Notas iniciais
Acho que todos os fãs de Kuroshitsuji já se perguntaram sobre o passado de Sebastian, isso é, se ele já tivesse sido um humano.

Bem, eu imaginei mais ou menos assim:

O dia seguia seu curso normalmente na mansão Phantomhive, ou o que dava para ser chamado de normal com Lizzy do lado de dentro da mansão.

– Autobiografia?

– É! – insistia a pequena garota – A história que você vai contar para os nossos netos sobre a sua vida.

– Não tenho tempo pra isso. Posso contratar alguém para fazer...

– Mas não é a mesma coisa, Ciel! – dizia emburrada – "Alguém" fazer por você é uma biografia simples. Uma autobiografia deve ser feita com suas próprias palavras!

Apenas observando aquela cena, o mordomo continha o riso observando a insistência de Elizabeth quanto ao tema, enquanto seu bocchan inventava inúmeras desculpas como "não tenho tempo" ou "estou ocupado". Ele sabia que mais cedo ou mais tarde Ciel ia ter que ceder, e que em pouco tempo estaria pedindo socorro. Isso porque embora ninguém além de ambos soubesse, Ciel era um péssimo escritor.

– Tudo bem – o garoto deu-se por vencido — Embora eu acredite que seja perda de tempo, eu vou fazer isso mais tarde.

–Arigatou, Shieru! – a garota o abraçou apertadamente deixando-o sozinho na poltrona de seu escritório enquanto era levada à entrada da mansão pelo mordomo Phantomhive.

A carruagem já a aguardava.

Sebastian sorriu ao lembrar-se do tema autobiografia. Deixava-o nostálgico. O fazia se lembrar de sua vida. Isso é, na época em que era vivo. Lembrava-se de seu primeio amor... sim, o nome dela era Marianne. Lembrava-se de seus cabelos loiros e olhos verdes como se já não fizessem séculos desde a última vez que os vira.

Lembrava-se também – afinal, como poderia esquecer-se? – da primeira vez que a encontrou. O momento exato no qual se apaixonou por ela.

/// Flashback on ///

Ela estava linda, definitivamente perfeita com os cabelos loiros presos em um coque bastante elaborado. O vestido rosa bebê criava um contraste especial com os olhos verdes mais lindos que o jovem havia visto.

A garota loira era Marianne Camville, a segunda filha dos Camville.

Enquanto descia aquelas escadas com tanta delicadeza, definitivamente havia capturado o coração do jovem Elrick Blenn.


/// Flashback off ///

Sebastian riu ao se lembrar de seu antigo nome, o nome dado por seus pais quando era um humano.

Faziam séculos que não era chamado por aquele nome. Na verdade faziam séculos que ele mesmo havia se esquecido do seu nome. E de sua história.


/// Flashback on ///

Elrick mantinha seus olhos fixos na garota que descia lentamente as escadas. O garoto acompanhou enquanto os olhos de Marianne rolavam de um lado até o outro do salão observando todos os presentes, e se surpreendeu quando se fixaram aos dele.

No exato momento em que seus olhos se encontraram, Elrick teve certeza que estava completamente apaixonado, no entanto a surpresa causada pela troca de olhares foi tamanha que o fez desviar o foco instantaneamente.

Quanto voltou a observar Marianne, teve uma surpresa maior ainda ao perceber que ela ainda o observava, e agora sorria para ele.

Atingindo o fim da escada, suas delicadas mãos enluvadas foram tomadas por seu pai, o senhor Camville, que a levou para ser apresentada à família Blenn.

– Gostaria de apresentá-los a minha segunda filha, Marianne – disse o homem de cabelos ruivos, de um vermelho-castanho que lembrava a cor dos olhos de Elrick.

– É um enorme prazer conhecer a Família Blenn – disse a garota loira com sua doce voz feminina. Ela ainda não havia deixado de observar o jovem de cabelos negros.

– O prazer é todo nosso – disse o pai de Elrick.

Após fazer uma reverência, o pai de Marianne a levou para apresentá-la a mais algumas famílias.

O jovem Elrick e a bela Marianne pareciam conectados de alguma forma naquela noite. Nenhum dos dois ousava quebrar o contato visual que mantinham. No entanto, no momento da dança, Elrick havia tomado a coragem necessária.

– Me concederia a honra, Senhorita Camville?


/// Flashback off ///

Sebastian tirou o relógio de prata do bolso por um instante, e tornou guardá-lo após olhas as horas. Era hora do chá.

Tinha certeza de que seu bocchan iria falar sobre autobiografia e iria pedir sua ajuda, no entanto, Ciel nem mesmo tocou no assunto.

Será que teria se esquecido ou era orgulhoso de mais para pedir ajuda?

Independente disso, Sebastian apenas serviu o chá e se retirou do escritório de seu mestre.

Talvez Ciel apenas estivesse ocupado demais para pensar nisso agora.


/// Flashback on ///

Marianne sorriu com o pedido do jovem de cabelos negros, como se já o estivesse aguardando desde a primeira troca de olhares que tiveram.

A única resposta da moça foi pousar sua mão delicadamente sobre a mão do jovem que a aguardava e sorrir para ele.

– Então... Erick Blenn, não é? – sorriu e disse docemente.

O jovem Elrick se arrepiou como seu nome soava na voz dela. Ele realmente havia se apaixonado.

– Marianne Camville. Certo? – perguntou após assentir com a pergunta dela.

– Sim. – confirmou sorrindo.

Durante a dança, Elrick descobriu exatamente o que já imaginava sobre a moça. Ela tinha um talento natural para dança e sabia tocar flauta. Seu hobbie era por pinturas. Ela era perfeitamente delicada, mas riu quando Elrick a perguntou sobre gatos.

– São fofos, de longe. – foi a única coisa que disse sobre o tema, ainda sorrindo.

Seus sorrisos o encantavam, assim como seus olhos verdes.

Tudo nela o encantava.

Depois da dança ainda permaneceram juntos, conversando e descobrindo mais um sobre o outro. Elrick sentia que poderia passar a vida toda ao lado dela. A eternidade toda se possível.

No entanto, não foi.

Depois daquela noite, o moreno não conseguia mais tirar Marianne da cabeça. Pensava nela e em sua delicadeza o tempo todo e estava ansioso para vê-la de novo. Mas isso só aconteceu duas semanas depois, em um outro baile, na casa dos Blenn.

Elrick estava nervoso. A cada convidado que chegava ele corria até o salão esperando que fosse Marianne, mas ela parecia não chegar nunca. Quando finalmente chegou, sua beleza estava estonteante. Um vestido rosa e branco, os cabelos soltos cobertos por um chapéu.

