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11 Capítulo 9 - Aula vaga
Notas iniciais
I couldn't tell you
Why she felt that way
She felt it everyday
And I couldn't help her
I just watched her make the same mistakes again
What's wrong, what's wrong now?
Too many, too many problems
Don't know where she belongs, where she belongs
(Eu não saberia te dizer
Porque ela se sentia daquela maneira
Ela se sentia assim dia após dia
E eu não podia ajudá-la
Eu só a via cometer os mesmos erros novamente
O que está errado, o que está errado agora?
Tantos, tantos problemas
Não sabe onde pertence, onde ela pertence)
Estava em seu quarto andando de um lado para o outro com um papel nas mãos, tentando digerir aquele monte de palavras. Sentia-se um pouco constrangido por ter aquela folha sendo examinada de forma tão atenta — por conter sentimentos tão explícitos, que, pela caligrafia apressada e marcas (provavelmente de lágrimas), a garota simplesmente derramou-se no papel — mas não pôde evitar.
Open your eyes
And look outside find the reasons why
You've been rejected
And now you can't find, what you left behind
Be strong, be strong now
Too many, too many problems
Don't know where she belongs, where she belongs
(Abra seus olhos
E olhe ao redor, encontre as razões porque
Você foi rejeitada, e agora não consegue achar
O que deixou pra trás
Seja forte, seja forte agora
Tantos, tantos problemas
Não sabe onde pertence, onde ela pertence)
Sua ânsia por conhecê-la era certamente maior que seu bom senso.
Claro que ainda não sabia muito sobre sua família ou o que acontecera para que ela deixasse que seus sentimentos transbordassem para o papel. Sim, ele percebera que a garota sempre se escondia atrás do que quer que fosse que mantivesse as pessoas a margem. Outra linha da canção ou poema (não o importava) deixava isso bastante claro:
Her feelings she hides
(Seus sentimentos, ela esconde)
Mesmo não gostando do tipo de pessoa que sempre culpa seus pais pelas burradas que faz, Sasuke não conseguia sentir raiva dela, na verdade, ele sentia algo que odiava quando faziam com ele.
Ele sentiu pena.
Her dreams she can't find
She's losing her mind
She's fallen behind
She can't find her place
She's losing her faith
She's fallen from grace
She's all over the place
(Seus sonhos ela não consegue achar
Ela está perdendo a cabeça
Ela ficou pra trás
Ela não consegue achar seu lugar
Ela está perdendo a sua fé
Ela caiu em desgraça
Ela está despedaçada)
Agora, depois de ler aquilo tudo, ela já não parecia mais uma mimadinha descontente, como Karin havia a chamado algumas vezes, parecia mais uma menininha assustada, perdida e, principalmente, sozinha.
E isso era algo que ele conseguia entender
She wants to go home, but nobody's home
that's where she lies, broken inside
With no place to go, no place to go
To dry her eyes broken inside
(Ela quer ir pra casa, mas não há ninguém em casa
É aí que ela se encontra, destroçada por dentro
Sem ter para onde ir, sem ter onde ir
Para secar suas lágrimas, destroçada por dentro)
Neste momento, sabia muito mais sobre Sakura do que durante todo o tempo que estiveram convivendo juntos e aquelas simples e desesperadas palavras meio que explicavam a aura que ela emanava, que mantinham as pessoas longe, sempre desconfiada.
E isso despertou algo em si que nunca antes sentira, nem mesmo com Karin.
Teve vontade de mantê-la sobre seus cuidados, para que, de alguma forma, aquelas palavras não o sufocassem da maneira que faziam naquele momento.
Sasuke decidiu ajudá-la não por ser uma pessoa boa o bastante para espalhar a paz pelo mundo. Ele apenas via seus próprios medos refletidos naquele papel. Conseguia enxergar a si mesmo quando criança: perdido e sem ter quem o entendesse.
Talvez não se tornasse sua casa, algo que ela tanto desejava, porém se esforçaria para que ao menos se tornasse um chão, algo consistente, ou seu pilar, alguém em quem pudesse se apoiar, assim como ele mesmo precisou um dia, quando conheceu Naruto e Karin.
