Just a Dream
1 I travel back, down that road
–Adam? Você está aí?
–Chloe? Chloe!
Ele conseguira finalmente ver a morena. Sua visão estava um pouco turva, e ele não sabia o porquê, e nem conseguia se lembrar do mesmo. Mas isso não lhe importava agora, pois o tamanho da angústia que apertava seu coração aumentou ao ver a garota naquele estado.
Encolhida, assustada e completamente sozinha. Assim como ele. Seus olhos castanhos arregalados denunciavam o medo que sentia, mas ele não sabia de que. Estava ali agora, e iria a proteger, do que quer que a afligisse.
Correu até ela, e descobriu estar em uma estrada deserta conforme corria. Notou em alguns detalhes do local, como uma placa enferrujada e descascada, que um dia, acreditava, tinha sido verde, e mais à frente, uma grande árvore morta, os galhos secos subindo ao céu de uma maneira macabra. Mas nada disso era relevante nesse momento, pois se esqueceu do que vira assim que percebeu já estar próximo da morena. A abraçou com toda a força e todo o amor que tinha. Sua garganta estava quase fechando com o tamanho do nó que se encontrava nela, formado pela saudade, pelo desespero, pela a recente ideia de a perder para sempre. Não iria conseguir conviver com isso.
–Me desculpa, Chloe, me desculpa. –Ele pediu com a voz trêmula, as lágrimas já começando a cair por suas bochechas vermelhas pelo choro, assim como a ponta do nariz.
–Adam...Eu estou sozinha, Adam... –Ela falou com a voz chorosa. Era como se ele não estivesse ali para ela, por mais que ele a abraçasse.
–Não. Eu estou aqui agora, ao seu lado. De onde nunca deveria ter saído. –Ele fitou seus olhos castanhos e depressivos.
Ele esboçou um sorriso fraco por entre as lágrimas, e aproximou seus lábios dos dela. Ansiava por isso. Seus olhos se fecharam, escondendo as vibrantes íris verdes.
Mas não sentiu seus lábios.
Sentiu um vento frio. Um vazio. E aos poucos o corpo delicado da garota foi evaporando de seus braços.
Abriu os olhos, aflito.
E acordou.
Domingo, 02 de Novembro, 08 : 47
Ele encarou o teto branco do seu quarto. Seu coração batia acelerado, e a regata branca estava colada em seu peito devido ao suor. Estava em casa, em sua cama, e caíra a ficha de que aquilo fora somente um sonho. Mais um deles.
Se sentou, e afastou os cachos castanhos do rosto, colocando as mãos no mesmo em seguida. Suspirou. Sonhava com Chloe diversas noites, sempre declarando seu amor, a beijando, e trocando juras de amor eterno, mas no entanto, eram somente sonhos. Nenhum deles tivera tamanho impacto quanto esse. Os primeiros o fizeram passar noites em claro e se arrepender do que fizera, ou melhor, do que não fizera. Mas hoje, era como se acordasse de um pesadelo.
Havia sido estranhamente intenso. Balançou a cabeça, e se levantou. Hoje iria pôr um fim naquilo. Como se sua tormenta diária não bastasse, suas noites também estavam sendo afetadas. E isso não era nada agradável.
Pegou seu celular no criado mudo, e sentiu sua respiração falhar ao ver a notificação que a tela do objeto exibia.
1 chamada perdida – 01/11 – Chloe A.
Imediatamente retornou a chamada, ansioso. Ouvia seu coração bater forte contra o peito, e por um momento pensou que poderia passar mal. Cada toque passava lentamente em sua concepção, e não aguentava mais esperar.
–Sua chamada está sendo encaminhada para a caixa de mensagens...
Não esperou a tão conhecida frase terminar. Desligou e se levantou, as sobrancelhas franzidas. Hoje iria fazer o que não fizera pelo medo, pela vergonha, e pela timidez.
Sábado, 06 de Setembro, 17 : 39
–É, nada de sair hoje.
–Argh...Eu tinha mesmo que ficar mal logo agora? –Chloe deitou no sofá, emburrada.
Adam sorriu. Era engraçado a entonação da voz dela quando ficava gripada.
–Queria mesmo sair nesse frio? –Ele perguntou ainda com um sorriso, enquanto fechava a janela, por onde dava para se ver uma típica, porém linda cena de Outono: um jardim alaranjado, com uma chuva fina caindo sobre o mesmo, vindo de um céu nublado e cinzento.
Os dois estavam na sala da Chloe, as luzes apagadas, com a única iluminação sendo a lareira, acesa propositalmente por Adam para aquecer a garota, que estava no sofá em frente a mesma.
Ela havia marcado de sair com ele para um novo parque de diversões na cidade, porém acordara doente, e ficara um tanto revoltada. Na noite passada, havia estado no meio da chuva junto com alguns colegas da faculdade, após uma saída para um bar.