Assim que os olhos castanhos-vermelhos encontraram os olhos verdes, Elrick sorriu como se tivesse esperado por aquele verde durante toda a sua vida.

Dessa vez ele não esperaria que ela andasse por todo o salão antes de cumprimentá-la. Ele mesmo se aproximou e a cumprimentou como se já se conhecessem há anos.

– Olá, Elrick! – o surpreendeu Marianne o cumprimentando primeiro.

– Boa noite, Senhorita Camville... – disse Elrick um pouco corado e surpreso com ela o ter chamado pelo primeiro nome.

– Por favor, me chame de Marianne... isso é, se não for constrangedor para você, claro...

– De forma alguma Senhorita Cam... q-quero dizer, Marianne...

Marianne sorriu.

– Me concederia o prazer de uma dança? – convidou Elrick.

– Claro, honrada. – sorriu mais uma vez.

Na verdade Elrick ficou muito feliz com a informalidade com a qual ela o tratava, embora ficasse um pouco embaraçado com isso.

– Então, Marianne... eu estive pensando... – dizia, ou tentava dizer, o jovem de cabelos negros.

– Sim?

– Nada. – desistiu, antes que começasse a ruborizar.

A garota não o pressionou e nem mesmo disse nada. Apenas sorriu novamente, o que deixou Elrick tranquilizado, afinal não iria conseguir dizer nada do que queria.

Com o passar do tempo, Elrick e Marianne começaram a se ver com frequência em bailes, e dançar juntos em todos eles. Elrick estava cada vez mais apaixonado. Sentia vontade de vê-la sempre. No entanto não se viam em outros lugares, mas sempre que se viam nos bailes ficavam bastante tempo juntos.

Marianne dizia que o sonho dela era vê-lo tocar violino, como ele já tinha dito que tocava e que queria tocar flauta para ele, mas nunca tinham a chance de se ver em lugares mais reservados.

– E sobre suas aquarelas?

– Posso te mostrar algum dia também. – sorria a garota loira.

Passaram-se algumas semanas.

A família Blenn fora convocada à casa dos Camville com uma proposta de um certo casamento.

Isso deixava Elrick um pouco ansioso e esperançoso.

Embora o garoto fosse dois anos mais novo que Marianne – o que não se percebia, ou mesmo dava-se pra acreditar – ele podia ter certeza que iriam falar sobre ele e Marianne, afinal era o único filho da família Blenn. Mas ficou um pouco desconfiante quando descobriu que também haviam enviado o convite à outras pessoas da família Blenn: seu tio por parte de pai e seu primo Edward.

Edward era dois anos mais velho que ele.

Ignorando isso, seguiu com seus pais até a casa da família Camville, completamente nervoso dentro da carruagem. Aquilo poderia decidir seu destino.

– Sejam bem-vindos – cumprimentou o Senhor Camville – Senhor e Senhora Blenn, é um prazer recebê-los aqui. Os chamei até aqui para fazer uma proposta, como disse na carta sobre o futuro de seu filho Elrick e de uma de minhas filhas...

Nesse momento o nada discreto Edward Blenn entrou no salão. Seus cabelos castanhos claros e os olhos azuis eram de dar inveja.

– Seja bem-vindo. – cumprimentaram o Senhor e a Senhora Camville.

– Obrigado. – disse exibindo seu sorriso.

– Bom, como eu iria dizendo, gostaria de deixar minhas filhas nas mãos dos Blenn, como sei que são uma família realmente responsável e irão cuidar bem delas. Por isso, Senhor Edward Blenn, gostaria de oferecer-lhe em casamento a mão de minha filha Marianne Camville.


/// Flashback off ///

Sebastian ouviu seu nome ser chamado repetidas vezes. Por um instante perguntou se Ciel havia se dado por vencido, mas então percebeu que não era dele a voz, e que seu nome era acompanhado por "san".

"Criados inúteis" pensou.

Quem o chamava no momento era Finny, que havia acidentalmente aplicado um produto contra ervas-daninhas nas roseiras. Realmente, um inútil.

Depois de terminar seu trabalho, de forma graciosa como sempre, Sebastian pôde voltar aos seus devaneios e lembrar-se do momento doloroso em que sua amada foi dada em casamento ao seu primo. Doloroso? Antigamente era. Mas há muito tempo Sebastian havia se esquecido do que era dor.



/// Flashback on ///

– É realmente uma honra, Senhor Camville. – sorriu Edward, sendo fuzilado pelos olhos castanhos-vermelhos de Elrick.

Edward era de longe o maior cafajeste que Elrick já havia conhecido. Era também famoso por namorar inúmeras mulheres em uma mesma noite. O que havia dado no Senhor Camville para escolhê-lo como esposo para Marianne? Aquela tão doce e delicada jovem? Se fosse para Marianne se casar com outro, que não fosse um verme como ele.

Marianne desceu as escadas da mansão, como havia feito no dia em que Elrick havia se apaixonado por ela e ela por ele. Elrick esperava que seu sorriso fosse um sorriso triste, assim como os olhos normalmente brilhantes dela, que estariam ofuscados.

Portanto se enganou. A jovem Marianne descia as escadas, com um sorriso perfeito. Falso? Se era não parecia. Ela nem mesmo olhou para ele. Fingiu que ele não estava ali. O que tinha acontecido com a jovem que supostamente se apaixonara por ele?

Elrick naquele momento tinha vontade de atacar Edward com inúmeras facadas e também vontade de sair correndo dali naquele exato momento. Mas conteve ambas e apenas esperou para ouvir o que o Senhor Camville tinha a dizer para ele, enquanto Marianne se dirigia a Edward e fazia um cumprimento.

– Senhor Elrick Blenn. Creio que também serás um responsável marido para minha filha. – disse o pai de Marianne, tomando a atenção de Elrick de volta para si – Por isso gostaria de oferecer-lhe a mão de Margarett Camville em casamento.

Nesse momento descia pelas escadas uma jovem de cabelos ruivos-castanhos como os de seu pai, presos em uma trança enorme com uma flor no fim. Os olhos verdes claros que combinavam perfeitamente com o vestido que ela usava. Elrick sentiu naquele momento que aquela não era a primeira vez que via aqueles olhos... eram os de Marianne! Ou, bem parecidos com os dela.

Mas a jovem Margarett parecia desconfortável e vulnerável naquele lugar. Evidentemente tímida, mas isso não ofuscava sua beleza, pelo contrário.

