Justice

1 Capítulo 1 - Prólogo


#AVA

O dia estava bonito em Nova Iorque. O sol brilhava, não estava quente e nem frio. O transito não estava caótico, e os alunos pareciam mais calmos hoje, já que não tinha aquela correria habitual.

Estava tudo dando certo até agora. E continuaria assim. Até a cafeteria estava tranquila hoje cedo, sem aquele monte de gente gritando, conversando e mexendo no celular ao mesmo tempo. Hoje era o grande dia. o dia em que eu iria começar o meu estágio como advogada na Sharpe Advogados Associados. Mais especificamente, na empresa dos meus pais.

Durante toda a minha vida eu cresci escutando o quanto eu era boa, que eu era o orgulho dos meus pais e ainda seria uma grande advogada um dia. Eu me orgulhava de ser organizada e estudiosa porque os meus pais sempre me disseram o quanto isso era importante para um advogado.

Eu cresci sabendo que teria o meu lugar garantido na Sharpe Associados. Eu não precisava batalhar como as pessoas comuns. Eu seria grande desde o começo. Eu tinha esse plano desde de que me entendo por gente.

Quando me perguntavam o que eu seria quando crescer, a resposta era simples: Advogada. Igual aos meus pais.

Eles tinham esse plano para mim, e eu apenas aceitei. Diferente da minha irmã, Ana, que sempre fez questão de fazer seus próprios planos.

Hoje era o grande dia. O dia em que eu começaria o meu estágio e seguiria na carreira criminal. Eu seria grande igual aos meus pais. E por isso, quando cheguei no dormitório ontem depois da aula, tinha uma sacola com um bilhete dentro me esperando.

Para o nosso orgulho”.

Não precisou de remetente para eu saber que se tratava dos meus pais.

Um lindo terno feminino azul marino estava perfeitamente dobrado. Ele tinha sido caro, eu sabia disso apenas tocando o tecido. Eles queriam que eu me vestisse como eles, como uma profissional.

Por isso hoje eu estou aqui, na porta da frente da faculdade esperando minha única aula do dia começar vestido um terno de três mil dólares. As pessoas passam e me olham estranho, mas eu não tenho vergonha. Essa é o uniforme de uma advogada de sucesso que está apenas começando.

— Ava. – ouço Amaya acenar ao longe e vou ao seu encontro.

Foi tudo tão rápido, que eu só senti o esbarrão e o liquido preto e quente manchar minha blusa branca.

— Merda!

— Você não olhar por onde anda, não?

Eu e a outra garota falamos juntas.

— Você que passou correndo esbarrando em todo mundo. Sabe quanto custa essa roupa?

Encaro a garota com raiva.

— Essa é minha primeira semana e eu só conheço maluca nesse lugar. – ela pragueja sozinha. – olha só, me desculpa. Eu estou atrasada e não estava prestando atenção, mas você também foi culpada.

— Eu?

— Sim, você se virou de vez sem ver quem estava atrás.

Abri minha boca para responder, mas o celular dela tocou e ela saiu correndo.

— Foi mal. – gritou no meio do caminho.

Droga! Agora eu estava suja e não teria tempo de trocar de roupa antes de ir para o estágio.

Caminhei até Amaya praguejando contra a garota maluca. Eu amava essa faculdade, mas tinha muito aluno idiota nesse lugar. Amaya era uma rara exceção.

— Eu ia elogiar sua roupa, mas agora ela não está tão bonita assim.

— Nem me fale.

Suspirei e segui para o banheiro para limpar o máximo que consegui, mas não teria jeito. Hoje o dia já ficou ruim. A aula foi chata ao ponto de eu não conseguir me concentrar em nada. Tudo o que eu queria era ver aquela garota de novo e dizer poucas e boas a ela.

Não que uma roupa importasse tanto assim, mas o jeito dela me irritou.

Assim que cheguei na empresa dos meus pais fui direto para a sala dos estagiários. Eu tinha sido a primeira a chegar, como sempre. Meus pais já estavam lá prontos para receber os novos funcionários e me deram largos sorrisos, que morreram assim que notaram a minha roupa toda machada.

