Just The Way You Are
3 Capítulo 3
Assim que eu cheguei à casa de Jolie, reparei um estranho silêncio. Entrei e me sentei no sofá aguardando-a, já sabendo que ela estava lá dentro fazendo algo e logo aparecia.
Então, batuquei no sofá com a ponta dos dedos como se fossem baquetas e admirei a sala; a televisão enorme que deveria ser show de bola de jogar videogame, o outro sofá extremamente fofo igual à esse, a mesa de vidro grande com cadeiras brancas e um lustre gigante e maravilhoso – complicado de pintar, imagino – sobre a mesma.
Desde a primeira vez que conheci a casa, pensei que estava sem vida. Eram as cores discretas e chiques, marrom, preto, branco e seus tons diversos. Um design inteligente, discreto, chique. Mas isso não mudava o fato que apesar da elegância, parecia tudo morto. Não tinha aquele clima de morte, claro. Mas você não conseguia sentir a vida.
Ainda me lembro de quando a conheci – não a casa, a Jolie. Batuquei agora o ritmo da música que tocava no dia, uma batida de Do I Wanna Know, Artic Monkeys, acústica. Como em Nova York era comum encontrar artistas por todo lado sem serem acompanhados de milhares de paparazzis, não foi diferente com a minha amiga modelo.
Era uma casa de shows/bar/balada/uma-mistura-de-tudo-isso chamada de Jack’s, com um som ambiente gostoso e sensual; luzes baixas em uma parte, cheio de dançarinas, sofás de couro, mesinhas para conversas secretas... Era tudo bem bonito e profissional, da maneira artística. A decoração à base de madeira, couro e quadros pintados especialmente, suponho, para o estabelecimento.
Eram desenhos que me lembro bem: alguns traços bem feitos e seguindo padrões, outros eram paisagens em preto e branco de grandes cidades, como Londres, Paris, Atenas e mais. Eu estava bêbado na época, afogando minhas mágoas num copo de pinga brasileira da mais pura e alguns limões.
Então, cansado, me joguei em um dos sofás espaçosos no corredor que os quadros ficavam enquanto via dois casais se pegando às minhas laterais; cada um de um lado e eu lá no meio, me sentindo uma merda em forma humana.
A música trocava daquele tom gostoso de Do I Wanna Know? e indo para Feeling Good, que demorei para reparar que era do épico Michael Bublé. Concentrado na música envolvente enquanto me embriagava mais, vi que o banheiro feminino ficava há poucos metros na minha direita e de lá saía uma silhueta bem sexy e alta feminina, andando como se estivesse em uma passarela.
E foi pensando nisso que vi Jolie finalmente ir para a sala, com uma expressão perdida e uma roupa colada.
– Oi, Ed. Está há quanto tempo aqui? – perguntou me fitando, enquanto eu estava praticamente perdido nas sensações do tal dia, por causa das lembranças fortes que minha embriaguez não me tomou.
– Faz pouco tempo. – Olhei para ela e sorri meio atordoado. Tanta coisa tinha mudado. Ela havia crescido tanto. Até sua aparência estava mais velha; isso não impedia de ficar mais linda ainda. – Você demorou. O que estava fazendo?
Ela sorriu fraco e se sentou ao meu lado, apoiando um braço em cima da grande almofada que apoiava as costas e virada totalmente à mim.
– Eu que lhe pergunto. Você parecia estar lendo um livro de fantasia enquanto olhava concentrado para o nada. – Ela deu uma risadinha e ergueu a sobrancelha, mordendo a almofada da mão.
Era tão incomum vê-la daquele jeito. Descontraída. Meu coração se aqueceu e eu a analisei mais um pouco; coisa que ela já estava acostumada e atribuía ao fato que eu sou artista e adorava decorar traços para desenhá-los depois. A coitada achava que eu fazia isso com todo mundo.
– Estava lembrando da primeira vez que te conheci.
Ela sorriu e riu, girou os olhos e pareceu pensar um pouco sobre a cena.
– Que parte estava?
– No começo, mesmo. Quando te vi desfilando saindo do banheiro.
Ela gargalhou.