– Senhor Blenn, gostaria de apresentá-lo minha filha mais nova, Margarett Camville. – disse o senhor ruivo levando-a em direção a Elrick.

– É-é... é um en-enorme prazer, S-Senhor Blenn...

– Igualmente. – Elrick respondeu indiferente.

Era completamente inadequado e bruto, o oposto de Elrick, mas seu coração de um garoto de apenas dezesseis anos estava completamente partido naquele momento. Não tinha vontade alguma de conhecer Margarett, por mais linda que fosse.

Depois daquele episódio, durante a noite, Elrick se encontrava sentado em seu jardim. Pensando nos sorrisos da doce Marianne. E pensando no último deles, o sorriso que dera descendo aquelas escadas. Ela queria se casar com Edward? Ou estava sorrindo daquela forma apenas por pedido de seus pais? Teria Elrick deixado se levar por uma ilusão?

Não que quisesse ser bruto com Margarett. Na verdade achou ela linda e poderia ter se apaixonado por ela. Mas não agora. Não tinha a mínima vontade de sequer vê-la outra vez. E a veria em breve, no baile de noivado de Marianne, que havia sido agendado para a próxima semana. Edward queria adiantar as coisas.

Não tinha jeito. Nada que Elrick pudesse fazer... e nesse momento sentiu a dor em seu peito aumentar e algumas lágrimas escorrerem por seu rosto. Era realmente muito doloroso para ele. A primeira paixão, a primeira decepção. Realmente doloroso. A garota que ele amava estava prometida para se casar com seu primo.

Bem, os dias passaram voando e o baile de noivado chegou. Elrick não tinha a menor vontade de ir, portanto alguém de sua família iria se casar... e também ele não poderia fazer aquilo com Marianne. Margarett? Ele não se importava. Queria mandar tudo pro inferno e fugir do país com Marianne.

"Pro inferno Senhor e Senhora Camville, Edward, Margarett, papai e mamãe. Com amor Elrick Blenn.

PS: Fugi do país com a Marianne. E vão todos para o inferno mais uma vez."


/// Flashback off ///

Foi quase impossível para Sebastian conter o riso ao se lembrar da carta que havia chegado a escrever, mas desistiu de entregar, obviamente. E ao invés de mandar todos para o inferno, decidiu ir ao baile de noivado de Marianne.


/// Flashback on ///

Marianne estava linda como sempre, e distribuía sorrisos perfeitos por todos os lugares onde passava. Elrick tentava com todas as forças se convencer de que eram falsos e que Marianne era uma perfeita atriz. Era doloroso de mais para ele aceitar que ela sequer se importasse com ele.

Não demorou muito para que Margarett fosse levada pela mãe até Elrick. Ela obviamente não teria coragem de fazer isso sozinha.

Margarett estava tão linda quanto a irmã. Talvez até mais. Os cabelos enormes e ruivos jogados sobre o ombro direito com uma fina trança que pegava como uma coroa e descia até o fim dos cabelos enormes. Sua franja de lado também, mas do lado oposto ao dos cabelos lisos e perfeitos. Ela usava um vestido lilás, claro com detalhes prata. Os olhos e sua expressão inocente naquele momento a deixavam ainda mais linda.

– Aproveite o baile, Senhor Blenn. – sorriu a Senhora Camville. Seu sorriso lembrava o de Marianne. Que droga! Porque era tão difícil parar de pensar no sorriso dela?!

"Para o inferno seu sorriso também" pensou Elrick. No entanto o que ele disse foi apenas "obrigado", fingindo que não percebia a evidente forma na qual a Senhora Camville oferecia a filha para ele como se fosse mercadoria. Ele não gostou daquilo. Mas pensou que seria melhor acabar com aquilo de uma vez, ou ela não ia deixá-lo em paz.

– Seria de seu agrado uma dança, Senhorita Camville?

Naquele momento viu Margarett ruborizar até ficar bem mais vermelha que seus cabelos, até não se conter e sair correndo.

Tudo bem, aquela não era a reação que ele esperava.

– Margarett! – Senhora Camville a chamou. Era completamente inadequado o que Margarett havia feito com o noivo, e se Elrick fosse como seus pais, a reputação da família Camville ia descer pelo ralo. Mas Elrick apenas riu.

– Não se preocupe com isso, Senhora Camville... – ia dizer, mas fora interrompido.

– Senhor Blenn, posso fazer um pedido?

"Não."

– Claro, Senhora Camville.

– Se não for incômodo gostaria que falasse com Margarett. Ela é tímida mas queria que ela se habituasse a conversar com alguém, e é mais do que adequado que esse alguém fosse seu noivo. Me faria esse favor?

"Não. Vá pro inferno e leve sua filha com você. Não tenho a menor vontade de falar com ela, e sabe a timidez dela? Manda pro inferno também."

– Entendo Senhora Camville. Eu farei.

Ela deu um sorriso em agradecimento. Pela décima vez Elrick mandou seu sorriso pro inferno em pensamento e foi atrás de Margarett.

Margarett estava no jardim, sentada perto das rosas vermelhas. Elrick pensou em como ficariam lindas se ele empurrasse ela nelas e seu sangue se espalhasse por toda parte.

Ignorando seus pensamentos se aproximou de Margarett. Ele pensou que ela estivesse tão concentrada que não fosse o perceber ali, mas que se percebesse iria dizer uma frase doce com seu jeito tímido e ruborizar até ficar da cor das rosas.

Ele errou, duas vezes. No exato momento em que ela o percebeu ali foi o mais rude que pôde.

– O que você quer? – disse ainda de costas para ele.

"Que você vá pro inferno!!"

– Conversar. A forma com a qual acabou de tratar seu noivo foi a mais rude com a qual poderia ter sido. Gostaria de saber se fiz algo que não foi de seu agrado...

Nesse instante ela se virou para ele, sua expressão era ainda inocente e doce como a de uma criança. Nem parecia que ela havia dito aquela frase rude da forma rude que disse pouco atrás.

– Mil perdões, Senhor Blenn – ela agora caminhava na direção de Elrick – É que... eu pensei que esse casamento... bem...

– Sim?

– Perdoe minha rudeza mas... acreditei que esse casamento não fosse de seu agrado...

– E não é. – Elrick se surpreendeu com as palavras que haviam acabado de sair da sua boca. Droga! Era pra ter ficado em pensamento! Se ela contasse isso para seus pais Elrick realmente teria problemas. Droga! Droga! Mil vezes droga! – Quer dizer, me desculpe...

