Júpiter

9 As luas de Júpiter III


Notas iniciais
Lisiteia, Calique e Almateia.

A mãe de Júpiter nos fitou com olhos vermelhos e inchados. O pai estava com uma mão em seu ombro e a outra no topo da cadeira. Estavam acabados – não que algum de nós estivesse esperando encontrá-los em melhor estado.

Engoli em seco. Senti que precisava chorar também, ou eles me odiariam. Mas Júpiter me odiaria mais ainda por chorar por ele, forçadamente, na frente dos pais. Obriguei-me a dar um passo à frente do grupo, quase esmagando o caule do pobre girassol – pelas flores nos buquês amontoados no banco ao lado da mãe de Júpiter, meu girassol realmente parecia pobre.

Loren me cutucou entre as escápulas para que eu abrisse logo a boca.

— E-Eu trouxe para ele – estendi a flor para ela, sem jeito.

Fiquei esperando que a mulher começasse a chorar de novo, porém, ela sorriu e assentiu com a cabeça. Seu marido fez o mesmo, deixando-a um instante para a abrir a porta para nós.

O necrotério do hospital tinha paredes cinzentas e tristes, era frio como Júpiter disse que o espaço deveria ser e metia dedos arrepiantes através do meu moletom. Um gaveteiro cobria uma parede inteira e três macas dispostas pela sala. Todas estavam ocupadas, com um lençol de azul melancólico cobrindo os corpos.

— Não acho que eu consiga fazer isso – sussurrei para Loren.

Igor parou ao meu lado, segurando nossa bola de isopor pintada de Júpiter.

— Ahn, acho que não podemos simplesmente deixar essas coisas aqui – seus murmúrios pareciam altos demais no necrotério.

— Bom, agora já estamos aqui e você precisa fazer isso.

— Eu disse que deveríamos esperar pelo enterro – Igor apontou para as macas com nosso Júpiter pintado de guache.

O pai de Júpiter disse que tínhamos pouco tempo, porque alguém da equipe médica poderia nos pegar ali e isso seria um problema. A porta foi fechada aos poucos e aí eu soltei o ar de uma vez.

— Acho que vão jogar nossos presentes no lixo – fitei a maca do meio, onde uma prancheta de acrílico indicava que Júpiter G. Ortega estava deitado solenemente ali. – Vão prepará-lo amanhã para o funeral.

— Nós avisamos – Igor revirou os olhos, colocando-se a caminho de Júpiter com Loren. – Agora anda logo. Não ouviu o que o pai dele disse?

Aproximei-me da maca com passos cautelosos. A situação tinha um quê de comicidade – que só Júpiter entenderia –: estávamos sussurrando, como se tivéssemos medo de incomodar os mortos, mas eles jamais nos ouviriam.

Eu queria que Júpiter me ouvisse.

Fazia dois dias que eu o vira pela última vez e algumas horas que ele tinha morrido. O choque de ouvir o choro estridente de sua mãe no telefone ainda reverberava em meus ouvidos. Ele se foi. Não descobriram a causa da morte. O difícil não era acreditar, mas conceber que nenhum milagre o salvara.

Igor esticou a mão para descobrir o rosto de Júpiter, mas Loren segurou seu pulso com seu melhor olhar de adulta.

— Não. Não temos o direito.

— Somos amigos dele – Igor se defendeu, parecendo ofendido.

Meu estômago embrulhou por um segundo, e no seguinte o som do sistema de refrigeração do necrotério parecia ensurdecedor no meu ouvido. Sacudi a cabeça, tentando afastá-lo. Uma Voyager estava orbitando ao redor da minha cabeça com sons indecifráveis, ainda mais ensurdecedores do que as vespas brilhantes.

— Não importa – interrompi a discussão dos dois, passando por Igor.

Minha mão se moveu no automático, descobrindo o rosto de Júpiter. Mordi o lábio inferior com a visão de seus cabelos quebradiços e sua pele leitosa manchada com pintinhas marrons. Sua expressão não era serena como minha mãe tinha sugerido – Ele vai estar tranquilo, Henrique. Longe disso, ele parecia estar dormitando no meio da aula de História, incomodado com o barulho da sala, pensando sobre estrelas longes demais de nossas vistas.

Sobretudo, Júpiter parecia não estar mais lá. E realmente não estava.

— Que a força esteja com você – parecia ser o adeus adequado.

Tentei oferecer meu melhor sorriso ao cadáver de Júpiter, enquanto colocava o girassol sobre seu peito coberto. Beijei sua testa gelada e morta lentamente, dei uma última olhada nas rugas de suas pálpebras e fugi para a porta.

Quando irrompi na sala de espera, foi como se alguém tivesse perfurado meus pulmões. Era difícil respirar e a gravidade estava me puxando com mais força do que o normal. Loren abriu a porta atrás de mim no momento em que meus joelhos encontraram o piso vinílico.

— Você está bem? – O pai de Júpiter estava sobre mim, se agachando para encontrar meus olhos.

— Henri? – Igor escorregou para o chão ao meu lado. – Que foi, cara?

As palavras se esfumaçavam dentro da minha boca antes que eu conseguisse abri-la. Loren me chamou duas vezes, e a mãe de Júpiter parou de soluçar para me dedicar um olhar preocupado e vermelho.

Eu queria dizer não ao pai, mas a mãe precisa muito mais das condolências do que um namorado – não declarado e somente subentendido – de primeira viagem.