– Eu estava ensaiando para o meu teste! O banheiro estava sem ninguém e eu imaginei que a entrada também não teria ninguém fora umas pessoas se pegando. Como eu ia imaginar que tinha um bêbado lá vergonhosamente me olhando? – Riu mais um pouco e tampou a cara de vergonha.
Eu tive que rir junto, com uma risadinha gostosa lembrando-me da cena.
Jo parecia distraída, desfilando e com o queixo erguido, peito para o alto e andando como se nada no mundo importasse mais. Seu olhar estava lá no alto, então ela sempre conseguia um jeito de tropeçar nos próprios pés calçados com um salto gigante.
E então, ela refazia o caminho e voltada rebolando e mais ou menos tremendo, querendo de todo jeito encontrar a perfeição no ato.
Já eu, um bêbado confuso, fiquei olhando para ela com a testa franzida e me perguntando o que diabos ela estava fazendo, já que meu cérebro não queria trabalhar muito e o máximo que pude foi me dar o luxo da dúvida.
– Por que raios em vez de você estar em casa treinando, estava em um bar? – perguntei sorrindo, ainda com a mente na cena. Ela não estava diferente, olhando pro nada.
– Jack’s me acalmava. Eu estava uma pilha de nervos com o teste do dia seguinte e precisava estar naquele lugar para relaxar. E como não podia dar a louca lá, fui treinar – se desculpou e girou os olhos novamente, negando com a cabeça sem acreditar que tinha feito aquilo.
A admirei e sorri de canto.
Quando ela finalmente me notou olhando-a escondido e confuso, ela arregalou os olhos e morreu de vergonha ali na minha frente. Parecendo se dar conta que tinha sido observada e provavelmente se imaginando ridícula.
“Eu juro que te pago uma bebida se esquecer que viu isso!” ela disse desesperada, apontando para mim. Mal sabia ela que no fundo eu estava adorando a cena privilegiada em ver aquela moça bonita para lá e para cá, mostrando-me seu corpo sem perceber em diversas perspectivas.
Mas eu não poderia negar uma bebida. Minha grana já tinha sido torrada naquela noite e por isso fui ficar tonto e me odiando no sofá. Agora, tinha um bom motivo para continuar.
“Duas”, fui negociar. Ela me olhou incrédula.
– Eu estava tão ridícula. Queria parecer profissional e com o dom de nascença para aquilo, impressionar o mundo. Mas eu não iria impressionar o mundo se você sabia a verdade – Jo se pronunciou, parecendo pensar na mesma cena que eu.
– Você estava tão desesperada que nem se tocou que eu estava bêbado e provavelmente não daria importância para uma cena qualquer na minha embriaguez. – Gargalhei e ela me encarou. – Se você não tivesse me reparado eu sequer tinha guardado a lembrança! – Ri mais alto da genialidade dela e Jo veio me bater.
– Não é justo, Ed! – Emburrou e riu junto pelo erro bobo. Dando um leve tapa na própria testa. Eu estava bem surpreso pela espontaneidade atual dela. Era muito raro. – Eu estava apavorada no meu mundinho! – continuou.
– Eu te dou um desconto. Imagina, caso o contrário, não teria me conhecido. – Sorri alegre e balancei a cabeça imitando uma criança muito feliz e ansiosa. O leve tapa veio para minha testa, agora.
– Você me extorquiu três rodadas quando eu ofereci apenas uma! Como teve essa capacidade?
– Quando um viciado quer algo, ele consegue de qualquer maneira. – Pisquei para ela.
– Você não é um viciado, Ed. – Me olhou como se eu fosse idiota.
– Shhhh. Espalha que sim. Já viu que os maiores artistas da história tinham um vício que os movia? Até Shakespeare usava maconha!
– E eram bissexuais – complementou e eu sorri. Seus olhos brilhavam em divertimento descontraído.
– Depois te apresento meus namorados.
– Mas, querido, do que eles importam? Deles eu já sei. Cadê suas namoradas? — Me zoou de uma verdade absoluta. Desde que a conheci, nunca me envolvi com garota nenhuma.