She wants to go home
(Ela quer ir pra casa)
Logo de manhã a casa dos Uzumaki já apresentava uma agitação atípica pelo horário. Malas eram levadas para a sala e seus moradores transitavam entre o primeiro e o segundo andar com grande rapidez para que o voo dos pré-viajantes não fosse comprometido.
— Querido, você viu meus óculos de sol? — perguntou a ruiva enquanto saía do banheiro escovando seus longos cabelos vermelhos.
— Estava em uma das suas bolsas pequenas — respondeu o loiro encostado no batente da porta, apenas a observando correr de um lado para o outro, checando se não havia esquecido de nada.
— Minha blusa nova?
— Já pegou — sorriu de canto pelo desespero da mulher.
— Meu vestido verde?
— Também — encaminhou-se vagarosamente até ela.
— Meus sapatos favoritos? — tentou mais uma vez, Minato acenou positivamente — Minha... — foi interrompida pelo indicador do marido sobre seus lábios — lingerie nova?
O homem ergueu uma sobrancelha e covinhas apareceram em suas bochechas. Deus, como ela amava aquelas covinhas!
— Isso é muito importante, não podemos esquecer — ele saiu do caminho — Vá conferir se já a colocou na mala — a mulher correu até a porta, seguindo pelo corredor até as escadas — Leve aquele conjunto vermelho também! — completou com um tom de voz mais alto.
Naruto, que encontrava-se na sala, comendo seu cereal com leite, engasgou-se ao ouvir a voz do pai.
— Por favor, temos crianças em casa! — gritou enquanto tapava os ouvidos — Deixem para cuidar de suas saliências quando estiverem fora daqui!
Karin, que encontrava-se no meio das escadas, colocando seu aparelho auditivo, riu da cara que o primo fazia.
— Ainda bem que meus ouvidos estavam desligados.
Kushina, que já puxava o zíper da mala, ergueu-se suspirando tranquila.
— Peguei tudo, querido! — gritou para Minato, que descia às escadas sorrindo — Vamos falar sério agora, escutem bem vocês dois — ergueu o indicador fazendo pose de brava — Nada de gracinhas! Irão para a casa dos Uchiha e depois para a escola e direto para casa dos Uchiha novamente.
— Por que não podemos ficar com a chave? — a ruiva menor cruzou os braços emburrada enquanto sentava-se ao lado do primo — Não temos mais quinze anos.
— Não confio em vocês — cerrou bem os olhos, olhando um rostinho de cada vez — ,mas deixarei a chave com Mikoto. Agora vamos às regras: além de não ficarem vagabundeando por aí, quero que estudem direitinho, comam direitinho, e, principalmente, respeitem os horários da família — ora olhava para o filho, que ostentava uma expressão de tédio, ora a sobrinha, que ainda permanecia emburrada — não vão dormir tarde, ajudem com o que puderem e por tudo que é sagrado, nada de festas!
— Mas... — começou o loiro.
— Não me faça repetir, mocinho! — Minato ria interiormente da pose de durona que a Uzumaki tentava manter, porém talvez as crianças a levassem mais a sério se a mulher não fosse capaz das mesmas presepadas que eles — Evitem ficar vindo aqui, não os quero sozinhos, o que quer dizer nada de saliências, sejam com quem for.
— O que?! — disseram os primos ao mesmo tempo enquanto exclamavam sua— indignação para com a mulher.
— Mais uma coisa — olhou-os fazendo calar — quero que cuidem de Sakura, vocês dois — apontou para eles — Ela é da família e quero que a tratem como tal, estamos entendidos? — os dois concordaram em silêncio. Kushina então olhou para o marido atrás de si — Algo a acrescentar? — a resposta veio com um par de mãos estendidas para o alto e um balançar de cabeça — Ótimo! Agora quero um abraço dos meus bebês — e os dois foram prontamente agarrar a mulher em um abraço coletivo.
A garota, que descia as escadas sem fazer barulho, observava a cena afastada, sem ter sido vista pelo trio.
— Eu ainda vou querer meu abraço, Sakura — disse uma voz por trás dos que se despediam. Sakura foi, a passos miúdos, se aproximando do homem até este ser capaz de capturá-la em um abraço carinhoso. A garota sentiu os olhos pesados pelas lágrimas.
