Just one night

1 Capítulo único.


Notas iniciais
Presente adiantado de natal Isah, espero que goste. Revisado e reescrito (14/11/2024)

No momento exato em que Aaron Bennet adentrou o estranho bar, sentiu como se todos os olhares dos presentes se direcionassem apenas para si. Se não fosse um homem já formado beirando a quase cinquenta anos, sentiria-se intimidado, mas isso estava longe de acontecer. Não apenas por ninguém olhá-lo como se fosse uma espécie rara de algum animal, mas por parecer apenas mais um no meio de tantos outros.

Ainda assim, Aaron sabia que não pertencia àquele lugar. Seu terno social impecável e a postura meticulosa o denunciavam, destacando seu desconforto enquanto atravessava o espaço mal iluminado até a única área banhada por uma luz fraca. Os demais presentes vestiam roupas gastas e simples, o tipo de vestimenta do cotidiano que não chamava atenção. Ele conseguia contar nos dedos quantos ali pareciam ter vindo diretamente do trabalho, e ele era um dos poucos que ostentavam aquele ar de formalidade deslocada.

O pensamento de sair dali passou por sua mente e ganhou força quando um trio de motoqueiros o encarou de cima a baixo, murmurando um “playboyzinho” enquanto ele passava. Talvez essa fosse a atitude mais sensata a tomar. Contudo, Bennet estava cansado demais para simplesmente sair e tinha chegado longe demais para aceitar a ideia de fugir. O dia tinha sido exaustivo — talvez o pior de sua vida — e ele queria apenas beber um pouco, na esperança de apagar o dia péssimo que tivera.

Andar pelo lugar o fez sentir-se como uma criança perdida da mãe. Estava em um bar completamente diferente dos que costumava frequentar; o termo “playboy” nunca fizera tanto sentido como naquele momento, e mentalmente ele concordou com o motoqueiro de nome desconhecido. As luzes fracas e a decoração escura davam ao local um ar abafado e sufocante. A fumaça de cigarro se misturava ao cheiro de suor e álcool, criando um ambiente poluído.

Seus olhos percorreram o estabelecimento com atenção. As três garçonetes moviam-se de um lado para o outro com roupas que, embora decotadas o suficiente para atrair os olhares dos homens, ainda eram relativamente decentes. Aaron notou que as três pareciam idênticas — o mesmo corte de cabelo, o mesmo formato de rosto — e se perguntou se não seriam irmãs.

Alguns clientes fumavam, soltando a fumaça para o alto e ajudando a tornar o ar mais denso. A sensação de claustrofobia quase o dominava, mas essa pressão cedeu quando ele finalmente alcançou o bar, um espaço mais aberto e menos apinhado do que o restante do local.

— Hey! Ô ruivinha, cadê a minha dose, hein? — Um dos bêbados sentados ao balcão chamava a atenção da única garçonete que preparava as bebidas, deixando claro seu desespero em ser atendido.

Bennet mal conseguia enxergá-la; via apenas a silhueta de uma figura feminina agachada, quase invisível na penumbra.

— Já vai, já vai! — A voz feminina respondeu, surpreendentemente calma e gentil, em contraste com a impaciência do homem embriagado. — Você não é o único aqui, sabia?

Ela se levantou, equilibrando duas garrafas cheias nos braços e as colocou sobre o balcão antes de encher um copo com a bebida solicitada.

— Bill, você já está caindo de bêbado, tem certeza de que quer beber ainda mais do que aguenta? Pior, tem certeza que quer continuar bebendo sabendo que pode morrer por causa dela? — A garçonete perguntou, segurando o copo antes de entregá-lo ao homem. O homem de nome Bill, resmungou algo sem sentido como resposta e depois algo coerente.

— E por acaso você é minha filha? — disse com um tom irritado, a voz pastosa pela bebida.

— Para a nossa sorte não. — Ela diz, rindo. Apesar da irritação notável presente no tom do homem, a moça mostrava um humor melhor e mais descontraído.

Ele levou um dedo aos lábios, fazendo um gesto de silêncio e estufando os lábios num bico.

— Então bico fechado, ruiva — retrucou, com um olhar nada discreto que percorreu o corpo da atendente.

— E você? — Aaron piscou quando percebeu que a voz da moça se direcionava a ele, o chamando. — O que vai querer?

Ainda um pouco distraído, Bennet virou o rosto em sua direção e ficou surpreso ao notar que ela não parecia ter mais do que vinte anos. Era jovem demais para estar em um lugar como aquele.

— O que você tiver de mais forte, por favor — pediu, sem muita convicção, enquanto a observava. Seus olhos captaram os traços delicados do rosto da moça. O cabelo ruivo, preso em um rabo de cavalo alto, deixava sua face mais visível.