– E-eu entendo. – disse ficando embaraçada novamente. Ela também não esperava aquilo dele.

– Não! Não é isso. É que...

– T-ta-talvez eu n-não seja a noiva adequada pra você... – ela disse ruborizando.

– Não foi isso que eu quis dizer! Margarett, você é linda. – disse, fazendo com que ela ficasse ainda mais vermelha, tanto com o elogio quanto por tê-la chamado pelo primeiro nome – E com certeza uma noiva perfeita mas... bem... fiquei confuso porque realmente não esperava por isso.

"E porque estou apaixonado pela sua irmã." completou em pensamento.

– Então é só isso?

"Não. Eu também estou apaixonado pela sua irmã e quero que você e sua mãe vão para o inferno."

– Sim. É só.

E pela primeira vez Elrick Blenn viu sua noiva sorrindo, exibindo as adoráveis covinhas. O sorriso de Margarett era encantador. Ainda mais lindo que o de Marianne. Ele poderia ter se apaixonado naquele momento, mas não conseguia tirar Marianne da cabeça.

– Se não se importa, eu gostaria de dançar com a minha noiva. – disse Elrick sorrindo e estendendo a mão num convite. Não pode-se dizer que foi um sorriso forçado, mas também não era completamente verdadeiro. Meio a meio.

– Sim! – sorriu Margarett mais uma vez.

– Então... vamos para o salão?

– N-na verdade...

– Sim?

– N-não, esquece...

– Eu sou seu noivo, lembra? Pode me dizer o que for...

– É que... e-eu... tenho vergonha de dançar em público...

– Então é isso? Por isso você saiu correndo?

Margarett ruborizou um pouco ao se lembrar, mas assentiu.

– Não seja por isso. – Elrick tomou a mão dela e colocou a sua sobre a cintura dela.

Ela corou ainda mais, mas começaram a dançar. Um rodopio, dois... estavam dançando no jardim! Foi realmente estranho fazer aquilo, mas foi divertido.

Não trocaram nenhuma palavra. Ambos se concentravam apenas um no outro, em si mesmo e na dança. Mais uma vez Elrick sentiu que poderia se apaixonar por ela. Na verdade essa sensação veio forte, como se o sufocasse.

Os dois, dançando sem música alguma, apenas o som do vento.

A tarde acabou sem que percebessem. Depois que terminaram de dançar ficaram conversando na varanda. Se esqueceram completamente de Marianne, de Edward, de seus pais, do baile.

– Você toca alguma coisa, Senhor Blenn?

– Toco, violino. E você?

– Eu toco piano. Violino é realmente muito bonito mas... não sou muito boa com instrumentos de corda...

Ambos riram.

– O que faz em seu tempo livre, Senhorita Camville?

– Bem, eu gosto de ficar aqui no jardim...

– Sozinha?

– Com meu gato e as roseiras... mesmo que meus pais não tenham muito tempo para mim, eu nunca me sinto sozinha na companhia deles.

Elrick pensou em perguntar sobre suas irmãs, ele havia descoberto que além de Marianne, Margarett tinha uma irmã mais velha chamada Marie – eles tinham algo com a letra M, só podia! – que já era casada. No entanto sua pergunta foi:

– Qual o nome do seu gato?


/// Flashback off ///

O tempo passou sem que o mordomo percebesse, e já estava atrasado para o jantar. Se apressou e fez tudo rapidamente, muito mais rápido que o normal.

Em pouco tempo Ciel estava jantando e depois era hora de seu banho.

Ele não disse uma palavra sequer sobre a tal autobiografia ou sobre Lizzie. Apenas fazia tudo normalmente como se nada tivesse acontecido.

Depois de levá-lo até seu quarto e vesti-lo com as roupas adequadas para dormir, saiu do quarto de seu mestre e seguiu para o seu.


/// Flashback on ///

Na noite do baile, Elrick sequer viu Marianne de novo. Não procurou por ela. Também não procurou por seu primo. E só procuraria por seus pais no fim do baile. A única coisa na qual estava concentrado era em Margarett.

Decidiram subir até o segundo andar da casa dela, mas sem que ninguém percebesse. Motivo: Shine. O gato da Margarett.

Era um gato branco muito bonito e bastante peludo. Os olhos verdes lembravam os de sua dona. Foi amor à primeira vista.

Amor entre Elrick e o gato.

Margarett riu e disse que ficaria com ciúmes.

– De mim? – disse Elrick cheio de si.

– Claro que não! Do gato! – disse Margarett.

Ambos riram.

– Você gosta muito de gatos, Senhor Blenn. Você tem um?

– Eu? Tenho vários! Todos os gatos do mundo são meus. Inclusive o Shine.

– Falando sério! – disse Margarett rindo.

– Que moram comigo são dois. Elie e Elise.

– Um macho e uma fêmea então. Que bonitinhos. Eu gostaria de conhecê-los um dia.

– Você irá. Agora devo descer ou teremos problemas... é completamente inadequado que os noivos sejam encontrados no quarto da noiva sozinhos.

– Sozinhos não! Com o gato! – corrigiu Margarett.

– Claro. Sozinhos com o gato. – riu Elrick.

Margarett riu.

– Tem razão. Vamos. – concordou a ruiva.

O novo destino deles foi a varanda de novo, embora Elrick tenha insistido que eles ficassem no salão e dançassem um pouco.

– Um dia, quem sabe? – brincou Margarett sorrindo, exibindo suas covinhas.

– Desisto de você. – brincou o garoto dos cabelos negros.

E ficaram conversando, agora na companhia de Shine.

O baile já estava quase no fim e Margarett sequer havia parabenizado a irmã. Elrick estranhou aquilo.

– Não nos damos muito bem... – esclareceu a ruiva.

– Por quê? Ela parece tão amigável...

– Com as pessoas de fora talvez, mas... bem, não vou falar mal da minha irmã no dia do seu baile de noivado, não é mesmo?

– Tem razão, me perdoe.

Ele não discutiu mais nada.

O baile chegou ao seu fim.

A carruagem já aguardava a família Blenn.

Elrick se despediu de Margarett com um sorriso dessa vez verdadeiro que foi retribuido por ela, mas sem ao menos olhar para Marianne.

Entrou na carruagem e acenou pena janela. Mal podia esperar para ver Margarett outra vez.

No instante em que a carruagem partiu, pôde ver Marianne. Pôde ver as lágrimas que se formaram em seus olhos e também pôde ver quando ela saiu correndo de volta para dentro da mansão.