Havia ligado para Adam assim que acordou, apenas falando que iria adiar o “encontro” em algumas horas, mas sem lhe dizer o porquê. E assim, também sem lhe falar nada, ele foi até a sua casa, para ver como ela estava, já que suspeitara da diferente entonação da voz da garota no telefone.
A encontrou no quarto, febril, e se queixando dos amigos e do tempo que perdera naquela saída. Ela ainda ficara um tanto irritada por ele não ter lhe avisado que viria, e o assegurou que estava bem, coisa que não mudou a opinião do rapaz nem um pouco. E assim, ele a levara para a sala e, ainda que contra a sua vontade, começou a cuidar dela.
–Eu gosto do frio. –Ela franziu as sobrancelhas, ainda com a expressão emburrada.
–Mas aposto que não gosta de ficar doente por causa dele. –Ele sorriu, indo na direção dela.
–É só eu me agasalhar. –Cruzou os braços.
–Assim como fez ontem?
–Eu nem sabia que iria chover ontem –Ela falou revirando os olhos, terminando com um biquinho.
–Sua mãe deveria detestar quando você ficava doente. –Ele falou, pegando uma manta que estava em uma poltrona a direita do sofá em que ela estava deitada.
Se aproximou dela e a cobriu até o pescoço, e riu baixinho da expressão que ela fez, para logo depois se sentar no mesmo sofá em que ela estava.
–Estou me sentindo uma criança agora. –Ela franziu as sobrancelhas.
–E você não é? –Ele arregalou os olhos, fingindo estar surpreso.
–Haha, muito engraçado. –Revirou os olhos castanhos.
Ele adorava quando ela fazia isso. Era a sua marca registrada. Após alguns segundos de um silêncio, sendo interrompido somente por uma fungada dela, a expressão da garota se suavizou, para logo depois ela franzir as sobrancelhas, parecendo se preocupar com algo.
Fitou o moreno, que olhava para as chamas que crepitavam na lareira. Analisou seus traços fortes de perfil, e seus cabelos encaracolados e castanhos. Palavras queriam parecer saltar de sua garganta doente, porém seus lábios rosados continuavam fechados, comprimidos um contra o outro. Queria que ele soubesse o quanto era importante para ela, mas, sem saber o porquê, algo a segurava.
Algo que não durou muito mais tempo.
–Ei... –Ela o chamou, um tanto baixo.
–Hã? O que foi? –Ele ergueu as sobrancelhas, voltando a olhar para ela.
–Valeu. Por hoje e tudo mais. –Ela sorriu fraco. –Eu gosto muito de você. Sabe disso, não é?
Ele sentiu o coração parar de bater por meio segundo. Sabia disso, mas em que sentido? Estaria ela falando somente de serem amigos, como sempre foram, ou então de algo mais?
A verdade é que Adam sempre sentira um certo carinho por ela. Um carinho que as vezes quase extrapolava a barreira da amizade. Ele já perdera a conta das vezes que pensara em a beijar quando ela revirava os olhos, de se declarar para ela, e tentar fazer com que tudo desse certo. Porém, a coragem lhe faltava, e a vergonha falava mais alto.
Queria poder dizer que também gostava dela, porém como algo mais. Muito mais. E iria dizer.
Mas não agora, não ali.
Então, somente esboçou um sorriso fraco.
–Claro que sei. –Ele falou, e acariciou o cabelo castanho e liso da garota. –Também gosto muito de você.
E ela sorriu.
Sexta, 12 de Setembro, 19 : 28
Estava sem chão.
Se apoiava na pia do banheiro, e jogava água no rosto pela terceira vez, molhando alguns fios que acabavam ficando colados em sua testa.
Passou a mão no cabelo, o levando para trás, assim que se levantou. Se sentia horrível. Do dia para a noite todos os seus sonhos, que agora pareciam mais serem ilusões, foram quebrados. Detonados, esmagados e jogados em um grande vazio. Seu coração, assim como suas ilusões, estava em pedaços.
Tudo isso por duas coisas: uma foto, e uma novidade que aparecera em seu feed de notícias.
O notebook ainda estava aberto em sua cama, revelando a chocante revelação que ele teve o desprazer em ver. O rosto sorridente da morena por quem era apaixonado, ao lado de um rapaz loiro, com os olhos tão verdes quanto os dele. Ou talvez até mais, era obrigado a admitir, por mais que detestasse. Ou talvez fosse somente uma ilusão provocada por seu coração enciumado. E para completar, uma bela frase em negrito, dizendo:
Chloe Armstrong está em um relacionamento sério com Nathan Hertel
Fora o suficiente. Sua mente não parava de lhe colocar para baixo, o lembrando quantas chances tivera de se declarar, mas não o fez. Talvez se houvesse feito, ela não estaria com este cara, e na melhor das hipóteses, seu nome estivesse ali, e sua foto também.
