Juízes do Purgatório
1 Juízes do Purgatório
Novembro 2019
Donio senta—se em sua poltrona, pega um cigarro, acende e dá um longo trago.
— Mulher, cola aqui e traz o moleque. — Ele diz enquanto solta a fumaça.
A mulher vem caminhando lentamente enquanto chama por seu filho. De repente, um barulho forte de tiro invade a casa. O cheiro de pólvora dá náuseas, enquanto o zunido no ouvido a deixa atordoada. Ela olha para a porta e vê a marca de bala. Apavorada, vira-se imediatamente para a poltrona do marido que estava em frente à porta. Sua camiseta verde de grife agora está pingando vermelho do ferimento de bala na costela. Tenta pegar a pistola em sua cintura, mas sua mão vagueia bamba pela dor que o atordoa.
A porta é arrombada com um chute forte revelando um jovem alto de calça jeans, regata branca, corrente no pescoço e relógio no punho direito que aponta uma arma em direção à cabeça da esposa de Donio.
— Nem pense nisso! — ameaça o jovem. — JOGA NO CHÃO, AGORA! — ordena aos berros.
Donio levanta uma das mãos e, com a outra, lentamente baixa sua arma.
— Pronto, agora deixa ela ir. Não precisa fazer isso na frente dela. — diz Donio com a voz rouca de dor.
O jovem aponta a arma para a cabeça de Donio enquanto se aproxima e responde.
— Existem dois tipos de pessoas no mundo... — Ele vê os olhos de Donio se arregalarem de espanto. — Aqueles que julgam, e aqueles que são julgados.
Ele encosta a arma na testa de Donio e puxa o gatilho. A sala é preenchida com sangue no mesmo instante que o corpo inerte de Donio cai para trás. A esposa grita cobrindo a boca com as mãos e cai de joelhos chorando.
— Mamãe, o que aconteceu com o papai?
O jovem se vira com os olhos esbugalhados e avista uma criança que acabou de chegar. Ela está em pé ao lado da mãe, olhando o corpo de seu pai sem entender o que está acontecendo pois é muito nova para compreender. Então o jovem encara os dois e aponta sua arma.
— Não! Por favor, nos deixe viver! — A mulher implora puxando seu filho para trás de si, usando seu corpo como escudo.
— Acredite, eu sei como a vida de vocês iria terminar — Ele responde cabisbaixo, o olhar vazio e distante. — É melhor assim. — Duas vezes o gatilho é puxado, uma bala para cada vida. Em seguida, ele observa a cena toda, põe a arma em sua boca, fecha os olhos e atira uma última vez.
— É sério?! É ele que você quer que eu julgue?! Ele nem sequer merece um julgamento!
— Todos merecem um julgamento, meu caro.
— Mas olhe pra isso! Ele matou um pai em frente a sua família, e depois executou, a sangue frio mãe e filho juntos. Não tem o que decidir aqui. Inferno e pronto.
— Você quer condenar a alma de alguém pela eternidade baseando-se apenas em cinco minutos de uma vida de vinte anos? Como vai saber que seu julgamento é justo?
— Essa é fácil! Não importa como foi a vida dele, ele matou! Então tem que pagar com a vida.
— Mas e se o homem que ele matou tivesse matado outros antes, isso também não seria justiça na sua concepção?
— Sim! Mas levar a esposa e o filho extrapolou a situação. Eles estavam desarmados! Não tiveram como se defender.
— Concordo. Mas por que você acha que ele fez isso?
— Porque ele é um delinquente, óbvio! Mau caráter, sangue ruim. Não tem sentimentos por ninguém.
— E por que acha que ele se matou no final?
— Porque é um covarde, é claro! Sabia o que fariam com ele na cadeia, isso se não fosse espancado pela polícia antes. Escolheu o caminho fácil, quis escapar de seu julgamento.
— Não há como escapar do julgamento. Você acha que se matar é uma escolha fácil?
— Bem... não sei ao certo, mas foi mais fácil morrer ali do que sofrer anos na cadeia, imagino.
— Vamos observar como foi a vida dele para tentar entende-lo melhor.
Outubro 2019Após mais de duzentos degraus, o jovem finalmente chega em casa com as mãos ocupadas por sacolas e grita para sua mãe:
— Mãe, trouxe o pão. Espero que o café esteja pr... — Ele se interrompe vociferando. — MÃE! O QUE A SENHORA TÁ FAZENDO? DESCE DAÍ JÁ!
— Não chegue perto de mim! Você não é meu filho! — A senhora em prantos diz chorando.