— Ava, querida. O que aconteceu?

Minha mãe veio até mim examinando a mancha.

— Uma idiota derramou café em mim na faculdade. Mas está tudo bem, quando eu coloco o terno e fecho os botões não aparece nada.

— Querida essa mancha não vai sair, você precisa se trocar.

— Não, eu estou bem. Quero começar logo o meu estágio e encher minha cabeça de trabalho para esquece aquela idiota.

— Ava. – meu pai repreendeu.

— Desculpe.

— Querida você pode ir em casa e voltar em menos de uma hora. Você sabe como funciona tudo, pode perder o começo da apresentação.

Minha mãe era o tipo de mulher que valorizava a primeira impressão, e jamais me deixou sair de casa malvestida ou com o cabelo fora do lugar.

— Não, eu estou bem. Além disso, lembra do que conversamos? Nada de privilégios por eu ser a filha de vocês. Sei que estar nesse programa já é um privilégio, mas eu quero ser tratada como qualquer outro estagiário. Quero avaliações reais para a faculdade. Não quero ser a melhor por ser filha de vocês. Quero ser a melhor porque eu sou a melhor.

— É assim que se fala. – meu pai sorrir.

— Por mim você nem precisava começar tão de baixo. Mas se você insiste. – minha mãe dar de ombros e se afasta quando as pessoas começam a chegar.

Em pouco tempo a sala de reuniões está cheia, com quinze estagiários prontos, e ansiosos, para começarem a trabalhar.

— Bom dia a todos e sejam bem-vindos à Sharpe Advogados Associados.

Meu pai começa com o discurso que eu já sei decorado sobre como é bom ter novos talentos na empresa e que espera que a gente dê tudo de si pelo trabalho, porque no fim três serão contratados.

#

Ter algo além de estudar era bom. Algo com que se preocupar e se dedicar. Ser responsável por um trabalho que ninguém mais fez, só você. Tudo tinha sido maravilhoso no meu primeiro dia na empresa, eu até esqueci que tinha uma mancha enorme na minha camisa. Esqueci da garota chata que conheci na faculdade. Esqueci tudo. Só foquei no trabalho.

Quando eu cheguei no meu quarto a noite, eu me senti bem. Eu não estava errada em aceitar os planos dos meus pais para mim, isso era realmente o que eu queria. Eu seria uma advogada e não me arrependeria.

Deitei na cama e suspirei fechando os olhos.

— Ei, você chegou. – Amaya sai do banheiro. – como foi seu primeiro dia?

— Maravilhoso. Trouxe alguns papeis para revisar para amanhã.

— Ava Sharpe sempre na frente de todos.

Reviro os olhos e me sento.

— Eu não tenho culpa se gosto de me adiantar e ver muito mais do que é preciso.

— Claro, isso é totalmente normal. – ela zomba. – quem não estuda as aulas um dia antes de serem dadas pelos professores?

— Eu. Por isso sou a número um da turma.

Jogo os ombros e vou direto para o banheiro ouvindo Amaya soltar uma piada. Eu realmente era uma aluna dedicada. Estudava antes para tirar dúvidas depois com o professor. Passava horas vendo documentários ou lendo artigos. Eu realmente me dedicava naquilo que fazia, e não era esforço nenhum para mim.

Deixo a água bater no meu corpo e molhar meus cabelos. Era relaxante. Isso poderia virar um ritual para mim. Faculdade, trabalho, casa e uma ducha quentinha. Bom o dormitório não era bem minha casa, mas era um bom lugar e não faltava nada.

Eu escolhi morar no dormitório durante a faculdade para realmente vier a experiência da vida universitária. Tive sorte em ter Amaya como colega de quarto, nos demos bem desde o começo. Eu não gostava da parte onde ela adorava festas e queria que eu a acompanhasse sempre, mas de vez enquanto era bom.

— Ava? Morreu aí dentro? – Amaya bate na porta.