— Ah, querida, venha aqui — Kushina disse após desvincilhar-se dos outros dois. Seus braços logo a circularam em um aperto mais firme, porém não menos sentimental. Kushina era a figura mais próxima de uma mãe que ela tinha e sentia seu coração apertar-se por saber que a mulher ficaria longe — Eu amo você, sabe disso não sabe? — A rosada balançou a cabeça — Vou sentir saudades, muitas e muitas saudades, mas vou voltar.
— Promete? — quando ergueu seus olhos verdes, a Uzumaki via claramente as gotas brilhantes deslizarem por sua pele pálida. Sabia o quanto a menina sentia-se apreensiva com despedidas.
— É claro que sim, eu prometo — deu seu melhor sorriso — Nós sempre voltamos para à família, não importa quanto tempo passemos longe — a Haruno então sorriu fraco concordando — E você é uma parte especial da família — limpou as lágrimas da garota, mantendo seus dedos em seu rosto, fazendo-a olhar para seus olhos — Não somos ligadas pelo sangue, é verdade, mas temos algo tão forte quanto — desceu seus lábios, beijando-a de leve na testa — somos ligadas pelo coração, lembre-se sempre disso.
— Hey, eu sou o filho aqui! — gritou Naruto indignado vendo seu pai com Karin e sua mãe com Sakura — Então por que eu sou o único sozinho?
Sakura riu divertida e puxou-o pela blusa, logo os dois restantes também se reuniram no centro da sala, juntando-se todos ao último abraço de despedida.
Sakura não lembrava-se de nenhum momento que tenha se sentido tão em paz enquanto próxima de uma quantidade tão grande de pessoas. Sentiu-se, finalmente, incluída em uma família, a sua família, a família Uzumaki.
— Vamos, vamos — apressou Minato, empurrando de leve Karin para a porta. Achava incrível a capacidade que aquelas mulheres tinham de falar por incontáveis minutos sem que o assunto se esgotasse — Perderemos o avião desse jeito. Naruto, me ajude com essas últimas malas — e então o loiro mais novo foi ajudar o pai a levar as últimas bagagens para o carro.
— Cuide bem deles pra mim, sim? — Kushina sussurrou no ouvido da rosada que a ouvia divertida — Não confio neles.
— São Uzumaki, quem confiaria? — respondeu sorrindo para a ruiva que a abraçou levando-a para fora.
Quando Minato já fechava o porta malas, jogou a chave para o filho, que a pegou incerto.
— Você leva hoje — Sakura não sabia que era humanamente possível, mas Naruto conseguiu deixar seu sorriso ainda mais aberto que o usual. Parecia uma criança que recebera o melhor presente do mundo em uma manhã de natal.
— Entrem, meninos — disse a morena na porta enquanto abria passagem para os novos hóspedes — Sintam-se em casa.
— Já me sinto, obrigado — respondeu o loiro adentrando a residência que era tão conhecida por ele, antes e depois da mudança dos Uchiha. Karin deu um leve tapa no braço, lembrando-o dos bons modos
— O que? Ela disse...
— Esqueça! — rebateu, passando pelo primo — Muito obrigada por nos aceitar aqui, senhora Uchiha — Mikoto apenas sorriu em resposta e depois voltou seus olhos para a última figura do grupo.
— Bem-vinda de volta, Sakura, não é? — a Haruno acenou em concordância. Ainda sentia as bochechas formigarem toda vez que olhava para a mulher (maldita noite em que acordara na cama do Uchiha mais novo) — Espero que continue a sentir-se a vontade, já que essa é a sua antiga casa.
— Obrigada — respondeu adentrando o lugar. Agora que parara para observar o imóvel, sentia-se bastante familiarizada com a decoração — Ainda se parece como antigamente.
— Fico feliz por isso — sorriu para ela — Preparei um café da manhã para vocês, vamos até a cozinha.
— Nós já comemos — respondeu Sakura de imediato, arrependendo-se de tê-lo feito da mesma maneira — Quer dizer...
— Não me importo! — Naruto seguiu na frente — Os bolos da tia Mikoto são maravilhosos! — a mulher riu da afirmação e olhou para as outras, que logo depois se colocaram a caminho do outro cômodo.
