Notas iniciais
E chegamos ao segundo capítulo de Justice League Dark: Immortal Hunter. Neste capítulo, finalmente conhecemos um pouco mais do lado sobrenatural da história e vemos John Argent cruzar o caminho de alguns dos personagens mais importantes desse universo. Também começamos a entender que a busca de John por Constantine é apenas uma parte de algo muito maior. A Porta ainda é um mistério, e algumas perguntas vão precisar esperar para serem respondidas. Espero que tenham gostado do capítulo. Obrigado por acompanhar a história até aqui. Boa leitura e até o próximo capítulo!

Shadowcrest — Mansão da Família Zatara

A noite havia tomado conta de Shadowcrest.

Do lado de fora da mansão Zatara, a chuva castigava as janelas com força, acompanhada por rajadas de vento que faziam as árvores do jardim se curvarem sob a tempestade. Relâmpagos rasgavam o céu de tempos em tempos, iluminando por alguns segundos os jardins escuros da propriedade.

O clima vinha piorando havia dias.

Naquela noite, porém, parecia ter chegado ao extremo.

Dentro da mansão, apenas um cômodo permanecia iluminado.

Zatanna Zatara acabara de sair do banho.

Vestindo apenas um roupão, ela caminhava tranquilamente pelo quarto enquanto terminava de enrolar uma toalha nos cabelos molhados.

Um pequeno gato preto seguia seus passos, roçando o corpo contra suas pernas. Um coelho também permanecia por perto, saltando calmamente pelo quarto.

Zatanna abaixou-se e acariciou o gato.

— Vocês dois escolheram uma péssima noite para ficar acordados.

O gato respondeu com um miado baixo.

Ela sorriu.

— Eu sei. Também não estou gostando dessa chuva.

Zatanna se levantou e caminhou até a janela.

Ficou alguns segundos observando a tempestade.

Havia algo diferente no clima dos últimos dias. Não necessariamente mágico. Talvez fosse apenas uma impressão.

Mesmo assim, sua intuição nunca fora algo que ela aprendesse a ignorar.

Um relâmpago iluminou o jardim.

Zatanna estreitou os olhos.

Então balançou a cabeça.

— Estou ficando paranoica.

Ela se afastou da janela e começou a caminhar em direção ao guarda-roupa.

Foi quando uma voz surgiu atrás dela.

— Bom te ver, Zee.

Zatanna parou.

Não precisou se virar imediatamente.

Ela reconheceria aquela voz em qualquer lugar.

Fechou os olhos por um segundo.

— John.

Virou-se.

John Constantine estava encostado casualmente perto da porta.

Como se invadir a mansão da família Zatara no meio da noite fosse apenas mais uma visita.

Zatanna cruzou os braços.

— O que você está fazendo na minha casa?

Constantine abriu um sorriso preguiçoso.

— Vim fazer uma visita.

— Sem permissão?

— Ah, qual é, Zee?

Ele abriu os braços.

— Depois de tudo que já passamos, achei que tínhamos intimidade suficiente para eu entrar sem convite.

O olhar de Zatanna endureceu.

— Nós tínhamos intimidade.

Constantine percebeu o tom.

Ainda assim, tentou manter o sorriso.

— Bom…

Zatanna levantou uma das mãos.

— Não temos mais.

Os dedos dela se moveram rapidamente.

Uma pequena luz dourada surgiu na ponta de seu indicador.

Símbolos mágicos começaram a se formar no ar.

Primeiro um.

Depois outro.

Então dezenas.

Eles giraram ao redor de sua mão como pequenos fragmentos de uma linguagem antiga.

Zatanna pronunciou as palavras com calma:

— !pots dna llaf.

A magia respondeu.

Uma força invisível atingiu Constantine no peito.

— O quê—

Ele foi arrancado do chão.

Seu corpo atravessou o quarto e bateu contra o teto.

— Agh!

Antes que pudesse recuperar o equilíbrio, uma segunda onda de energia o prendeu contra a superfície.

Constantine ficou de cara para o teto.

Zatanna abaixou lentamente a mão.

— Você tem um minuto.

Constantine virou o rosto o máximo que conseguiu.

— Zee…

— Um minuto para me dizer por que invadiu minha casa.

Ela deu um passo à frente.

— Depois disso, eu te arremesso para o outro lado do mundo.

Constantine suspirou.

— Você continua exagerando.

Zatanna ergueu uma sobrancelha.

— Cinquenta segundos.

— Certo.

Ele finalmente abandonou o sorriso.

— Eu preciso de ajuda.

— Para?

— Preciso da equipe.

Zatanna ficou séria.

— Que equipe?

— A Liga.

— A Liga não está na Terra.

Ela caminhou alguns passos pelo quarto.

— Se você precisa do Superman ou dos outros, vai ter que esperar.

— Não estou falando deles.

Constantine respirou fundo.

— Estou falando da sua Liga.

Zatanna parou.

Virou-se para ele.

— Minha Liga?

— Fiquei sabendo que você está liderando o ramo paranormal da Liga.

Por um instante, ela apenas o observou.

— Hm.

Um pequeno sorriso apareceu no canto de sua boca.

— Você sabe até demais.

— É uma das minhas melhores qualidades.

— Não.

O sorriso dela desapareceu.

— É uma das suas características mais irritantes.

Constantine soltou uma risada curta.

— Também serve.

Zatanna voltou ao assunto.

— Por que precisa da nossa ajuda?

Ela estreitou os olhos.

— O que você aprontou, Constantine?

Ele ficou em silêncio.

Dessa vez, não havia piada.

Zatanna percebeu.

— John.

Constantine soltou o ar lentamente.

— Eu explico quando estivermos todos reunidos.

Ele olhou para ela.

— Só me tira daqui primeiro.

Zatanna manteve a expressão séria por mais alguns segundos.

Então estalou os dedos.

— !nwod llaf.

A magia desapareceu.

Constantine despencou.

— AAAAAH—

TUM!

Ele caiu de costas no chão.

Ficou alguns segundos olhando para o teto.

— Você podia ter avisado.

Zatanna virou-se para o guarda-roupa.

— Eu avisei.

— Não, você ameaçou.

— E cumpri.

Constantine se levantou com dificuldade.

— Isso também é verdade.

Zatanna já havia vestido suas roupas características.

O traje escuro, elegante e preparado para situações sobrenaturais substituiu o roupão. Ela ajeitou as peças com naturalidade e prendeu os cabelos.

A cartola, porém, continuava ausente.

Constantine observou.

— Sem cartola?

Zatanna olhou para ele.

— Não vou fazer um show.

— Pena. Sempre gostei do chapéu.

— Você fala demais.

— Você já disse isso.

— Porque continua sendo verdade.

Constantine sorriu.