– Engraçado, Jolie. Muito engraçado – resmunguei e fitei seu rosto mais uma vez. Estava meio corado, o que a deixava bastante linda. A janela grande um pouco atrás dela pela maneira virada que estava sentada no sofá fazia seu rosto ficar mais deslumbrante ainda. A claridade que entrava destacava desde as bordas dos seus cabelos até o tom de sua pele, seus olhos.
Meu peito se aqueceu novamente e eu segurei a respiração. Reparando no meu olhar, ela me encarou de leve.
– O quê? – ergueu a sobrancelha meio confusa.
– Você é linda – deixei escapar em um murmúrio.
Desta vez ela pareceu acreditar, mesmo um pouco. Algo mais raro ainda...
Então a impulsividade não me deixou nem sequer pensar, antes de tirar o cabelo do seu rosto e beijá-la na boca. Eu não sei se foi o choque do momento, mas ela ficou quieta e eu também, congelados e apenas sentindo a sensação dos lábios juntos.
Mas assim que eu me afastei um pouco, sentindo minhas veias queimarem e meu corpo cheio de adrenalina, vi seus olhos se abrirem junto com os meus e me encararem perdidos. Ela foi abrir a boca para falar algo, mas apenas soltou o ar em um suspiro pesado pelos lábios entreabertos. Foi neste momento que eu senti o cheiro azedo de vômito.
A olhei magoado. Mais decepcionado comigo por nunca ter feito nada do que com ela. Ela tinha a droga de um problema e eu nunca fui capaz de fazer algo de verdade para ajudá-la. Que diabos de pessoa eu era?
Me levantei e respirei fundo, a encarando procurando algo para fazer.
– Ed. – Ela se levantou subitamente e com isso seu olhar se perdeu novamente, com toda a força do seu corpo junto com a cor lhe abandonando rapidamente. Ela foi tentar segurar no apoio do sofá, mas acabou indo para o chão.
Infelizmente, eu estava longe demais para evitar a queda, mas pude pegar a mulher no colo e deitá-la no sofá.
– Jolie? – chamei perto do rosto dela e vi os fios de cabelo lisos e pretos se destacar de uma forma bizarra com a pele pálida. Aquela imagem me lembrou a morte, o que me apavorou significativamente.
A chamei novamente, mas nem sinal de resposta. Ela abriu a boca para respirar melhor. Eu sabia que ela estava viva, mas queria que ela se recuperasse logo. Que ela melhorasse.
Vendo a pessoa mais preciosa para mim naquele estado me fez lacrimejar e ir correndo pegar o telefone.
– Ed... Não. – A voz fraca dela disse assim que eu fui digitar o número da emergência. Larguei o telefone e corri para perto dela.
– Jo? Você está bem, bananinha? – eu disse, procurando sinais. Qualquer sinal. – Quer uma água? Cobertor? – sussurrei. — O que está acontecendo, Jo?
Sua mão se arrastou devagar até a minha e sua respiração ficou mais forte.
– Desligue o telefone – pediu devagar.
– Mas estou ligando para a emergência...
– Eu sei... – Fez uma pausa. – Desligue.
Lembrei que li em um livro que a garota desmaiou e a coisa correta a fazer era colocar a cabeça da pessoa alinhada à horizontal junto com todo o corpo. Por isso a peguei e levei pro quarto, deitando o corpo em uma superfície reta, sem travesseiros. Abri as janelas e as cortinas, deixando o ar entrar mais.
No caminho da cozinha, passei na sala e desliguei o telefone com certo pesar. Depois eu tiraria a história a limpo. Não pensei mais e decidi agir. Cheguei na cozinha, peguei água e uma bolsa de gelo para melhorar a pressão dela. Decidi levar até mesmo sal e açúcar para ver se acontecia milagres.
Assim que voltei ao quarto, Jo me olhava meio fraca. Porém, a cor do seu rosto parecia ter voltado junto com a respiração.
Cuidei dela como se fosse a coisa mais delicada e quebrável possível, mesmo sentindo uma mágoa rasgar meu peito em uma mistura de culpa e irritação.
Fui direto: — Há quantos dias você não come?
