Just Love
1 That's a Surprise
Era final de novembro e o vento frio de outono castigava meu rosto anunciando os primeiros flocos de neve da estação que logo começariam a cair. Caminhava rápido em direção ao metro. Seria uma viagem rápida, de apenas cinco paradas. A casa em que estava hospedado podia não ser grande ou bonita, mas era aconchegante e muito próxima a escola de inglês em que estava estudando.
Meus pais haviam me mandado a Toronto por dois meses por ter passado no vestibular em uma federal. Engenharia civil assim como meu pai. Embora eu não tivesse bem certeza se era realmente isto que eu realmente queria fazer pelo resto da minha vida, era um grande desejo de meu pai que eu pudesse trabalhar ao seu lado em sua pequena firma de engenharia. Após um semestre que na verdade havia durado dez meses graças as greves, eu finalmente estava vivendo meu sonho de viver em um país estrangeiro.
Tudo estava perfeito, ou pelo menos deveria estar. E enquanto caminhava pelas ruas escuras e desertas pensava no mês maravilhoso que havia se passado e na crescente saudade que sentia cada vez mais forte dentro de mim, fosse da comida, da minha família, dos meus amigos... Por mais que tenha feito alguns amigos aqui, ainda não tinha encontrado nada que pudesse preencher o grande vazio que sentia e imaginava quanto tempo mais poderia suportar.
Após a curta caminhada cheguei à casa e fui surpreendido por um convite. Já estávamos próximos às festas e minha “mãe” me disse que eles iriam viajar a Montreal para passar o Natal na casa de alguns parentes e que eu seria bem vindo caso quisesse ir, se pudesse perder alguns dias de aula. A oferta me pegara de surpresa, mas pensei que não teria problema, afinal, eu era um excelente aluno. E seria uma ótima oportunidade de conhecer a parte francesa deste país.
Logo depois do jantar subi ao o meu quarto e liguei para casa. Meu coração pulava de excitação com a oportunidade de poder falar com meus pais e meu irmão e tentar apaziguar este sentimento que me corroia por dentro. Falei a meu pai sobre meus planos e embora meio contrariado acabou cedendo. Minha mãe não mudara nada com minha ausência e continuava a me tratar como se eu fosse um bebê fazendo mil perguntas de como eu estava, se estava comendo e dizendo que sentia muitas saudades. Chegou então a hora de falar com meu irmão e por mais incrível que possa parecer era dele de quem eu sentia mais falta.
Na maioria das famílias a relação entre os irmãos tende a ser difícil, mas no meu caso isso não era bem verdade. Dês de que me lembro eu e meu irmão temos sido muito grandes amigos. Ele era dois anos mais velho que eu, mas sempre pareceu muito mais por ele ser bem mais alto e forte. Tinha os cabelos castanhos e lisos típicos de nossa família, que a contra gosto de nosso pai ele deixava preso em um rabo-de-cavalo até a metade das costas, olhos bem verdes que eu também herdara de nossa mãe e a pele bastante clara. Fora o cabelo e os olhos éramos parecidos em poucas coisas, ele era muito extrovertido e brincalhão, aquele tipo de pessoa de quem é muito fácil de se gostar, sempre cercado de muitos amigos e namoradas, sobre as quais ficávamos conversando até tarde da noite.
Eu, por outro, lado sempre fora muito quieto e solitário, tinha alguns poucos e bons amigos e me envergonhava um pouco em dizer que com quase dezoito anos tinha beijado apenas duas meninas. Não que não tivesse tido a oportunidade ou porque fosse feio, pelo contrário, mas nunca vi muita graça nesse negócio de beijo. Pra mim essa coisa de um enfiando a língua na boca do outro era uma coisa no mínimo nojenta pra não dizer mais, e apenas ler sobre isso me bastava.
Falamos por apenas alguns minutos, nada comparado às horas que passávamos conversando até tarde da noite. Mas por mais incrível que pudesse parecer apenas estes minutos já acalmaram o turbilhão que sentia por dentro. Olhei pela janela por onde podia ver os primeiro flocos de neve se depositando na rua lá fora, e quando me dei conta uma pequena lágrima havia escorrido por minha face. Enxuguei-a logo com minha manga e fui dormir.
O dia seguinte ocorreu como de costume, assim como o dia que veio depois desse e o seguinte, todos muito rápidos e repetitivos. Uma sucessão de aulas, almoços, jantares e antes que eu pudesse me dar conta a noite de véspera da viagem havia chegado e uma sensação de borboletas no estomago começou a tomar conta de mim:
— Já preparou tudo para a viagem Rafael? – perguntou minha “mãe” em inglês.
— Sim, sim! Tudo pronto. Há que horas nós vamos sair amanhã?
— Creio que umas oito horas da manhã. Devemos chegar lá por volta de umas seis e meia da noite.
Conhecendo viagens em família como conheço nós não devemos sair antes das nove e chegar lá antes das oito por causa das paradas.
— Ah, Rafael me esqueci de lhe dizer, meus primos também estão recebendo um estudante de intercambio do Brasil, mais ou menos da sua idade. Espero que vocês possam ser amigos.
— Sério? Legal! O que ele faz aqui?