— Usou droga, mulher! Claro que sou eu! Desce daí, pelo amor de Deus!
— DEUS?! Não ouse falar no nome dele depois do que fez! Você não tem direito!
— Ele nunca esteve do nosso lado, a senhora sabe disso!
— ELE SEMPRE ESTEVE DO NOSSO LADO! — Ela vocifera! — Você que nunca esteve do lado dele. Sempre tão cheio de ódio, rancor, amargurado com o passado. Olha o que este caminho fez com você!
— O que a senhora queria? Que eu frequentasse a casa de um Deus que acolhe aquele homem?! Então Deus também é meu inimigo. Aquele homem fez isso com a gente, e eu...
— VOCÊ FEZ ISSO CONSIGO MESMO! — Ela o interrompe. — VOCÊ escolheu trilhar o mesmo caminho que aquele homem, e olhe no que isso te transformou!
— Me transformou naquele que fará justiça àquele bastardo!
— Te transformou no mensageiro da morte! Num assassino!
— ELE TEM QUE PAGAR PELO QUE FEZ A NÓS!
— E É VOCÊ, O ASSASSINO DA IGREJA QUE VAI LHE DAR O CASTIGO?!
— Não me chame assim! — Desviou o olhar. — Graças a isso, agora eu sei onde ele está.
— A que custo, Gabriel?! Eram pessoas inocentes!
— Eles eram amigos dele mãe, não eram inocentes!
— E você acha que só atingiu os amigos?! Tem certeza que ninguém mais se feriu? — Ela diz, seguido de um breve silêncio. — ME RESPONDA!
— Há sacrifícios nesse caminho, mãe! Eu não sou um herói!
— Tem razão. Não é um herói. E também não é meu filho. É apenas um pobre coitado perdido, corrompido pelo ódio que te transformou no monstro que é hoje. Eu não te criei pra isso. E não quero mais ver a desonra que me causa. — Ela inclina o corpo para trás.
— NÃO, MÃE! — O jovem tenta alcançar sua mãe, mas já é tarde, ela havia se jogado da sacada de frente para o morro.
— Se isso era para me convencer a salvá-lo, você errou feio.
— Por quê?
— Por quê?! — Solta uma leve risada de deboche. — Ele matou a própria mãe!
— Está errado. Ela se suicidou.
— Por desgosto daquele desgraçado.
— A escolha ainda foi dela.
— Mas a culpa foi dele!
— E isso vai pesar em sua mente pelo resto de sua vida. Imagina a dor de se sentir culpado pela morte da própria mãe, daquela que talvez tenha sido a única que o amou verdadeiramente em sua vida. Ele não tem mais ninguém por ele, sabia? Carregou este fardo sem ter com quem compartilhar, sem ter alguém para aliviar a sua dor.
— Bem feito!
— Não seja rude consigo.
— Comigo?
— Sim. Toda vez que é rude com alguém, é rude com você mesmo.
— Isso não faz sentido.
— Quando elogia alguém, você causa bons sentimentos para essa pessoa, ela fica feliz e retribui estes sentimentos. O inverso também é verdadeiro. Se causar sentimentos ruins a alguém, estes sentimentos irão voltar a ti.
— Você viaja nas ideias.
— Me diga, o que mais você vê?
— Eu não acredito que a gente vai continuar com isso.
— Seja paciente e observe o contexto.
— O que quer que eu observe?
— Me diga você.
— Ele é um assassino. E, ao que me parece, ele matou alguém na igreja.
— E o que mais?
— Mais? Precisa de mais? Ele matou na casa sagrada de Deus.
— O mundo é a casa de Deus, meu caro. Todo lugar é sagrado.
— Tá. Mas ainda assim ele matou.
— Sim, ele matou. Então, se um homem mata um assassino em série para evitar mais mortes, eu devo condená-lo ao inferno?
— Não! Este é um herói.
— E o que difere o “herói” de Gabriel? Você sabe quem ele matou? Sabe os motivos dele?
— Não. — Ele responde cruzando os braços e desviando o olhar. — Ainda assim, ele disse que é inimigo de Deus.
— Ele não conhece Deus. Se o visse em sua frente, não o reconheceria. Sempre esteve cheio de dor e sofrimento dentro do coração e transformou isso em um ódio tremendo. Não há espaço no mesmo coração para ódio e Deus.
— Então está me dizendo que o que ele fez não foi errado.
— Eu não disse isso.
— Pois então?
— Tenha calma, continuemos a observar.
