Just Sex
29 Vinte e oito - Acerto de contas.
Notas iniciais
— E não é que isso aqui tá bom mesmo? – Wendy comentou, dando mais uma garfada no prato. – Pensei que sem a vovó aqui nos finais de semana nós só sobreviveríamos de delivery.
— Como assim?! – Natsu se manifestou. – Eu sei cozinhar!
— Menos, bem menos. Você só sabe fazer comida de café da manhã, sanduíches e macarrão com queijo.
Ele deu de ombros.
— Macarrão com queijo é bom. – Olhou para mim. – Mas parece que a Lucy realmente ampliou seus dotes culinários durante esses anos.
— Imbecil, eu sempre cozinhei com a minha mãe. – Revidei.
— É verdade, a tia Layla e a tia Maggie¹ sempre faziam bolinhos pra gente decorar. – Ele sorriu, nostálgico. – Lembra, Wendy?
— Lembro que eu nunca conseguia fazer o formato de suspiro com o chocolate... – Ficou perdida por alguns instantes.
— E acabava chorando por isso. – Completei, e nós dois rimos enquanto ela fazia careta.
No segundo seguinte, eu caí em mim e fiz uma autoanálise, estranhando os fatos. Eu estou mesmo aqui, na casa dos Dragneel, sentada à mesa conversando e rindo com meus dois amigos de infância enquanto comemos um jantar que eu preparei?
— Em falar nisso... – Tratei de mudar de assunto, sentindo as mãos suarem um pouco devido ao nervosismo iminente. – A vovó também viajou?
— É. – Wendy respondeu. – Estamos sendo deixados ao relento. Como se já não bastasse nossos pais viajando mais do que ficando em casa, agora a vovó anda saindo todo final de semana. Só volta amanhã de noite.
Natsu parecia preocupado.
— Ela diz que é pra visitar uma amiga doente, mas isso já faz bastante tempo e ela nunca dá muitos detalhes sobre o assunto.
— Ou talvez ela esteja com um namorado. – Arregalei os olhos e Natsu se engasgou com o frango. – O quê? Gente idosa não pode namorar, fazer sexo, ir pra balada? E a vovó nem é tão velha, ela só tem 65 anos.
— Wendy!
— Que é! – Ela se levantou, levando seu prato vazio. – Quero ver você quando tiver essa idade, tarado do jeito que é, vai transar até os cem anos.
— Ou talvez o amigo "caia" antes e ele entre em depressão. – Falei no reflexo, e eu e ela nos encaramos sérias por um instante. Ela riu primeiro, apontando para o irmão de modo debochando.
— Boa, Lucy.
Fui até a pia e logo ele veio atrás de nós, parecendo entediado.
— Não gostei de vocês duas juntas.
— Maninho, as mulheres tem que se unir. Você só são bons pra aquilo.
O prato dele teria quebrado se eu não o tivesse pego a tempo.
— E por acaso você já fez aquilo, Wendy Marvel Dragneel?! – Natsu parecia a beira de um colapso e Wendy percebeu que falou merda. Muita merda.
— Calma, mano. Não pira. – Ele se esquivou quando ela tentou alisar sua cabeça. – Não fiz ainda, mas pretendo.
Ele cruzou os braços.
— Com esse "cara" com quem você quer sair?
— Talvez.
Natsu quase deixou o outro lado da cabeça sem cabelo.
— Eu conversei com seu pai e ele me sugeriu que eu deixasse esse tal garoto vir aqui, pra eu conhecê-lo melhor antes de deixar vocês saírem. Mas isso não vai acontecer, por que nem de casa você vai sair até a mãe e o pai voltarem e conversarem com você!
— Você não enlouqueceu ainda!
— Ah, eu enlouqueci sim! Vai de motorista para escola e vou avisar ao Caprico agora mesmo que você não sai de casa sem eu dizer. Quero ver você conseguir pular esse muro de quatro metros.
Quase ri pensando que se fosse eu, isso não seria problema. Wendy correu até ele, apelando para a bajulação.
— Maninho, eu estava brincando. Você é muito sério. – Cutucou seu nariz, mas Natsu não queria papo.
— Sai, Wendy. Eu tô falando sério!