Zatanna pegou alguns objetos mágicos sobre a mesa e os guardou.

— Pare de perder tempo reclamando.

Ela caminhou até a porta.

— Se você está tão desesperado por ajuda, vamos.

Constantine a seguiu.

— Para onde?

Zatanna olhou por cima do ombro.

— Você realmente acha que minha casa é o ponto de encontro da equipe?

— Eu estava torcendo para ser.

— A Casa dos Mistérios.

Constantine parou.

— Ah.

Zatanna continuou andando.

— Algum problema?

— Tecnicamente, ela era minha.

Zatanna soltou uma risada baixa.

— Não depois que você a abandonou.

Constantine fez uma careta.

— Ela ainda está brava comigo?

— “Brava” não chega perto.

— Ótimo.

Ele colocou as mãos nos bolsos.

— Pelo visto, tenho muitos inimigos.

Zatanna parou de andar.

Seu rosto mudou.

— Você está correndo perigo de morte?

Constantine percebeu imediatamente a mudança de tom.

Dessa vez, não tentou fazer piada.

— Droga.

Zatanna virou-se completamente para ele.

— O que aconteceu?

Constantine passou a mão pelo rosto.

— Já fui melhor em guardar segredo.

— Constantine.

Ele suspirou.

— Nimue entrou em contato comigo.

— Madame Xanadu?

— Ela mesma.

Constantine encostou-se à parede.

— Estava lendo meu destino.

— E?

Ele demorou alguns segundos para responder.

— No começo, não parecia nada muito diferente.

— Mas?

— Mudou.

Zatanna permaneceu imóvel.

— Para quê?

Constantine levantou os olhos.

— Morte.

O silêncio tomou conta do quarto.

Até a chuva parecia distante.

Zatanna não desviou o olhar.

— Ela disse que você vai morrer?

— Não exatamente.

Constantine balançou a cabeça.

— Ela disse que dessa vez parecia diferente.

— Diferente como?

Ele deu um sorriso fraco.

— Como se alguém tivesse finalmente decidido fazer o trabalho direito.

Zatanna não achou graça.

Constantine percebeu.

— Segundo Nimue, quem quer que esteja atrás de mim não quer me assustar.

Ele tirou o cigarro do bolso, mas não o acendeu.

— Quer me matar.

Zatanna ficou em silêncio.

Por alguns segundos, ela apenas analisou o homem diante dela.

Constantine podia ser muitas coisas.

Arrogante.

Irritante.

Imprudente.

Mas ela o conhecia.

E sabia que ele raramente procurava ajuda antes de estar realmente encurralado.

— Então vamos.

Zatanna ergueu a mão.

Uma pequena esfera de luz dourada apareceu sobre sua palma.

A energia começou a se expandir.

Linhas luminosas desenharam um círculo no ar diante dos dois, formando símbolos que giravam lentamente em sentidos opostos.

O espaço dentro do círculo começou a se distorcer.

Como água sendo perturbada.

A imagem da sala desapareceu.

No lugar dela surgiu uma escuridão profunda.

Zatanna manteve os olhos fixos no portal.

— Se você realmente está na mira de algo tão poderoso, não podemos perder tempo.

Ela atravessou.

Constantine ficou olhando para o portal.

— Sempre quis passar minha noite sendo perseguido por uma coisa que pode me matar.

Ele suspirou.

— Que vida maravilhosa.

E atravessou logo atrás dela.

O portal se fechou.

Shadowcrest voltou ao silêncio.

Apenas a chuva permaneceu.

E, naquela noite, sem que nenhum dos dois soubesse, a Casa dos Mistérios estava prestes a receber uma presença que mudaria completamente o equilíbrio daquela equipe.

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O portal se fechou atrás deles com um estalo seco de energia mágica.

Por alguns segundos, apenas o som distante da chuva contra as janelas pôde ser ouvido.

Zatanna e Constantine haviam acabado de atravessar para a sala de estar da Casa dos Mistérios.

O ambiente estava muito mais organizado do que Constantine se lembrava.

Ou, pelo menos, organizado o suficiente para que ele não começasse a questionar se a Casa havia decidido matá-lo naquele momento.

No centro da sala, cercado por livros antigos, fotografias, pequenos objetos amaldiçoados e algumas folhas espalhadas sobre uma mesa, estava o Detetive Chimp.

Bobo estava inclinado sobre uma fotografia enquanto segurava uma lupa entre os dedos. Ao lado dela havia um mapa de Londres coberto por pequenas marcações feitas à mão.

Ele parecia concentrado.

Até erguer os olhos.

Primeiro para Zatanna.

Depois para Constantine.

O chimpanzé ficou alguns segundos encarando o mago.

Não disse absolutamente nada.

Apenas abaixou lentamente a lupa.

Constantine sustentou o olhar.

— Bobo.

O Detetive Chimp voltou a olhar para os papéis.

— Constantine.

A maneira como disse o nome foi suficiente para deixar claro que aquela não era exatamente uma recepção calorosa.

Zatanna soltou um pequeno suspiro.

— É bom ver que algumas coisas nunca mudam.

Antes que alguém pudesse continuar a conversa, uma nova presença surgiu atrás deles.

Passos pesados ecoaram pelo corredor.

O Dr. Kirk Langstrom apareceu carregando uma caneca de café em cada mão.

Ainda havia uma terceira sobre a bandeja que segurava contra o peito.

Mesmo naquela forma, havia algo quase absurdamente doméstico na cena.

O Morcego Humano olhou primeiro para Zatanna.

— Oh. Não sabia que você viria hoje, senhorita Zatanna.

Ele ergueu uma das canecas.

— Acabei de fazer café.

Então olhou para Constantine.

— E é um prazer revê-lo.

Constantine abriu um meio sorriso.

— Bom te ver também, Kirk. Pelo visto, você ainda não conseguiu se livrar dessa forma.

Langstrom deu de ombros.

— Aprendi a lidar bem com ela.

Constantine arqueou uma sobrancelha.

— Isso é uma maneira otimista de colocar as coisas.

Zatanna abriu a boca para responder.

Não teve tempo.

Um estrondo sacudiu a sala.

A mesa tremeu.

As cadeiras foram arrancadas do chão.

Uma estante inteira se deslocou violentamente contra a parede.

Em seguida, dezenas de objetos começaram a voar na direção de Constantine.

Livros.

Cadeiras.

Almofadas.

Uma luminária.

E, por algum motivo que ninguém pareceu compreender, um enorme vaso de porcelana.

— Ah, merda.

Constantine mal teve tempo de erguer os braços.

Zatanna estendeu uma das mãos.

— !pots dna llaf.

Tudo parou.

Os objetos ficaram suspensos no ar a poucos centímetros de Constantine.

Por um instante, o silêncio tomou conta da sala.