Fevereiro 2004— Esse é o garoto?! Pequeno desse jeito?! — diz Dudu descendo a rua de barro.
— Não se engane, ele bateu tanto no Serginho que ele foi parar no hospital. — responde Topor.
— Mas o Serginho é o dobro do tamanho dele, e pelo menos uns quatro anos mais velho.
— Pois é.
— Ei garoto, venha cá. — chama Dudu — Você é o Gabriel, né? Quantos anos você tem?
— Tenho sete.
— Foi você que espancou o Serginho? — Gabriel dá um passo para trás e abaixa a cabeça. — Eu te fiz uma pergun...
Ele é interrompido com um murro no queixo dado pelo pequenino que, imediatamente, se vira de costas e tenta correr. Porém, Topor o segura firme pelo braço.
— ME SOLTA, SEU DESGRAÇADO! — O garoto se debate e tenta acertá-lo com pontapés, mas sem sucesso pois Topor é bem maior e mais forte.
— Se acalme, moleque! Não viemos te bater, viemos te fazer uma proposta. — diz Dudu massageando o queixo após a pancada. — Aliás, belo soco!
O garoto confuso se acalma, mas mantém-se alerta.
— Quem te ensinou a se defender assim?
— A vida. — responde amargamente.
— Hahaha esse baixinho é uma figura. — Topor se diverte.
— Você é o garoto da casa 43, né? — pergunta Dudu. Gabriel arregala os olhos e fecha o rosto parecendo mais hostil. — Relaxa, garoto, não precisa pagar de durão, dá pra ver na sua cara a dor que sente.
— Aquilo foi triste, ninguém deveria ver o que tu viu. — completa Topor. — Bem-vindo ao mundo dos adultos.
— Aposto que quer fazer justiça com suas próprias mãos, não é mesmo? — O jovem fisga a atenção do garoto, que agora o olha com fogo nos olhos. — Posso te oferecer isso.
— O que tenho que fazer? — Gabriel pergunta curioso.
— Apenas se juntar a nós, os FCO.
— “Família, Comando E Ordem”, já ouvi falar. São vocês os que controlam a região por aqui, né? — continua o pequeno.
— Isso mesmo, garoto, tô vendo que fez a lição de casa.
— Não posso... minha mãe diz que tenho que estudar pra ser alguém na vida.
— E você acredita nisso, moleque?! Quantos doutores você já viu aqui na comunidade?
— Bem... — Para um tempo para refletir. — Tem o Dr. Júlio, da rua 23.
— O Dr. Júlio é um gênio, desde criança tirava 10 em tudo. — Topor gesticula. — Tuas notas são boas, garoto? — O garoto nega com a cabeça. — Então... conhece outro Doutor? — Ele nega novamente.
— Isso aí é papinho dos burguês pra deixar a gente na linha. — resmunga Dudu. A gente não vira alguém estudando não, moleque. É pela FCO que a gente fica famoso! Fala aí, quantos nomes você conhece da gangue?
— Uns 15 — O garoto responde após contar nos dedos.
— Viu! E também, estudar não vai te trazer a justiça que você quer, mas nós vamos!
— Isso mesmo, podemos te dar armas, te ensinar a usar, e até vamos te pagar. Tu vai fazer seu nome e sentar bala naquele desgraçado! — Topor o incentiva.
— Pensa nisso, moleque, sua mãe fala pra você estudar pra não ter problemas. Mas adivinha só. A vida é um problemão! Não dá pra evitar problemas, você tem que acabar com eles!
— Isso mesmo! Aliás, tua mãe vai ficar orgulhosa quando souber que tu vingou o orgulho da família.
— Minha mãe não vai gostar se eu entrar nisso aí. — Gabriel fica olhando para o chão em tom pensativo.
— Mas quem disse que ela precisa saber? Faz na miúda, vai depois da aula pra ela não desconfiar. E aí conta só depois que matar o puto. Imagina a surpresa dela! Ela gosta de surpresas, não gosta?
— Sim... — O garoto concorda cabisbaixo.
— Isso aí, moleque! — Topor fala em tom animado! — Amanhã tu cola com a gente. Tu vai adorar, principalmente a parte da mulherada e das paradinhas que vamos usar hahaha.
— E então?
— Ele é um marginal desde os sete anos. Já brigava desde criança.
— Você ouviu o que ele disse sobre a vida?
— Que a vida o ensinou?!
— Exatamente. O garoto parece traumatizado. Amargurado.
— Mas ele bateu logo nos outros, nem sequer ouviu o que tinham pra falar.