Ela não me respondeu, mas me encarou tímida. Durante um curto espaço de tempo foi assim.
– Três dias. – Soltei a respiração que segurava junto com a expectativa.
– Quando foi a última vez que se fez vomitar? – Não tinha uma maneira mais suave que aquilo de perguntar quando ela enfiou o dedo na garganta.
Ela hesitou por mais tempo desta vez, me olhando meio fora de órbita. Eu tive medo de sua resposta, assim como seus olhos me mandaram ter.
– Pouco antes de você chegar. Ou, pelo menos, enquanto eu não sabia que já tinha chegado. – Aquelas palavras me atingiram em cheio como um soco forte.
Levantei puto e olhei em volta, perdido. “Meu Deus...” Andei de um lado para o outro, tentando me recuperar.
O clima que se instalou no quarto foi muito tenso. Eu sentia tantas coisas que estava tonto. Ela encarava o teto aparentemente envergonhada e eu me senti culpado por não ter me controlado e a ajudado.
– Eu vou chamar um médico, Jolie – decidi e ela me olhou apavorada.
– Não. Não é para chamar. Por favor, não chama... – choramingou.
– Eu preciso... Por que fez isso? Estava tudo tão bem... – Juntei as sobrancelhas não entendendo. Soltei o ar devagar. – Seu desfile... Tão próximo...
Agora a mulher se cobria com a coberta, parecendo ter vergonha de si mesma e seu corpo. Sua voz foi delicada e tremida.
– Foi necessário.
– Como uma coisa dessas pode ser necessária, Jolie? – Me alterei levemente, não acreditando no que ouvia. – Há muito tempo aguento você sofrendo com isso. Há muito tempo não abro a boca e te vejo se destruir, porque você busca a merda da perfeição e simplesmente não vê que já é perfeita! – gritei as verdades em sua cara. – Você simplesmente não entende que está se matando, mas não me deixa ajudar. Que droga de amigo eu seria se permitisse isso? E eu permiti! – Me olhei no espelho incrédulo, finalmente acordando para a vida e a situação.
“Eu estava tão preocupado com seus sentimentos, suas vontades de rainha na minha vida que sequer considerei que você não podia ter razão – continuei. – Porque é isso que está acontecendo. Você não tem a mínima razão, está fazendo merda atrás de merda e eu estou permitindo.
– Ed – ela começou mas fiz questão de interromper.
– Você não tem o direito de falar nada. – Ela me olhou assustada, mais do que quando eu gritava. E tenho quase certeza que o motivo foi meu tom magoado que ela nunca tinha realmente visto em sua forma crua. – Fica quieta.
Tantas coisas se passavam por minha cabeça, o sentimento de inutilidade me inundando aos poucos. Eu rezava para que ainda tivesse maneira de consertar toda aquela bagunça.
Respirei fundo, me acalmando aos poucos e reparei que algumas lágrimas de frustração e mágoa desceram pela minha bochecha lentamente, porém eu não havia notado-as.
Finalmente mais calmo me sentei novamente à cama, e encarei a mulher da minha vida sério.
– Amanhã eu vou falar com uma psicóloga. – Meu olhar desceu, fraco. – E uma nutricionista.
– Se meu chefe descobrir... Minha vida acaba – ela me disse, olhando sofrida, suplicando para que eu não o fizesse.
– Jolie, você não entendeu. Sua vida já está acabando.
–--
Dias depois do acontecido eu ainda não falava com ela. Não era muito questão de ignorar, mas eu precisava absorver a situação. Precisava pensar. Quando ela se envolveu com aquele negócio de bulimia e anorexia, pedia ajuda nas crises e se controlava; poderia ter tido um fim nesta época. Mas hoje eu sei que ela pode implorar para o mundo todo que não adiantaria, mesmo não tendo uma plena consciência do problema que se tornou. Ela acharia que o problema era ela, não com ela.
Foi com esse pensamento em mente que adentrei ao meu “ateliê”: um quartinho escondido malfeito atrás da antiga casa dos meus pais, que agora eu morava. Bom, fui eu que construí aquele quartinho, tijolo por tijolo e depois decorei pintando abstratamente as paredes.