Então Zatanna fechou os dedos.

Todos os móveis retornaram lentamente aos seus lugares.

A Casa dos Mistérios pareceu respirar.

As paredes estremeceram mais uma vez.

Depois, como se nada tivesse acontecido, os móveis começaram a se reorganizar sozinhos. Livros voltaram para as estantes, cadeiras se encaixaram ao redor da mesa e pequenos objetos retornaram aos seus lugares.

Constantine olhou ao redor.

— Ela ainda guarda rancor.

Chimp sequer levantou os olhos.

— Ela tem memória.

Zatanna lançou um olhar para Constantine.

— E você tem sorte de ela gostar de mim.

Constantine apontou para si mesmo.

— Eu não fiz nada.

Uma cadeira se moveu sozinha atrás dele.

Constantine olhou.

— Pelo menos nada hoje.

Bobo finalmente levantou a cabeça.

— Você tem sorte de ela gostar da Zatanna. Se tivesse vindo aqui sozinho, provavelmente ainda estaria apanhando.

Constantine olhou para ele.

— Você continua sendo um macaco irritante.

Chimp deu um sorriso preguiçoso.

— E você continua sendo um garoto-problema.

Constantine estreitou os olhos.

— Eu tenho cento e—

— Não me importa.

Kirk abafou uma risada atrás da caneca.

Zatanna cruzou os braços.

— Vocês dois podem continuar essa discussão depois.

Bobo voltou para os papéis.

— Além disso, você ainda não respondeu uma pergunta.

Constantine franziu a testa.

— Qual?

O chimpanzé ergueu uma fotografia.

— Você não sabe o que aconteceu aqui ontem à noite?

Constantine piscou.

— O quê?

— Em Londres.

— Acabei de chegar aqui.

Bobo o observou por alguns segundos, tentando determinar se ele estava mentindo.

Não encontrou nada.

Zatanna olhou ao redor da sala.

— Então vocês estão em Londres com a Casa?

— Estamos.

— O que trouxe vocês para cá?

Chimp colocou a fotografia sobre a mesa.

— É justamente o que estamos tentando descobrir.

Kirk aproximou-se, colocando as canecas sobre a mesa.

— Encontramos alguns sinais estranhos durante a investigação. Nada que faça sentido quando analisado isoladamente.

Constantine olhou para os objetos espalhados.

— E o que exatamente aconteceu?

Bobo respondeu:

— Um massacre.

A expressão de Constantine mudou discretamente.

— De quê?

— Criaturas sobrenaturais.

Boston Brand surgiu atravessando a parede da sala.

— E não foi exatamente bonito.

O fantasma apareceu entre eles, flutuando de costas por alguns centímetros antes de se virar.

— Quando o Chimp fala em massacre, dessa vez ele não está exagerando.

Constantine olhou para Boston.

— Você continua fazendo entradas dramáticas.

— É um dos poucos privilégios de estar morto.

Boston olhou para Zatanna.

— Zee.

— Boston.

— Bom te ver.

— Você também.

Chimp retomou a explicação.

— Ontem à noite, encontrei um bar frequentado por criaturas sobrenaturais.

Ele empurrou uma fotografia pela mesa.

— Estavam todas mortas.

Zatanna pegou a fotografia.

Seu rosto perdeu um pouco da expressão descontraída.

Havia sangue por todos os lados.

Paredes destruídas.

Mesas quebradas.

Marcas profundas no chão.

E corpos.

Muitos corpos.

— Meu Deus…

Kirk completou:

— Não conseguimos determinar a causa das mortes.

Boston se aproximou da fotografia.

— E quando chegamos lá…

Chimp continuou:

— Não havia mais ninguém.

— Nenhuma testemunha — disse Kirk.

— Nenhuma criatura viva — acrescentou Boston.

Bobo apontou para outra fotografia.

— Apenas um corpo.

Constantine olhou para ele.

— Apenas um?

— Um único sobrevivente… se é que podemos chamar assim.

Kirk ajeitou os óculos.

— Quando chegamos, ele começou a se desfazer.

— Como?

— Como fumaça.

Boston fez um gesto com a mão.

— Fumaça negra. O corpo simplesmente perdeu a forma e desapareceu.

Constantine ficou em silêncio por alguns segundos.

— Isso é estranho.

Chimp ergueu uma sobrancelha.

— Finalmente concordamos em alguma coisa.

Constantine ignorou.

— Vocês encontraram alguma assinatura mágica?

— Nada conclusivo.

— Resíduos?

— Poucos demais.

— Rastro?

— Quase nenhum.

Constantine respirou fundo.

— Então estão tentando descobrir quem matou as criaturas.

— E por quê — disse Chimp.

Kirk assentiu.

— Estávamos pensando em chamar você.

Constantine fez uma expressão de surpresa.

— Que consideração.

— Não se acostume.

— Estávamos pensando em chamar você — continuou Kirk — porque sua experiência com magia e entidades sobrenaturais poderia ajudar.

Bobo apontou para Constantine.

— E, por coincidência, você apareceu trazendo exatamente a pessoa que estávamos pensando em chamar.

Zatanna franziu a testa.

— Eu?

— Você.

Boston sorriu.

— O universo tem um péssimo senso de humor.

Constantine olhou para Chimp.

— Então vocês precisam de mim.

Bobo deu de ombros.

— Infelizmente.

Constantine sorriu.

— É bom ser necessário.

— Não se anime.

Zatanna soltou uma pequena risada.

— Ele está certo.

Constantine olhou para ela.

— Você também?

— Especialmente eu.

Ele levou a mão ao peito.

— Isso machucou.

Bobo continuou:

— E antes que você pergunte, sim. É por isso que estamos aqui.

Constantine ficou alguns segundos em silêncio.

Então disse:

— Uma pena.

Os dois se encararam.

— Mas por qual motivo você está aqui? — perguntou Chimp.

Constantine abriu a boca.

— Isso não é tão importante agora. Podemos resolver—

— Não é importante?

A voz de Zatanna mudou.

Não foi alta.

Não precisou ser.

Constantine parou.

Ela o encarava diretamente.

— Há alguns minutos você invadiu minha casa desesperado por ajuda.

Constantine desviou os olhos.

— Zee…

— E eu conheço você, John.

Ela deu um passo à frente.

— Você está com medo.

O sorriso desapareceu do rosto dele.

— Não é pra tanto.

— Sim.

Zatanna manteve os olhos fixos nele.

— É pra tanto.

O silêncio se espalhou pela sala.

— Algo está tentando matar John — disse ela.

Boston ergueu as sobrancelhas.

— Isso deveria ser uma surpresa?

Chimp soltou um suspiro.

— Tem sempre alguma coisa ou alguém querendo matar esse homem.

— Dessa vez parece diferente — respondeu Zatanna.