— Sim. Ele havia batido no amigo deles, o Serginho. O que acha que passou na mente dele quando foi questionado por dois garotos mais velhos sobre seu ato de violência?
— Bem, deve ter pensado que eles foram lá pra dar o troco.
— É provável. Talvez por isso ele tenha agido antes, para ter alguma vantagem de escapar. Ele estava com medo, machucado internamente, por isso machuca os outros.
— Tá, tá. Já vi que você é o defensor dos sem causa. Mas me diz, então, ele entrou para o crime ainda quando criança. É delinquente de nascença.
— Por que ele entrou para o crime?
— Por vingança. O moleque escolheu o caminho da violência desde cedo.
— Escolheu ou foi influenciado?
— Escolheu, ora! Foi de vontade própria.
— Me tire uma dúvida. Se a mãe de uma criança de sete anos deixar duas bandejas, uma com doces e guloseimas, outra com frutas e legumes, e disser que a primeira é uma delícia, mas não é saudável, e que a segunda é saudável, mas não é tão gostosa, qual você acha que a criança escolherá?
— A de guloseimas, claro.
— Por quê?
— Porque a criança tá preocupada com o gosto, e não com o que vai acontecer com o corpo dela no futuro.
— Exatamente. Crianças querem sanar suas vontades, e não suas necessidades. Sempre optam pelo prazer momentâneo, não pelo ao longo prazo. Nessa idade, elas ainda não têm um senso aguçado de consequências futuras. — O outro nada responde perante esta argumentação. — Você acha que uma criança de sete anos tem discernimento para fazer uma escolha dessas?
— Ele traiu a mãe! — responde evasivo. — Quis ficar com os garotos que acabou de conhecer.
— Qual filho jamais se rebelou contra os pais? — Mais uma vez, segue o silêncio. — Me diga, qual era a vontade da criança?
— Fazer “justiça” — zomba na fala. — Ele queria mesmo era se vingar, matar alguém!
— A mãe dele dava suporte a isso?
— Talvez. — Ele dá de ombros. — Ela falava para o garoto estudar, ele poderia se tornar um policial, ou quem sabe um juiz, e então teria a verdadeira justiça.
— Teria mesmo?! E se o homem fosse inocentado? Além do mais, o argumento de se tornar alguém na vida foi quebrado pelas falas dos jovens que o abordaram. Sua mãe batalhava pelas necessidades do garoto, já os garotos foram diretos em sua vontade.
— Viu, o garoto tinha vontade de ir pro crime então.
— Mais uma vez, eu não disse isso, tome cuidado com suas conclusões precipitadas. Os jovens o influenciaram a acreditar que o caminho de sua mãe nunca iria satisfazer suas vontades, enquanto o crime lhe traria “justiça”, reconhecimento e poder. Infelizmente, a realidade em que vivem reforça este tipo de pensamento.
— Isso não é desculpa! O garoto tinha um exemplo de doutor e a educação da mãe dele, se ele escolheu esse caminho, foi porque era mau caráter desde sempre.
— Um doutor que teve notas altas desde sua infância. E inúmeros criminosos respeitados. Com as notas do garoto, em qual deles você acha que o garotinho conseguiria se espelhar?
— Não gosto como você defende este criminoso. — responde incomodado.
— Ele é uma criança. A mãe ofereceu a bandeja com os vegetais, já os garotos, a de guloseimas.
— Tá, já entendi. Mas ele assassinou o homem quando tinha vinte anos, não é mesmo? Ele teve treze anos para mudar seu pensamento e se redimir.
— Treze anos em que conviveu com pessoas com essa mentalidade, que o incentivavam e o parabenizavam pelos seus atos ruins, reforçando seus comportamentos e lhe ensinando nada mais que crimes. Como ele buscaria outro caminho se não lhe foi mostrado algo além disso?
— Não sei por que continua a defende-lo.
— Meu papel é mostrar os dois lados da moeda. Como você só está olhando um lado, eu devo lhe mostrar o outro.
— Não me convenceu. E não importa o que mais me mostre, não mudarei de ideia.
— Espero que reconsidere. De qualquer forma, esta é a última visão.
Março 2001Gabriel está sentado no chão da sala. Brinca com seu pequeno caminhão azul de plástico, imitando o som de motor com a boca.
— Querido, brinque mais baixinho, mamãe está escutando a TV. — diz a mulher de avental passando roupas em uma tábua de frente à televisão.
— Mamãe, eu quero ir pra escolinha.
— Você ainda não pode, querido.
— Mas o Lucas já vai! Eu também quero!