— Vai ser pior se você não deixar. – Mandei a real para ele, que me olhou surpreso. – Prendê-la em casa só vai piorar, ela vai fugir e fazer pior do que o que disse que faria.
— Tá vendo, ouça a voz da experiência. – Wendy que estava quase ao chão agarrando a camisa do irmão parou para me olhar. Senti a veia do meu pescoço latejar de raiva, ela sabe mesmo como tocar na ferida.
Natsu ficou sério por um momento.
— É, eu sei. Eu me lembro. – Apenas o encarei diante da frase, até ele desviar o olhar e tentar se desvencilhar da irmã. – Mas isso não significa que se eu deixar vai ser menos ruim.
— Como você é chato e hipócrita, Natsu!
— Ah, é Natsu agora?!
Balancei a cabeça, briga de irmão é foda, mas pelo menos os dois não se batem como eu e o Laxus. Entretando, quando terminei de lavar a louça, fui obrigada a interromper a discussão. Mesmo com toda essa distração, volta e meia Gajeel aparece em meus pensamentos. E saber que provavelmente posso encontrá-lo naquele lugar me deixa muito mais ansiosa do que com receio. Afinal, se não for tudo apenas paranoia da minha cabeça, esse cara é muito mais perigoso do que eu pensei. E não está sozinho.
— Foi mal interromper, mas tenho que ir.
— Pensei que fosse dormir aqui.
— Não.
— Eu também pensei. – Revirei os olhos quando Natsu falou. O que ele quer mais? Que a gente pare pra assistir a um filme agarradinhos no sofá? Assim fica difícil fazer as pessoas entenderem que isso NÃO é um namoro. Que saco.
— Preciso resolver uns assuntos.
— Às oito da noite?
— A Wendy tem razão, está muito tarde. Se você quiser ir pra casa, eu te levo.
Sorri ironicamente.
— Obrigada, mas dispenso.
Depois de subir e pegar minhas coisas, apenas acenei para Wendy e saí porta a fora.
— Lucy, espera!
Natsu corria atrás de mim enquanto eu andava rapidamente até o portão. São nessas horas que eu odeio esses jardins de frente de casa de rico.
— Natsu, se você falar mais alguma coisa, eu vou arrebentar sua cara.
— Para onde você vai?
— Não te interessa.
— Na verdade, interessa sim. – Ele segurou meu braço, fazendo com que eu o olhasse nos olhos.
Me desvencilhei com força, o encarando mais de perto.
— Não, não interessa. Por que interessaria? Por que se importa?
Seu rosto ficou vermelho e ele passou a gritar de uma hora pra outra.
— Por que você é...
Mas não terminou a frase. Por um momento, meu coração se acelerou, com medo do que ele fosse dizer. Logo afastei o sentimento.
— Sou o quê? Nós não somos nada, Natsu. Não mais. – Enfatizei e me virei para ir embora. – Lembre-se disso.
***
No ônibus, comecei a realmente pensar na merda que estava indo fazer. Primeiro, a Erza me mataria se soubesse que estou fazendo o que ela pediu para não fazer: me expondo ao perigo. E depois, ir ao território inimigo, sozinha, provavelmente atrás de uma gangue, não é uma coisa muito sã a se fazer. Mas acontece que se tem uma coisa que eu não mudei em mim, foi esse impulso que tenho para fazer as coisas. Sigo meu instinto, mesmo que muitas vezes não seja a coisa certa a se fazer. Só espero que dessa vez seja.
As ruas já estão ficando esquisitas quando desço no ponto a umas quadras da praça. Sinto meu corpo reagir ao pânico inconsciente que começa a crescer a cada passo que dou, e isso não se deve ao medo do presente. E sim do passado.
Quando finalmente avisto o lugar, rodeado de árvores e bancos, com um circuito no centro, me lembro de quando vim aqui pela primeira vez. Minhas pernas congelam em frente ao banco de madeira onde me sentei com Michelle, minha prima, de madrugada e no frio, à espera do meu príncipe encantado. Eu quase podia me ver ali, no escuro, ingênua, ansiosa para fuga temporária, mas ainda assim receosa pela escolha de um local tão distante de casa. O desencantamento só veio depois, quando eu descobri o que realmente era aquilo tudo. E os seis meses de aventuras que tínhamos passado viraram pó, não restando mais nada além de um pouco de nostalgia e a amargura que levo até hoje.