— Já estou saindo.

Visto o roupão e enrolo o cabelo.

Quando abro a portar para sair, Amaya está parada com um sorriso enorme no rosto. Um sorriso pidão.

— O quê?

— O que você vai fazer sexta à noite?

— Porquê?

— Uma festa de boas-vindas aos calouros e despedida do pessoal que está se formando. Vai ser super secreta, então não pode espalhar.

— Se vai ser super secreta porque está me contando?

Ela revira os olhos.

— Porque você é minha amiga e vai comigo. Sem desculpas.

— Maya...

— Não, Aves. Nós estamos terminando a faculdade e merecemos nos divertir. E você me deve.

— Eu te devo?

— Sim. você só aceitou meus convites para sair depois do segundo ano de faculdade, então você me deve algumas festas.

Dessa vez eu reviro os olhos e passo por ela.

— Vou pensar. Se eu não tiver cansada demais, eu posso até ir.

— Então vou confirmar nossa presença.

Ela diz animada e pega o celular.

Amaya adora festas e bebedeira. Essa pelo visto seria bem agitada, e por isso não podia deixar ela ir sozinha. Eu não bebo, então sempre acabo trazendo ela pra casa.

— Nós vamos levar vodka, então prepare-se para beber.

— Eu passei a faculdade toda sem beber, e pretendo terminar assim também.

— Alguém já disse o quanto você é careta?

— Sim, você. Todos os dias.

— E eu sempre estou certa. – ela pisca e pula na minha cama. – eu estou de olho em um calouro, ele é muito gato e fofo. Diferente dos que eu costumo ficar. Ele vai estar nessa festa, a gente não pode perder.

Você não pode perder. – corrijo.

— Certo, mas eu não posso aparecer sozinha, então você vai comigo. Ele é muito gente boa, e eu não quero ir para cama com ele logo, então você vai ser encarregada de me trazer de volta.

— Eu vou vigiar você.

— Isso. – ela sorrir. – e depois eu vou ficar te devendo uma.

— Vou cobrar.

Ela faz uma careta e estreita os olhos.

— E eu sei que vai sair caro, mas com certeza valerá a pena.

Eu rio e expulso ela da minha cama. Amaya era minha melhor amiga e totalmente o oposto de mim. Ela adorava bagunça, nunca tinha o estudo em dia, perdia tudo o que tinha e gostava de homens. A última com certeza era a nossa maior diferença.

— Se você for simpática o bastante, pode até ficar com alguma garota, quem sabe?

— Nem vem. Quero dar um bom tempo depois da Alex.

Alex. Meu mal humor voltou só em falar no nome dela.

Ela era minha ex que se mudou para Las Vegas depois que me traiu com praticamente todas as meninas da faculdade. Na verdade, ela foi a primeira garota com que eu fiquei, e com certeza estava se encaminhando para ser a última já que eu não fico com ninguém há dois anos.

Afasto essas lembranças da cabeça e vou vestir minha roupa de dormir. Amanhã era um novo dia e eu espero que seja bem melhor que hoje.

#SARA

A vida na universidade é corrida. Menos de uma semana que estou aqui e já estou exausta. Ter obrigações não é muito meu forte, mas meus pais insistiam que eu tinha que pelo menos terminar a faculdade, e então eu poderia ser o que eu quisesse.

Eu queria que eles sentissem orgulho de mim como eles sentem da Laurel, minha irmã. Ela é inteligente, está trabalhando como assistente de promotoria e tem tudo para ser a melhor promotora que o país já viu. Mas eu não sou como ela.

Eu queria ser bem-sucedida e orgulhar meus pais por outros meios, mas eu ainda não descobri por qual. Por isso aceitei entrar na faculdade. Um ou dois semestres seriam o bastante para que eu mostrasse que não levo jeito para estudos e me dedicaria a outra coisa. Algo que eu realmente goste, como lutar.