"Você falar alto, eu ser quase capaz de ouvir" Sasuke sinalizou assim que o amigo apareceu em seu campo de visão.
— Ah, fique quieto, não é você que está sendo abandonado pelos pais — Sasuke somente revirou os olhos para ele, voltando-os logo após para o quarteto que vinha logo atrás.
— Bom dia, moças bonitas — disse Itachi vindo pelas escadas. Mikoto os havia chutado cedo de seus quartos para que recebessem os hóspedes, o que foi uma tremenda perda de tempo, na opinião de Sasuke, tendo em vista que duas das três pessoas ali passavam grande parte do tempo sob aquele teto — Vejo que temos um rostinho novo por aqui, como se chama? — perguntou cínico. Sasuke sabia que o irmão tinha conhecimento sobre a garota. Porém, antes que Sakura puxasse o ar para respondê-lo, Naruto a puxou para si, sentando-a no lugar ao seu lado.
— Esta é a Sakura e ela é bem mais nova que você, então pode tirar seus olhos de cima — o loiro respondeu, arrancando breves risos dos presentes.
— Seja bem vinda a este humilde lar, espero que goste de sua estadia, moça bonita — em seus lábios formou-se um pequeno sorriso de canto, marca registrada da família Uchiha, apenas para ver o loiro bufar enraivecido.
— Encantada com tamanha hospitalidade, senhor — respondeu a garota entrando na onda do mais velho, que piscou um de seus olhos para ela.
Mikoto sorria com a visão da casa cheia e preenchida com conversas diferentes. Nunca contara a ninguém, mas esta era uma inveja que nutria dos Uzumaki, uma casa bem alegre e barulhenta.
Enquanto passava seus olhos por todo o local, seus olhos pararam no filho mais novo, que sorria de canto enquanto mantinha uma conversa com todos os presentes à mesa. Não pôde evitar sentir-se culpada por todas as vezes que tentou privar Sasuke daquilo.
Sabia que ver seu garotinho se tornando cada vez mais independente cortava-lhe o coração, pois sabia que ele logo ia deixá-la para viver sua vida — assim como o irmão estava prestes a fazê-lo — mas o orgulho que sentia por ele era ainda maior.
Sasuke não era diferente só porque não ouvia e isso não tinha como deixá-la mais contente.
Tenten estava radiante, claro, por que não estaria? O príncipe dos sonhos a levou para todos os lugares possíveis da cidade durante todo o dia. E Ino sentia-se feliz por ela, desejava tudo de bom à amiga, pois sabia que a vida da garota não havia sido das mais fáceis, mas isso apenas a deixava ainda mais para baixo.
As garotas estavam todas se distanciando e ela precisava arrumar um jeito de acabar com aquilo antes que a situação se agravasse e elas se tornassem apenas lembranças de um tempo bom. Precisava agir rápido.
Quando estava para sair do quarto, foi surpreendida pela figura que a esperava do lado de fora.
— Bom dia, querida! — disse Inoichi com sua voz animada abrindo os braços para recolher a filha, que não demorou meio segundo para se afundar naquela presença reconfortante — Estava com tanta saudade da minha menininha!
— Eu estava mais — sua voz saiu abafada por estar tão colada ao pai, porém não se importou.
— Eu estava muito mais, meu amor — beijou os fios loiros enquanto a apertava mais forte, logo se afastaram minimamente, se encaminhando para a cozinha.
— Achei que você não viesse me ver — o homem riu e sentiu-se derreter por dentro ao ver aquela carinha manhosa da filha.
— Não pude vir antes por causa do meu trabalho, mas agora que as coisas já estão sob controle, vou ficar até pelo menos o final de semana, o que acha?
— Seria o máximo! — beijou uma das bochechas do homem. Aproveitando-se da figura paterna, Ino endireitou-se melhor e olhou-o seriamente — Pai? — chamou — Este seria um bom momento para uma confissão? — Inoichi ergueu uma sobrancelha em resposta. Os momentos de confissão eram utilizados na casa deles quando alguém fazia alguma coisa que julgara errada e precisava de concelhos ou simplesmente desabafar, dessa forma, mantinham-se sempre ajudando uns aos outros.
— Claro, o que aconteceu? — O loiro alcançou as mãos menores e as apertou, em uma forma de mostrar apoio e segurança à garota.