Lá era meio abafado e fazia um bom tempo que eu não entrava. Tinha quadros em branco por um canto, vários pintados esparramados por todo lugar e as tintas nas prateleiras – também esparramadas, para ter o que eu preciso perto da mão.
Suspirei e olhei em volta, vendo as partículas de poeira se agitarem assim que abri a porta e deixei a luz entrar. Tudo estava meio empoeirado pela falta de uso e limpeza.
Sentei no chão e contemplei o silêncio do local. Respirei fundo e encarei o nada.
Ela não via que era linda. Meu maior desejo era que ela se visse pelos meus olhos. Se visse como eu a vejo.
Suspirei. Tinha que achar um jeito de fazer isso. E se ela se amasse, poderia aceitar a ajuda. Poderia aceitar a psicóloga e a nutricionista. Poderia querer mudar, melhorar. Lutar pela sua saúde e sua vida.
Para pensar melhor, decidi ir pintar. Esbravejar. Soltar tudo que eu estava sentindo. Alguns lutam boxe, outros matam, outros fazem terapia. Eu pinto.
Me ergui e peguei alguns potes de tinta colorida e um quadro maior que eu. Organizei as coisas ao lado e o coloquei no apoio, para melhorar o jeito. Aproveitei e puxei para o centro da sala, abrindo as janelas e deixando a luz brilhar.
Senti uma inspiração repentina. Coragem. Respirei fundo e mãos a obra.
Algo aconteceu em mim. Simplesmente aconteceu. Minhas mãos não pareciam mais minhas, eu não parecia mais meu. As cores iam com força contra a tela, formando imagens que no princípio eu não fazia ideia do que eram, mas foi claramente se formando um rosto.
Eu reconhecia aquele rosto tão bem quanto minhas mãos.
Cada detalhe foi pintado, analisando as imperfeições e perfeições. Realçando ali, realçando aqui. Distribuindo as cores, os desenhos. Eu estava em um estado de inspiração intenso.
Tinha perdido a noção do tempo. Não sei quanto tempo se passou desde que eu comecei a desenhar, mas não parei. Não parei um segundo sequer, nem senti vontade de parar.
Assim que acabei, olhei admirando o serviço feito. Os olhos cabelos de Jolie corriam pela tela espalhados, enquanto seus olhos brilhantes e grandes encaravam – com um truque que usei onde não importava a posição que estivesse, estaria te encarando – o telespectador. Um sorriso dançava em seus lábios sem mostrar os dentes, mas era clara sua existência.
O desenho em aquarela era tão grande e belo que me tirou o fôlego. E o motivo nem era a pintura em si: era a beleza de Jolie.
Naquele momento uma ideia surgiu em minha cabeça e eu soube o que fazer.
Jolie ia voltar a ser a mesma. Eu iria mostrar para ela como ela é de verdade.
–--
– Senhor Miller, eu admiro muito a sua dedicação assim por uma amiga – o empresário a frente de Ed, acenando impressionado com a cabeça assim que ouviu a ideia. – Brilhante. Mas não sei se posso permitir tal coisa.
Edward suspirou meio desesperado e tirou a franja cacheada do olho.
– Você precisa entender. Jolie Black é uma das suas grandes modelos, senhor. E sei que as angels são preciosas para vocês, principalmente a Black.
O homem de terno pareceu pensar mais sobre, encarando Edward.
– Isso fará mudanças em praticamente quase todo o show. Não posso permitir. Ela não é a única e nem a pessoa mais importante da V Secrets. O senhor me contou bastante sobre a situação comovente e sua ideia foi genial, mas não pretendo abrir mão de tudo por este gesto. – Seu tom era severo e sério.
Edward parou e pensou durante alguns minutos que pareceram incomodar o impaciente e ocupado empresário.
– Durante esse desfile terá cantores na passarela enquanto as angels passam, certo? – Ed questionou e recebeu a confirmação. – Me dê menos de cinco minutos, como se eu fosse um dos convidados especiais para as apresentações.
O empresário o analisou.
– Justo. Mas o que nós ganhamos com isso?