Elrick se sentiu confuso. Mais do que isso, se sentiu mal por ela.

Se passou uma semana desde que Elrick e Margarett se viram pela última vez. O garoto se sentia sufocado, com mil vezes mais saudade do que quando ficou duas semanas inteiras sem Marianne. Ele via um pouco do jeito inocente de Margarett em tudo, principalmente nas rosas e em seus gatos. Elie tinha sua inocência, Elise sua delicadeza e Shine os seus olhos. Perfeito. Só faltava Shine e Margaret.

Elrick pensou em vê-la. Queria muito. Mas não dava para ser imediatamente. As coisas não funcionavam assim.

Mas estava com tanta saudade... estaria apaixonado por ela?

Como se Margarett pudesse ver seus pensamentos, chegou "uma visita" para ele em sua mansão. Sim, era sua noiva, Margarett Camville.

Foi até a entrada da mansão e encontrou Margarett descendo da carruagem.

No exato momento em que seus olhos se encontraram, pôde ter a resposta para a pergunta que havia feito a si mesmo pouco atrás. Sim. Ele estava completamente apaixonado por Margarett. Como poderia ter pensado em se casar com outra pessoa? Como poderia ter pensado em fugir do país com Marianne e deixar sua linda noiva? Como? Só podia agradecer em tudo ao Senhor Camville por ter feito aquilo – embora tivesse o mandado para o inferno umas cem vezes antes.

Margarett vinha em sua direção, com o sorriso verdadeiro mais lindo do mundo.

Ele não pode conter suas pernas e foi na direção dela também.

– Boa tarde, Senhor Blenn. – disse ela sorrindo.

– Boa tarde, Senhorita Camville. – ele sorriu também.

No entanto ela estava acompanhada por seus pais, que desceram da carruagem logo em seguida.

Elrick fechou a cara.

– Que foi, Elrick? Não gosta dos seus sogros? – brincou Margarett.

Elrick sorriu em ouvir Margarett o chamar pelo primeiro nome. Era realmente muito bom e ele não se sentia embaraçado como quando quem o chamou assim foi Marianne.

– Gosto sim. – sorriu novamente. Não é que não gostasse deles, mas é que tinha medo de que pudessem tirá-lo de sua noiva. E não gostava dessa ideia.

– Bem, estou ansiosa para conhecer o "Senhorito" e a "Senhorita" Elie e Elise. Poderia me apresentá-los?

– Claro, Margarett. – Elrick a chamou pelo nome para testar sua reação. Ela percebeu, mas apenas sorriu. Mal sabia ele o quanto ela havia gostado da sensação que aquilo a proporcionou.

Os pais de Elrick ficaram no salão conversando com Senhor e Senhora Camville, enquanto, sem que percebessem, Elrick e Margarett subiram para o quarto dele.

– Querida noiva, gostaria de apresentá-la à meus filhos Elie – brincou Elrick pegando o gatinho preto no colo e entregando-o a Margarett, que começou a acariciá-lo – e Elise – disse pegando a gatinha cinza.

– É uma honra conhecê-los. Tratarei seus filhos como se fossem nossos, querido noivo. – brincou Margarett – Infelizmente meu querido filho Shine não pôde estar conosco, mas em uma outra ocasião, quem sabe se conheçam?

– Tenho certeza que meus filhos o tratarão como um irmão. – Elrick sorriu.

– Oh! Disso eu não tenho dúvidas! Prendados como são seus filhos, com certeza terão modos e tratarão meu filho como um deles, não é Elie? – brincou sorrindo e acariciando o pelo negro de Elie – Bem, mas agora devemos deixá-los um pouco, afinal é a primeira vez que venho à sua casa, não quero perder a oportunidade de te ver tocar violino.

– Tudo bem, temos um piano também, não pense que vou perder a oportunidade de ver-te tocar piano para mim. – sorriu Elrick.

Elrick e Margarett foram até a sala de música onde ele pegou o violino. Ficou um pouco nervoso, geralmente não tocava para outras pessoas, na verdade a música era só um hobbie e não pensava em mostrar para os outros. No entanto não podia negar um pedido de sua noiva.

Tocou uma música com ritmo lento e triste, mas um tanto complicada para alguém que fosse iniciante. Elrick realmente tocava muito bem.

– Se você não estivesse tocando, eu dançaria com você agora. – disse Margarett, o fazendo lembrar instantaneamente da primeira e última dança que haviam dançado até então. Sem música, sem nada. Mas oportunidades para isso não iam faltar, afinal estavam noivos e iam ficar juntos para sempre, certo?

Quando a música acabou Margarett levou uma das mãos até os olhos. Ela estava... chorando?

– Margarett? – chamou Elrick – Está tudo bem?

– C-claro que sim! – enxugou os olhos – B-bem... você queria me ver tocar piano, certo? – mudou de assunto.

– Sim. Por favor.

Ela se sentou na frente do piano. E a música que ela tocou foi... exatamente a mesma que Elrick tocou no violino! Era um pouco diferente por causa de alguns acordes, mas era a mesma música!

– Posso? – ofereceu-se Elrick pegando novamente o violino.

– Por favor. – disse Margarett ainda tocando.

Não demorou muito para que tudo fosse preenchido com as notas tristes e lindas da música. Era tudo perfeito ali. A sintonia com a qual tocaram... era como se, não apenas tivessem ensaiado por meses, mas tivessem nascido apenas para que aquele momento existisse. Apenas para completar um ao outro.

Passaram-se algumas semanas, os sentimentos que tinham um pelo outro apenas cresceram. Não era uma simples paixão, era amor verdadeiro!

O dia do baile de noivado deles finalmente chegou. Elrick estava empolgado como nunca! A partir daquele dia, eles seriam oficialmente noivos, e ai não teria mais volta. Não ia ter mais do que Elrick ter medo.

E Margarett ia ter que dançar em público, querendo ela ou não.

Elrick riu de seus pensamentos.

O baile ia ser realizado na mansão Camville, depois de muita discussão entre os pais dos noivos. Cada um tinha argumentos diferentes em porque o baile deveria ser realizado em sua mansão, mas os que sequer entraram na discussão ou se importavam ao menos um pouco com isso eram Margarett e Elrick. Eles se importavam apenas com a oficialização do noivado.

Quando Elrick chegou à mansão, ficou realmente surpreso e um pouco triste ao não encontrar Margarett o esperando na entrada, embora descobrisse mais tarde que a mãe dela havia insistido muito para que ela não o visse antes do baile.