— Eu, bem, conheci um garoto — sentiu-se constrangida e respirou fundo antes de continuar — Sai é bem legal, mas... não acho que gosta de mim.
— Como não gostar de você, meu bem? — Ino encarou os olhos azuis, igualmente como os seus, prosseguindo.
— Eu o beijei e ele... ele disse que era gay, papai! — Ino concentrou toda sua frustração — E isso é tão frustrante e vergonhoso que não sei como encará-lo hoje — Inoichi sorriu de lábios fechados, e sua filha soube que este prendia o riso — E não venha me dizer que eu deveria saber disso, vocês gays nem sempre agem de maneira feminina!
E isso foi o que faltava para o homem cair na gargalhada.
— Você tem toda razão sobre não ser todos de nós que agem de maneira feminina, por Deus, eu fiquei surpreso quando Shikaku veio me procurar — Ino encarou a figura do pai, sorrindo ao perceber o jeito carinhoso que este se referia ao marido.
— Como se conheceram? Você nunca me disse a história toda — apoiou o rosto nas mãos enquanto encarava o pai.
— Nos vimos pela primeira vez na faculdade, ele tinha alguns amigos que adoravam tirar sarro de mim, lembro de uma vez em uma festa que esse mesmo grupinho de garotos chegou a me bater — narrava o Yamanaka pensativo.
— O papai chegou a bater em você também? — perguntou aflita, sabia das dificuldades e da violência que as pessoas passavam quando assumiam gostar de outras do mesmo sexo.
— Não, mas também não fazia nada para evitar. Nesta vez, vendo que seus amigos haviam passado do limite, Shikaku os afastou e levou-me para seu apartamento, onde cuidou dos meus ferimentos, mesmo sob meus protestos — ele a encarou duramente — Que fique claro, eu não confiava nele, longe disso.
"Mas ele cuidou de mim de uma maneira tão cuidadosa, que não me senti com medo. Foi a partir deste dia que nos tornamos amigos. Shikaku havia parado de andar com aquele grupo e conhecemos novas pessoas, éramos quase como melhores amigos e assim teríamos ficado se não fosse pela atração mútua que sentíamos um pelo outro.
E não deu outra. Quando todos os que o conheciam passaram a implicar conosco, Shikaku simplesmente parou no meio da faculdade e me deu um beijo na frente de todos".
— Oh, não sabia que o papai fosse capaz de algo assim — comentou Ino divertida — Ele é tão... reservado.
— Entendo o que quer dizer e te digo que pensava da mesma maneira. Claro que eu sabia que ele sentia mais que amizade por mim, mas ele descobriu-se gay um pouco depois de nos conhecemos e foi um choque. E não fique achando que foram as mil maravilhas no começo, Shikaku entrou em estado de negação até aceitar-se como era.
— E então ficaram juntos, felizes para sempre — ela terminou com um sorriso feliz em seus lábios — Se queria me fazer parar de pensar em algo mirabolante para acabar com todos os gays do planeta, fique sabendo que conseguiu.
Inoichi soltou a respiração pela boca, fingindo-se aliviado.
— Fico feliz por ouvir isso — beijou a testa da filha — Ino, não é só porque ele afirmou ser gay que as coisas tem de ser diferentes entre vocês, já parou para pensar que talvez não goste dele da maneira que acha que gosta? A vida tem tendências a nos surpreender quando menos esperamos.
— Assim como com você e o papai? — perguntou.
— Exatamente — o homem colocou a mecha de cabelo dourado que fugia de trás da orelha de volta a seu lugar e Ino sorriu com o gesto, já nem se lembrava do desconforto que sentia pela distância das amigas — Da mesma forma que eu pensava que Shikaku e eu éramos feitos um para o outro, e não para sermos amigos, o inverso também pode acontecer. É normal ficar confuso nessa idade.
Ino assentiu e ficaram conversando até que Hinata apareceu para avisar que já estava na hora de irem para aula.
— Nos vemos depois — a garota jogou um beijo no ar e se encaminhou para a porta. Hoje iriam somente as duas, já que a terceira estudante encontrava-se aos beijos em algum lugar com Neji.