Ele estranhou o próprio pedido. Não era do tipo que se entregava à bebida facilmente e, quando o fazia, limitava-se a dois copos de uísque ou uma taça de vinho. Jamais algo que ultrapassasse seus limites.

Diferente do que ela fizera, a moça nada disse sobre sua escolha, talvez por não conhecê-lo o suficiente para fazer algum comentário ou por simplesmente não dar a mínima sobre o que ele escolheu para beber. A ruiva se afastou, ficando de costas para ele até encontrar-se com a bancada de trás, onde todas as demais bebidas estavam; algumas penduradas e outras posicionadas de forma estratégica para que ficasse mais fácil de serem pegas.

O braço foi esticado e ela pegou uma garrafa diferenciada das demais juntamente com um copo recém lavado. Em um gesto já ensaiado, ela começou a servi-lo, colocando um total de cinco dedos do líquido alcoólico para ele.

— O que um homem como você faz aqui? — A moça ruiva perguntou, entregando o copo para ele e apoiando os braços no balcão com um olhar interessado.

— Um homem como eu? — Bennet perguntou em resposta, sem entender ao certo o que ela estava insinuando.

A ruiva arqueou uma sobrancelha e gesticulou com uma mão, como se mostrasse o lugar ao redor.

— Você não é como os homens que entram aqui, e isso é mais do que óbvio. Geralmente vocês escolhem beber naqueles bares gourmet, não em uma espelunca pobre como essa — explicou, e Aaron seguiu seu gesto, olhando para os outros homens presentes. De fato, ele era uma peça fora de seu quebra-cabeça, e isso era perceptível. — O que o trouxe até aqui para beber em plena quinta-feira?

Sua mente parou por alguns instantes enquanto pensava em uma resposta. Bennet não sabia exatamente o que estava fazendo ali, nem como havia acabado naquele bar. Ele simplesmente andara, andara, até encontrar um lugar onde poderia entrar sem ser reconhecido.

— Eu não sei, ao certo — deu de ombros. — Acho que só vim beber um pouco.

A ruiva esboçou um sorriso compreensivo, e ele teria retribuído o gesto se sua mente não o tivesse bloqueado.

— Teve um dia ruim? — A moça tornou a perguntar, estreitando os olhos como se tentasse lê-lo de alguma maneira, e por um segundo ele pensou que ela poderia conseguir. — Só existe uma razão para pedir o que pediu.

Ele assentiu levemente, lembrando-se de como seu dia havia sido e de tudo o que aconteceu. Os problemas no hospital, seus problemas pessoais... Tudo.

— Sim. — Sua resposta foi vaga e curta, não porque quisesse ser rude, mas porque, se houvesse uma forma de evitar aquele assunto, ele a escolheria.

A garçonete balançou a cabeça, parecendo entender o que sua resposta significava, e nada mais disse. Compreendeu que o homem não queria falar sobre aquilo. Apenas apontou para a garrafa que trouxera e deu uma piscada rápida; embora não houvesse nenhuma segunda intenção naquele gesto, um homem mais afastado, Bill, fez um movimento como se dissesse que Bennet havia tirado a sorte grande.

Aaron começou a beber, dando goles curtos na bebida que havia pedido, embora não soubesse o que estava bebendo. Sentiu o líquido descer rasgando por sua garganta, trazendo uma sensação de calor ao seu interior. Ele sabia que o álcool só surtiria efeito após três copos e tinha consciência de que precisaria se controlar para não acabar como os demais homens ali, caindo de bêbado.

Bennet observava o bar, não apenas os detalhes incomuns da estranha decoração do lugar, mas também a variedade da clientela. Havia desde homens comuns, que pareciam apenas querer afogar as mágoas, até pequenos grupos de motoqueiros carrancudos. As mulheres presentes eram poucas, além das três garçonetes que serviam as mesas e a moça ruiva atrás do balcão. Aaron contou cerca de nove mulheres, todas acompanhadas.

Em certo momento, a temperatura no bar pareceu aumentar. Aaron não sabia se era por causa do clima daquele dia ou da bebida que tomava, mas, de qualquer forma, isso o obrigou a tirar o terno, colocando-o sobre o colo. A camisa social azul que usava ainda o deixava com calor, então desabotoou dois botões de cima, sentindo um alívio momentâneo.

Depois de esvaziar o primeiro copo, despejou mais um pouco da bebida, desta vez em menor quantidade, ciente de que voltaria dirigindo e não deveria se embriagar. A garçonete não voltou a atendê-lo, mas ele percebeu que, vez ou outra, ela lançava olhares em sua direção. Nada muito sugestivo, mas o suficiente para chamar sua atenção. Em uma dessas vezes, os dois se olharam ao mesmo tempo. A troca de olhares foi breve, mas pareceu durar uma eternidade.