— O Lucas já tem cinco anos. Logo, logo você também poderá ir.
A porta da entrada se abre repentinamente. Um homem alto com calça jeans e camiseta azul marinho entra desesperadamente batendo a porta a suas costas.
— Rápido, Neide, vai com o moleque pra coz... — Ele é interrompido pelo impacto da porta nas costas, causada por um forte chute pelo lado de trás. Ele cai ao chão enquanto um jovem entra apontando uma arma para ele.
— Papai! — A criança corre de encontro ao homem, mas é impedida por um agarrão de sua mãe em seu braço.
— Por favor, na frente deles não. — implora o homem no chão.
O jovem encosta o cano da arma na cabeça do homem e diz:
— Relaxa, meu velho, a vida vai ensinar pro garoto que existem dois tipos de pessoas. Os que julgam como eu. — Ele olha para a criança enquanto destrava a arma. — E os que são julgados como seu pai. — Então atira a sangue frio.
— Essa foi rápida. O garoto teve uma vida desgraçada.
— Infelizmente.
— Eu entendo. O que houve com ele foi cruel, mas não justifica os atos dele.
— Não, não justifica.
— Outras pessoas não deveriam sofrer por conta do trauma dele.
— Não, não deveriam. A vida machucou o garoto muito cedo, ele só está representando o que lhe foi ensinado. Um ganha, outro perde. Mas nunca um meio termo.
— Ainda assim defende o garoto?
— Se não eu para defende-lo, quem o fará?
— Então você o perdoaria?
— Sim.
— Não acredito que você mandaria um assassino paro o paraíso.
— Hfff... — suspira calmamente. — Eu não disse que o mandaria para o paraíso.
— Pois então?
— O garoto teve uma vida difícil, cheia de sofrimento, dor e oportunidades errôneas. Seu caminho foi triste. Ele fez maldades, as quais não lhe permitiriam entrar no céu.
— Sendo assim, de que serve o perdão?
— Mais uma chance.
— Como? — indagou confuso.
— Um recomeço. Uma nova vida, novas oportunidades que lhe dessem a chance de fazer diferente.
— Eu não acredito! Quer mandar ele novamente para lá?! Só pode estar louco.
— Pensei que ficaria feliz com isso. Você defende a vida, mas quer matá-lo?
— Claro! Ele fará tudo de novo.
— Como tem tanta certeza?
— Como pode alguém que fez tanto mal fazer algo de bom dessa vez?
— Fazer mal é diferente de ser mau. No princípio ele era bom, mas devidos às circunstancias... — Ele é interrompido.
— Sei, sei. Outra vez o blá-blá-blá do mundo que o corrompeu. Isso é muito bonito na teoria, mas não estou disposto a arriscar mais vidas inocentes para dar mais uma chance a este marginal. Ele já teve a oportunidade, e a gastou dessa forma estúpida.
— O perdão é a chave do céu.
— Uma ova! Se isso é verdade, basta o cretino se perdoar, então?
— Você acha que é fácil se perdoar sinceramente? A maioria das pessoas não conseguem perdoar umas às outras porque não conseguem perdoar a si mesmas.
— Então o perdão tem poder de livrá-lo de todos os seus pecados.
— Não de livrar, mas de não o condenar.
— E faz diferença?! Ele deve pagar pelo que fez.
— E pagará.
— Do seu jeito?! Com uma nova chance? Como isso é pagar?
— Eu lhe daria novas oportunidades, mas todo sofrimento que causou lhe retornará. Pessoas boas também sofrem.
— Não! Ele causou dor, então deve pagar com dor! Você disse que eu daria a sentença final, estou correto?
— Sim.
— Então está decidido. Eu escolho a condenação. Ele pagará pelo que fez da pior forma. Ele buscou por vingança, e a vingança o consumirá.
— Tristemente irônico.
— O quê?
— Tem certeza?
— Absoluta!
— É realmente uma pena. — Ele consente enquanto o encara tristemente. Uma labareda de chamas repentina envolve seu companheiro. O fogo cresce exponencialmente, consumindo-o de forma rápida.
— O QUE É ISSO?! POR QUE ESTOU QUEIMANDO?! PARE! POR FAVOR! NÃO É JUSTO!
— Esta é a justiça que você escolheu.
— MAS NÃO PARA MIM! O QUE EU TENHO A VER COM ISSO?! SOCORRO!
— Ainda não entendeu? Se tivesse lhe dado outra chance... — Ele se vira enquanto seu companheiro queima e grita até não sobrar mais nada.
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