Não sabia como iria lidar com isso. Como iria se dirigir a ela. Claro, teria que ser como sempre fora, o melhor amigo. Mas não sabia se conseguiria deixar oculta toda a angústia que sentia, e todo o arrependimento. Fora lento demais, e outra pessoa ficara na sua frente, e a conquistara.
Não conseguiria lidar com isso. Essa era sua única certeza naquele momento doloroso.
Domingo, 2 de Novembro, 09 : 23
Ele já estava vestido, e andava rumo a porta em passos rápidos. Não comera nada, mas também nem sentia vontade. Sentia-se finalmente pronto. Não iria voltar para casa sem antes se declarar para ela, e lhe dizer tudo o que afligia seu coração. Era uma promessa que fizera a si mesmo.
Não conseguia parar de pensar nas chances que perdera, em como fora lento. Mas agora não faria errado, ainda que o tremor em suas mãos e a garganta seca lhe dissessem o contrário.
Iria se declarar, mas e depois? O que faria?
Parou com a mão já na maçaneta da porta com esse pensamento repentino.
Iria a pedir em namoro?
Sim, era exatamente o que faria. Não era como um dos ex-namorados dela, Nathan, que ficara com ela somente por algumas semanas e depois terminara tudo em um telefonema, com a mera desculpa de que não sabia se tinha certeza de seus sentimentos. E isso fora ontem, como ficara sabendo por um telefonema de Chloe. Ainda era clara em sua memória a voz trêmula da garota, e o estranho pedido para não ir lá. Mas até que era racional, se ela não falasse, ele já estaria na casa dela dentro de minutos, pronto para ficar do seu lado, como sempre esteve.
De qualquer forma, ele não era como o loiro indeciso. Adam sim tinha certeza. Nunca duvidara. E sabia que era mais merecedor de seu amor do que qualquer um jamais fora.
Após alguns minutos fora de casa, visando chegar até a moradia de sua amada, ele viu que um novo comércio inaugurara. Uma joalheria, para ser mais exato. Parou na frente da vitrine, o olhar verde preso em apenas uma joia: Um delicado anel prateado com brilhantes.
Sexta, 31 de Outubro, 20 : 12
–O que achou?
–Você é uma péssima bruxa. –Ele riu.
Ela acabara de aparecer na sala, trajando um vestido roxo e negro, que ia até acima de seus joelhos, “típico” de bruxas. Seus lábios estavam negros por causa do batom, e suas íris, outrora castanhas, agora tinham um verde sobrenatural concedido pelas lentes.
–Porque diz isso? –Ela franziu as sobrancelhas. –Eu estou ótima. –Fez uma expressão metida, com um biquinho.
–Exatamente. Bruxas não são bonitas. –Ele ergueu as sobrancelhas, com humor, e se aproximou dela. –E você está linda.
–Valeu. –Ela sorriu. –Mas...Tem bruxas bonitas sim, nunca viu a Hermione do Harry Potter?
–Você e essa saga... –Ele revirou os olhos, com um sorriso.
Ela deu de ombros, com um sorriso bobo.
–Fala sério agora. Eu estou legal? –Ela perguntou, olhando para o vestido, e logo depois colocou uma mecha encaracolada do cabelo que algumas horas atrás estava liso para trás da orelha. –Principalmente esse cabelo. –Ela riu.
–Você está linda, Chloe. –Ele sorriu, com ternura, fitando seus olhos verdes. –E o seu cabelo...Está tão perfeito quanto você.
Ele levou a mão esquerda até a mecha que ela acabara de colocar para trás da orelha, se aproximando. Ela o olhava confusa, enquanto ele acariciava seus cabelos, e trazia a mecha de volta para a frente de sua orelha.
Foi quando percebeu que estava muito próximo dela. Sua respiração batia em seu pescoço, graças à altura da garota, que era uma cabeça mais baixa do que ele. A morena fitou suas íris verdes, e ele olhou para seus olhos, modificados pelas lentes e pela maquiagem exagerada, habitual de dia das bruxas.
Ele desceu o olhar para os lábios tingidos de negro.
Ela já presumia o que estava prestes a acontecer. Mas simplesmente não podia acontecer. Ela namorava outro, e a ele havia entregue o seu coração.
E apesar de Adam ter esquecido desse fato por um momento, sua mente o lembrou como um balde de água fria em uma pessoa adormecida. Uma crueldade necessária. Precisava acordar antes que o sono a fizesse perdesse o horário, e nesse caso, se afastar antes que a fizesse cometer uma traição. Por mais que detestasse assumir isso, Nathan e Chloe se amavam. Tinham o apoio de todos, e ele não poderia se intrometer em um relacionamento que estava tão sólido. E se o fizesse, poderia acabar com sua amizade, e isso seria muito pior do que ficar na dita friendzone.