Ele não sabia dizer ou explicar o que acabara de acontecer ali, mas, diferente do que imaginava, o olhar da moça ruiva despertou algo nele. Um interesse, talvez? Não negaria que ela era bonita, com uma beleza que se destacava em meio aos rostos masculinos e sérios. E, se estivesse em um universo paralelo, certamente se permitiria envolver.

Mas aquele era o mundo real, e a moça tinha idade para ser sua filha.

Os segundos em que seus olhares se encontraram foram interrompidos pelo som de um copo de vidro se quebrando, atraindo a atenção da ruiva para um grupo de homens mais à frente. Como um gato ágil, ela passou pelo balcão, e Aaron reparou pela primeira vez nas roupas que ela usava. Diferente das outras moças, sua vestimenta era mais discreta, ainda que chamativa de forma sutil.

A blusa branca não era decotada o suficiente para deixá-la sugestiva a olhares e a calça escura apenas deixava evidente suas curvas. Mesmo assim, o corpo feminino se destaca e por onde passava olhares masculinos a seguiam, alguns sem qualquer decência.

— Ei, ei, calma lá os dois! — A ruiva entrou no meio dos dois homens que tentavam se encarar, outro detalhe que Bennet pôde perceber também era sua altura. A moça era mais alta do que parecia e apesar de estar no meio de dois brutamontes, não parecia nada diminuída. — Eu acho que os dois se lembram muito bem que a regra daqui é: Sem brigas!

— É? Então diz pra esse merda aí não mexer com o que não é dele! — O maior grunhiu irritado, apontando para o outro homem que o encarava com mais fúria e que tentou avançar, mas que foi impedido quando ela esticou os dois braços; mantendo-os separados.

Diferente das outras moças, ela não parecia assustada com a cena. Pelo contrário, havia certa casualidade em lidar com a situação, como se já estivesse acostumada.

— Okay, se vocês não se comportarem eu terei de pedir para irem embora e aí vão poder fazer o que bem quiserem do lado de fora — Começou a falar, sua voz trazendo uma autoridade incomum para uma garçonete que geralmente não era respeitada em ambientes como aquele. — Eu não quero ter de chamar o Gareth para resolver isso e tenho certeza de que vocês também não querem que ele se envolva. Correto?

Os dois concordaram, apesar de ainda mostrarem-se contra deixar a briga de lado.

— Eu vou precisar chamar o Gareth? — Questionou, alterando seu olhar entre um e outro, no aguardo por suas respostas.

— Não. — Os dois disseram ao mesmo tempo, mantendo seus olhares no outro como se fossem brigar a qualquer momento.

— Então, assunto resolvido! — Ela sorriu animada, afastando-se dos dois. — Vocês não brigam, todo mundo bebe à vontade e eu não chamo o chefe. Parece bom, não é mesmo?

Em uma encarada que durou tempo demais para duas pessoas que não começariam uma briga a qualquer instante, os dois homens enormes enfim concordaram em não prosseguir com a confusão armada. Um deles logo se afastou e sumiu por entre a multidão de clientes, já o que ficou, parecia um tanto decepcionado pela briga que sequer chegou a acontecer.

— Da próxima vez você briga com alguém, Joe. — Como se adivinhasse seu pensamento ela o consolou, dando leves tapas em seu musculoso braço exposto pela camisa. — Mas por hoje, acho melhor se contentar em apenas encher a cara e nada mais.

— Te devo uma Kayla. — Gritou ele quando a ruiva começou a se afastar, e Aaron prestou atenção no nome dito. Repetiu o nome mais algumas vezes em sua mente.

Ela retornou para trás do balcão com a mesma agilidade com que saíra, servindo rapidamente mais uma dose para um dos clientes impacientes. Kayla soltou um suspiro ao reassumir sua posição, lançando um olhar breve e aliviado em direção à porta decorada com uma cortina de conchas antes de se concentrar novamente no copo que limpava meticulosamente.

— Você não é muito nova para estar em um lugar como esse? — Bennet perguntou, arriscando um tom mais descontraído, algo que ele justificaria pelo efeito da bebida. Sua tentativa de conversa atraiu a atenção da moça, que parou de limpar o copo por um momento.

Ela soltou um muxoxo desdenhoso, lançando-lhe um olhar avaliador.

— Você considera uma moça de vinte e seis anos muito nova? — devolveu a ruiva, arqueando uma sobrancelha em clara provocação. Aaron captou a intenção sem dificuldade.