– Se der certo, vocês amanhã vão estar muito bem falados – sugeriu. – Fora isso...
O homem se aproximou mais para ouvir.
xxx
´ — Por quê? – Os meus olhos se encheram de água e incredulidade. Eu simplesmente não conseguia acreditar no que estava acontecendo, muito menos que eu estava chorando na frente de alguém.
Alguém que não merecia a mínima lágrima que caía acompanhando as outras mais gordas e rápidas.
– As coisas chegam a certo ponto que não dá mais, Jolie. Um ponto crítico onde o “nós” não pode existir mais.
– E agora chegou esse ponto? – minha voz escorria sarcasmo.
Ben parecia tranquilo, apesar de tudo. Seus cabelos estavam penteados para trás com aquele ar de galã que ele fazia questão de ter, suas roupas em um estilo casual chique e ombros relaxados. Entretanto, seu rosto era sério e sem qualquer sombra de dúvida do que estava fazendo.
– Chegamos ao ponto faz um tempo, Jolie. Entenda. Desde que eu conheci Mary nas gravações do filme... Nada foi a mesma coisa. Eu poderia não saber na hora, mas eu soube depois. Estávamos apenas mentindo para nós mesmos.
Eu não acreditei no que eu ouvia. Me enchi de raiva.
– Não quero saber de nada sobre vocês, Ben.
– Você precisa entender. E... – olhou em volta, checando as pessoas pouco interessadas no drama que acontecia dentro do parque, envolto por árvores. – Você está sendo ridícula.
– Eu estou sendo ridícula? – Chorei mais, sangrei mais. E continuei não entendo a merda que estava acontecendo. – Eu achei que você ia me pedir em casamento, não ela!
Meu tom de voz estava subindo escalas e eu simplesmente não me importava. Estava em um momento egoísta com meu coração magoado e meu ego ferido. Meu orgulho também tinha lá suas queixas.
Ben apenas deu de ombros, sorrindo como se sentisse muito sobre isso.
– Estamos acabados, Jolie. Acabados. – Repetiu devagar e uma parte em mim quis defendê-lo, dizer que não era um cara babaca. Apenas tinha me entregado à pessoa errada.
– Já percebi, Ben.
– Só queria lhe pedir desculpas. Mas acho que com o final de tudo estamos todos aliviados por não ter que levar um relacionamento que não ia dar certo adiante.
Concordei silenciosamente.
Enxuguei as lágrimas e encarei as folhas verde escuro das grandes árvores que tinha no local. A madeira escura se destacava, também. Tudo parecia se destacar naquele momento nublado.
Será que é assim que Ed vê o mundo?
Como tinha aparecido, Ben me deu um último olhar, ergueu os ombros e sorriu sem graça, de canto. Um ato respeitoso, até. Pronto para ir.
– Até. Vá até meu novo filme – me disse.
– Claro – menti.
E ele foi. Virou as costas para mim e seguiu em direção contrária, saindo do mar de plantas até chegar à calçada, onde seu carro estava estacionado no meio-fio.
Eu observei de longe até entrar, ligar o carro e sair da minha vista para o trânsito nova-iorquino.
Isso mudava tanta coisa. Meus planos, uma parte do meu futuro. Minha condição psicológica estava até não muito confiável, no entanto. Então decidi fazer algo para não ficar parada no nada, congelada e perdendo minha preciosa hora.
Com uma coragem que eu não tinha e um fôlego bem tomado, comecei a caminhar até o lago e ativar o cérebro, pensando em outras circunstâncias e universos. Tudo que me tirasse do mundo atual que eu me encontrava. Mais precisamente, tudo que me tirasse do meu corpo naquele instante.
De longe, um garoto de cabelos cacheados observava a cena apoiado no muro de um dos prédios que ficava de frente ao parque. Sua concentração lhe fez ter noção do assunto e dos detalhes do que via.
Jolie chorando silenciosamente de queixo erguido. Ben falando sério com ela, de cabeça baixa e feição dura. A intensidade dos dois quase o atingiu do outro lado da rua.
Foi o empurrão que lhe faltava para colocar seu plano em prática sem nenhum medo do futuro ou das consequências.
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