E então, como uma criança obrigada a se separar de um coleguinha para ir embora, ele se afastou lentamente, ainda sendo analisado pelo olhar castanho e confuso da garota.
Domingo, 2 de Novembro, 09 : 54
Andava a passos rápidos e decididos, o cabelo cacheado voando por sua cabeça, a pequena caixa branca em sua mão direita. Sua garganta começava a reclamar, estava seca e gelada, por conta da respiração alterada.
Seus pensamentos corriam, e ele ouvia o coração bater contra o peito. Estava se aproximando da casa dela, só precisava virar à direita na esquina e logo se depararia com uma casa alaranjada de dois andares. Imaginava como ela estaria. Linda como sempre, provavelmente acabara de acordar, e isso talvez provocasse uma leve desarrumação em seu cabelo castanho. Imaginava seu sorriso...Será que sorriria?
Não importa. O que importava era se declarar. Nada o impedia agora. Assim como nada o impedia antes de Nathan.
Parou assim que avistara a casa. As batidas de seu coração lhe pareciam ter ficado ainda mais sonoras. Respirou fundo, expirando pela boca. Lambeu os lábios secos e rosados, para logo depois morder o inferior.
Chegara a hora.
Foi até a porta, por um momento achando que suas pernas bambas iriam ceder. Tocou a campainha, e notou que suas mãos tremiam, ao apertar o botão com o indicador direito.
E esperou. Ouviu baixinho o toque da campainha. Mirou o chão. Esperava escutar um “Quem é?”, ou então um “Já vai!”, mas tudo o que escutou fora o silêncio. Um silêncio angustiante. Tinha passado pouco tempo ou muito? A lentidão poderia ter sido obra de sua cabeça preocupada e de seu coração ansioso.
Ou não.
Domingo, 2 de Novembro, 09 : 50
Confusão. Medo. Angústia.
Três palavras pequenas dotadas de um peso enorme, que somente quem sente sabe como é detestável se deparar com elas.
E nesse exato momento, Chloe era uma dessas pessoas.
Estava perdida, sozinha, no meio de uma estrada deserta. Aos seus olhos, que agora estavam arregalados e atentos, a paisagem era cinzenta e morta, e uma espécie de neblina dominava o local. Estava descabelada, e um vento frio que passou por suas pernas a fez tremer e cruzar os braços, encolhida.
Não sabia para onde ir. Não se lembrava como havia parado ali. Seus olhos começaram a lacrimejar, e ela abraçou a si mesma. Não sabia o porquê, mas algo apertava o seu coração, e se sentia impedida de pronunciar qualquer palavra que fosse.
Seria somente o medo? Ou teria algo mais?
Não sabia. Somente tinha uma certeza. Vira Adam. Ainda que por poucos minutos, mas o vira. Mas agora ele havia sumido, desaparecera do nada. Seria isso somente uma alucinação devido a seus arrependimentos? Também não sabia. Mas queria que ele voltasse. Era o que desejava de todo o coração possuído pela aflição. Porém, se ele iria voltar, era mais uma de suas dúvidas no momento. E a pior delas.
Sábado, 01 de Novembro, 23 : 14
Pisara no acelerador. Não aguentou ficar nem mais um segundo sequer naquele lugar. Suas amigas haviam a levado lá, na esperança de a animar, mas tudo o que conseguiram fora trazer à tona memórias doloridas.
Não parava de pensar no que fizera. E no que de fato, não fizera. Se culpava por isso intensamente. Não fazia a mínima ideia de para onde estava dirigindo, mas não queria ir para a casa do moreno que a acolheria. Não naquele estado: Olhos vermelhos por causa das lágrimas que escorriam pelo seu rosto em abundância, e o hálito denunciando a presença de álcool em seu organismo.
Uma pessoa estava presente na maioria de seus pensamentos desordenados: Adam. Pensava em como fora lenta para perceber, o quanto fora insensível em o fazer sofrer e nem se dar conta disso. Sentia-se horrível.
Parou o carro ao ver um sinal vermelho, e encostou a testa no volante, soluçando. Olhou para o vidro, e vira uma silhueta já conhecida. Cabelos cacheados, estatura alta, corpo forte...
–Adam? –Perguntou para si mesma, uma sensação estranha brotando em seu estômago.
Mas o homem se virou, revelando ser uma pessoa completamente diferente de quem ela esperava. Voltou a olhar para frente, um tanto atordoada. Estava imaginando coisas.
Voltou a acelerar o carro.
Tudo o que olhava ao redor a fazia recordar de algo dele, ou nele. Um outdoor com uma propaganda de shampoo para cabelos cacheados, uma livraria, e até mesmo o céu nublado, ameaçando provocar uma chuva a qualquer momento.
