Just a Dream.
1 The Dream.
Eu vagava pelas vielas de Paris. Meus pés estavam cansados e eu sabia o porque. Mal acordara e já andara por toda antiga França, entrando em todas as livrarias que eu encontrava. Das mais luxuosas as mais simplórias. E era nessas últimas que eu me sentia em casa e completa.
Era rodeada pelos livros antigos e pelo seu aroma, que eu me sentia completa, tal qual um filho a muito perdido e que finalmente, depois de uma árdua caminhada, encontra o lar.
Foi em uma dessas livrarias antigas que eu consegui achar um livro que a muito queria. O Morro dos Ventos Uivantes. A capa quase solta e as folhas amareladas, as bordas já desgastadas. O segurei como se fosse um recém-nascido, com todo o cuidado para não soltar a capa e não destruir nenhuma folha.
Fui até a senhora de cabelos brancos e olhos azuis, eu tinha total conhecimento da expressão de pura alegria, tal qual uma criança com doce, que eu exibia.
“Você terá que restaura-lo”Disse com a voz rouca e um sotaque pesado. Olhei com carinho para o livro, passando de leve meus dedos pela capa, como se acariciasse uma criança.
“Tudo o que ele precisa, é cuidado”. Paguei pelo livro e voltei a minha caminhada, sendo guiada pela brisa leve e morna, tomando um caminho maior até o cafezinho que eu costumava ir, sorrindo para as cenas que se desdobravam ao meu redor.
Agora, sentada em um cafezinho parisiense, eu tinha um livro antigo na mão, virando as páginas com uma delicadeza, com receio de que as páginas gastas pelo tempo se desfizessem em minha mão. Uma xícara com um suave capuccino estava repousada ao meu lado, porém intacta, já que minha atenção era toda voltada para o livro.
Quando li a última palavra, um sorriso brotou-me nos lábios. Tomei um gole do capiccino e reclinei um pouco sobre a cadeira, observando o por do sol. A rua estava calma, o silêncio, apenas quebrado pelo sopro fraco do vendo. Hora ou outra, um casal passava, sorrindo, e eu me pegava tecendo histórias sobre eles.
Respirei fundo, deixando meus pulmões se encherem com o aroma mesclado de café, livro antigo e algo mais, o qual não sabia identificar. Subitamente, antes que eu pudesse evitar, minha mente vagou rumo ao meu amor. Pensei o que ela estaria fazendo, se ao menos se lembrava de mim. Abri os olhos e ela estava parada de frente para a minha mesa, sorrindo encantadoramente à luz dos últimos raios solares.
Ela colocou um lírio sobre a mesa.
“Pensei em lhe trazer Gardênias” Sua voz soava mais angelical do que já era. “Mas creio que não é segredo o que sinto por você, então lhe trouxe esse Lírio” Ela sorriu misteriosamente. “Aceita o desafio?”
Sorri para a menina, pegando o lírio e sentindo seu cheiro.
“Adoro desafios”
Deixei o lírio na mesa e caminhei em direção a menina. Passei meus braços pelo seu pescoço, sentindo o aperto de suas mãos em minha cintura. Fechei os olhos e.
Acordei com o apito fino do celular. Amaldiçoei mentalmente, ainda com os olhos fechado, quem me mandara mensagem. O sonho havia sido tão real que apenas quando o celular voltou a apitar, eu percebi que sonhara.
Ainda sonolenta, tateei as cegas pelo celular, apertando os olhos quando o liguei, devido a forte luz que este emitiu. Depois de um tempo me acostumando com a claridade, gasto também resmungando por causa da hora, desbloqueei o celular.
Assim que o nome apareceu, meu sangue gelou e eu rapidamente fiquei completamente desperta, retirando tudo o que eu avia pensado para quem me acordara.
Já tomei minha decisão. –S.
Esta era a primeira mensagem. Rapidamente abri a outra, na esperança de que, mesmo que negativa, eu encontrasse nela uma resposta.
Encontre amanhã. Mesmo horário. Mesmo local. –S.
Revirei os olhos. Bem a cara dela.
Levantei da cama, sabendo que eu seria incapaz de dormir, e sentei na pequena escrivaninha do meu quarto. Empurrei alguns livros para o lado e comecei a escrever o sonho que eu acabara de ter.
Assim que coloquei o ponto final, soltei um suspiro e orei brevemente para que meu sonho fosse realizado. E então, colocando “PARIS” em uma letra desenhada e grande, prendi a folha ao lado das outras.
Afastei-me um pouco, olhando para o quadro na parede, agora pequeno de tantas folhas já presas. Passei os olhos rapidamente pelos títulos. Itália. Inglaterra. Grécia. Suíça. Entre outros. Todos sonhos que eu tive e que pretendo realizar. Sorri ainda mais e deixei meus olhos caírem para os quatro potes, três cheios e um pela metade, com o dinheiro que venho juntando para dar vida aos papeis pendurados no quadro.
E por fim, meus olhos recaíram sobre meu maior sonho. Trocaria todo o dinheiro que eu havia juntado, trocaria todos os sonhos que eu passara para o papel e os que eu ainda iria sonhar, por aquele sonho em especial. Ficar com a menina que rodeia todos os outros, a única coisa em comum que aparecia em todos os meus sonhos, não importa o lugar, aquela que o nome estava em todas as folhas que relatavam meus sonhos, bons ou ruins, finais românticos ou não, ela estava lá.
Segurei a foto na mão. Eu e ela sorriamos abraçadas, uma bela cachoeira ao fundo. A luz do sol deixando seu cabelo castanho com um tom avermelhado, seus olhos semisserrados, tornando impossível visualizar a cor cinza que eram seus olhos e o seu sorriso. Ah, o seu sorriso. Era tão mágico, mesmo que por foto, que também me fizera sorrir.
Sarah era o meu maior e melhor sonho. Um sonho que não precisava juntar dinheiro, somente coragem e amor, e eu os tinha em tamanha abundancia, que três potes e meio não cabiam nem um milésimo.
Devolvi a foto para seu lugar de origem. Olhei para o relógio. Apenas quatro horas e vinte e sete minutos. Esse era o tempo que eu tinha até que minha vida mudasse por completo, até meu primeiro sonho se realizar. Ou não.
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