— Considero uma idade para ser minha filha — respondeu, levando o copo aos lábios e fazendo uma careta quando a bebida desceu queimando sua garganta.

Ela pareceu interessada e se aproximou mais uma vez.

— Você tem filhos? — Kayla perguntou.

— Gêmeos. Eles moram com a mãe — contou Aaron, finalizando a bebida e decidindo não repetir a dose, consciente de que já havia perdido a noção do tempo.

Com movimentos lentos, ela se apoiou no balcão e se inclinou para frente.

— Mas eu não sou sua filha — disse, a voz carregada de um tom diferente. Se estivesse usando uma blusa mais ousada, a visão seria suficiente para fazer sua imaginação correr solta.

Aaron sustentou o olhar dela, inclinando levemente a cabeça para o lado, entrando involuntariamente naquele jogo inesperado. Encará-la era ao mesmo tempo estranho e surpreendentemente agradável. Ele sentia uma onda de satisfação por tê-la com os olhos castanhos fixos em si e gostou ainda mais ao perceber um brilho neles quando esboçou um sorriso leve.

— Que sorte, não é? — retrucou, com um meio sorriso que obteve dela uma reação positiva, deixando claro que ela havia compreendido sua fala com facilidade.

Aaron imediatamente repreendeu a si mesmo pelos vários pensamentos e ideias que percorreram sua mente naquele momento. Estava mesmo flertando com uma moça de vinte e poucos anos como se fosse um rapaz no auge de sua juventude? Poderia culpar a bebida, mas percebeu que ela não fizera nada, ela não causou aquele estranho interesse e nem mesmo o obrigou a entrar no flerte discreto que aquela conversa sugeriu.

Por mais incomum e até mesmo errado da sua parte, não sentiu-se tão envergonhado pelo flerte. Na verdade, estava até mesmo gostando daquele jogo.

— Você não é como os outros que aparecem aqui... — comentou Kayla, os lábios moldando um sorriso travesso, embora contido, que parecia brincar com os pensamentos dele.

Aaron sentiu um calor diferente percorrer sua espinha. Ele sabia que aquilo era um jogo, uma troca sutil de palavras que poderia tanto ser um mero flerte profissional quanto algo mais genuíno. Ainda assim, não conseguia evitar a pergunta que o corroía por dentro: ela estava apenas brincando para conseguir uma boa gorjeta ou havia algo mais por trás do brilho em seus olhos?

— E isso é bom? — retrucou, tentando manter a voz controlada, mas o tom de curiosidade escapava de leve. Seu semblante ficou mais sério, uma expressão que em muitos causaria receio, mas que em Kayla parecia apenas inflamar mais seu interesse.

Ela ergueu uma sobrancelha e inclinou a cabeça de leve, os olhos estudando o rosto dele antes de responder:

— Bem, além de ser o único que não me disse obscenidades hoje e de ter sobriedade suficiente para saber diferenciar a mão esquerda da direita, você também é... muito atraente — disse ela, os lábios curvando-se em um sorriso que ele só poderia descrever como uma provocação calculada.

Aaron riu baixo, um som rouco que pareceu puxar ainda mais a atenção da ruiva. Talvez ela estivesse mesmo querendo apenas uma boa gorjeta e, ele não viu problema em devolver a provocação.

— Também gosto da vista daqui — retrucou, seus olhos fixos nos dela, as palavras soando quase como uma confissão.

Porque apesar do tom brincalhão, havia também uma verdade em suas palavras. Kayla era de fato, uma mulher muito bonita e atraente, os olhos castanhos brilhavam, seu rosto possuía traços firmes e difíceis de serem esquecidos e a forma como seus lábios se esticaram quando sorria exibiam um sorriso totalmente diferente de tudo o que já viu.

Ela sorriu de canto, inclinando-se um pouco mais sobre o balcão, como se fossem velhos conhecidos que estavam apenas compartilhando segredos.

— Talvez eu devesse cobrar por isso — murmurou, a voz num tom tão baixo que só ele pôde ouvir, mesmo em meio a todo o barulho dentro daquele bar.

Aaron arqueou a sobrancelha, um sorriso divertido dançando em seus lábios. Ele se inclinou um pouco também, diminuindo ainda mais a distância entre eles e sabendo que estava ultrapassando todos os próprios limites.

— Talvez eu esteja disposto a pagar — respondeu, deixando a sugestão no ar, esperando pela próxima jogada dela.

Os olhos dela brilharam com um misto de surpresa e provocação, e Kayla soltou uma risada curta.

— Você é mais interessante do que pensei, Aaron.