Com somente a possível chance de chuva, ela já voltara a chorar. Lembrou-se de quando ele cuidara dela em um dia chuvoso, e de quando tentara falar o que sentia, mas tudo o que saiu de sua boca fora um “eu gosto muito de você.”. Talvez fosse o álcool em seu sangue, ou um sentimento suprimido a muito tempo em seu peito, que a tornou estranhamente mais emocional.
Não tardou muito, e começou a chover.
Sábado, 01 de Novembro, 21 : 26
Cruzou os braços, se recostando na poltrona vermelha.
–Ai, ai...Essa não é a Chloe que eu conheço...
Ela olhou para a loira a sua frente, que tinha um sorriso nos lábios extremamente vermelhos pelo batom.
Se encontravam em uma boate no centro da cidade. Inaugurara a pouco tempo, mas no entanto diversas pessoas já a conheciam e recomendavam para outras. Uma das que recebeu a recomendação fora Jéssica, a loira que tentava, em vão, animar sua amiga que perdera o namorado umas doze horas antes.
–Eu não estou afim de dançar, Jess. –A morena murmurou, um tanto séria. Começava a se arrepender do pedido que havia feito para o moreno de cabelos cacheados horas antes.
–A bad te pegou, não é, amiga? –A loira se sentou ao lado dela, com um sorriso compreensivo. –Relaxa, tenho a solução perfeita para isso. Já volto.
E então saiu rumo ao bar em passos rápidos. Chloe franziu as sobrancelhas. Estava pior agora do que quando recebera o telefonema de seu namorado...Ou melhor, ex-namorado. Terminara com ela com uma frase que ela considerava idiota.
–Não tenho certeza dos meus sentimentos... –Ela murmurou imitando a voz dele, um tanto irritada e inconformada.
Mal chegara e já queria sair de lá. Lembrou-se então de Adam, e do dia das bruxas que passaram juntos. E isso fora anteontem, fato que a assustou um pouco. Parecia que mais tempo havia passado do que apenas por volta de 48 horas.
Ela sabia que ele a iria beijar. E ela também queria o beijar naquele momento. Não só porque estava lindo em sua fantasia de pirata, que combinava perfeitamente com os cachos que ela amava, mas porque ela gostava dele, antes de se envolver com Nathan.
Mas não sabia se ele sentia o mesmo. Ela poderia muito bem se declarar para ele, mas se lembrava das várias vezes que ele se aproximava e depois recuava, como se tivesse medo de algo. E depois ela parou para pensar. Não queria arruinar uma amizade duradoura por um erro. E no dia das bruxas, não o beijara por causa de um certo loiro que a encantara com seu sotaque alemão e inteligência, porém partira seu coração com um telefonema que nem durara míseros dez minutos.
E então uma pergunta repentina a pegou de surpresa: estava na dita bad por conta de Nathan? Ou por Adam?
Franziu as sobrancelhas. Já iria começar um debate interno quando Jéssica voltou, com duas bebidas em mãos, e se sentou ao lado dela com um sorriso.
–Afoga as mágoas, docinho. –E lhe estendeu uma bebida.
Sem ter o que fazer, Chloe aceitou.
Domingo, 1 de Novembro, 23 : 43
As lembranças felizes eram ainda mais dolorosas que as tristes. Já estava longe da cidade, ainda sem saber para onde iria, ou quando voltaria. A chuva, que começara leve, agora já se tornava uma tempestade.
Soluçava enquanto remoía cada lembrança que tinha ao lado do moreno. Nunca se sentira tão burra, tão lenta, tão incapaz de perceber o que sentia, e pior ainda por não conseguir transmitir o mesmo.
Respirou fundo, uma luz acendera em sua mente confusa e atordoada. Iria o procurar e falar o que sentia.
Ainda com o carro em movimento, pegou o celular que havia deixado no banco do carona e entrou na lista de contatos do objeto, a mão esquerda no volante. Seu nome era o primeiro da lista.
Seja porque não pensara, ou pela influência do álcool em seu sangue, ou ainda pelo redemoinho de emoções que moviam suas ações, ligou para ele ainda com o carro em movimento, e em alta velocidade.
–Atende...Atende... –Murmurou com a voz trêmula.
Abaixou a cabeça, ansiosa. Sentia seu coração bater forte contra o peito e suas mãos frias tremerem. Soltou o ar, que nem sabia estar preso, pela boca, por meio de um suspiro.
Sentiu o carro balançar, e olhou para a frente assustada. Estava indo na direção de uma árvore. Soltou o celular e virou o volante rapidamente, fazendo o carro derrapar.
A gravidade lhe faltou por um momento, ou, ao menos, fora assim que ela se sentira antes do carro bater na grande árvore morta, já de cabeça para baixo.