— Eu queria pedir desculpas pelo meu comportamento — Ino encarou Sai que mal havia sentado a seu lado — Acho que estava chateada pelo que estava acontecendo e senti que precisava de alguma coisa que me provasse que não estava sozinha.
— Você nunca estará sozinha, ok? — Sai lhe sorriu docemente — Apenas não saia me beijando para provar alguma coisa, isso pode afastar meus futuros pretendentes — estava gargalhando de seu comentário até que a garota o acertou com o cotovelo bem em suas costelas. Sai se encolheu e gemeu baixo.
— O que houve? Não te acertei com muita força — Ino disse-lhe rápido e subiu prontamente as vestes do rapaz, expondo o local atingido, mesmo com Sai tentando lhe impedir — Céus, o que aconteceu com você?! — onde a loira o cutucara antes, uma mancha roxa se encontrava, assim como outras que coloriam a pele clara.
— Nada, me deixa em paz! — puxou fortemente o pano para baixo afim de cobrir-se e estava se levantando quando Ino o puxou pela mão.
— Sai, machucaram você! — gritava aflita, nem ao menos perceber o tom elevado de sua voz — Quem foi? Diga-me para que possa...
— Meu pai fez isso, ta legal? — sussurrou raivoso para ela — Vai fazer o que? Bater nele? Xingá-lo? Sinto muito, mas não vai dar certo! — a garota o encarou atônita.
— Por que? Ele é seu pai! — constatou sem saber o que pensar da afirmação anterior. Como poderia um pai deixar o filho daquela maneira? Machucá-lo a ponto de marcas coloridas pintarem todo o seu dorso.
— Eu já lhe disse antes, Ino — Sai olhou rapidamente ao redor, para ver se alguém prestava atenção em sua conversa — Sou gay, meu pai não aceita isso.
— Mas e a sua mãe? Como ela pode deixar que um filho seu apanhe desse jeito?
O garoto encolheu-se antes de responder. Confiava em Ino, ela era sua melhor amiga, porém era vergonhoso ter de admitir seus problemas pessoais, principalmente frente à uma pessoa a qual ele admirava.
— Ela concorda com tudo que ele diz ou faz — disse por fim. Sentiu-se ainda mais humilhado por ver a garota de olhos marejados o abraçar fortemente e, mesmo que seu corpo doesse no lugar das pancadas, aceitou o carinho.
Ino por sua vez sentiu-se com raiva como nunca antes, raiva pelo pai monstruoso de Sai (que nem ao menos deveria ser reconhecido como tal) e por si mesma, que, centrada somente em sua vida, não reconhecera aquele enorme problema de Sai. Sentiu-se a pior das amigas, porém Sai discordava, e apertou-a ainda mais forte.
— Fiquei com sua pulseira — o garoto procurou a joia em seu bolso e entregou-a para sua verdadeira dona, porém não lhe disse que esta mesma joia fora o motivo pelo qual apanhara de seu pai, que havia chego em casa no exato momento em que Sai a examinava, pensando que era algo seu.
Era vergonhoso para o homem, sendo este um líder religioso, ter um filho daquela maneira.
— Sabe, acho que tive uma ideia de como podemos reunir as meninas novamente — comentou depois de se soltarem.
— Mesmo? — perguntou esperançosa. Não que havia deixado o que o garoto lhe confidenciara de lado, apenas sentiu-se realmente feliz por ter pelo menos uma ideia de como juntar as amigas novamente. Mais tarde pensaria em uma forma de ajudar Sai.
— Sim, vamos até o Ichiraku hoje depois da aula — respondeu Sai, puxando-a para a aula de literatura.
— A lanchonete? — perguntou incerta.
— Essa mesma, vamos atrás de Sakura depois do horário.
— Ela tem aula de biologia hoje — rebateu Ino, sabendo que a amiga não faltaria. Sakura era uma tremenda pé no saco com assuntos relacionados à escola.
— Vamos convencê-la então — concluiu ele sorrindo de lado antes de virar-se para frente, prestando atenção no que a professora falava.
Quisera Ino ter essa mesma facilidade, pois a voz da professora era como uma música de fundo totalmente ignorada. Em sua cabeça, buscava alguma solução para Sai.
