Júpiter
7 As chuvas de meteoro machucam (docemente)
Notas iniciais
O tapete da sala e os colchonetes de ginástica da minha mãe não eram confortáveis quanto a minha cama, mas as risadas de Loren e Igor e os sorrisos discretos de Júpiter desfocavam os detalhes.
Eram quase duas horas da manhã e o gosto de festa ainda estava em nossa boca. Loren trouxera uma lanterna do meu quarto, fincando-a no meio de nosso círculo de colchonetes. Havia uma tigela de salgadinhos e caixinhas de Toddy na mesinha de centro que eram atacadas ocasionalmente nas pausas entre as conversas. De minuto em minuto, me virava para checar se Júpiter continuava aninado.
– Ela me chamou pra sair – Igor comemorou como se aquilo fosse um prêmio incrível em sua tentativa de flerte. – Garotas de atitude são sensacionais.
– Vocês ficaram ou não? – Loren jogou um salgadinho para dentro da boca, apressando-o para resumir a história. Ainda havia rímel em seus olhos e discretos borrões de batom vermelho em suas bochechas.
– Lógico – Igor a encarou como se fosse óbvio, revirando os olhos.
A seguir, fomos agraciados por mais meia hora do relatório de Igor na íntegra.
– Minha vez – Loren sorriu, os cabelos como fios de cobre na luz amarelada da lanterna. Começou apontando uma pequena mancha em seu pescoço. – Estão vendo? – Sua voz era orgulhosa, mas sua pele escura não ressaltava muito a mancha do chupão.
– Te deixamos sozinha numa festa por algumas horas e você arruma isso? – Igor gargalhou. — Não foi assim que te ensinei, Lo.
– Como é beijar o Bernardo-Leonardo? – Perguntei, conquistando uma almofadada na cabeça.
– Não sei, não fiquei com ele – ela deu de ombros, não reclamando, pela primeira vez, por eu ter quebrado suas regras de não falar do Bernardo. – Mas o Lucas do time de vôlei beija maravilhosamente bem.
– Opa, opa. Temos uma reviravolta aqui – Igor levantou uma sobrancelha, dando indícios de que não se seguraria nas risadas. – O Lucas o levantador?
– É, ué – Loren amarrou os cabelos num coque, deixando cachinhos soltos ao lado das orelhas. – Quem não tem cão caça com gato.
– Acho que esse ditado não serve pra sua situação, Lo. Os dois são farinha do mesmo saco – a cutuquei num ataque de cócegas.
Nossas gargalhadas encheram a sala por um bom tempo, até que foram se transformando em bocejos. Loren e Igor apagaram rapidamente sobre os colchonetes, mas os olhos de Júpiter continuavam me observando à luz da lanterna.
– Posso? – Minha voz era um farfalhar de folhas na penumbra da sala de estar.
Acompanhei o movimento do pomo de Adão de Júpiter descendo numa engolida de saliva.
– Cozinha – ele se levantou, andando apressado para o corredor escuro. – Aqui – me puxou para as baquetas da bancada gourmet nas sombras.
Eu não conseguia vê-lo, apenas sentia seu toque macio e gelado. Julgava compreender um sorriso lânguido nos cantos de sua boca, tal como na minha.
– Eu nunca tinha beijado um garoto antes – Júpiter confessou, segurando minha mão sobre a bancada. Era, então, o garoto tímido e comedido de sempre.
– Quem foi a primeira garota? – Eu esperava estar escondendo bem a pontada de ciúmes que me acometeu.
– Ortósia. A primeira e única. Ela não queria morrer sem seu primeiro beijo.
– Justo.
– Mas foi um beijo de amigo.
– Ninguém merece morrer sem ter dado o primeiro beijo.
Compartilhamos instantes em silêncio, com polegares afagando pulsos e mãos.
– Nós somos gays? – Franzi o cenho. – Eu não me sinto exatamente gay.
Subitamente, Júpiter parou de mover seu polegar. Pensei que ele fosse me largar ali, mas uma gargalhada deleitosa subiu por sua garganta.