Chegaram mais convidados, todos eles parabenizavam o noivo que agradecia com um sorriso, tentando não demonstrar o quanto estava preocupado com a demora da noiva.

"Espero que ela não demore tanto no dia do nosso casamento" pensou ele brincando, para tentar se distrair.


/// Flashback off ///

"O dia do nosso casamento..." pensou Sebastian.

Embora demônios geralmente não tivessem sentimentos, aquele pensamento realmente o entristecia. Lembrar-se do dia de seu casamento com Margarett era... bem... doloroso.

Enquanto a única preocupação do pequeno Elrick naquele momento era de que Margarett não se atrasasse para o casamento, a dor de Sebastian agora era que o casamento...

... nunca tivesse chegado a acontecer.


/// Flashback on ///

Já era noite.

Depois de um tempo andando pelo salão e agradecendo a todos os "meus parabéns" ou "tenham uma longa vida juntos" que recebia, Elrick já estava impaciente, mas o que o acalmou foi quando ouviu soar por todo o salão uma melodia triste por uma orquestra. Era... a música que ele e Margarett tocaram na primeira vez que ela foi à sua casa! Ele sorriu.

Todos os olhares agora se concentraram nas escadas, e em pouco tempo descia a noiva.

Lá estava ela, linda. Linda não era a palavra certa. Estava mais do que linda. Estava perfeita. Usava um vestido azul claro e uma trança embutida nos cabelos ruivos. Os olhos verdes, mais brilhantes que nunca, se concentravam apenas em seu noivo.

Nem parecia a Margarett tímida que não gostava de aparecer em público. Aquela era uma Margarett mais confiante do que nunca. E feliz. Muito feliz. Assim como Elrick.

Ela descendo as escadas naquele momento o fez lembrar em alguns instantes de Marianne. Balançou a cabeça. Desejou não ter pensado aquilo. Desejou nunca ter conhecido Marianne, a garota que o iludira daquela forma.

Margarett foi na direção de seu noivo, e sem dizer nada, ele também foi ao seu encontro.

A melodia parou e recomeçou, para que os noivos pudessem dançar.

Ninguém prestava atenção em mais nada além deles, mas embora Margarett demonstrasse tamanha confiança, Elrick tinha certeza de que estava nervosa como nunca.

Ela tinha vergonha de aparecer em público e de dançar em público. Agora que era o centro das atenções, se sentia mais que nervosa. No entanto escondia isso muito bem.

Era a primeira vez que dançavam com acompanhamento de música. E tudo era perfeito naquele momento. Não trocavam palavras. Trocar olhares e sorrisos era o bastante. E a sintonia. Perfeita, como devia ser.

Depois que a música havia terminado, começou uma nova, numa melodia bem mais alegre, mas na opinião de Elrick – e de Margarett – a outra mais triste era bem mais bonita. Definitivamente era a "música deles".

Outros casais dançavam alegremente, enquanto os noivos foram até o jardim.

– Noivos normais não vão para o jardim enquanto estão em seu próprio baile – brincou Margarett.

– Desde quando somos noivos normais? – brincou Elrick.

Ambos sorriram.

– Parece que o "um dia, quem sabe" chegou bem mais cedo do que esperávamos, Margarett. – brincou o garoto moreno com um sorriso sapeca no rosto.

A garota apenas sorriu.

– Sabe Elrick, aquela orquestra foi bonita mas... sabe que eu prefiro você tocando? – ela ficou de costas pra ele, escondendo seu rubor.

– E eu prefiro nós dois tocando juntos. – sorriu e andou até ela.

Sentaram-se perto das roseiras e ficaram conversando, a única luz era a da lua cheia que os iluminava. Conversavam sobre seu futuro, até Elrick se levantar.

– Você consegue encarar o público muito bem, Senhorita Camville, mas sabe, acredito que seja bem mais expressiva quando estamos a sós. – sorriu – Me concederia a honra desta dança? – estendeu a mão a convidando para dançar.

– Sem dúvidas! – colocou sua mão sobre a dele.

Depois de dançar, conversar e de Elrick matar a saudade de Shine, o "baile pessoal" dos noivos acabou, e decidiram agraciar os convidados novamente com sua presença.

Andaram juntos por todo o salão, agradecendo a todas as formalidades que lhes faziam. Ambos de braços dados.

O baile foi maravilhoso. Depois de um tempo não se falava em outra coisa.

Todos os que estavam presentes naquela noite ficaram realmente encantados com a beleza da noiva e com a sintonia do casal. Principalmente Elrick.

O tempo passava. Elrick estava feliz como nunca. Os noivos sempre eram vistos juntos em bailes, mas passavam mais tempo um na mansão do outro.

– Vermelhas ou brancas? – Margarett pedia a opinião do noivo.

– Hm... vermelhas. – opinava Elrick. Uma de suas cores favoritas era vermelho.

– Tem razão, as vermelhas são mais bonitas. – disse Margarett pegando no cesto em sua mão a rosa vermelha que já estava sem espinhos.

– Ficam bem mais bonitas aqui. – Elrick pegou a rosa das mãos dela e colocou em seus cabelos. Margarett sorriu, demonstrando as covinhas.

Os sorrisos de Margarett eram realmente tudo para ele. Elrick descobrira que seria capaz de fazer qualquer coisa para que ela sorrisse.

No momento os noivos se encontravam no jardim da casa de Margarett, acompanhados, como sempre, pelo gatinho branco.

– Sabe, Elrick. Eu conheço um lugar onde existem as rosas vermelhas mais lindas do mundo. Eu costumava fugir da mansão pra ir lá quando era criança. Eu posso te levar lá, se quiser. – Margarett sorria sapeca.

– Sem avisar ninguém? – Elrick se surpreendeu. Não conhecia aquele lado da noiva. Mas definitivamente estava gostando.

– Vamos voltar logo, não se preocupe. – sorriu a garota, sendo retribuída com o sorriso cúmplice do moreno.

/// Flashback off ///

Como Sebastian gostaria de nunca ter ido até aquele vale.

Tudo bem, aquilo o trazia boas lembranças, mas se eles nunca tivessem ido até lá, ele podia ter vivido com sua noiva e sido realmente feliz. Não que se importasse com isso agora.

/// Flashback on ///

– Chegamos! – disse Margarett, indicando um vale com variedades enormes de flores.

Eles haviam saído pelos fundos da mansão sem que ninguém percebesse. Elrick havia ficado um pouco... inquieto por sair sem avisar à ninguém.

– O que achou? – perguntou a garota ao noivo, que estava quieto e calado.