Domingo, 02 de Novembro, 10 : 26
Ele andava de um lado para o outro, suas mãos suavam, e seus cabelos já começavam a lhe incomodar, assim como os olhares curiosos de alguns vizinhos.
Ela definitivamente não estava em casa. Pegou o celular no bolso da calça, e discou o número dela. Talvez ela só tivesse saído para alguma coisa boba, como comprar pão, ou tomar o café da manhã em algum lugar. Mas algo lhe dizia que não. Talvez sua ansiedade, ou a sua intuição.
–Sua chamada está sendo encaminhada para a caixa de mensagens...
Desligou.
Passou a mão pelos cachos que insistiam em cair por sua testa. Estava preocupado. Muito. Seu coração batia acelerado, e ele podia sentir como se o mesmo estivesse em sua garganta.
Mordeu o lábio inferior, e um mínimo raio de luz passou por sua mente.
Uma ideia improvável, porém não completamente impossível.
Será que estava tão desesperado ao ponto de seguir uma pista tida em um sonho? Sabia que a mesma poderia o levar para lugar nenhum. Porém a emoção falava mais alto do que a razão naquele momento. Iria correr o risco.
Iria até a estrada que sonhou. Isso é, se ela fosse real.
Domingo, 02 de Novembro, 11 : 00
Estava se aproximando. Sentia isso. Já estava em uma área afastada da cidade.
Depois que tivera a brilhante, ou então estúpida ideia de seguir algo que possivelmente seu subconsciente criara, correra para a sua casa, atraindo alguns olhares confusos e outros de reprovação, entrara seu carro, e começou a rondar pela cidade, checando sempre o GPS em seu celular.
A maioria das estradas estavam sempre com tráfego intenso, ou então tinham um certo número de carros. Ele estava começando a duvidar seriamente de sua sanidade, mas continuava pesquisando por alguma estrada deserta. Porque, segundo seu sonho, era lá que ela estaria.
Amedrontada, solitária e perdida. Ela estaria assim. E ele estaria ao seu lado, para a proteger e a levar de volta para casa, para declarar seu amor até então platônico, e finalmente a ter em seus braços, como sempre quisera, como ansiava, como almejava.
Rezava para aquilo não ser apenas um sonho. Para que ela realmente estivesse lá, e que estivesse bem.
Desviando o olhar por um segundo da rua, olhou para o celular. Achara a tal estrada que queria. E realmente não estava tão longe.
Acelerou.
Domingo, 02 de Novembro, 11 : 17
Diminuiu a velocidade assim que descobrira estar na estrada que achava ser a correta. O cenário lhe dava arrepios de tão exato ao seu sonho que era.
Era um déjà vu diferente a cada vez que olhava ao redor. Há pouco havia se lembrado de alguns outros elementos de seu sonho que podiam ser relevantes. Uma placa enferrujada e uma grande árvore morta à direita da estrada, e agora procurava pelos mesmos.
Alguns minutos depois, se deparou com a placa. Seu coração acelerou. Estava perto. Perto demais, sabia, sentia isso no fundo de sua...Mente? Não, seria muito superficial. Sentia isso no fundo de sua alma, a animação e a ansiedade se juntando com um redemoinho de sentimentos ora perturbadores, ora confortantes, criando uma estranha sensação em seu estômago, e um tremor em suas mãos.
Estacionou o carro já a alguns metros mais longe da placa, e saiu do mesmo com a caixinha em mãos. Olhou para o céu nublado, e lembrou-se do quanto ela gostava dos dias frios, de pular nas poças de água que se formavam após a chuva, da sua animação com os dias de neve. Acabou sorrindo com essas lembranças.
Andava a passos rápidos e ansiosos, imerso nas mais variadas lembranças com ela, porém ainda assim focado no que iria fazer.
Avistou ao longe a árvore morta, e abriu ainda mais o sorriso, ansioso.
Porém, seu sorriso durou pouco. Sua animação se esvaiu na mesma velocidade em que uma preocupação e um desespero subiam por seu peito, criando de imediato um nó em sua garganta.
Vira o carro preto da garota, caído próximo a árvore.
Começou a correr. Por sua cabeça, que há poucos minutos abrigava lembranças alegres, passavam cenas horríveis, sobre o que poderia ter acontecido à sua amada.
Já se imaginava a levando para o hospital às pressas, alertando aos parentes o que lhe acontecera, as lágrimas que muitos iriam deixar cair...E por um momento, imaginou o seu velório. Mas se forçou a tirar essa última cena de sua cabeça. Ela não podia morrer. Simplesmente...Não podia. Não agora que ele estava pronto. Não agora que ele se decidira. Não agora que ele corria em sua direção desesperado, com a angústia apertando seu coração, com os olhos já lacrimejando, e com a respiração alterada.
Enquanto a angústia em seu coração crescia, a alegria no coração dela idem.