Não sei quanto tempo fiquei ali, parada, até escutar um rebuliço logo mais a frente. Sentados na arquibancada, um grupo de caras fazia arruaça, mas o que realmente me chamou atenção foi quem estava no meio deles.
Meu corpo se moveu mais rápido do que meu pensamento. Quando percebi, eu já estava lá, andando até ele. Vendo que eu me aproximava, alguns tentaram soltar graça, mas eu só tinha uma coisa em mente.Tirando as mãos do bolso, gritei.
— Ei!
Gajeel nem teve tempo de esboçar surpresa ao me ver, muito menos se defender do que estava por vir.
— Isso é pela Levy.
Ele caiu no chão quando o soquei com toda a minha força. Os caras ao redor se sobressaltaram, surpresos, sem saber o que estava acontecendo, mas logo uma onda de vozes se tornou presente. Senti todo meu corpo queimar e minhas mãos tremiam de raiva. Pelo ângulo, o soco acertou a maça do seu rosto, que logo revelou um corte relativamente profundo. Eu só queria acabar com a raça desse cara pelo o que ele fez à minha amiga, mas infelizmente eu tenho outros assuntos para resolver antes disso.
Não ficou nada fácil se segurar quando ele enxugou o sangue com uma das mãos e simplesmente sorriu para mim.
— Seu filho da puta! – Rosnei, trincando os dentes.
Antes que eu terminasse de falar, senti duas presenças se aproximarem e rapidamente me esquivei entrando em alerta. Prevejo que as coisas não vão ficar nada boas.
— Quem é essa doida?! – Um cara de cabelo espetado desceu de vez do último degrau da arquibancada, que não era baixa. Ele parecia bastante intrigado e se aproximou para me analisar melhor e riu. – Dessa vez você pegou uma bem violenta, ein, cara.
Me esquivei o máximo que pude, passando a respirar de modo irregular diante do cerco se fechando ao meu redor. Eu estou claramente encurralada.
— Pois é. – Gajeel desceu um degrau e eu dei um passo para trás. – Calma, Lucy. Eu que deveria estar com medo de você.
— Não me faça rir, Redfox. Por que você não manda seus amiguinhos se mandarem pra gente conversar?
Parece que meus sinais corporais não foram suficientes para que eles entendessem que eu estava pronta para me defender a qualquer momento, pois um deles tentou me pegar por trás e eu fui obrigada a jogá-lo para frente. O garoto arquejou no chão, urrando com falta de ar. O olhei como um verme que rastejava no chão.
— Kei, o que você foi fazer?
— Eu só fui pegar no ombro dela!
— Wow, Gajeel! – O cabelo espetado deu tapinhas em seu braço, como se o elogiasse. – Onde você arrumou uma dessas? Eu quero uma!
O olhei com descrença. Ele está mesmo me tratando como se eu fosse um objeto? Mas eu nem mesmo tive como retrucar, pois minha popularidade por ali não havia aumentado com o último golpe. Eles querem me pegar.
— Ninguém toca nela! – Gajeel gritou e eu quase ri. – Eu vou resolver isso.
— Acho melhor mesmo, novato. – Um outro mau encarado, que estava quieto e calado no canto desde então, se pronunciou. Parecia o líder do "bando".
Redfox respirou fundo e tentou se aproximar.
— Lucy, vamos...
— Não encosta. – Estapeei sua mão, mas isso não foi o suficiente para que ele se afastasse. Ele forçou a entrada, e eu fui obrigada a mirar em sua canela, mas ele neutralizou o golpe com facilidade e me puxou pelo ombro, sussurrando de perto.
— Acho melhor você calar a boca e ficar quieta, sua idiota. Você não sabe com quem está se metendo.
— Não, você que não sabe.
Assim que dei uma joelhada em seu plexo solar, os outros perceberam que deveriam lidar comigo. Entretando, eu não deixaria que me pegassem. Mais do que nunca, tenho certeza de que eles realmente devem estar envolvidos com essa onda de estupro pela cidade e eu não sei até que ponto eles podem ser perigosos. E além disso, eu mesma não sei qual seria o meu limite se eu continuasse nessa situação, até minha mente entrar em colapso e eu perder totalmente o controle de tudo. Só que o que eu não esperava, era ser pega totalmente de surpresa.