— E você, mais perspicaz do que os outros acham — rebateu ele, mantendo os olhos fixos nos dela, a tensão entre os dois aumentando como se o resto do bar tivesse desaparecido por completo.

Ela fez menção de abrir a boca para respondê-lo, porém foi interrompida quando mais pessoas entraram no bar. Imediatamente ela se endireitou e fixou os olhos no quarteto que adentrou o local. Eram quatro homens altos e fortes. Todos vestidos com coletes de couro e botinas de cano alto, no colete o desenho de um cachorro com a língua para fora era o mesmo nos quatro desconhecidos. Eles passaram próximos ao balcão onde Aaron e ela estavam conversando, um deles lançando em direção a ruiva um olhar sério e firme.

— Ele está aqui? — O maior deles perguntou, um homem careca de olhar carrancudo que ignorou por completo a presença de Aaron ao seu lado.

Antes que ela pudesse responder, um quinto homem apareceu. Surgindo por entre a cortina de conchas na frente da porta.

— Kay! — Ele gritou mais alto que todas as vozes.

Ele não era muito velho, o cabelo loiro na altura dos ombros e um estilo de roupa que deixavam claro quem era ele. O dono daquele bar.

A moça ruiva girou o corpo e então aproximou-se do homem que estava do outro lado do balcão, de forma imediata sua postura mudou e toda a confiança de antes simplesmente sumiu. Era como ver outra pessoa, a garçonete que enfrentou dois homens com o dobro de seu tamanho e força parecia agora… apenas uma moça assustada e oprimida.

De onde estava, Aaron não conseguia entender o que estava sendo dito e nem se importava com isso, mas soube que seja lá o que aquele homem disse a ela, não a agradou nem um pouco.

O loiro fez um gesto para que ela continuasse com seu serviço e então gesticulou para o quarteto ainda de pé.

A ruiva retornou e encarou o careca.

— Ele vai falar com vocês.

Sem nada dizer, os quatro caminharam até o loiro e começaram a conversar entre si.

Kayla se aproximou novamente de Aaron, mas mantendo a mesma postura usada para falar com seu chefe.

— Se eu te pedir para sair desse lugar nesse instante, sairia? — A pergunta o surpreende, porque não existia mais o flerte de antes e nem mesmo qualquer indicação de que ela estava brincando.

— Como assim?...

Tudo aconteceu rápido demais e em uma fração de segundos, digna de filme. O sujeito com quem a ruiva conversou, acenou para alguém, os motoqueiros que o chamaram de playboyzinho se levantaram ao mesmo tempo, sacaram armas e mostraram os distintivos. Enquanto isso, espantada com a cena, Kayla conseguiu apenas recuar meio passo para trás assim que um disparo foi dado.

— Gareth é a polícia! Mãos para o alto! — Aaron ouviu um gritar quando mais um tiro foi disparado.

Imediatamente o público do bar entrou em desespero, gritos começaram a ecoar, pessoas começaram a correr em desespero por uma saída, mesas e cadeiras eram empurradas. Uma confusão.

Gareth que obviamente era o loiro, recuou e também sacou uma arma escondida debaixo de sua blusa. E não demorou para que uma verdadeira troca de tiros se iniciasse ali mesmo.

A troca de tiros piorou quando mais policiais, esses fardados, adentraram o lugar, expulsando os inocentes que nada tinham a ver com o que acontecia ali. Os tiros começaram a acertar as garrafas e copos, espalhando cacos de vidro e álcool pelo lugar.

Aaron viu brevemente quando a moça passou para o outro lado do bar, saindo por entre a multidão e sendo empurrada para o lado de fora. Enquanto Aaron era praticamente levado pelos demais.

Os gritos das pessoas aterrorizadas continuavam mesmo quando já estavam fora do alcance do tiroteio, muitos simplesmente saíram em disparada enquanto mais policiais entravam. Viaturas estavam cercando o bar e fecharam a rua, havia homens oferecendo ajuda para aqueles mais assustados.

Ao sair e finalmente respirar um ar mais puro, Bennet sentiu seu corpo ceder. O estômago revirou, sem motivo aparente, e uma adrenalina que não lhe pertencia corria descontrolada em suas veias. Ele precisou piscar algumas vezes, tentando processar com mais calma o que havia acontecido, o que presenciara, e a mistura de sensações que o tomaram naquele momento.

Enquanto tentava se recompor, alguns jovens esbarraram nele, correndo apavorados, sem nem se dar conta da direção que seguiam. A única preocupação era fugir, deixar aquele lugar o quanto antes.

— Ei! — Ouviu uma voz feminina atrás de si. Reconheceu-a imediatamente e, ao se virar, sentiu-se estranhamente aliviado ao ver a moça ruiva do lado de fora, aparentemente bem. — Tudo bem?

