Just One More Soul
1 Capítulo 1
Notas iniciais
“Muitos acham que deuses da morte são caveiras que levam as almas ao outro mundo, vestidas com manto preto e portando foices... Mas não é verdade. Isso é apenas nosso trabalho. Somos divididos em dois grupos: aqueles que guiam as almas e aqueles que ajudam as almas penadas.”
– Ei! – chama Rin, impaciente.
– Pois não? – Haku se vira com um sorriso para a garota de cabelos negros.
– Quando você vai deixar esse mundo, hein? Tá atrasando meu trabalho. – reclama Rin.
Haku ri, o que irrita Rin mais ainda.
– Tenha paciência. Falta pouco. – responde Haku, despreocupada.
– Falta quanto mesmo? – cruza os braços.
– Uns vinte.
A garota faz cara de quem pergunta ‘e isso é pouco?’.
– Aff! – coça a cabeça – Está bem. Que seja breve.
– Obrigada.
“Guardiões, como são chamados os que ajudam as almas penadas, precisam salvar o mesmo número de pessoas que matou em vida. E cada guardião possui um deus da morte para vigiá-lo.”
O grito de um corrompido rasga o silêncio da noite. Seu corpo se despedaça em inúmeros fragmentos e Haku surge segurando a alma de uma criança.
– Você está bem? – pergunta Haku.
– Obrigada, moça. – fala a menina, chorando.
– Não há de quê. – sorri.
A criança começa a desaparecer.
– Muito obrigada. – agradece novamente.
– Espero que encontre seu irmão.
– Sim. – faz um meneio de cabeça.
E assim a menina desaparece por completo. Rin se vira para Haku e percebe que lágrimas escorriam dos olhos desta.
– Sabe que você também pode virar um corrompido, não é? – pergunta Rin com uma expressão meio entediada.
– Não se preocupe. Sei controlar meus sentimentos.
–... Se você se tornar um, fique sabendo que não poderá contar comigo para salvá-la.
– Como você é má, Rin. – ri.
“Corrompidos são almas que ficaram presas aqui por estarem presas a algum sentimento. As famosas almas penadas, diríamos. Tanto deuses da morte quanto guardiões podem se tornar corrompidos. Principalmente se as lembranças de quando eram vivos voltarem... Afinal, deuses são almas daqueles que se suicidaram e guardiões são almas daqueles que mataram em vida. Pelo menos é o que me disseram, já que ainda não me lembro de nada.”
Chegando a uma cidade, Rin começa a ter um sentimento nostálgico.
– O que foi, Rin? – pergunta Haku.
– ... Acho que conheço esse lugar... – responde com olhos distantes.
– Talvez seja sua cidade natal. – comenta Haku.
– Isso não seria agradável. Prefiro não me lembrar de nada. – se vira para Haku – Se me suicidei é porque minha vida não era das melhores.
– Mas assim você não conseguirá seu descanso... – responde Haku.
– Para isso eu precisaria me tornar uma corrompida, não?
– Não sei. Afinal, eu sou uma guardiã, não uma deusa da morte. – sorri, parecendo se divertir com a conversa.
– Por que está sorrindo? – pergunta Rin, brava.
– Por nada. – responde Haku.
– Acha que eu me tornar uma corrompida seria divertido? – indaga Rin, extremamente brava.
– Não! De jeito nenhum! – balança as mãos – Mas se é necessário isso para você poder descansar em paz, eu não mediria esforços para salvá-la. – complementa.
– Hunf! Não preciso de sua misericórdia. Isso nunca irá acontecer mesmo.
Haku apenas sorri em resposta.
“Eu não queria me apegar a um guardião, pois logo eles desaparecem. Mas como todo ser humano, o longo convívio com Haku me fez desejar que ela ficasse ao meu lado para sempre.”
– Falta apenas mais uma alma, Rin. – comenta Haku, com um sorriso – Depois você não precisará mais me aturar.
–... Você tem certeza disso? Não prefere ficar aqui? – pergunta Rin, meio sem jeito.
– Não posso. – responde Haku, com um sorriso triste.
–... – olha para o chão.
– Além disso, a última pessoa que matei é a que mais me arrependo... Era uma menina. Não tinha mais de quinze anos. Na verdade, ela entrou na frente de quem eu realmente ia matar... – solta uma risada sem graça – Não é algo que você simplesmente pede desculpas. Por isso, devo salvar essa última alma.
Rin aperta os lábios.
– É mesmo? – se vira — Então, faça o que quiser.
– Aonde você vai?
– Dar uma volta. Não preciso cuidar de você o tempo todo.
– Está bem. – sorri.
