Justaposição
1 Capítulo único
Justaposição
(SaahYumiko)
Desde que o conhecera, era incapaz de olhar diferente para qualquer outra pessoa.
Os olhos âmbar pareciam lê-lo sem máscaras e mesmo que dentro de si o jovem Matsukaze soubesse que não havia nada além de um garotinho amedrontado, a maneira como Tsurugi o encarava fazia-o crer ser especialmente único.
Nunca recebeu elogios
Nunca foi amado
Nunca foi querido
~*~
-Mas de jeito nenhum que ele vai entrar no clube de futebol!
Seu pai o humilhava por sua estúpida timidez. Seu irmão mais velho o olhava com dissabor e piedade. Sua mãe era tão protetora que quase não o permitia sair e desfrutar de novas experiências.
Todos o limitavam e o subestimavam
Então ele apareceu. Um aluno transferido do Fifith Sector, solitário e emancipado. A beleza dele era inigualável, não havendo padrões para compará-la. E Tenma, com sua comum observação silenciosa, soube imediatamente que pertenciam a universos diferentes.
Estava morando na casa de uma parenta, Aki. Seus pais, por um milagre, o deixou estudar na tão almejada Raimon. Uma escola que ele aspirava desde que era criança. Para ele era como um sonho realizado. Seu coração eclodia de felicidade por aquele momento.
Entretanto, o primeiro dia não foi dos melhores. Ele conseguiu briga com o tal misterioso. Seus olhos azuis não paravam de admirar o colega. Ele tinha tanto medo de se apaixonar por um homem que ignorou seus pensamentos no mesmo instante. Mas... Não conseguiu.
~*~
E mesmo assim, com sua insignificância e seu odioso anonimato, os orbes âmbar daquele rapaz pousaram sobre ele. A lembrança daquele momento fazia-o estremecer pela maneira como Tsurugi o encarou, com um brilho faminto e mortalmente sensual, totalmente concentrado nele.
As esferas douradas, quentes e misteriosas pareciam dançar sobre o jovem, o brilho lascivo em seus olhos era assustador, como se ele cobiçasse cada pedaço de pele exposta.
-Posso me sentar?–A voz dele era profunda e grave, levemente autoritária, e o jovem considerou que combinava com sua expressão austera.
Ele assentiu suavemente, chegando seus materiais um pouco para o lado. As carteiras duplas eram comuns no primeiro ano do colégio Raimon, mas Tenma pouco se importava, achava que ninguém ia sentar ao seu lado. A realidade da Raimon é uma realidade que ele sempre quis. Quando o corpo masculino acomodou-se tão próximo, o garoto precisou prender o fôlego para evitar que o atraente perfume invadisse suas narinas.
Tentou puxar assunto vários momentos da aula, mas não iam muito longe, uma vez que Tsurugi era extremamente quieto e misterioso. Então resolveu deixar pra lá.
Evitou encará-lo. Evitou observá-lo. Evitou senti-lo.
O resto da aula passou rápido. Vez enquanto Tenma olhava para fora da grande janela da sua sala. Ficava pensando no clube de futebol, que era sua paixão. Mas sempre se flagrava pensando em um ser especifico. Suspirou. Aquilo estava se tornando tão patético.
Quando o sinal tocou, todos os alunos saíram correndo em uma velocidade espantosa. Tenma não era diferente, queria o mais depressa possível sair daquela sala de aula. Quando virou seu olhar para o lado, lá estava ele. Seus materiais estavam espalhados pela mesa de madeira e ele mexia no celular, mandando alguma mensagem. Não se importou.
Ou tentou não se importar.
Colocou sua mochila nas costas e saiu. Teve vontade de despedir-se, mas teve medo da resposta dele se o fizesse.
Andava pelos corredores olhando em volta. Sentia-se absurdamente minúsculo naquela enorme escola. Era totalmente diferente do que estava acostumado. Já que a escola do Ensino Fundamental era muito pequena.
-Tenma! –Uma voz masculina aguda vinha se aproximando. Quando o menino virou deu de cara com seu primeiro amigo quando entrou: Shinsuke.
Um sorriso largo desenhou nos lábios morenos, mesmo que a curto prazo, Tenma considerava muito aquele baixinho. Afinal, mesmo que seja muito animado, também era muito tímido e sempre teve dificuldade em fazer amigos.
-Vai fazer alguma coisa hoje?