Eu sou boa em lutas. Todas elas. Eu acabo com qualquer um dos atletas da academia onde treino. Com certeza seria uma grande campeã, mas como disse, não sou boa em ter uma vida regrada como a deles. Dieta, horários, treinos. Rotina não faz bem para mim.

— Lance, está a fim de ir almoçar em um lugar perto? Temos aula em uma hora.

Zari corre para me acompanhar.

— Pode me chamar de Sara, Zari. – sorri para ela. – onde é lugar?

— Ouvi uns alunos combinando de ir numa lanchonete aqui perto. Parece que toda a galera vai. Podíamos ir e ver se realmente vale a pena.

— Que tal a gente ir para outro lugar? Um quero não envolva tanta gente da faculdade? Essa galera é estranha.

Zari rir e aceita. Ela era parecida comigo, não se encaixava muito com o pessoal daqui. Mas também é meio estranha, fala algumas coisas que eu acho que são códigos da internet. Ela é meio nerd para tecnologia, mas era interessante de alguma forma.

Ficamos na filha de um quiosque para comprar sanduiches por dez minutos. Zari gostava mesmo de falar, ela não parou um segundo. Enquanto eu mandava mensagem par Laurel dizendo que estava tudo bem comigo, Zari falava sobre seu irmão, como ela quase foi presa por hackear uma empresa e que foi obrigada a entrar na faculdade por seus pais também.

Ela não sabia o que queria assim como eu, mais um motivo para eu ser amiga dela.

Quando finalmente conseguimos nossos sanduiches, fomos até o parque próximo para almoçarmos. Eu não estava prestando atenção na conversa da Zari, mas ela estava muito empolgada falando.

— Então? O que acha? – ela bate seu braço no meu.

— Oi? Desculpa, Zari, não ouvi.

— Eu aqui falando sobre o assunto da faculdade hoje e você voando?

— Mais uma coisa que descobri sobre você: gosta de fofocas.

— Eu não gosto de fofoca!

— E o que é então?

— A festa. Todos estão comentando.

— Festa?

— Sim. Todo ano eles fazem festa de boas-vindas para os calouros e despedidas para os que vão se formar. É só mais um motivo para beber. Mas parece que vai ser legal. Era para ser secreta, mas já está todo mundo sabendo.

— E você foi convidada.

— Sim, e você também. – a encarei sem entender. – um veterano me convidou e disse que eu poderia levar minha amiga loira gata. Bom, só conheço uma loira gata.

Ela ergueu as sobrancelhas como se fosse óbvia a conclusão.

— Eu não vou a essa festa. Parece ser idiota.

Sento no banco e Zari me acompanha.

— Vai ser legal. Nós vamos conhecer algumas pessoas, vamos nos divertir, beber. Nós estamos na faculdade, merecemos viver cada momento.

— Clichê – faço uma careta.

— Sara, qual é. Você tem cara que adora festa, e hoje é sexta. Podemos curtir nossa ressaca no sábado como verdadeiras universitárias.

— Vou pensar. – reviro os olhos e mordo meu sanduiche. – mas só para saber, o cara que nos convidou é gato?

— Muito. – nós duas rimos e eu olho para frente, vendo as pessoas caminharem e conversarem pelo lugar. Nova Iorque era realmente lindo.

Não demorou muito para meu olhar se fixar em uma mulher loira, vestida de em um terno cinza aberto na frente. Ela parecia importante naquela roupa, mas era jovem demais para ter um alto cargo. Suas peras estavam perfeitamente juntas enquanto ela abria uma sacola e retirava seu almoço de dentro dela. Seus cabelos estavam perfeitos no coque que ela fez. Seus movimentos eram quase ensaiados.

Eu tive vontade de rir, mas eu não fiz. Ela era interessante. Quando ela levantou o rosto, eu pude ver quem era. Era ela. A loira em que eu esbarrei no começo da semana. Ela parecia tão bem vestido quanto naquele dia.

— Ava Sharpe. – Zari me puxa de volta a realidade.

— O quê?

— O nome dela é Ava Sharpe. – ela aponta com a cabeça para a loira. – ela está terminando a faculdade, acho que esse é o horário de almoço dela no estágio.