Depois de algum tempo andando sem rumo, Rin para perto de um lugar abandonado, onde só havia árvores secas e ruínas de um jardim.
– Idiota. – sussurra – Não percebeu que eu... — cai sob os joelhos – Eu não quero ficar sem você...? – lágrimas escorrem pelo seu rosto e caem sobre sua mão – Sei que está determinada a salvar mais uma alma, mas...! – começa a soluçar.
Depois de alguns segundos soluçando, Rin limpa o rosto.
– Preciso me controlar, se não vou virar uma corrompida... – se levanta e solta um riso abafado pelo choro – Pareço uma criança... Apenas pensando em mim... – respira fundo para se acalmar e logo em seguida dá uma olhada ao redor -... Eu... já estive aqui antes...?
“Se eu não existisse...”.
– Hã?
“Ninguém sentirá minha falta...”.
A imagem de quando estava no topo de prédio prestes a se jogar se reproduz em sua memória. As pupilas de seus olhos diminuem.
Enquanto isso, Haku já estava começando a ficar preocupada.
– Ela está demorando... Será que aconteceu algo? – pensa.
Um chamado agonizante atrai sua atenção.
– Rin?! – corre em direção ao chamado.
Quando encontra Rin, já era tarde demais. A garota já tinha se transformado em uma corrompida e estava murmurando coisas indecifráveis.
– Não pode ser... – arregala os olhos – Você me disse que não se tornaria uma corrompida, Rin!
A nova corrompida nem sequer deu atenção à menção de seu nome. Continuou a murmurar frases. A rachadura de seu peito aumentava mais e mais. Percebendo isso, Haku corre em direção à corrompida e antes que esta pudesse reagir, a guardiã toca na abertura de seu tórax. Rapidamente surge em uma sala de aula. Logo se depara com a garota olhando pela janela.
– Seria melhor eu sumir desse mundo... – murmura a garota.
–... – Haku se limita a observá-la.
Várias versões da garota aparecem ao redor de Haku e todas murmuravam coisas sobre desaparecer, sumir e não existir. Haku fecha os olhos.
– Rin, onde você está? – pensa.
Som de correntes e pesos sendo arrastados chamam sua atenção e rapidamente Haku corre em direção à porta. No corredor, várias outras versões de Rin sussurravam frases do tipo ‘você não conseguirá me salvar’, ‘ninguém conseguiu’, ‘na verdade, você não se importa comigo; só faz isso para poder descansar’.
Haku ignora a multidão de sussurros e quando pisa no primeiro degrau da escada para o andar superior, o outro lado do corredor começa a ruir.
– Riiiiiiiin!!! – grita com todo o ar dos pulmões enquanto subia as escadas correndo.
Chegando ao terraço, não havia sinal de Rin. Porém, um sussurro é ouvido por Haku.
– Quando você se for, ficarei sozinha novamente...
– Rin... – olha ao redor.
A escada para o andar inferior já estava ruindo, quando Haku estava procurando por Rin. O som de lágrimas se chocando com o chão é ouvido por Haku e esta se vira para o lugar de onde o som veio.
– Eu não farei falta... Ninguém me impedirá...
– Riiiiiiin! – dispara em direção ao som e estende a mão para algo invisível.
Por sorte, Haku consegue agarrar algo, supostamente o braço de Rin.
– Rin, você está me ouvindo, né?! Se queria que eu esperasse por você era só falar! Eu esperaria por você! Quem disse que não me importo com você, hein?! Você é importante para mim e sempre será! – ao ouvir essa frase, Rin começa a acordar — Não guarde tudo para si! Você não está sozinha! Não se esqueça de que estou aqui! Bem ao seu lado, Rin! – fora o suficiente para as correntes que prendiam Rin desaparecerem e acordá-la de vez.
Percebendo que o peso ficou mais leve e que Rin passou a ser visível, Haku puxa a garota para si quando a chão abaixo de seus pés estava prestes a ruir. Nesse momento, o corpo da corrompida se despedaça e surgem as duas.
– Você é mais leve do que eu esperava... – comenta Haku com um sorriso.
– Idiota... – retruca Rin, emburrada.
As mãos de Haku começam a desaparecer.
– Minha hora chegou... – fala com um sorriso meio triste.
– Haku...! – exclama Rin, sobressaltada.
Haku ri.
– Eu não vou sozinha. – ouvindo isso, Rin olha para suas mãos e percebe que estão desaparecendo – Não precisa mais se preocupar em ficar sozinha. – sorri.
Os olhos de Rin se enchem de lágrimas.
– Estarei sempre com você. – fala Haku por fim, antes de desaparecerem.
No jardim arruinado onde estavam, flores brotaram de forma inexplicável.
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