-Eu nã... –Não completou a frase, seus olhos vidraram em uma figura azulada que saia da sala. –Na verdade... Tenho sim. A gente se vê amanhã! –E saiu correndo, deixando Shinsuke confuso para trás. O baixinho apenas acenou e continuou andando, estranhando a repentina atitude de Tenma.
Ao menos sabia pra onde ia. Ao menos sabia por que o fazia. Apenas sabia que uma coisa, precisava saber quem ele era. Sentia curiosidade em saber por que ele era tão amargurado e odiava tanto assim o futebol. Mas agora... tornou-se algo pessoal.
Seguiu-o até uma casa. Ela era grande, mas era humilde, sugeriu que fosse a casa dele ao vê-lo entrar, sem ao menos cumprimentar a mulher que o recebia. Escondeu-se em um arbusto lá perto e apertou as folhas com força, de modo que elas fossem culpadas pelo seu nervosismo.
É... Tinha que encarar a realidade. Ele estava apaixonado pelo novato rabugento. Como em apenas um dia todo esse golpe de sentimentos poderia acontecer? E outra, por que justo um homem?
Suspirou e engoliu a vergonha, caminhando em passos pequenos até a porta branca da casa. Pensou em recuar, e tentar esquecer aquele infeliz “acidente”. Mas quando se virou para ir embora, a porta se abriu.
Uma mulher, estatura baixa, os cabelos azulados estavam presos a uma enorme trança. Ela estava com as chaves do carro na mão e a outra vestia um casaco, sinal que estava para sair. Ela olhou Tenma e um sorriso doce desenhou em seus lábios tão rosados.
-Posso ajudar, mocinho? –A voz era suave. Ela era realmente muito gentil, era muito estranho pensar que uma mulher tão doce seria mãe de alguém tão... Frio.
-Tsurugi Kyousuke...
-É amigo do Kyousuke? –Uma sobrancelha se arqueou. Seguido de um sorriso ainda mais alargado. –Estranho, ele não recebe muita visita.
-Etto... –Não terminou a frase, a mulher já havia aberto a porta e dado espaço para ele entrar. Não questionou, apenas entrou.
-Vou ao mercado. Ele está no quarto. –Disse por fim e fechou a porta.
Tenma ficou um tempo encarando a porta, pasmo. Aquela senhora era extremamente boa e gentil. Repetia pergunta: como ela poderia ser mãe de alguém tão emancipado.
Balançou a cabeça para os lados e retirou os sapatos, colocando-os no canto à direita da porta, junto com os outros sapatos e subiu as escadas. Quando subiu se deparou com várias portas. E agora? Qual seria a do quarto de Tsurugi.
Tenma ficou batendo de porta em porta, sentia-se um idiota por fazer isso, mas era a única maneira. Quando chegou à última porta a direita, bateu normalmente e para a sua surpresa uma voz baixa, vindo de dentro da porta disse: “Entre”.
Então entrou, Tsurugi estava deitado em sua cama, lendo um mangá, o jovem ouviu a porta abrir e fechou o livro, deixando-o de lado. Quando viu quem era seu convidado, os olhos arregalaram em surpresa.
-Matsukaze?! –Perguntou como se não acreditasse em sua própria visão, levantou-se rapidamente da cama e pôs-se a olhar o garoto a sua frente. –O que faz aqui?
Agora o meio-campista ficou sem palavras. Não tinha pensado nisso, simplesmente pensou em segui-lo e só. E agora?
-É que eu estava... –Balbuciou em busca de alguma boa desculpa. –Queria seu caderno de matemática. –Falou baixo com o nervosismo o perturbando.
Os dourados fixaram-se sobre a imagem morena de Tenma e as sobrancelhas franziram-se com hostilidade. Ah, ela não se importava nem um pouco com a matéria de matemática. Para o inferno aquela matéria ridícula!
-Eu não anotei. –A voz saiu seca. Imediatamente Tenma tremeu.
Um som estrondoso veio de fora, algo branco se partiu na grama e iluminou todo o quarto. O moreno começou a tremer. Ele odiava raios, quando ouvia o som dos trovões tinha vontade de chorar.
Só nesse momento ele percebeu que estava chovendo. Bem que a Aki havia avisado pra levar um guarda-chuva. Praga de mãe sempre pega.
-É só isso? –O atacante cuspiu as palavras, como se expulsasse Tenma de lá. –Agora se me der licença. –Concluiu abrindo a porta do quarto, dando espaço para Tenma sair.