– Hm... é bonito... – Elrick sentiu uma coisa estranha. Como se algo ruim fosse acontecer naquele lugar. Um aperto diferente e doloroso.

Ela suspirou.

– Qual o problema? Você está bem? – se aproximou dele e tocou seu rosto com suas mãos delicadas, mas que estavam enluvadas no momento.

Aquele toque causou um arrepio em Elrick. Um arrepio gostoso. Uma sensação que o acalmou e que ele queria sentir de novo. De novo e de novo. Ele definitivamente a amava muito.

– Você não está com medo, está? – ela riu.

– Eu? Não me faça rir! Eu não tenho medos! – disse cruzando os braços sobre o peito e fazendo biquinho.

Margarett riu.

/// Flashback off ///

Sebastian riu ao se lembrar de seu egocentrismo.

Era muito parecido com Ciel quando tinha dezesseis anos.

Ambos, diziam que não tinham medos. Nenhum dos dois admitiria, mesmo se tivesse.

As poucas diferenças que tinham se concentravam na aparência. Sebastian, ou Elrick, nunca foi muito baixo, e com dezesseis anos aparentava ter dezenove. Já Ciel...

Sebastian riu novamente.

/// Flashback on ///

O vale era realmente muito lindo. Infinidades de flores de todas as cores e tamanhos imagináveis. E abaixo um rio, que parecia ter uma correnteza bastante forte.

Elrick arrepiou-se ao olhar para ele. De novo a sensação ruim.

Shine, que até então estava quieto no colo de Elrick, pulou no chão e saiu correndo como se também tivesse visto alguma coisa ruim naquele rio. Mas correu na direção dele.

– Shine!! – gritou Margarett correndo atrás dele.

– Margarett, espera!! É perigoso!! – Elrick foi atrás dela.

Shine se aproximava do rio como se estivesse hipnotizado com ele. Como se a água fosse um pedaço de carne.

Margarett corria em sua direção.

Talvez por isso ele tenha se assustado, escorregado e caído na água.

– Shine!!!!!!!!! – a garota correu para tentar pegá-lo.

O gato miava agora. Parecia que sua consciência havia retornado e ele se encontrava desesperado como se não soubesse como foi parar no meio de toda aquela água. Estava sendo arrastado pela correnteza e não ia demorar muito para desaparecer em meio a água. Num impulso, Margarett segurou a barra do vestido como se fosse pular na água.

– Margarett, espera!! – gritou Elrick – Eu faço isso, está bem? Por favor fique aqui.

– Mas Elrick... !

– Fique aqui. Vai ficar tudo bem, não se preocupe. – dizia se aproximando do rio. Se agachou perto dele e se inclinou para pegar o gatinho, que miava desesperado.

Elrick podia ver o chão se partindo naquele momento, e ele sendo jogado na água e sendo arrastado pela correnteza. Elrick podia ver sua própria morte naquele momento.

Não. Não agora.

Embora estivesse com medo de que o chão se rompesse – nunca admitiria isso para Margarett – , ele não ia deixar que sua noiva fizesse aquela loucura. Se um deles tivesse que morrer ali que fosse ele, e não ela.

Ignorando seu medo se inclinou um pouco mais. Pegou o gato com a mão esquerda, ignorando os arranhões que o bichinho lhe fazia no braço.

Finalmente ficou tudo bem. O chão não se rompeu, Elrick não morreu ali. Nem Margarett. Nem o Shine. Estavam todos bem. Fora o fato de que o peludo estava completamente encharcado. Mas estava vivo, pelo menos.

– Elrick! – Margarett o abraçou, impulsivamente como se nem percebesse – Que bom que você está bem. Por um instante eu tive medo de que... esqueça! Você está bem, não é?

– Sim. – ele sorriu, abraçando ela de volta. O mais importante era que Margarett estava bem. Sabe-se lá o que teria acontecido se fosse ela se arriscando para salvar o gato no lugar dele.

– Shine, seu danadinho, nunca mais me assuste dessa maneira, ouviu? – brincou ela acariciando seu pelo.

– Sabe o quanto eu e sua mãe ficamos preocupados? – brincou Elrick também.

Naquele dia voltaram para a mansão, pelo contrário do que eles mesmo pensavam, agendando a próxima vez em que voltariam ao vale. Escondidos de novo.

Elrick se surpreendeu com aquilo, mas o vale era realmente um lugar do qual ele havia gostado. Passar horas e horas conversando no jardim não era tão bom e relaxante quanto alguns minutos no vale.

Mas nas vezes em que voltaram até lá, optaram por ir sem o gato. Embora a companhia dele lhes fizesse falta, era melhor não arriscar. Era para o bem dele.

Passaram-se muitos meses. Voltaram muitas e muitas vezes naquele vale. As rosas vermelhas lá eram as mais lindas que Elrick já havia visto em toda sua vida. Eram brilhantes, lindas, especiais. Tais como os olhos de Margarett.

Foi numa dessas visitas ao vale que fizeram aquela promessa. A promessa que nunca devia ter sido feita.

– Se eu pudesse, realizaria nosso casamento aqui. – brincou Elrick.

– Nem me fale. – sorriu Margarett – Por falar nisso, em breve vai chegar a data do casamento. É no ano seguinte, não é? – Sim, Elrick e Margarett agora já tinham dezessete anos. No ano seguinte se casariam. E viveriam felizes para sempre. Supostamente. – Seria realmente bom realizá-lo aqui. Queria poder fazer alguma coisa...

– Tem uma coisa que podemos fazer... – Elrick dizia tendo uma ideia.

– O quê? Nos casar aqui?

– Casar não, mas poderíamos vir aqui no dia do nosso casamento. Sabe, para nos lembrar da época em que fugíamos da sua mansão para vir até aqui. – propôs Elrick, com um sorriso no rosto.

– Tem razão! Ótima ideia! Então, prometamos.

– Eu, Elrick Blenn, prometo vir aqui com minha amada noiva no dia em que ela for deixar de ser minha noiva para ser minha esposa. – sorriu ele.

– E eu, Margarett Camville, prometo esperar-te aqui no dia de nosso matrimônio, para lembrar-nos de os tempos atuais, que serão os antigos.

– Esperar-me?

– Evidentemente! – sorriso. Covinhas.

– Se é assim, aguarde-me. – sorriu Elrick exibindo os dentes brancos.

E aquela foi a promessa.

Passou-se mais tempo. Horas, dias, semanas, meses. Um ano.

Faltava apenas um mês para o casamento.