Era apenas uma pena que nem todas as famílias sejam amorosas como a dela própria. Engraçado, logo uma família regida por dois homens ser mais carinhosa e mais direita que outra cujo patriarca pertencia a uma religião que pregava, acima de tudo, o amor.
E isso só a deixava borbulhando de raiva.
Ficou desapontada ao ver o bilhete que a professora de biologia deixara na porta da sala que usavam para as aulas avançadas. Agora teria que esperar pelo menos mais um par de horas para que pudesse ir para casa. Recusando-se a ficar na biblioteca ou qualquer outro canto, decidiu ir para a área de esportes, localizada no fundo da escola.
Ignorava os olhares que lançavam sobre si e se manteve firme até chegar onde o time de polo se encontrava em pleno aquecimento, ou pelo menos era assim que deveria estar. Observou ao redor, procurando algum rosto conhecido, diversas garotas e alguns meninos, nas quais tinham aula junto com ela, porém passou reto por eles e se encaminhou para frente até encontrar Naruto.
— Não sabia que aparelhos celulares eram permitidos durante o treino — ele a encarou sorrindo e bagunçou-lhe os cabelos.
— Me encontre na biblioteca depois que sair.... estou dormindo na casa de um amigo — continuou a conversa com quem sabe quem e logo despediu-se, encerrando a chamada — Não são permitidos, tenho sorte do treinador ter ido resolver alguma coisa antes do treino. O que está fazendo aqui, não está cedo demais?
— A professora de biologia avançada não veio hoje — deu de ombros aproximando-se da beira da piscina — E como estou de aula vaga, pensei em ficar aqui e te olhar perder.
— Ah, como se isso fosse possível — gabou-se, apoiou-se então nos ombros de Sasuke, que estava ao seu lado observando tudo com um sorriso mínimo nos lábios.
"Você sempre estar no mesmo time que eu" O moreno deu de ombros "Perder ser impossível"
— De onde foi que você surgiu, mesmo, seu metido? Posso muito bem vencer você e de olhos fechados!
Sasuke sorriu de canto, observando pelo canto dos olhos a garota sorrir discretamente e virou-se para ela.
"Você estar interessada no time?" Perguntou, desgostando do fato de que estar sem seu celular o impedia de ter uma conversa com ela, pois somente depois de Naruto traduzir o que ele dissera, foi que ela entendeu o que ele sinalizara.
— Piscinas não são pra mim — vendo alguns poucos alunos dentro da água em um canto bastante afastado, presumiu que não conseguiria colocar os pés no chão sem que a água a encobrisse, isso lhe deu calafrios.
Após poucos minutos de conversa, Gai, o treinador, chegou e chamou os meninos para que enfim começassem com o treino. Sasuke sorriu para a garota uma última vez antes de lhe virar as costas e seguir Naruto, que já se encaminhava até o homem que falava com os outros componentes do time.
O Uchiha achava até engraçada a forma que o treinador tentava formar sinais — muitas vezes inventados na hora -, então restava a Sasuke às vezes perguntar para Naruto o que o homem queria que eles fizessem ou então pedir internamente para que Gai cooperasse e usasse a sua pequena lousa. Agradeceu aos céus ao ver o objeto nas mãos do mais velho naquele momento.
Sakura, que ia se encaminhando mais para o canto a fim de assistir o treino, sentiu uma força em suas costas a empurrando. Nisso, seu corpo foi para frente e tudo que ela pôde sentir depois de pequenos instantes foi a água fria em toda parte.
Em suas pernas, braços, barriga e, principalmente, sobre sua cabeça.
Havia água em todos os lugares, inclusive em sua boca, descendo por sua traqueia e inundando seus pulmões cujo oxigênio — por ter sido pega de surpresa — fora totalmente expelido. Devido a isso, seu primeiro reflexo fora elevar seu corpo para que pudesse respirar de novo, porém o máximo que conseguiu fora debater-se inutilmente e afastar-se das margens.
Ela não sabia nadar e isso a deixava em puro estado de pânico.
Seus pés não tocavam o chão e sua cabeça não ficava fora da água, não importando o quanto se debatesse. Ao sentir-se queimar por dentro — seus pulmões clamando pelo oxigênio que não encontrava embaixo d'água -, seu corpo foi parando de responder a qualquer estímulo de seu cérebro e sentiu-se perdendo a consciência cada vez mais.