Com o cabelo um pouco desgrenhado pela corrida, a ruiva estava com a mão direita pressionada contra o braço esquerdo. Não demorou muito para que Bennet logo percebesse o sangue escapando por entre seus dedos, sujando parte de sua blusa.

Aaron sentiu-se estranho, como se de alguma forma ele tivera uma parcela de culpa por seu ferimento.

— Eu é que deveria te perguntar isso, não acha? — Ele apontou com o queixo para o ferimento, enquanto se aproximava, ainda absorvendo o impacto da situação. — O que houve?

— É isso o que acontece quando um monte de pessoas se desesperam, elas se empurram e às vezes você tem a sorte de cair em cima de vidro. — conta, a voz levemente ofegante.

Com delicadeza, ele segurou o braço machucado com as duas mãos, percorrendo os olhos por todo o ferimento. Havia muito sangue, mas nada que indicasse que tivesse sido algo muito terrível ou que se parecesse com um corte.

— Você sabe que isso não é um corte, não é? — diz ao encará-la.

— Foi um tiro de raspão — responde despreocupada.

Ele pensou em contestá-la porque não foi um tiro de raspão. Apesar de não ser grave ao ponto de deixá-la em risco, o tiro fez estrago suficiente para que fosse necessário levá-la a emergência.

— Vai precisar de alguns pontos. Não é grave, mas se não cuidar disso, pode infeccionar — avisou, assumindo um tom e postura mais sérios, como se fosse um médico falando.

Ela fez uma careta e olhou para o ferimento de forma quase indiferente, embora uma leve expressão de desconforto aparecesse quando ele pressionou o local e mais sangue escorreu.

— Não posso ir para um hospital e simplesmente esperar que ninguém faça perguntas quando perceberem que levei um tiro — ela murmurou. E estava certa. Se fosse ao hospital, os profissionais iam questionar o que acontecera, e logo, a frase “levei um tiro” os levaria a chamar a polícia.

Aaron pensou rápido, mais rápido do que seria comum para alguém como ele.

— Eu posso te levar para o meu consultório e dar os pontos eu mesmo — disse, tentando transmitir calma e uma solução para evitar envolver a polícia novamente.

— Não acabou de dizer que eu preciso ir para o hospital? — Ela o olhou, desconfiada.

— Eu sou médico — respondeu simplesmente, sem se incomodar com o olhar incrédulo dela. Ela parecia duvidar, mas ele sabia que, naquele momento, não havia espaço para mais explicações.

Aaron a conduziu até seu carro e, sem dizer mais nada, ligou o motor e seguiu pela estrada deserta. Sabia que, devido ao horário avançado, não encontrariam ninguém no consultório, apenas alguns médicos que provavelmente estariam ocupados demais para questioná-lo sobre a presença deles ali, naquela hora da noite.

Ao chegar, estacionou e conduziu a jovem até a sala de atendimento, fechando a porta atrás de si. O ambiente estava silencioso, como sempre ficava quando ele trabalhava sozinho. Passou quase uma hora concentrado, tratando do braço ferido da ruiva. Ele limpou cuidadosamente a ferida, tomando o tempo necessário para evitar qualquer risco de infecção. Com precisão, deu os pontos, trabalhando em silêncio, concentrado apenas no que estava fazendo e ignorando o fato de como estavam muito mais próximos agora.

Enquanto isso, a jovem se mantinha em silêncio, embora ocasionalmente olhasse para ele. O único som que preenchia o espaço era o dos movimentos ágeis de Aaron e o suave toque do álcool e das gazes sobre a pele machucada.

Quando finalmente terminou, Aaron recuou e observou o trabalho com um olhar clínico, antes de guardar os utensílios.

— Pronto, você vai ficar bem, mas é melhor não forçar o braço durante uns dias. Pelo menos até os pontos secarem completamente.

— Sim, doutor. — ela responde com um aceno leve com a cabeça. — Bem, obrigada.

Ela já estava pronta para sair quando Aaron verificou o horário no relógio.

— Eu a levo para casa. — Já passava da uma e meia da manhã, e a noite havia se estendido mais do que o necessário.

— Não é necessário — ela nega. Olhando para ele, ainda parecia um tanto atordoada, mas bem mais relaxada agora.

— Eu te levo, sem problemas — Aaron insistiu, agora com um tom mais suave, como se a preocupação com o estado dela fosse evidente.

Ela hesitou por um momento, como se ponderasse se deveria aceitar a oferta de Aaron ou seguir outro caminho. O ambiente silencioso, com apenas o som do relógio e da respiração deles, parecia esconder uma tensão que ela e nem mesmo ele conseguia ignorar. Ao final, com um suspiro cansado, ela assentiu.