O via correndo em sua direção, preocupado por e com ela. Sorriu ao ver o seu amado ali, tão perto, mas também tão longe. Não estava mais sozinha. Ele estava ali, ele retornara para ela.
–Adam! –Ela gritou, ansiosa.
Mas ele não respondeu. Continuou correndo. Estavam cada vez mais próximos, para a maior felicidade dela, e o maior...Desespero dele? Ela franziu as sobrancelhas, tinha algo estranho acontecendo.
Ele passou por ela como se ela não estivesse ali. Ela se virou confusa, se perguntando para onde ele iria, e porque simplesmente passara ao lado dela correndo, e também, porque a tamanha preocupação, se não era por ela. Porém, seus olhos também se arregalaram ao ver o objeto caído perto da árvore morta.
Adam estava a dois metros de distância do carro. As cinzas pelo chão, e várias partes corroídas do automóvel denunciavam que algo havia queimado ali. Seu coração parecia estar na garganta, sensação essa que piorou, assim que vira a mão de sua amada, jogada no teto do carro.
Ela observava a cena, agora mais amedrontada do que confusa. Andou na direção dele e se ajoelhou no chão, a respiração desregulada, assim que vira ele abrir uma das portas do carro e entrar lá, buscando por algo que ela já sabia o que era. Mas temia que fosse verdade. Não podia ser. Simplesmente não podia. Se sentia tão viva, como poderia...Não estar? Sentia na pele os sentimentos perturbadores, sentia sua garganta queimar, os olhos lacrimejarem, a respiração falhar, sentia o medo apertar seu coração aflito conforme via seu amado saindo do automóvel com dificuldade, trazendo consigo algo que a fez gritar.
Era ela.
Vestia as mesmas roupas que usara na noite passada, o cabelo bagunçado, suas roupas, assim como várias partes visíveis de seu corpo, queimadas. Chloe se levantou, não conseguia respirar. Sua garganta ardia, mas ela já não sabia se era pelo desejo por oxigênio ou pelo choro já descontrolado. Olhava assustada para algo que um dia fora ela. Olhava para si mesma, caída nos braços do homem que amava.
No canto esquerdo de sua boca entreaberta, era possível ver o sangue já seco. Seus olhos estavam abertos e parados, sem vida. Ela deu dois passos para trás. Tremia.
–Não...NÃO! –Adam gritou.
Estava ajoelhado no chão, o corpo da garota em seus braços. Sua respiração estava desregulada, e ele não pensara em nenhum único segundo em tentar controlar as lágrimas, que já caiam em abundância por seu rosto.
Abraçou o corpo inerte da garota. Estava sem chão. Soluçava, os olhos fechados com força. Ela já estava fria, e sua respiração, ausente. Nunca, em toda a sua vida imaginara ver algo assim. Como prosseguiria agora? Como iria continuar com sua vida ordinária, sabendo que uma das estrelas mais brilhantes do seu céu havia se apagado? Como iria aguentar as lembranças deste momento horrível, e como iria ficar ao se recordar do tempo que passara com ela?
Se afastou um pouco da garota e olhou para o seu rosto. Boa parte dele estava como ele vira da última vez, exceto por algumas queimaduras e machucados.
Um nó se formava na garganta dos dois. Ela se aproximou temerosa dele, os olhos ainda focados em algo que um dia fora ela. Se ajoelhou no chão ao lado dele, e colocou as mãos no rosto, deixando escapar todas as lágrimas que sentia existirem.
–Chloe... –Ele murmurou, curvado, quase encostando sua testa na dela. –Não me deixa...Por favor... –Soluçou, novas lágrimas já descendo de seus olhos verdes.
–Eu não quero te deixar. –Ela falou, a voz trêmula. Seu rosto estava vermelho devido ao choro.
Ele não respondera. Muito menos ouvira. Ela soluçou, olhando o rosto de seu amado. Sabia que ele não lhe escutaria, não lhe veria, não a sentiria. E isso a desesperava. E agora, o que faria?
Sentia-se perdida. Sem rumo. Onde estava aquela luz branca que todos falavam? E, ainda se a mesma estivesse lá, não conseguiria ir até ela. Não conseguiria o abandonar assim. Nunca o vira dessa maneira.
Como iria abandonar o rapaz que sempre enxugara todas as suas lágrimas? Aquele que estava sempre pronto para lhe fornecer um ombro amigo? Aquele que sem ela se dar conta, conquistara seu coração? Não conseguiria, e nem era necessário pensar duas vezes para saber disso.
O abraçou. Ainda sentia seu perfume, seus cachos que tanto amava...Tudo nele era encantador. Lhe doía muito saber que jamais seria correspondida. E só de pensar nisso, ela chorou com mais intensidade.