Ela olhou para Constantine.

— Algo pior.

Kirk cruzou os braços.

— O que faz você pensar isso?

— Madame Xanadu foi até ele.

Bobo imediatamente ficou mais atento.

— Xanadu?

Constantine assentiu.

— Ela apareceu ontem.

— Ela leu seu destino? — perguntou Kirk.

— Algo assim.

Boston perdeu o sorriso.

— E o que ela viu?

Constantine hesitou.

Por uma fração de segundo, pareceu procurar alguma maneira de transformar aquilo em piada.

Não encontrou.

— Morte.

Ninguém respondeu.

— Ela já leu meu destino antes — continuou Constantine. — Já me disse que eu morreria de um jeito, depois de outro. Já me avisou de acidentes, maldições, demônios…

Ele deu de ombros.

— Nada exatamente novo.

Chimp observou atentamente.

— Mas?

Constantine olhou para ele.

— Mas dessa vez foi diferente.

Zatanna não desviou os olhos.

— Como?

Constantine respirou lentamente.

— Eu não senti que ela estava me dizendo que eu escaparia.

A sala ficou silenciosa.

Mesmo a Casa pareceu parar.

Boston cruzou os braços.

— Isso é preocupante.

— Eu sei.

Zatanna tomou a frente.

— Então desembucha.

Constantine passou a mão pelo rosto.

— Tudo bem. Vamos ver… Primeiro eu—

A Casa dos Mistérios tremeu.

Não como antes.

Dessa vez, toda a estrutura estremeceu.

As janelas vibraram.

As paredes rangeram.

Alguns livros caíram das estantes.

Kirk segurou a bandeja antes que ela despencasse.

— O que foi isso?

Outra pancada.

Mais forte.

A casa inteira pareceu estremecer sobre os próprios alicerces.

Zatanna imediatamente se virou.

— Boston.

O fantasma já estava flutuando em direção ao corredor.

— Vou ver.

— Agora.

— Já estou indo.

Ele atravessou a parede.

Outra pancada.

Dessa vez, o chão chegou a vibrar sob os pés deles.

Constantine olhou ao redor.

— Isso não parece normal.

Chimp pegou sua arma.

— Aqui?

— Especialmente aqui.

Kirk assumiu uma postura defensiva.

Zatanna ergueu as mãos.

— Todo mundo fique alerta.

Boston atravessou mais uma parede.

Depois outra.

E mais uma.

Até chegar à última.

Ele não atravessou completamente.

Apenas colocou a cabeça para fora.

Seus olhos se arregalaram.

Por alguns segundos, não disse nada.

Do lado de fora da Casa dos Mistérios, em meio à chuva pesada, havia uma figura.

Alta.

Muito alta.

Imponente.

Um homem.

Ou pelo menos a silhueta parecia humana.

Ele estava completamente coberto por camadas de tecido negro, faixas pesadas envolvendo o torso, os braços e parte das pernas. Um longo manto irregular se estendia atrás dele, quase se confundindo com a escuridão da noite.

Correntes negras estavam presas aos seus pulsos.

Algumas passavam pelos braços.

Outras cruzavam seu torso.

Mas aquilo não era o mais perturbador.

As correntes continuavam se estendendo.

Entravam nas paredes.

Envolviam a estrutura.

Prendiam-se à própria Casa dos Mistérios.

Como se aquele homem estivesse tentando impedir que ela escapasse.

Ou como se estivesse usando a própria Casa para entrar.

Boston sentiu um arrepio.

Então os olhos da figura se moveram.

Dois pontos de luz azul.

Sem pupilas.

Sem íris.

Apenas um azul profundo e luminoso.

E havia algo naquele olhar.

Não raiva.

Não ódio.

Era pior.

Era uma espécie de tristeza silenciosa.

Uma melancolia que não combinava com a violência daquela presença.

Boston recuou imediatamente.

Atravessou as paredes em velocidade máxima.

Voltou à sala.

— Tem um homem lá fora.

Todos olharam para ele.

— Um homem? — perguntou Zatanna.

Boston apontou para a parede.

— Eu acho que sim. Pelo menos a silhueta é humana.

Ele respirou fundo.

— E ele está tentando entrar.

Chimp estreitou os olhos.

— Isso deveria ser impossível.

— Eu sei.

Outra pancada fez a Casa inteira estremecer.

Boston apontou para cima.

— Mas ele não parece particularmente preocupado com o que deveria ou não ser possível.

Constantine olhou para Zatanna.

— Isso é novo.

— O que você fez? — perguntou Chimp.

Constantine arregalou os olhos.

— Por que todo mundo está olhando para mim?

Zatanna cruzou os braços.

— Porque você acabou de aparecer aqui dizendo que alguma coisa quer matar você.

— E agora alguma coisa está tentando invadir a Casa.

— Exatamente.

Constantine respirou fundo.

— Eu estou me fazendo a mesma pergunta, Zee.

Chimp verificou a arma.

Kirk assumiu sua forma de combate por completo, as asas se abrindo atrás do corpo.

Boston pairou no centro da sala.

Zatanna ficou à frente de todos.

Constantine tirou o isqueiro do bolso, girando-o entre os dedos.

— Alguém tem um plano?

— Sim — respondeu Zatanna.

— Qual?

— Descobrir quem é ele antes que entre.

Constantine olhou para a porta.

— E se ele entrar antes?

Zatanna encarou-o.

— Então improvisamos.

Outra pancada.

Dessa vez, a porta principal da Casa dos Mistérios foi arrancada do lugar.

O estrondo ecoou por todos os corredores.

Chimp teve apenas tempo de olhar para cima.

A porta voou diretamente contra ele.

— Bobo!

Zatanna estendeu a mão.

— !pots.

A porta mudou de trajetória por centímetros, mas ainda atingiu o chimpanzé com força suficiente para lançá-lo contra a parede.

— Droga!

Zatanna correu até ele.

A colisão teria sido muito pior se ela não tivesse usado magia para amortecer o impacto.

Bobo caiu no chão.

Inconsciente.

— Chimp!

Kirk se posicionou diante dos outros.

Boston ficou ao lado de Zatanna.

Constantine olhou para a entrada destruída.

Por alguns segundos, nada aconteceu.

Então vieram os passos.

Um.

Depois outro.

Lentos.

Pesados.

Precisos.

Não havia pressa.

Não havia hesitação.

Aquilo era o mais perturbador.

Quem quer que estivesse entrando não parecia estar preocupado com a possibilidade de encontrar feiticeiros, monstros, fantasmas ou qualquer outra coisa sobrenatural esperando por ele.

Os passos continuaram.

Calmos demais.

Como se aquele lugar não fosse uma casa mágica viva.

Como se aquela sala não estivesse ocupada por algumas das criaturas mais perigosas do mundo sobrenatural.