— Você gosta mesmo de fofoca. – eu rio e Zari em empurra.

— Não é isso. Eu conheci a colega de quarto dela ontem, Amaya.

— Ela é estranha.

— Estranha como?

— Ela é certinha demais. Olha com ela come. Eu aposto que ela mastiga vinte e cinco vezes contadas antes de engolir a comida.

— Sabe, isso não é ruim.

— Mas é estranho. Que tipo de pessoa normal faz isso?

Ela dá de ombros.

— Bom, podemos conhecer um lado diferente dela hoje.

— Como?

— Ela vai estar na festa. Quem sabe algumas doses foçam ela se soltar mais?

Eu me peguei imaginando como ela seria dançando ou rindo. Ela não parece ser o tipo de pessoa que rir muito. Ela parece séria. Muito séria.

Enquanto eu almoçava e tentava prestar atenção na conversa com Zari, meus olhos insistiam em buscar Ava. Me peguei sorrindo vendo o jeito dela. E quando ela finalmente terminou, com paciência juntou todo o seu lixo, separou como se fosse levar direto para reciclagem e jogou cada coisa no seu lixo. E então recolheu suas coisas e foi, com um andar altamente presunçoso e uma elegância que é difícil encontrar em algumas pessoas hoje em dia.

— Então, que horas é a festa? – interrompo Zari.

— É assim que eu gosto. – ela sorrir. – 20:00 horas nos encontramos na entrada do dormitório B.

#AVA

Amaya conseguiu me trazer para essa festa idiota de calouros. Sério, quem se interessava por calouros? Ninguém! E ainda por cima eu estava desconfortável nesse vestido que ela me obrigou a vestir. Curto demais, decotado demais. Eu odeio vestidos.

Assim que chegamos eu já estava arrependida. Tinha mais gente do que pensei que teria. Todos com um copo vermelho na mão, e daqui a pouco todos eles estariam bêbados.

— A vodka chegou. – Amaya anunciou levantando a sacola com as duas garrafas.

Todos gritaram comemorando.

— Eu já disse que odeio você. – disse enquanto baixava meu vestido. Eu podia ver alguns meninos olhando para mim, e não gostei nada disso.

— Não, você me ama. – ela sorrir convencida. E se vira quando uma morena se aproxima cumprimentando. – oi Zari, que bom que você veio. Deixa eu te apresentar, essa aqui é minha colega de quarto, Ava. Ava essa é Zari, é uma caloura também, mas é ótima em hackear as coisas.

— Isso é contra a lei. – levanto a sobrancelha para a garota que me olhava com um certo medo.

Escuto uma risada sarcástica ao lado da garota e olho a loira baixinha ao seu lado.

— O quê? – ela ergue as mãos em sinal de redenção, mas não fala nada.

— Zari não precisa ter medo, Ava não vai fazer nada. Ela só gosta de colocar medo. Vai ser uma ótima advogada. – Amaya me cutuca.

— Bom, nesse caso deixa eu apresentar minha amiga, Sara Lance. Ela também é caloura.

Amaya cumprimenta a loira e eu fico olhando ela, tentando lembrar de onde eu a conheço.

— A gente não já se viu antes?

— Não. – ela rápida na resposta e bebe um gole da sua bebida.

— Eu acho que... Ah, claro. Você esbarrou em mim e quase estragou meu terno de três mil dólares.

Eu nunca esqueceria aquela arrogância dela. Só de lembrar daquele dia a minha raiva dessa garota e desse lugar aumenta.

— Olha, se alguém esbarrou em alguém aqui, esse alguém foi você esbarrando em mim.

— Quem ficou toda suja de café e teve que trabalhar assim?

— Então é melhor você começar a olhar por onde anda.

Antes que eu pudesse responder Amaya me interrompe.

— Ok, foi um ótimo começo, mas nós precisamos ir colocar essas bebidas na mesa.