— Ele esta lá estudando francês ou algo assim, mas parece que ele logo estará vindo para cá começar em um curso de inglês. Acho que ele quer dar aula. – disse ela comendo um pedaço de cenoura — Uhm acho que ele tem mais ou menos a sua idade.
Essa notícia me animou. Agora pelo menos eu teria alguém da minha idade para poder conversar e talvez me mostrar a cidade.
Subi logo depois do jantar. Na verdade ainda não havia arrumado minha mala, tarefa que me tomou uma hora, logo depois que acabei, escovei os dentes e fui para cama. Lá deitado permaneci por apenas alguns minutos antes de cair em um sono agitado e cheio de sonhos.
Acordei na manhã seguinte com uma estranha sensação de otimismo como se algo bom estivesse para acontecer embora eu não soubesse bem o que era. Desci sedo com minhas malas e todos já estavam reunidos tomando café na mesa da cozinha me servi de duas torradas e uma maçã que comi rápido para não me atrasar. Ao contrario do que tinha pensado acabamos por sair na hora prevista, eu, Cris, Deb e as crianças, Lisa e Mattew. E após alguns minutos já estávamos rodando por sobre as largas e bem cuidadas auto-estradas canadenses.
Tudo corria bem e enquanto as crianças assistiam desenhos na pequena tela de LCD na parte de traz dos bancos da pequena van eu olhava pela janela perdido em meus próprios pensamentos, admirando a branca paisagem.
Na hora do almoço paramos em uma pequena lanchonete em um posto de gasolina para caminhoneiros. Morto de fome como estava, devorei um grande sanduíche com anéis de cebola frita e refrigerante. E voltamos para o carro para seguirmos viagem. Tudo correu bem por mais uma hora e meia quando o tempo começou a fechar e ouvimos pelo rádio que uma grande tempestade de neve estava castigando as ruas de Montreal. Não teríamos noção da proporção da tempestade ou de como ela nos afetaria, mas essa falta de noção não duraria muito tempo.
Mais meia hora se passou antes que a neve começasse a cair e o vento a uivar e mais meia para que ficássemos presos em um engarrafamento gigantesco. Fora do carro a neve girava e girava para onde o vento a levasse enquanto caminhões limpadores jogavam sal na rua para tentar evitar que a mesma se depositasse ainda mais sobre as ruas.
Devo dizer uma coisa: a neve é bem mais bonita em filmes e fotos do que pessoalmente. Não que eu não tivesse vontade de fazer bonecos de neve no Natal quando via sempre os mesmos filmes de criancinhas na neve. Mas quando ela te deixa com frio e com fome dentro de um carro, trancados em um engarrafamento por oito horas ela perde um pouco de seu encanto.
Após o que fora quase uma odisséia finalmente conseguimos chegar a uma grande casa em um bonito e típico subúrbio de classe alta.
Quem nos recebeu na porta já de roupão e chinelos de dormir foi uma senhora já com os seus quarenta e oito anos, com uma cara preocupada e olhar meigo.
— Este deve ser Rafael, o garoto brasileiro – disse ela apertando minha mão com um sorriso educado no rosto – Esta gostando da viagem querido?
— Sim, sim – falei fingindo esquecer as horas dentro do carro.
Ela então nos servil o jantar que estava esperando por nós há horas em uma sala bonita e espaçosa.
— Então agora que já estão todos quentes e alimentados é melhor irmos para cama.
Fui até a sala, peguei minha mala e subi as escadas que davam em um longo a largo corredor repleto de portas brancas de madeira:
— Seu quarto é esse aqui querido – disse ela me indicando uma das portas a direita no final do corredor – eu o coloquei no mesmo quarto com Kaio, o outro garoto brasileiro que está hospedado conosco . Imaginei que vocês pudessem querer conversar.
Ela me deixou ali e entrou em uma porta dupla no fim do corredor que imaginei ser a suíte.
O que se passou a seguir ainda deixaria minhas bochechas vermelhas, à simples menção, por algum tempo. Ao entrar no quarto dei de cara com um garoto envolto em uma toalha, aparentemente acabara de sair do banho, que com o susto caíra deixando a mostra seu corpo nu.
Fechei a porta com a mesma velocidade com que fiquei tão vermelho como um morango. E apenas deu tempo de ouvir o garoto nu dizer: “merda”. Alguns segundos depois ele aparece à porta aparentemente tão envergonhado quanto eu:
— Desculpe, desculpe! – dizia ele repetidas vezes enquanto me ajudava a trazer a mala para dentro do quarto e fechava a porta atrás de mim.
-Não, não é que tenho que pedir desculpa, fui entrando assim sem bater, onde eu estava com a cabeça!
— Eu tinha me esquecido que ainda viria mais alguém! E está tão frio que eu resolvi tomar um banho quente antes de dormir. Que cabeça a minha!
— Nós ficamos presos na estrada, por isso nos atrasamos e... Ah é, meu nome é Rafael – disse eu estendendo a mão.
— Meu nome é Kaio, prazer. – disse ele também apertando minha mão – Talvez você também queira aproveitar e tomar um banho.
— É o que eu mais quero!
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