-Por favor... Eu tenho medo. –Ele começou, sentindo-se nervoso com o fato do azulado sequer olhá-lo. -Eu tenho medo de raios.
-Nada vai acontecer com você. –Disse com impaciência. –Nem está chovendo muito. –Sibilou e o moreno arregalou os olhos. Como alguém pode ser tão indiferente assim?
Outro som estrondoso de trovão veio lá de fora. Tenma ficou com mais medo ainda que seus olhos chegassem a lacrimejar. Tsurugi olhou para a imagem do meio-campista, ele estava encolhido e tremia, por um instante se sentiu um monstro.
Suspirou e chegou perto do moreno. Seus braços envolveram o corpo de Tenma e o trouxe pra si, como se o protegesse de alguma coisa. A principio o garoto ficou assustado, mas logo relaxou naqueles braços tão fortes. Ficaram assim por uns minutos, alguns sons de trovões aconteciam e Tenma ficava com medo, mas logo se acalmava quando sentia o abraço mais apertado de Tsurugi.
-Pode ficar aqui por enquanto... –Sussurrou Tsurugi enquanto desfazia do abraço lentamente. Ele estava sentindo muito dó de Tenma, e nem sabe responder por que.
Virou-se e caminhou até a cama novamente. Ele olhou novamente para a figura morena encolhida e bateu com a mão direita na cama ao seu lado, como se chamasse o jovem para se sentar também.
Foi caminhando em passos lentos, os azuis cobertos por pavor não tiravam os olhos da chuva que caia lá fora. A cada clarão branco, o corpo tremia mais até que ele alcançou a cama e sentou-se.
O silencio era mortal. Tsurugi encarava aquele meio-campista, suspirou e tirou o casaco, colocando sobre o corpo gelado do garoto. O rosto frágil de Tenma virou-se e encarou o azulado. Não precisou de palavras. Os orbes falavam por si só.
-Matsukaze... –Começou Tsurugi, ele mordeu o lábio inferior. –Desculpe-me se fui rude hoje...
Os azuis de Tenma se arregalaram, não esperava o pedido de perdão repentino vindo dele. Mas por outro lado se sentiu importante. Tsurugi... Tsurugi Kyousuke estava pedindo perdão, pra ele. Seu coração palpitou quando viu o corpo de Tsurugi se aproximar.
O rubor tomou conta de seu rosto. Nunca pensaria que sentia tanta atração por um homem da maneira que estava sentindo. Teve que respirar fundo pra não desmaiar ali mesmo. Aquele homem o conseguia levá-lo à loucura!
As mãos grossas de Tsurugi segurou o queixo do menino com delicadeza, seu coração derreteu ao sentir tamanho cuidado que o outro tinha com ele. O modo que Tsurugi segurava, parecia que estava segurando uma porcelana que se quebraria a qualquer momento.
-Hein, Matsukaze... Você me desculpa?
Naquele momento nem Tenma soube o que deu nele, apenas o garoto abraçou Tsurugi com força e o beijou. O camisa dez ficou tão surpreso que não teve tempo de se equilibrar e caiu na cama com um meio-campista em cima dele.
Após alguns instantes, Tenma se separou do azulado, nesse momento o olhava com completo vermelho em suas bochechas, mas um sorriso genuíno no rosto. Já Tsurugi estava em estado de tremendo choque.
-Por que fez isso? –Tsurugi gritou exaltado, e tentou empurrar Tenma pra longe de si, mas em vão. Tenma abraçou seu pescoço com tamanho grude, que o atacante mal podia se mexer.
Quando viu que não ia conseguir soltar-se, ele simplesmente deixou, retribuiu o abraço e as mãos acariciavam os cabelos espirais do outro. Os orbes âmbar se mantiveram no teto da casa, e sua mente nem pertencia mais àquele mundo.
Suspirou. Seria um longo... Longo e prazeroso ano.
Levantou o pequeno corpo do menor e deu um beijinho em seu pescoço, tal carícia fez o novato estremecer.
Olhou para a figura morena e sorriu, diabólico.
Tão deliciosamente ingênuo...
Fim.
Notas finais
Adoro fazer o Tenma-kun derreter corações de gelo ♥ principalmente dessa camisa 10 lindo
E vocês? O que acharam da oneshort? *-*
!Flores ou pedras!
.Reviews.
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