As lágrimas pareciam não ter fim em meio àquela cena. Adam não se separava do corpo de sua amada. Não conseguia acreditar que aquilo era real. Como que da noite para o dia uma tragédia assim poderia acontecer? Porque a vida lhe fora tirada? Era jovem demais para isso.
Seus olhos, há muito tempo vermelhos, doíam. Assim como seu coração retalhado.
Lhe destruía por dentro saber que nunca mais iria ter uma chance de se declarar para ela. Era como se rasgassem seu interior e o consumissem, pouco a pouco. Mas fizera uma promessa para si mesmo. Não iria voltar, enquanto não falasse sobre seus sentimentos. E, por mais absurdo que fosse se declarar para um cadáver, o nível de suas mágoas, e de seus arrependimentos também estava se tornando absurdo.
Uma parte lá no fundo de sua mente, questionou sua sanidade, pela terceira vez nesse dia. Mas ele a ignorou. Se afastou meros centímetros do corpo gélido e inerte de sua amada, a olhando no fundo dos seus olhos vidrados.
E, após expirar um ar que nem sabia estar prendendo...
–Eu te amo. Chloe...Eu te amo. –Murmurou com a voz trêmula.
E então se abaixou novamente, as lágrimas já voltando a rolar por seu rosto. A garota ao seu lado arregalou os olhos.
Nunca iria poder lhe dizer que sentia o mesmo. Se limitou a fungar, sentindo novas lágrimas por seu rosto vermelho, e o abraçar novamente, com mais força, ainda que já sabendo que seria inútil.
Sexta, 2 de Janeiro, 08 : 05
–Como vai?
–A mesma coisa de sempre...É estranho ter tanta gente por perto...E eu ainda me sentir sozinha. –Ela cruzou os braços, o olhar triste, e se recostou na árvore que se encontrava atrás dela.
Era incrível como aquele local sempre tinha névoa. Todos os dias, várias pessoas de preto chegavam, para visitar parentes distantes, como Chloe preferia chamar. Afinal, agora ela era uma parente distante. Ou, nem tanto.
Adam que proferira a primeira pergunta, olhando para a lápide de sua querida. Ele não gostava de pensar que ela tivesse ido embora, por mais que o lado racional de sua mente vivesse o perturbando, lhe dizendo a verdade óbvia e depressiva.
Ela havia partido a exatos dois meses. Seu acidente fora algo que chocou a todos. Parentes, amigos...Volta e meia o nome dela era citado por acaso nas reuniões e encontros, e a reação era sempre a mesma. Sorrisos tristes, palavras de esperança, e declarações de saudade. Porém, como o tempo cura tudo, aos poucos, boa parte das pessoas já havia começado a esquecer dela. E as palavras foram ficando cada vez mais escassas, assim como as lágrimas e as lembranças. Como uma pequena rosa congelada. Ainda existe e ainda vive, porém o gelo continua a cobrindo, a mantendo separada, porém ligada a Terra.
Porém, uma pessoa jurara voltar todos os dias para falar com ela. Por mais que sua sanidade agora fosse questionada por todos ao seu redor, e que ele mesmo já tivesse perdido a esperança, continuava voltando, todos os dias ao local que ela fora enterrada.
E essa era a razão para a sua lápide estar sempre com várias flores, fotos e até algumas declarações de saudade, e mensagens de paz.
E sempre que ia, tentava falar com ela. Por mais que não fizesse a mínima ideia de que ela realmente estava ouvindo, ou que ela respondia.
–Hoje te trouxe uns narcisos. –Esboçou um sorriso fraco. –Soube que era sua flor favorita.
E se abaixou para colocar as flores amarelas próximas a lápide dela.
–E são. –Ela sorriu.
Ele suspirou, mirando o nome dela, e a foto ao lado. Seu rosto sorridente era lindo. Lembrou-se da maneira que ela revirava os olhos, da sua risada, do quanto gostava do tempo frio, e de como sorriria hoje, afinal, uma nevasca acontecia naquele momento, marcando a presença do inverno tão adorado por ela. E uma lágrima discreta caiu pelo canto do olho direito dele.
Ele a enxugou rápido, e respirou fundo, mordendo o lábio inferior.
–Eu daria tudo para te ter de volta... –Se levantou, o olhar triste.
–E eu daria tudo para que você visse que eu estou aqui. –Ela andou na sua direção, o olhar igualmente solitário. Mas sabia que não adiantaria. Nada adiantava.
Ela o fitou no fundo de seus olhos verdes. Lhe doía ver ele assim. Ele sempre estivera tão feliz, sempre a contagiava a abrir um sorriso...Ele fora, e ainda era a causa de seus sorrisos. Mas ela temia ser a causa de seu sofrimento.
Pousou sua mão direita no ombro do rapaz.
–Você esteve comigo nos momentos felizes. Então estarei com você nos momentos tristes. –Sorriu fraco.
E isso era uma promessa. Para toda a vida, e além dela.
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