— S-Sim – balbuciei, aceitando a ajuda de Igor para levantar –, seu estou bem.

Ainda assim... Está tudo bem, não está?

Nada estava bem.

Nossa sala ficou de luto no dia seguinte, quando o diretor pediu encarecidamente para que todos comparecessem ao funeral de Júpiter. Eu, Loren e Igor ouvimos pêsames simbólicos e recebemos abraços durante os dois períodos de aula. A carteira de Júpiter foi retirada em sinal de respeito, mas uma parte dele se sentou atrás de mim até que o sinal da saída bateu.

Segui meus amigos para o hospital mais despedaçado a cada passo. Nossas roupas eram coloridas para a ocasião – substituindo o uniforme às pressas –, mas Júpiter não iria querer que nos vestíssemos com a cara de enterro que todos mostravam para ele quando seu coração ainda batia.

Igor comentou sobre a gargalhada de Júpiter e Loren tentou me animar com a notícia do lançamento de um novo modelo de telescópio – dava para ver Júpiter com esse. Sorri tão fraco quanto eles, enquanto voltávamos a vestir nosso figurino.

Uma enfermeira apareceu para nos ajudar na recepção do hospital, nos guiando até a capela. Descemos um andar, atravessando corredores extensos e vazios. Uma pequena sala de espera surgiu em meu campo de visão, mas desapareceu antes que eu pudesse virar a cabeça para compreendê-la. A enfermeira nos disse que havia outras duas famílias esperando para o pré-funeral de seus mortos depois da de Júpiter.

A capela ficava no final do corredor mais largo pelo qual passamos, atrás de grandes portas de vidro colorido. Velas de sebo queimavam nos cantos e no chão próximas ao caixão. Havia uma cruz de madeira grande e lisa na parede atrás das coroas de flores, rígida e observadora.

— Por que o caixão está fechado? – Igor murmurou.

Nenhum de nós sabia ou procurou saber. Nem mesmo nos aproximamos da mesa repleta de flores, onde o corpo Júpiter repousava entre paredes de madeira.

Alguns colegas de turma apareceram para prestar condolências e se foram antes que tudo terminasse. O choro de Ganímedes e Calisto se misturava ao de Europa e Io não conseguia deixar de soluçar. O resto da família de Júpiter fungava pelos cantos, silenciosa e dolorosamente. A bílis me subiu na garganta quando notei que não poderia derramar mais uma lágrima sequer – meus travesseiros ainda estavam encharcados por todo o tempo que Júpiter passou internado.

Eu já tinha aceitado sua morte antes que ela chegasse de fato, impaciente e conformado a contragosto.

Loren nos puxou para as cadeiras de plástico numa das paredes, onde ficamos observando o fluxo do luto.

— Não vou aguentar até o enterro – confidenciei.

Igor assentiu. Por seu rosto, eu podia dizer que ele compartilhava de minha angústia. Loren suspirou pesadamente, cansada e triste demais para opor-se à ideia.

— Devagar e discretamente – ela nos censurou, sendo a primeira a levantar.

Voltamos para a recepção do hospital cabisbaixos – bom, todo mundo é um pouco cabisbaixo num lugar assim. O céu da tarde nos recebeu com raios de sol suaves como beijos, permitindo que chegássemos à minha casa antes de se cobrir de nuvens.

Meus pais estavam saindo para o enterro de Júpiter, o que me poupou das perguntas ingenuamente dolorosas.

— E agora? – Loren jogou-se no sofá da sala, toda lágrimas e soluços convulsivos.

Igor a abraçou fraternalmente, escondendo seu rosto choroso nos cabelos crespos.

Perguntas atravessavam minha mente na velocidade da luz. Eu ainda tinha muitas incógnitas sobre Júpiter, sobre sua doença... Sobre seus sentimentos por mim.

Ainda tinha sua Via Láctea gravada em minha pele e seus suspiros de estrela em meu pescoço.

— Henri – Igor me cutucou, revelando um pequeno pedaço de papel enrolado em sua mão. – Júpiter pediu para te entregar quando o visitamos anteontem.

Meus dedos tremiam quando os estiquei para pinçar o papel de sua palma.

— Será que eu abro? – Comprimi os lábios, sentindo meus olhos arderem pela falta de lágrimas escorrendo.

— Abre logo, idiota – a voz Loren estava embargada contra o ombro de Igor.

Dobrei e desdobrei o papel, ponderando se deveria abri-lo naquele momento, ou simplesmente esquecer de sua existência. Mas Igor me pressionou para abrir e ler o que quer que estivesse escrito de uma vez.

A letra de Júpiter surgiu torta e tremida, como ele mal pudesse segurar a caneta quando escreveu o bilhete.

— E aí? – Loren soltou-se de Igor para me encarar.

— Loren é Lisiteia e Igor, Calique – li, parecendo ter convulsões nos músculos das mãos.

— Luas... – Igor percebeu.

No verso, a última parte se lia em letras garrafais.

— Você pode ser Almateia.

Notas finais
*Voyager 1 é uma sonda espacial norte-americana lançada ao espaço em 5 de setembro de 1977 para estudar Júpiter e Saturno. "– Você gosta de Júpiter? – Gosto. Na verdade "desejaria viver em Júpiter onde as almas são puras e a transa é outra". – Que é isso? – Um poema de um menino que vai morrer. – Como é que você sabe? – Em fevereiro, ele vai se matar em fevereiro." – "O dia que Júpiter encontrou Saturno", Caio Fernando Abreu.