— Bom, porque eu preciso mesmo de uma dose. – digo ainda encarando a loira mais baixa.

— Você não bebe. – Amaya lembra.

— Hoje eu bebo.

Dou uma última encarada nela e saio. Sério, quem aquela garota acha que é? A dona do mundo? Ela me irrita de uma forma que eu não consigo explicar. Sua presença deixa tudo pior do que o que realmente é.

Amaya me encontra na mesa de bebidas enquanto eu encaro todas aquelas garrafas.

— O que foi aquilo? Nós precisamos ser amigas dessa gente, Nate é calouro, provavelmente conhece elas.

— Maya, você precisa ser amiga, eu não. E quem aquela garota acha que é? Você viu o que aconteceu naquele dia, você sabe que a culpa não foi minha, mas dela.

— Bom... – ela deixa no ar e eu a encaro.

— O quê? Você acha que foi culpa minha também?

— Foi meio a meio. Nenhuma das duas estava olhando para frente na hora, então não precisa ficar culpando a garota por tudo.

— Ok, mas ela me irrita. Ela fala como se tivesse toda razão do mundo.

— E quem mais fala assim? — ela me encara como se a resposta fosse óbvia.

— Eu preciso beber.

Me sirvo de uma dose, bebendo ela pura. Amaya me olha surpresa.

— Você me obrigou a vir com esse vestido e essa festa não é minha praia. Preciso beber.

Ela sorrir.

— Só lembre que você precisa cuidar de mim e não ao contrário.

Balanço a cabeça e me sirvo de outra dose, mas dessa vez um pouco de refrigerante e gelo para não arder tanto. Me viro e fico observando as pessoas. Todas elas conversando com alguém e segundas intensão explicitas no olhar. Eu nunca gostei de festas universitárias. Sexo em quarto qualquer com uma pessoa qualquer nunca foi a minha praia. Eu gosto de conhecer as pessoas, conversar com elas. Sexo por sexo nunca foi minha primeira escolha.

Passo o olhar por todo o lugar e vejo Sara conversando com um garoto. Eles estavam próximo e com certeza estavam flertando. Ela riu de algo que ele falou. Como alguém consegue conversar com ela por mais de cinco minutos? Certamente ele queria transar com ela, esse era o único motivo. Pego a garrafa de vodka e saio a procura de um bom lugar para beber.

#

— Pensei que você não bebesse.

Ouço ela atrás de mim e quando vejo, ela já está sentada ao meu lado.

— Porquê está aqui?

Tento ignorar sua presença e tentar fazer com que ela vá embora. Sara solta uma risada e se vira para mim.

— Ok, você está com raiva de mim por esbarrar em você. Se eu pedir desculpas você volta a falar comigo?

— Então você admite que esbarrou em mim? – falo sem encara-la.

— Não. Mas peço desculpas por isso se precisar.

— Qual a diferença? Eu não gosto de você e você não precisa forçar uma conversa.

— Bom, pelo visto preciso já que está sentada aqui longe de todo mundo.

— Eu não gosto de calouros.

— É só por isso que não gosta de mim ou tem outro motivo?

Me viro para ela. Sara tinha um sorriso satisfeito no rosto e seus olhos brilhavam com a luzes do lugar. O azul deles eram lindos.

— Você tem esse sorriso convencido que eu não gosto. Você fala como se tivesse razão sobre tudo e eu não gosto. Você é uma idiota e eu não gosto de você.

— Nossa. Só nos esbarramos uma vez e você tirou essa série de conclusões sobre mim? – volto a olhar para frente e tomo um gole da minha bebida, que aliás, estava apenas na segunda dose. – porquê não fazemos uma brincadeira? Você diz uma coisa que acha que sabe sobre mim e se for verdade eu bebo, se for mentira você bebe.

— Não vejo razão para isso.

— Bom, você vai poder saber se o que acha sobre mim é verdade ou não.

— Eu não bebo.

Sara solta uma gargalhada alta e vira o resto da bebida do seu copo. Eu a encaro sem entender.