— Está bem — respondeu, sua voz baixa, mas firme. — Não quero te causar mais problemas.

Aaron não disse mais nada, apenas pegou a chave do carro e os dois saíram do consultório. O caminho até o carro foi silencioso, com a luz fraca das ruas iluminando a rua deserta. Ele a ajudou a se acomodar no banco do passageiro e logo tomou a direção, sentindo o motor roncar suavemente enquanto avançavam pela cidade vazia.

— O que foi aquilo? — perguntou o homem, dando partida no carro e sentindo o perfume agradável da moça invadir o interior do veículo.

— Toda aquela confusão? — A ruiva suspirou, sem mostrar qualquer sinal de cansaço; diferente dele, ela não demonstrava nenhuma reação que revelasse o que se passava em sua mente. — Eu diria que foi uma apreensão em flagrante. A troca de tiros não era esperada, mas acho que deu tudo certo.

— Então você sabia que isso iria acontecer? — Perguntou novamente, franzindo a testa enquanto a olhava sentada no banco do carona.

Ela assentiu.

— Tecnicamente, eu ajudei na apreensão. — Disse, virando o rosto para olhá-lo, com um sorriso orgulhoso. Aaron parou no semáforo quando a luz vermelha acendeu.

— Você é…

— Da polícia? — Ela o interrompeu. — Não, mas tenho um amigo que é policial e ele precisava da minha ajuda para pegar meu chefe.

Bennet ficou espantado com a naturalidade com que ela explicava o que acabara de acontecer no bar; como se a entrada da polícia não tivesse sido uma ação perigosa, visto que a troca de tiros, pelo que ele sabia, havia deixado uma pessoa ferida. Ela.

— Você ajudou a prender seu próprio chefe? — perguntou, tentando processar o que ouvia.

— Gareth não é um exemplo de cidadão, e a polícia estava atrás dele há um tempo — disse, dando de ombros. — Eu só precisei aceitar o emprego de garçonete no bar dele e observar tudo por um tempo. Aquele bar podia parecer uma espelunca arrumada, mas o que acontecia por trás das cortinas... Ilegalidades demais, tráfico de drogas, lavagem de dinheiro... O kit completo de um bandido.

Aaron respirou fundo, sentindo que agora sabia mais do que seria prudente. Ele encarou a estrada novamente, o silêncio entre eles carregado de perguntas não ditas.

— O trabalho de garçonete era só para pegá-lo. E agora, o que vai fazer? — Aaron parecia preocupado com o futuro dela, mas não admitiria isso.

A ruiva deu de ombros.

— Vou voltar para meu antigo emprego na livraria do centro — respondeu, dando a ele uma informação que ele não pediu, mas que parecia intencional.

Como se quisesse que o homem ao volante soubesse onde ela estaria nos próximos dias.

O carro avançou outra vez e ambos retornaram ao silêncio de antes, a moça mostrava o caminho até sua casa e Aaron dirigia com atenção, até ela pedir para parar. Ele notou que estavam na frente de um prédio residencial incrivelmente alto, provavelmente com mais de quinze andares.

— É aqui, obrigada... Ainda não sei seu nome.

— Aaron, Aaron Bennet. — O homem mais velho respondeu, um sorriso contido curvando os lábios enquanto se apresentava formalmente.

— Eu sou Kayla Jones. — Ela disse, e o som do nome gravou-se na mente de Aaron, ecoando como uma melodia que ele sabia que nunca esqueceria.

Aaron caminhou até o outro lado do carro e abriu a porta do passageiro com a mesma elegância tranquila que parecia parte de quem ele era. Uma brisa suave varreu a rua, trazendo o aroma floral e envolvente do perfume de Kayla. Aaron percebeu que aquele cheiro se aninharia em sua memória, algo que o acompanharia por mais tempo do que gostaria de admitir.

— Obrigada mais uma vez pela carona e por tudo. — Kayla indicou o braço enfaixado, sua voz carregada de uma gratidão que ia além das palavras.

O sorriso que ela lhe ofereceu agora era mais aberto, mas havia uma sombra em seus olhos, uma inquietação que sugeria pensamentos distantes e complexos. Aaron notou aquilo e, embora não tivesse o direito de querer saber, a curiosidade cresceu dentro dele, teimosa e silenciosa.

— Não foi nada. — Ele respondeu, a voz baixa, enquanto percebia que ambos ainda estavam ali, parados, como se o tempo tivesse abrandado em torno deles. — Você vai ficar bem?