Já eram iniciados os preparativos, afinal era a união entre a mais jovem filha da família Camville e o único filho da família Blenn. Era momento de celebração, da forma mais perfeita que podia ser.

O vestido da noiva já estava sendo preparado a tempos. Deveria ser o vestido mais lindo da história dos vestidos de casamento. Não que Margarett ligasse para isso. Nem Elrick. Mas os pais deles queriam que tudo saísse perfeito. Para Elrick tudo seria perfeito, mesmo que a festa não fosse a melhor dos séculos, ele estaria se casando com a mulher que ele amava. E era isso o que importava para ele.

Passou-se uma semana.

Elrick recebeu uma carta dos pais de Margarett que dizia:

" Prezado Senhor Blenn,

Devo lhe pedir com todo o respeito para que não tente contato com nossa filha antes do dia do casamento.

Espero que compreendas que os preparativos estão sendo feitos, por isso aguarde até o dia do matrimônio para vê-la.

Sr. e Sra. Camville"

O que ele havia acabado de ler? Não poderia ver Margarett até o dia do casamento?

Mas... a promessa deles... e agora? Ele ainda deveria ir ao vale? Ele decidiu que independente dos pedidos do Senhor e da Senhora Camville, ele havia feito uma promessa para a sua noiva. Ele não ia quebrar aquela promessa. Iria ao vale escondido e esperaria por Margarett, mesmo que ela não aparecesse. Ele deu sua palavra, portanto estaria lá.

E então usou em pensamento a frase que não usava faz tempo.

"Para o inferno, Senhor e Senhora Camville. E levem esta carta com vocês."

Passou-se outra semana. A saudade já se tornava insuportável. Mas ele teria que aguardar mais um tempo, afinal iria fazer aquilo escondido.

Passou-se mais uma semana. Na semana seguinte seria o casamento. Elrick já estava impaciente.

Todos os preparativos já estavam prontos para a festa. Restava apenas esperar. E conseguir sair da mansão no dia do casamento sem que os criados percebessem.

Finalmente chegou o dia que antecedia a cerimônia matrimonial. Elrick estava ansioso como nunca. Precisava vê-la imediatamente! Se sentia sufocado e a sensação ruim voltou. Precisava das mãos delicadas de Margarett. Precisava do seu toque para acalmá-lo.

"Paciência, Erick. Você já esperou até agora, só mais algumas horas."

Ele realmente precisava dela.

Passadas horas – que mais pareciam séculos – finalmente chegou o dia do casamento. Naquela noite Elrick havia sonhado com o vale. Havia sonhado com a lua e um céu escuro, e sua doce Margarett, linda, vestida de noiva. De repente o rio se agitava e levava tudo. Margarett, o vestido, o buquê de rosas vermelhas em suas mãos, o gato. Levava Elrick junto. Depois daquele sonho não havia conseguido mais dormir.

Eles iriam se casar durante a noite. O combinado era que fossem ao vale durante a tarde, antes do casamento. Para ver-se.

Elrick planejava fugir da mansão pela manhã e esperar por sua linda noiva.

O plano deu errado. Só conseguiu se desviar da atenção dos criados durante a tarde.

Estava atrasado para vê-la!

Correu até o vale e ali encontrou.

Margarett, de costas para ele. Vestida de noiva, olhando para o rio. Provavelmente sem saber da carta que os pais dela haviam-no enviado. Provavelmente pensando no porque de ele estar demorando tanto. Podia ver os cabelos ruivos dela numa trança embutida como em seu baile de noivado.

– Margarett! – chamou ele. Precisava do brilho que os olhos dela o proporcionava.

– Elrick!! – virou-se para ele, sorrindo, exibindo suas adoráveis covinhas. E olhando para ele. Seus olhos verdes, mais brilhantes do que nunca. Ela segurava o buquê de flores vermelhas que ele viu em seu sonho. Era mil vezes mais linda agora que era realidade.

A sensação ruim voltou, sufocando-o como uma avalanche, ele precisava precisava das mãos dela para acalmá-lo. Precisava agora.

Mas ao virar-se para ele, o vestido causou um impacto e o peso de sua cauda... foi para dentro do rio.

– MARGARETT!!! – Elrick gritou correndo na direção dela.

Ele não teve tempo de fazer nada. Não teve tempo de agir. O vestido era pesado de mais, e quando chegou até lá, a única coisa que pôde ver foram os olhos verdes e brilhantes de longe, enquanto Margarett era arrastada pela correnteza.

Ao contrário do que qualquer um imaginaria, os olhos dela não continham desespero. Continham inocência, brilho, beleza e felicidade. Como se ela estivesse conformada com aquilo, e quisesse que aquela fosse a imagem que Elrick guardasse dos olhos dela.

– MARGARETT!!!! ESPERA!!! Nãaaaao!!!!!!! – Elrick tentou correr, mas as margens do rio eram curvadas para dentro dele. Não tinha chance nenhuma de que ela... sobrevivesse.

Elrick viu um pedaço do vestido preso num galho na margem, junto com o buquê de rosas vermelhas. As rosas que eram brilhantes, lindas e especiais como os olhos de Margarett.

Naquele instante Elrick não conseguia fazer mais nada. Nada além de chorar e balançar a cabeça negativamente. E chamar pelo nome de sua amada.

/// Flashback off ///

Como ela queria, os olhos de Margarett ficariam gravados na memória dele por toda a eternidade. Fosse ele Elrick Blenn, fosse Sebastian Michaelis.

Ele nunca esqueceria aqueles olhos verdes. Nunca esqueceria sua noiva que tanto amou. Nunca esqueceria a música que dançaram ao som do vento, nunca esqueceria a paixão que ambos tinham por felinos, nunca esqueceria da música triste que tocaram juntos, nunca esqueceria do seu baile de noivado e a primeira vez em que dançaram com acompanhamento musical.

Ele nunca se esqueceria daquele vale, onde ele descobriu que as mãos dela realmente o acalmavam.

E nunca se esqueceria do momento quando a perdeu.

Talvez se ele fosse Sebastian Michaelis naquela época, tivesse conseguido salvar a Margarett. Ou talvez nunca a tivesse conhecido e se apaixonado por ela.

Mas atualmente aquilo não importava. Era passado. Eram apenas memórias.

Notas finais
Obrigada por ler.

Provavelmente vou postar um capítulo em Flashback off sobre a autobiografia que Ciel estava escrevendo (eu não esqueci) e em Flashback on a história de Sebastian (ou Elrick) em POV da Margarett.

Até.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.