— Isso é mentira, certo? Você está com uma garrafa de vodka na mão e um pouco na outra.

Olho para a garrafa e riu.

— Ela está praticamente cheia, só achei que ter uma garrafa de bebida na mão faria eu me sentir mais à vontade aqui. – derramo um pouco de bebida no copo dela. – eu bebo, mas não muito. Duas doses é o suficiente.

— Então precisamos mudar as coisas. – ela me olha sorrindo e eu me sinto envergonhada de alguma forma. O que está acontecendo comigo? – sua vez, fale o que acha de mim.

— Eu já disse.

— Diga uma outra coisa. Você vai ser advogada, deve ter ótimos argumentos.

Me ajeito para sentar de frente para ela a analiso.

— Você é do tipo que quebra todas as regras. Não gosta de receber ordem e sempre acha que tem razão.

Sara estreita os olhos na minha direção por longos segundos e então toma um gole da sua bebida.

— Viu? Estava certa sobre você. – ela sorrir.

— Sim, mas isso não é tudo. Eu também tenho qualidades.

— Tipo?

— É minha vez no jogo. – eu concordo com a cabeça. – você é o oposto de mim. Segue regras e se orgulha disso.

— Verdade. – tomo um gole da minha bebida. – você conversa com todo mundo, mas tem cara de quem não tem amigos.

— Tenho poucos, mas bons amigos. – ela me analisa um pouco. – você parece ter planejado toda a sua vida profissional, mas nunca pensou na sua vida pessoal.

— A minha vida pessoal está ótima.

— Mas você tem planos?

— Sim. Vou me formar e ser uma grande advogada. Vou trazer respostas para pessoas que precisam delas. Vou ajudar pessoas.

— Ótimo, isso é lindo. Mas isso não diz muito da sua vida pessoal.

— Esse sempre foi meu sonho. Minha vida pessoal e profissional anda juntas.

— Mais uma vez, você não tem planos. Beba.

— Eu não vou beber!

— Eu acertei, é um jogo.

Eu a encaro antes de virar meu copo. Queria que ela não estivesse certa sobre isso, mas ela estava. Eu nunca pensei sobre a minha vida pessoal. Sobre encontrar alguém, amar alguém, casar e construir uma família. Eu só pensei em ser grande profissionalmente. Em ser a melhor.

— Minha vez.

— Manda.

Tentei me concentrar em algo para dizer, mas a única coisa que eu via na minha frente era o bico discreto que seus lábios faziam sempre que tentava ficar séria.

Droga. O que está acontecendo comigo?

— Eu acho... que...

Ava. — uma Amya sorridente e bêbada sentou no nosso meio. – eu acho que estou bêbada, o Nate me fez brincar de beer pong e eu errei várias, mas ele acertou todas. Então ele está bem, mas eu não.

E então ela caiu na gargalhada como se aquilo fosse a coisa mais engraçada do mundo.

— Ok, então está na hora de eu entrar em ação. Vamos para casa.

— Mas aqui está tão bom. – ela choraminga.

— E se você beber mais vai entrar em coma alcoólico, ou se for embora com o tal de Nate vai para a cama com ele e amanhã vai se arrepender. Então é hora de ir.

— Você está certa. Sempre está certa.

Olho para Sara, que estava se divertindo com Amaya.

— Posso ser sincera? – a loira pergunta e eu concordo. – acho que nenhuma das duas está bem o bastante para irem sozinhas.

— Viemos de táxi.

— E eu de carro. Vamos, eu levo vocês.

Ela levanta.

— Você bebeu mais que eu.

— E eu também sou mais for para bebidas do que você. Então, vai querer carona?

— Ava, eu acho que vou vomitar.

Suspiro. Eu até preferia um táxi, mas já que ela estava se oferecendo... concordei com a cabeça e levantei tentando ficar em pé junto com Amaya. Eu não tinha noção do quanto estava tonta até levantar. Essa droga de bebida é forte mesmo, né?

— Eu conheço o Nate, vou avisar que Amaya passou mal e estamos levando ela para casa. Me espera no estacionamento?