– Eu sou um planeta, você é um satélite seguindo minha órbita – sua mão emoldurou minha bochecha. – Nós podemos ser o que quisermos, Henrique.
– Você bebeu exatamente quantas garrafas de Smirnoff? – Brinquei.
A resposta foi suprida por meus beijos.
Não houve um "Eu te amo" ou um pedido de namoro. Não precisávamos falar nada e Júpiter desprezava garantias. As supernovas explodiam em nossos peitos e isso era o suficiente – mesmo para mim.
Beijei-o demoradamente, decorando os nuances de seu corpo com as mãos naquela madrugada.
E teria o beijado mais ainda, se soubesse o quanto uma chuva de meteoros pode machucar.
– Henrique – Júpiter pousou a cabeça em meu ombro quando paramos –, eu estou morrendo.
Sua voz era doce e rouca, dizendo aquelas palavras assustadoras como quem diz que está com sono. Meus sentidos estavam se tornando entorpecidos e tudo começou a parecer um sonho longínquo.
– Todos nós estamos – beijei seus cabelos, esperando amenizar alguma coisa que eu não conseguia enxergar.
Porém, Júpiter estava morrendo mais rápido do que eu – talvez mais do que qualquer garoto de dezesseis anos.
Descobri isso numa quarta-feira de agosto, com um picolé de leite condensado na mão e um sorriso murchando em meus lábios. Júpiter estava com o capuz do moletom levantado, me encarando seriamente enquanto balançava as pernas. Sentado na mureta da varanda, ele fazia sombra contra o sol, me cobrindo da luz. O palito de seu picolé de uva estava entre seus dedos, manchado de roxo.
Desabei na grama do jardim de seus avós, com a cabeça levantada para não perdê-lo de vista.
– Vão me internar amanhã.
Uma cratera estava se abrindo sob meus pés, me mordiscando com um hálito quente que fazia minhas mãos suarem. O resto do picolé de leite condensado ficou na grama, derretendo em filetes esbranquiçados.
A vizinhança dos avós de Júpiter era quieta e tranquila, mas havia um vespeiro – brilhante como a chuva de meteoros que Loren me obrigara a assistir no ano passado – eclodindo dentro de minha cabeça. A Terra rotou um minuto mais veloz, me deixando tonto, e o céu azul do infinito agosto se tornou odiosamente patético para mim.
– Amanhã? – Eu não tinha forças para expressar toda a minha indignação.
– Era pra ser semana que vem, mas os médicos acharam que quanto antes melhor – Júpiter deu de ombros. – Eu tenho mais um ano pela contagem deles, ou um mês se você contar pelo tempo de Júpiter.
A tranquilidade em sua voz estava me deixando angustiado e impaciente.
– E você me diz tudo isso assim, como se fosse a coisa mais normal do mundo?!
– E não é? – Júpiter levantou uma sobrancelha, esboçando um sorriso amargo. – Eu vivi para morrer, Henrique.
Uma brisa morna soprou nossos cabelos, jogando fios de cabelo preto em meus olhos.
– Eu não quero que você morra – minha voz falhou, levemente chorosa.
Júpiter contou suas cartas e comprimiu os lábios.
– Eu não quero morrer, Henrique. Mas não tem nada que eu possa fazer a não ser tentar não sentir muito medo. A morte não pode ser o buraco negro que todo mundo pensa.
Realmente não podia.
– É só uma outra galáxia.
– Uma fenda do espaço-tempo – ele completou, parcialmente aliviado por eu ter entendido. – Vem cá.
Levantei-me para afundar o rosto em seu peito, me arrepiando com seus braços longos e frágeis me circundando. Meu âmago se contorceu, sofrendo com os espasmos do início do choro. Solucei, simplesmente porque era injusto.
– Eu posso sentir suas lágrimas na minha camiseta – Júpiter fungou em meus cabelos, como se quisesse absorver um pedaço de mim.
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