A pergunta pareceu causar nela uma estranheza e certa hesitação, como se não estivesse esperando por algo assim. E talvez não estivesse.

— Claro! Não precisa se preocupar com nada. — Garantiu com uma positividade que soou um pouco forçada. Aaron optou por não prolongar a conversa por ser tarde.

A viu se afastar em direção ao prédio onde morava, ficaria ali até ter certeza de vê-la entrar e estar segura.

Kayla Jones. Ele repetiu o nome em sua mente, um lembrete que sabia que não esqueceria, mesmo que tentasse — e não queria tentar. Conforme ela se afastava, ele sentiu um inesperado aperto, algo indefinido. Para sua surpresa, Kayla parou de repente.

Aaron franziu as sobrancelhas ao vê-la imóvel por um momento que pareceu se estender. Então, com um movimento decidido, ela se virou e voltou para ele. Os passos largos e decididos dela fizeram com que uma expectativa incômoda tomasse conta dele, algo que ele odiava admitir.

Antes que pudesse reagir, Kayla o puxou pelo colarinho da camisa social, trazendo-o para perto em um movimento ágil. Seus lábios se encontraram com uma sincronia inesperada, como se não fossem apenas dois estranhos que haviam se conhecido em um bar, mas duas almas que já se buscavam.

Aaron não demorou a corresponder ao beijo, descobrindo em um instante que desejava aquilo tanto quanto ela aparentava querer. Uma gratidão silenciosa surgiu pela iniciativa de Kayla, pois se ela não tivesse tomado a dianteira, ele sabia que o teria feito sem hesitar.

Suas mãos deslizaram pela cintura dela, puxando-a para mais perto, até que seu corpo encostasse no capô do carro, deixando-a presa entre suas pernas. O aroma delicado que vinha dela se intensificou, e Aaron percebeu que gostava mais do que imaginava. As mãos de Kayla já estavam em seu pescoço, os dedos entrelaçados em seu cabelo negro, puxando-o com uma intensidade que prolongava aquele beijo inédito, carregado de desejo e urgência.

Bennet sentiu-se rejuvenescer alguns anos com aquele ato; estavam no meio da noite, sobre o carro, beijando uma mulher com a idade de seus filhos. Uma consequência inesperadamente boa do dia caótico e da confusão no bar. Não estava habituado a se permitir tamanha imprudência, mas, por aquela noite, decidiu abandonar seu lado mais responsável.

Os pensamentos dispersos se afastaram quando sentiu o corpo de Kayla colado ao seu, as mãos delicadas explorando-o com mais fervor. Um gemido baixo escapou dos lábios dela entre os beijos, enviando uma onda de eletricidade pelo corpo de Aaron; fazendo-o sentir um comichão por entre suas pernas a cada novo toque que inflamava um desejo que ele não sabia que ainda tinha.

Com lentidão, ela foi cessando o beijo, e os dois trocaram uma série de beijos mais suaves antes de se afastarem completamente. Ofegantes, os corações martelavam em seus peitos enquanto tentavam se recompor à sua maneira.

— Boa noite, senhor Bennet. — Ela se despediu com um sorriso sutil, o canto dos lábios finos curvado apenas o suficiente para deixar transparecer uma emoção contida. Ergueu o olhar, encontrando os olhos negros dele, fixos nela, refletindo o brilho familiar da excitação.

— Boa noite, Kayla Jones. — A resposta de Aaron foi dada no mesmo tom suave, mas havia algo nele, uma tensão crescente, que o entregava. Sem perceber, a forma como pronunciou o nome completo dela, como se cada sílaba fosse carregada de um peso próprio, provocou nela um arrepio que percorreu seu corpo, da cabeça aos pés.

Nada mais foi dito, pois ambos sabiam que qualquer palavra poderia interferir no que acabavam de viver. Apenas trocavam olhares, demorados, como se se nutrissem da presença um do outro. O beijo que selou o momento foi mais rápido, mas igualmente intenso, controlado, deixando no ar a sensação de que ainda havia mais por vir.

Ela se virou e caminhou em direção ao prédio, sem olhar para trás. Aaron permaneceu imóvel, os olhos fixos na silhueta dela até que desaparecesse de vista.

Em sua mente, uma única ideia se repetia: queria vê-la novamente, mas desta vez fora daquele bar, longe da confusão em que haviam se encontrado. Sabia onde ela estaria na próxima semana, mas preferia deixar que o acaso decidisse se seus caminhos se cruzariam novamente. Quando entrou no bar, seu único objetivo era tomar alguns copos de whiskey caro. Nunca imaginou que a vida, com sua imprevisibilidade, uniria seu destino ao de Kayla Jones.



Notas finais
Fim.
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