Concordo e ela sai. Não sei porque Sara estava fazendo isso, e do nada ela estava sendo legal comigo, mas ela podia ser diferente do que eu pensava. Saio andando devagar com Amaya que reclamava o tempo inteiro de como ela estava enjoada. Eu sabia que seria assim, só esperava que ela não ficasse nesse estado.

Quando Sara no encontrou no estacionamento, ela me ajudou com Amaya. Nós colocamos ela deitada no banco de trás do carro e entramos na frente. Tudo estava começando a rodar, e só piorou quando o carro começou a andar.

Apenas fechei os olhos me concentrando em ficar boa.

Não sei quanto tempo levou até chegarmos no prédio dos dormitórios. Sara me acordou perguntando em qual bloco nós estávamos e eu apenas apontei o caminho. Agradeci quando ela parou em frente, mas ela negou e disse que me ajudaria com Amaya até lá dentro.

Quando finalmente conseguimos deitar uma Amaya adormecida na cama, eu me sento na minha. Estava cansada de carrega-la. Sara para na minha frente e sorrir.

— Você não parece bem. – eu sorrio também.

— Se tivesse uma bebida aqui, eu certamente beberia uma dose. – ela rir baixo.

— Então ainda estamos no jogo? – ela senta ao meu lado.

— Ainda acho várias coisas sobre você.

— O que, por exemplo?

— Que você pode ser uma idiota, mas também é linda.

— Eu também acho isso de você. E eu ainda não tive a chance de dizer o quanto está linda nesse vestido. Bem mais do que naquele terno de três mil dólares.

Nós duas rimos e eu coloco a mão em sua boca para que ela não acorde Amaya.

— Nós realmente precisamos de mais uma garrafa de vodka para continuar esse jogo.

— Ah, podemos marcar qualquer dia. Ou podemos trocar a vodka por outra coisa.

— O quê?

— Não sei... pode ser um sorriso, um abraço... ou um beijo.

— Você quer me beijar?

Ela não fala nada, apenas aproxima nossos rostos. Sua respiração quente próxima da minha. Meus olhos se fecham automaticamente. Eu queria isso? Sara fecha a nossa distancia e suga meus lábios para si. Uma onda invade meu corpo e minhas mãos ganham vida, segurando seu rosto e trazendo-a para mais perto de mim.

Seus lábios eram macios, eu nunca teria imaginado isso.

Sua língua entra na minha boca e chupa a minha, aprofundando o nosso beijo. Seus dentes arranham meus lábios e eu seguro seus cabelos com força. Preciso me segurar para não gemer, mas aquela sensação era tão gostosa.

Quando ela vai parando o beijo, eu imediatamente sinto vontade de começar outro, mas sou impedida pelo som de seu celular tocando.

— Droga. – ela murmura próximo a minha boca.

Sara se afasta e confere a ligação, eu ainda não conseguia respirar direito, e só espero que ela largue logo esse celular e volte a me beijar.

Eu já disse o quanto ela beija bem?

— Sinto muito, tenho que atender. – seus olhos pediam desculpas. – oi, pai.

Ela se afasta e eu tento me recompor. Que merda acabou de acontecer aqui? Hoje pela manhã eu odiava essa garota e agora tudo o que eu mais quero é que ela volte e não pare mais de me beijar.

Sara se aproxima de mim com uma expressão estranha no rosto. Ela parecia chocada com alguma coisa, mas não falava nada.

— Está tudo bem?

— Não... – ela murmura.

— O que aconteceu?

— Ava... – sua respiração começa a ficar ofegante. – eu sinto muito. Sinto muito.

E então ela vai.

Tento entender o que acabou de acontecer, mas eu não sei. Num minuto ela estava me beijando e no outro ela simplesmente vai embora. Levanto para ir atrás dela, mas sinto tudo rodar. Eu não podia ajudar alguém assim.

Deito na minha cama e decido procura-la amanhã.

Notas finais
Deixe-me saber o que acharam :)