Como se nada ali fosse suficiente para fazê-lo recuar.

Um último passo ecoou pelo corredor.

Então ele apareceu.

A figura atravessou a entrada destruída.

Alto.

Massivo.

Silencioso.

As camadas de tecido negro cobriam seu corpo como se fossem parte dele. O longo manto irregular se arrastava atrás de seus pés.

As correntes permaneciam presas aos seus braços e torso.

A máscara e o capuz escondiam todo o seu rosto.

Mas os olhos eram impossíveis de ignorar.

Azuis.

Brilhantes.

Sem pupilas.

Sem íris.

Tristes.

Ele parou.

Não disse uma palavra.

Apenas observou.

Primeiro Zatanna.

Depois Kirk.

Boston.

Constantine.

E, por último, o corpo inconsciente do Detetive Chimp.

Seus olhos percorreram rapidamente a sala.

Analisando.

Memorizando.

Calculando.

Até encontrarem Constantine.

O olhar parou.

Por um instante, ninguém se moveu.

Constantine sentiu o estômago afundar.

Ele não conhecia aquele homem.

Mas aquele homem conhecia o nome que procurava.

Depois de horas seguindo pistas, atravessando Londres e caçando respostas que pareciam sempre um passo à frente, finalmente havia encontrado seu alvo.

John Constantine.

E, pela primeira vez desde que havia entrado naquela casa, Constantine não tinha absolutamente nenhuma piada para fazer.

Constantine respirou fundo.

Por alguns segundos, não fez absolutamente nada.

A sala inteira estava em silêncio.

Boston observava a criatura com uma expressão que misturava medo e incredulidade.

Kirk aguardava o menor movimento para agir.

Todos olhavam para o homem que acabara de invadir a Casa dos Mistérios.

Constantine, por outro lado, tentava recuperar a compostura.

Endireitou o casaco.

Passou uma das mãos pelos cabelos.

Olhou ao redor.

Então percebeu algo.

As xícaras de café ainda estavam sobre a mesa.

Ele olhou para elas.

Depois para o Immortal Hunter.

Por fim, apontou para a mesa.

— Então… aceita um café, meu amigo?

O caçador não respondeu.

Não houve sequer uma mudança em sua expressão.

Seus olhos azuis continuavam fixos em Constantine.

Constantine manteve o sorriso por mais alguns segundos.

— Certo.

Ele assentiu lentamente.

— Era só uma sugestão.

Uma corrente negra disparou do chão.

Enrolou-se no tornozelo de Constantine.

— Ah, não…

A corrente puxou.

Com uma violência absurda, Constantine foi arrastado pelo chão em direção ao caçador.

— MERDA!

Ele tentou se agarrar a uma mesa.

Os dedos escorregaram.

Seu corpo atravessou o chão da sala enquanto a corrente o puxava sem diminuir a velocidade.

O Immortal Hunter ergueu ligeiramente uma das mãos.

Da escuridão sob seu manto, algo começou a surgir.

Uma lâmina.

Negra.

Não apenas escura.

Era como se a própria luz ao redor dela desaparecesse.

O metal não refletia absolutamente nada.

Parecia absorver o brilho da sala.

Constantine viu a lâmina surgir.

— Ah, isso é péssimo.

Kirk não esperou.

O Morcego Humano abriu completamente as asas e avançou.

Seu corpo enorme atingiu o caçador em cheio.

O impacto foi tão forte que ambos atravessaram uma parede.

A corrente que prendia Constantine se desfez no mesmo instante.

Ele rolou pelo chão.

— Kirk!

A sala desapareceu.

Não houve explosão.

Não houve portal.

Os cômodos simplesmente… mudaram.

O caçador se levantou lentamente.

Olhou ao redor.

Não havia mais Zatanna.

Não havia Constantine.

Não havia Boston.

Não havia Chimp.

Apenas ele.

E o Morcego Humano.

Kirk avançou novamente.

Suas garras cortaram o ar.

O caçador desviou por centímetros.

Um segundo golpe veio imediatamente.

O caçador abaixou o corpo.

O ataque passou sobre sua cabeça.

Ele tentou compreender o ambiente.

A Casa estava reorganizando seus próprios espaços.

Separando-os.

Criando corredores.

Mudando portas.

Mas Kirk não lhe deu tempo para pensar.

O Morcego Humano o agarrou pelo peito e o lançou contra outra parede.

A madeira rachou.

O caçador permaneceu imóvel por alguns segundos.

Então se levantou.

Kirk voou novamente.

O caçador esperou.

No último instante, segurou uma das asas.

O impacto fez o chão ranger.

Kirk tentou puxar o braço.

Não conseguiu.

O caçador o encarou.

Sem raiva.

Sem pressa.

A lâmina negra desapareceu de sua mão, dissolvendo-se novamente na escuridão de seu manto.

Ele não precisava dela.

Com uma única mão, segurou Kirk pelo pescoço.

Levantou-o do chão.

Os pés do Morcego Humano começaram a se debater.

O caçador o observou.

Apenas observou.

Então aproximou o rosto.

Os olhos azuis encontraram os olhos de Kirk.

Não havia ódio ali.

Apenas uma constatação.

Você não é quem eu procuro.

Kirk tentou golpeá-lo.

O caçador sequer se moveu.

Então inclinou a cabeça.

E acertou uma cabeçada.

O som seco do impacto ecoou pelo cômodo.

O corpo de Kirk perdeu a força imediatamente.

O caçador o segurou por mais um instante antes de soltá-lo.

O Morcego Humano caiu inconsciente no chão.

O caçador olhou para ele.

Depois para o ambiente.

Sua expressão permaneceu a mesma.

Ele não tinha vindo para matar ninguém.

Apenas Constantine.

Constantine corria.

Corria sem saber exatamente para onde.

— Ótimo… ótimo… excelente, John. Entrei numa maldita casa mágica que fez o favor de me prender com uma criatura que quer arrancar minha cabeça. Maravilha.

Virou um corredor.

Abriu uma porta.

Outra sala.

Nada.

Fechou.

Abriu outra.

Outra sala.

— Ah, pelo amor de Deus!

A Casa dos Mistérios parecia estar encontrando uma maneira de expulsar quem tinha a invadido.

Quando virou mais um corredor, deu de cara com Boston.

— Ah, merda!

Constantine quase bateu nele.

— Assim você me mata, cara!

Boston ergueu uma sobrancelha.

— Tecnicamente, você já está tentando fazer isso sozinho.

— Onde fica a saída?

— O quê?

— A saída, Boston! A porta! Um portal! Qualquer coisa!

— Você vai fugir?

— Eu vou sobreviver.

— E vai deixar aquele cara por aí?

Constantine apontou para trás.

