como fui burra!
—Vou emboraa... — cantarolei.
Levantei-me do chão, cheio da inocência.
— Ei, a gente não acabou! — ela bradou. — E ainda tem os salgadinhos que a gente esqueceu de comer!
— Tem nada não. — dei de ombros. — Sei que a gente vai acabar noutro dia. E não tô com fome.
Sem esperar por outro movimento ou palavra de minha amiga, despachei-me para a porta. Esgueirei-me pelo beco que dava acesso à rua, correndo tão rápido quanto qualquer atleta profissional. A chuva caía forte.
— Como sempre... Covarde! —Iara gritou. Mas eu já estava longe o suficiente.
[...]
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