Apenas tive tempo de ver um borrão passando por mim, e no segundo seguinte eu estava caindo no chão. Meus olhos captaram o giro da queda em câmera lenta, primeiro meus pés, os rostos que me olhavam e por fim o céu límpido da noite. Mas ao invés de cair no chão de concreto, fui acolhida pelos braços de Gajeel, que me olhava com repreensão.
Eu não conseguia mexer qualquer parte do meu corpo e os músculos dóiam de tão retraídos e rígidos. Eu já ouvi falar dessa técnica. Apertar um ponto de pressão no meu pescoço foi o suficiente para que meu corpo não obedecesse mais aos meus comandos. Me deixando completamente à mercê dele.
— O-o que... – Fiz muito esforço para falar, sussurrando, com as mandíbulas doendo como se eu tivesse levado milhares de socos. – O que você fez comigo, maldito?
— Te salvei.
Quanto mais eu tentasse me mover, apenas a dor excruciante vinha em troca. Ele me carregou nos braços, pegando minha mochila e caminhando para fora da praça. Com a cara enfiada propositalmente em sua jaqueta, eu não pude ver nada ao redor. Se ninguém de fora estava vendo o que acontecia, eu nunca poderia receber ajuda. O pânico começou a me desestabilizar, fazendo com que a dor apenas aumentasse.
— Espero que você dê um trato nela, cara. Não rebaixe sua imagem pra gente.
— Você nem precisa dizer.
Eu queria gritar para obter alguma força, mas até respirar era difícil. Meus braços estavam caídos, moles e as articulações dos meus dedos só estavam começando a reagir agora. E eu sabia que se Gajeel conseguisse me colocar dentro do carro, seria o meu fim. Como um último recurso desesperado, mordi seu abdomen com toda a força que pude, o que não era muita.
— Pare de lutar, Lucy. – Gajeel avisou, se irritando e me colocando em cima dos ombros. – Não seja teimosa.
Avistei o mesmo cadilac preto de quando o desgraçado entrou nas nossas vidas, e fiquei parecendo um peixe fora d'água tentando impedí-lo de me colocar no banco, mas é claro que não consegui. Completamente tronxa no carona, meu pescoço pendia pro lado da janela. Ele bateu a porta e deu partida no carro. Minha respiração estava ofegante e a garganta queimava.
A medida que ele se afastava cada vez mais da cidade, e eu só conseguia enxergar o breu lá fora na estrada deserta, eu sabia que estava sem tempo. E vontade de me mexer era maior que a dor.
— Você não precisa tentar fugir, Lucy. Eu não vou te machucar.
Mas acabei percebendo que quanto mais eu tentasse me mover, mais demorado seria o processo. Aos poucos, meus braços estavam voltando a ter força e eu a estava guardando para um propósito. Sair daqui, não importa como.
— Eu não confio em uma palavra do que você diz, seu infame.
Ele riu.
— Parece que você ainda tem forças pra xingar, como esperado de você. Será que devo tomar medidas mais drásticas?
— Eu sei quem você é, Gajeel Redfox. E eu vou acabar com você.
Eu não conseguia me mexer, e não tentava. Estava tentando juntar forças para o que eu estava prestes a fazer. E ele continua com suas ameças insinuantes.
— Você não sabe de nada, Lucy Heartfilia. Não sabe nem mesmo quem é, muito menos com que está se metendo. Eu salvei sua vida.
Aquele era o único momento em que consegui juntar coragem e força ao mesmo tempo.
— E eu vou acabar com a nossa.
Foi quando o fiz perder o controle do carro.
— O que está fazendo?!!
Joguei todo meu corpo contra o seu, metendo as mãos de modo desajeitado no volante. Gajeel ainda tentou retomar o controle, mas a pedra perto do acostamento fez com que ele me jogasse para o lado com brutalidade ao tentar desviar do obstáculo. Depois disso, a última coisa que eu senti foi o cinto de segurança travar quando minha cabeça bateu no teto. O carro capotou.
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