— Eu não tenho a menor ideia de onde ele está!

— Ele está caçando você.

— Exatamente.

— Então você vai deixar todo mundo aqui para enfrentar ele?

Constantine ficou em silêncio.

Boston o encarou.

— Sério?

— Foi mal, amigão.

Constantine respirou fundo.

— Mas eu não estou muito interessado em virar um espírito como você.

O rosto de Boston mudou.

A brincadeira desapareceu.

Por alguns segundos, ele apenas ficou olhando para Constantine.

— É por isso que todo mundo acha você um babaca, John.

Constantine desviou os olhos.

Boston continuou:

— Enquanto os outros se arriscam para te ajudar, você é o primeiro a abandonar qualquer um quando as coisas ficam ruins.

Constantine não respondeu.

Boston passou por ele.

— Eu vou procurar aquele cara.

— Boston…

O fantasma não parou.

— Boa sorte fugindo sozinho.

Ele atravessou a parede.

Constantine ficou parado.

Por alguns segundos.

Olhou para o corredor vazio.

Suspirou.

— Ah, que se foda.

E voltou a correr.

Zatanna permanecia ajoelhada ao lado de Chimp.

Colocou uma das mãos sobre o peito dele.

Respiração estável.

Pulso normal.

Nenhum dano grave.

— Graças a Deus…

Ela o levantou cuidadosamente e o acomodou em um sofá.

— Você vai ficar bem, Bobo.

Zatanna se levantou.

A expressão dela endureceu.

O invasor era forte até demais.

Ele havia atravessado a Casa.

Havia resistido ao ambiente.

E agora estava desaparecido.

— Constantine…

Ela começou a andar pelos corredores.

Não demorou muito para encontrar Kirk.

O Morcego Humano estava inconsciente no chão.

Zatanna correu até ele.

— Kirk!

Ajoelhou-se.

Respiração estável.

Também estava vivo.

Ela olhou para a marca na parede.

Depois para o corpo de Kirk.

— Quem diabos é aquele homem?

Uma voz surgiu atrás dela.

— Zee?

Zatanna se virou.

Boston apareceu atravessando a parede.

— Merda…

Ele olhou para Kirk.

— Até o Kirk?

Zatanna se levantou.

— Boston. Onde ele está?

— O Constantine ou o maluco assustador que invadiu a Casa?

— Os dois.

Zatanna fez uma pausa.

— Você sabe onde eles estão?

— Não faço ideia.

A Casa tremeu.

Zatanna fechou os olhos por um instante.

— Ela tá tentando a todo custo expulsar aquele cara.

Quando abriu os olhos novamente, o corredor havia desaparecido.

As paredes se rearranjaram.

As portas sumiram.

As estantes surgiram.

Em segundos, estavam dentro de uma biblioteca enorme.

Centenas de livros cobriam as paredes.

Boston olhou ao redor.

— Legal, livros.

Zatanna não respondeu.

Ela sentiu.

Algo estava atrás deles.

Virou-se.

Immortal Hunter estava ali.

Muito próximo.

Zatanna reagiu imediatamente.

— !pots dna llaf!

A magia explodiu na direção dele.

Ele foi lançado para trás.

Mas, antes que Zatanna pudesse completar o próximo feitiço, uma força brutal atingiu seu corpo.

Ela foi arremessada contra uma estante.

Livros caíram ao redor dela.

— ZEE!

Boston avançou.

— Seu maldito!

Ele tentou entrar no corpo do caçador e o possuir.

Deveria ter dado certo.

Boston parou.

Seus olhos se arregalaram.

— O quê…?

Ele olhou para as próprias mãos.

Depois para o caçador.

— Não.

O caçador lentamente virou a cabeça.

Seus olhos encontraram os de Boston.

O fantasma congelou.

O caçador ergueu a mão.

E segurou Boston pelo pescoço.

Boston arregalou os olhos.

— Isso é impossível.

Seus pés não tocavam o chão.

Ele tentou entrar no corpo daquele homem novamente.

Nada.

Tentou desaparecer.

Nada.

Então percebeu algo ainda pior.

Ele estava sentindo.

A pressão dos dedos.

O aperto.

O ar faltando.

Boston levou as mãos ao braço dele.

— Como…?

O caçador apertou mais.

Boston começou a se debater.

— Eu… não… consigo…

Ele não deveria sentir aquilo.

Era um fantasma.

Não precisava respirar.

Mas seu corpo espiritual reagia como se estivesse sendo estrangulado.

Zatanna se levantou com dificuldade.

— SOLTE ELE!

Ela ergueu as mãos.

— !mih ot teg rof mih tes!

Uma onda de energia atingiu o caçador.

A força o fez recuar.

Boston caiu no chão.

Ele imediatamente se afastou, respirando por reflexo mesmo sabendo que não precisava.

— Isso…

Ele olhou para o caçador.

— Isso não deveria ser possível.

Zatanna ficou entre os dois.

— O que diabos você é?

John não respondeu.

— Quem é você?

Nada.

Zatanna cerrou os dentes.

— Tudo bem.

Ela ergueu as mãos.

— Então vou descobrir do jeito difícil!

O Immortal Hunter avançou.

Zatanna lançou uma rajada mágica.

— !pots!

Ele parou.

Seu corpo ficou completamente imóvel.

Por menos de um segundo.

Então continuou andando.

Zatanna arregalou os olhos.

— Não…

Ela lançou outro feitiço.

— !kcab nrub!

Uma explosão de energia atingiu o peito do caçador.

Dessa vez, ele foi empurrado vários metros.

Seu manto se abriu.

As faixas negras queimaram parcialmente.

Por baixo delas, a pele havia sido ferida.

Zatanna respirou fundo.

Funcionou.

Mas apenas por um instante.

As feridas começaram a se fechar.

A carne se regenerou.

As faixas negras voltaram a se reorganizar sobre o corpo.

Ele continuou caminhando.

Zatanna percebeu.

Ele não era imune.

A magia conseguia afetá-lo.

Mas os feitiços mais simples pareciam quase irrelevantes.

Ela precisava aumentar a força.

O caçador acelerou.

Zatanna criou uma barreira.

O punho dele atingiu a superfície mágica.

A barreira rachou.

Zatanna foi empurrada para trás.

— !ecaf ym morf yawa teg!

Ele atravessou a barreira.

Ela desviou do primeiro golpe.

O punho passou ao lado de seu rosto.

Zatanna girou o corpo e lançou outra rajada.

Ele recebeu o impacto no ombro.

A magia abriu um corte profundo.

Ele recuou.

Zatanna aproveitou.

— !pu dnats dna pots!

O chão sob o caçador brilhou.

Runas mágicas surgiram.

Correntes de energia começaram a envolver suas pernas, depois seus braços.

Ele ficou imóvel.

Zatanna respirou fundo.

— Agora você fica aí.

Por alguns segundos, funcionou.

Então o caçador olhou para as correntes.

Apertou os braços.

A energia começou a se desfazer.

Zatanna ficou incrédula.

— Não…

Ela aumentou a intensidade.

As runas brilharam mais forte.

As correntes mágicas apertaram o corpo dele.

Ele começou a se mover.

Devagar.

Mas começou.

— Você só pode estar brincando…

Ele rompeu uma das correntes.

Depois outra.

Zatanna percebeu que aquilo não estava mais funcionando.

Então ele ergueu os braços.

As correntes negras presas ao seu corpo dispararam.

Uma enrolou-se no pulso de Zatanna.

Outra em sua cintura.

Uma terceira prendeu suas pernas.

Zatanna tentou reagir.

— !esaeler—

A corrente atravessou o espaço e cobriu sua boca.

Ela arregalou os olhos.

O caçador se aproximou.

Foi então que sua voz finalmente surgiu.

Grave.

Profunda.

Baixa.

Quase sem emoção.

— Zatanna…

Ela o encarou.

— Ouvi falar de você.

Ele apertou ligeiramente as correntes.

— Dos seus feitos.

Ele inclinou a cabeça.

— Demorei alguns segundos para reconhecer quem você era.

Zatanna tentou se libertar.

Sem sucesso.

— Confesso que estou impressionado.

Os olhos azuis permaneceram fixos nela.

— Sua magia com a fala invertida é uma das formas de magia mais interessantes que encontrei.

Ele fez uma pequena pausa.

— Obrigado pela experiência.

Zatanna continuou tentando se libertar.

Ele então completou:

— Mas me perdoe.

Sua voz permaneceu calma.

— Você não é quem eu vim procurar.

As correntes apertaram um pouco mais.

— Então, por favor…

Ele se aproximou.

— Não me atrapalhe novamente.

A Casa mudou novamente.

Agora eles estavam em um grande corredor.

Zatanna continuava presa pelas correntes.

O caçador voltou a olhar para ela.

— Mas devo admitir uma coisa.

Ele continuou:

— Conhecer pessoalmente uma das feiticeiras mais poderosas da Terra foi interessante.

E, ao fundo…

Constantine apareceu.

Ele parou imediatamente.

— Ah.

Olhou para Zatanna.

Depois para o Immortal Hunter.

— Isso não parece nada bom.

Constantine ficou em silêncio.

Constantine franziu a testa.

Então percebeu a oportunidade, começou a preparar um feitiço.

— A feiticeira mais poderosa da Terra!

O caçador parou.

Sua cabeça virou lentamente na direção dele.

Constantine apontou para Zatanna.

— Você ouviu o que eu disse.

Silêncio.

— Tenha mais respeito por ela.

Ele permaneceu imóvel.

Constantine engoliu seco.

— E larga ela.

As correntes em torno de Zatanna permaneceram firmes.

Constantine respirou fundo.

— Certo.

Ele deu um pequeno sorriso.

— Cá estou eu.

Os olhos azuis se fixaram nele.

— John Constantine.

Constantine perdeu o sorriso.

— É.

O caçador deu um passo.

— Finalmente.

Antes que Constantine pudesse reagir, correntes negras surgiram do chão.

Uma prendeu seu pulso.

Outra o tornozelo.

Depois outra.

E outra.

Em poucos segundos, Constantine estava completamente suspenso no ar, braços e pernas esticados.

— Ah, pelo amor de Deus!

Zatanna via aquilo desesperada por não conseguir fazer nada.

O caçador caminhou lentamente na direção dele.

— Achou mesmo que eu deixaria você terminar sua magia?

Constantine congelou.

— Eu estava esperando você ser educado.

A lâmina surgiu.

Devagar.

Saindo da escuridão do manto.

A luz ao redor pareceu diminuir.

Ele encostou a ponta da lâmina na garganta de Constantine.

Uma única gota de sangue surgiu.

Constantine parou de sorrir.

— Por que você fez aquilo com aquele vilarejo?

— Eu não queria que acontece—

A voz dele ficou mais firme.

— Não ouse fazer rodeios.

A lâmina pressionou levemente sua garganta.

— Responda.

Constantine fechou os olhos por um instante.

— Eu fiz um acordo, droga!

Abriu novamente.

— Mas não saiu da maneira que eu imaginei.

— Um acordo?

O caçador inclinou a cabeça.

— Um vilarejo inteiro dizimado por causa de um acordo?

— Eu não…

Constantine respirou.

— Eu não imaginei que aquilo aconteceria.

Os olhos do caçador ficaram ainda mais frios.

— Você não imaginou que, ao libertar uma entidade, algo poderia dar errado?

Constantine permaneceu em silêncio.

— Eu investiguei você, John Constantine.

Constantine ergueu os olhos.

— Um homem sagaz.

Ele aproximou um pouco mais a lâmina.

— Manipulador.

Silêncio.

— Sempre convencido de que está no controle.

Constantine não respondeu.

— Você achou que conseguiria colocar uma coleira naquela entidade.

O caçador fez uma pausa.

— E conseguir aquilo que realmente queria.

Constantine o encarou.

— Informação.

Os olhos do caçador se estreitaram.

— Sobre uma tal Porta.

O rosto de Constantine mudou.

Pela primeira vez, o caçador conseguiu surpreendê-lo.

Ele sabia.

Sabia o que Constantine procurava.

— Como…

Ele não respondeu.

— Cento e vinte, Constantine.

A voz dele ficou mais baixa.

— Cento e vinte pessoas morreram ontem à noite por causa de uma informação.

Constantine respirou fundo.

— Isso foi um…

O caçador interrompeu.

— Deslize?

Constantine fechou a boca.

Ele o encarou.

— Tantas vidas perdidas…

A lâmina permaneceu encostada em sua garganta.

— E você ainda tem coragem de chamar isso de um deslize?

— Olha…

Constantine tentou manter a voz firme.

— Não foi minha intenção.

Ele engoliu em seco.

— Mas eu realmente sinto muito.

Fechou os olhos.

— Só que eu não vou morrer aqui.

Um pequeno sorriso apareceu no canto de sua boca.

— Tenho planos para o fim da semana.

Constantine então começou a mover discretamente os dedos.

O caçador percebeu.

— O que você está fazendo?

Constantine sorriu.

— Nada.

Um símbolo apareceu no chão.

O caçador olhou para baixo.

— Constantine.

— Ah, tarde demais.

A explosão aconteceu.

Uma onda de energia mágica tomou o corredor.

Zatanna foi lançada para trás.

As correntes que a prendiam se desfizeram.

Ela caiu no chão, respirando com dificuldade.

Constantine, porém, permaneceu suspenso.

As correntes apertaram ainda mais.

— Aaaai!

Ele gritou.

— Que merda! Por que isso não me larga?!

O caçador permanecia no centro da fumaça.

Constantine olhou para as próprias correntes.

Elas estavam ainda mais firmes.

A pele dos pulsos começava a ficar escura sob a pressão.

O caçador respondeu calmamente:

— Considere-se com sorte.

Constantine olhou assustado sem acreditar que ele ainda estava vivo.

— Sorte?!

— Se eu não estivesse contendo essas correntes…

Ele olhou para os pulsos dele.

— Elas já teriam estraçalhado seus ossos.

Constantine ficou quieto.

A fumaça começou a desaparecer.

Zatanna ergueu lentamente a cabeça.

E então viu.

O caçador estava de pé.

O ombro direito havia sido atingido diretamente pela explosão.

Uma parte enorme dele havia simplesmente desaparecido.

Mas a ferida estava se fechando.

Músculos se reconstruíam.

O tecido se reorganizava.

As faixas negras voltavam a envolver seu corpo.

Em poucos segundos, não havia mais sinal do ferimento.

Zatanna ficou em silêncio.

Constantine também.

O caçador olhou para o próprio ombro.

Depois para Constantine.

— Eu subestimei sua magia.

Constantine ergueu uma sobrancelha.

— Vou considerar isso um elogio.

— Não foi.

O sorriso de Constantine desapareceu.

— Entendi.

Ele continuou:

— Admito que não imaginei que você já tivesse terminado o feitiço.

Ele olhou para o chão destruído.

— Mas foi inútil.

A lâmina começou a surgir novamente.

— Por mais que eu tente…

O caçador caminhou na direção de Constantine.

— Não consigo encontrar um único motivo para lhe dar uma chance de viver.

Zatanna se levantou.

Ainda estava fraca.

Mas correu.

— ESPERA!

Ele ergueu a lâmina.

Zatanna entrou entre os dois.

— Por favor!

Ele parou.

Zatanna respirou com dificuldade.

— Eu não vou justificar o que ele fez.

Constantine olhou para ela.

— Zee…

Ela não tirou os olhos do caçador.

— E não vou tentar defender ele.

A voz dela tremia levemente, mas permanecia firme.

— Só me deixe tentar entender.

O caçador não se moveu.

— Deixe nossa equipe entender por que ele fez uma atrocidade dessas por causa de uma porta.

Silêncio.

— Por favor.

Os olhos azuis permaneceram sobre ela durante vários segundos.

Finalmente…

A lâmina desapareceu.

As correntes que prendiam Constantine se desfizeram.

O corpo dele despencou.

Ele caiu de joelhos, segurando os pulsos.

Zatanna permaneceu de pé olhando para o caçador.

Ele começou a caminhar para longe.

Constantine levantou o rosto.

O caçador parou.

Não se virou.

— Tudo bem.

Zatanna respirou aliviada.

Então ouviu:

— Mas não ouse pensar que você foi poupado, John Constantine.

Constantine ficou imóvel.

— Sua sentença ainda está sendo decidida por mim.

Ele continuou andando.

— Sua morte só foi adiada.

Mais um passo.

— Não há nada e ninguém neste mundo capaz de impedir o julgamento que eu escolher para você.

Constantine abaixou os olhos.

— Então aproveite cada segundo que lhe resta.

Ele finalmente olhou por cima do ombro.

— Repense seus atos.

Os olhos azuis encontraram os de Constantine.

— Porque, independente do motivo…

Uma pausa.

— Você é o responsável pelo assassinato de cento e vinte pessoas.

Constantine não respondeu.

— Pessoas que sequer sabiam que magia existia.

Ele voltou a caminhar.

A escuridão do corredor começou a envolvê-lo.

Seu corpo desapareceu lentamente nas sombras.

Sem portal.

Sem magia visível.

Apenas desapareceu.

Zatanna e Constantine ficaram sozinhos.

Constantine abriu a boca.

— Zee, eu posso expli—

— Cala a merda da sua boca, Constantine.

Ele parou.

Zatanna estava exausta.

Mas a expressão em seu rosto não era de medo.

Era de desgosto.

— Não fala mais nada.

Constantine ficou quieto.

— Eu vou ver como os outros estão.

Ela apontou para ele.

— E se você tentar fugir, a Casa dos Mistérios definitivamente não vai permitir, isso se ela ainda não tentar te matar.

Constantine olhou ao redor.

— Eu não estava pensando…

Zatanna o encarou.

— Calado.

Ele fechou a boca.

— Você vai nos contar tudo.

Ela passou por ele.

— Cara a cara.

Constantine ficou sentado no chão.

— E eu não quero ouvir uma única reclamação.

Ele suspirou.

— Nem uma piadinha.

Constantine permaneceu em silêncio.

Pela primeira vez naquela noite, não encontrou nada para responder.

Ele olhou de relance para Zatanna.

A expressão dela dizia tudo.

Desgosto.

Decepção.

E talvez algo ainda pior.

Desconfiança.

Constantine abaixou os olhos.

__________________________________________________________________________________________

No topo de um prédio qualquer, Londres permanecia sob uma chuva pesada.

As luzes da cidade brilhavam através da cortina de água.

Carros passavam pelas ruas molhadas.

Pessoas continuavam suas vidas sem saber o que havia acontecido naquela noite.

No alto do prédio, uma figura permanecia imóvel.

O longo manto negro era agitado pelo vento.

As correntes permaneciam presas aos seus braços.

Os olhos azuis observavam a cidade.

John Argent.

O Immortal Hunter.

Ele havia encontrado Constantine.

Havia encontrado a verdade sobre o massacre.

Ou quase toda a verdade.

Mas ainda não tinha decidido qual seria a sentença.

Por enquanto, Constantine estava vivo.

Por enquanto.

John permaneceu em silêncio enquanto a chuva caía sobre Londres.

Seu olhar se perdeu nas luzes distantes da cidade.

Cento e vinte vidas.

Uma porta.

Uma entidade.

E um homem que acreditava estar no controle.

John ainda precisava descobrir uma coisa.

Por que a Porta era importante o suficiente para que alguém estivesse disposto a sacrificar um vilarejo inteiro para encontrá-la?

Notas finais
• John finalmente encontrou Constantine. E definitivamente não foi um encontro amigável. • A Casa dos Mistérios também ganhou um pouco mais de personalidade neste capítulo. Afinal, depois de tudo que Constantine fez, acho que ela tinha alguns motivos para estar irritada. • E sim... a Porta continua sendo um dos maiores mistérios da história. Obrigado por ler Justice League Dark: Immortal Hunter. Se você gostou, deixar uma avaliação, comentário ou seguir a história ajuda muito. Nos vemos no próximo capítulo.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.