E conforme ia se desligando, parava de sentir aquela queimação tão incômoda que parecia lhe rasgar o peito por dentro.
E então era somente trevas por toda parte.
Sasuke virou-se para trás, incerto do que significava aquela movimentação que surgira do nada.
Ao encarar a piscina, percebeu que alguém se debatia embaixo d'água, porém este não emergia. Correu o mais rápido que pôde em direção a água, assim que percebeu que a pessoa em questão tinha uma coloração rosada nos cabelos, sem nem pensar na temperatura baixa, que antes certamente lhe tinha dado arrepios.
Por tanto se debater, Sasuke demorou alguns segundos para enfim cruzar a água e chegar onde Sakura, que parecia cada vez mais imóvel, estava. Quando tocou o que parecia ser seu braço, enlaçou-a, prendendo-a junto a si e bateu seus pés com força, trazendo os dois para a superfície.
Tendo dificuldades em transportar a garota desacordada até a margem devido ao cansaço e a grande profundidade, notou Naruto ao seu lado, pendurando um dos finos braços da garota em seus ombros e juntos carregaram Sakura para fora da água fria.
Gai, afastando os alunos que já se amontoavam ao redor a fim de assistir o acidente, correu prontamente até onde os alunos já puxavam a garota, e começou a prestar os primeiros socorros imediatamente enquanto gritava para chamarem a enfermeira da escola, sendo atendido por alguns alunos aturdidos.
Sasuke, entretanto não enxergava nada ao seu redor, apenas encarava a figura de lábios azuis com olhos fechados. Suas mãos tremiam de medo e culpou-se por não ter sido rápido o suficiente e chego até ela antes que desmaiasse.
Só lhe restou assistir inquieto enquanto passava as mãos pelos cabelos, algo que fazia quando se encontrava nervoso, e torcer para que a garota acordasse bem. E ao encará-la, teve a impressão de que ela parecia ainda mais frágil.
Apenas uma menina machucada.
Ino, acompanhada de Sai, chegou à área das piscinas momentos antes de Sakura cair, ou melhor, ser empurrada para dentro da piscina por um grupo de estudantes que caminhavam próximos.
Sua resposta imediata fora correr para perto, porém viu que alguns garotos mais próximos já estavam dentro d'água e nadavam em direção a Sakura, e então desacelerou seus passos, encaminhando-se para perto do treinador, para onde Naruto e Sasuke pareciam carregar a garota.
Vendo-a desacordada com as vestes ensopadas, Ino foi tomada por uma raiva súbita. Foi diretamente para o grupo que circulava o treinador com expressões angustiadas e rapidamente pegou o garoto que havia empurrado Sakura para a água pela camiseta o chacoalhando furiosamente.
— Qual é o seu problema?! — gritou com toda a força de seus pulmões — Ela poderia ter morrido, seu imbecil! — não se importou com a surdez do garoto que o impedia de ouvir as maldições que a loira proferira contra si. Apenas começou a socá-lo, chutá-lo, xingá-lo e qualquer outra coisa que o ferisse, porém sabia que qualquer coisa que fizesse estaria longe do que fizeram à Haruno.
Vendo vermelho, Ino não se importou com as pessoas gritando e a puxando para longe do garoto, apenas queria machucá-lo mais e mais. Somente parou quando alguns garotos seguraram firmemente seus braços, impedindo qualquer movimento, e o diretor se pôs no meio da briga.
— Já basta! — gritou Kakashi no meio dos dois — O que pensam que estão fazendo? Brigando enquanto uma de suas colegas acaba de sofrer um afogamento? Todos para minha sala!
— Ela que começou! — acusou alguém que Ino nem ao menos se importou em saber, apenas tentava se soltar e quem sabe continuar a socá-lo.
— Você — apontou para o garoto que segurava o nariz tingido de vermelho, provavelmente quebrado — para a enfermaria. E você — apontou para a loira que tentava se soltar, respirando com dificuldade — para minha sala, agora. Enquanto ao resto, para a saída.
Ino fora puxada por Sai, que se esforçava para tirar a loira dali. Se descumprissem a ordem do diretor Kakashi, seus problemas apenas aumentariam, porém Ino apenas tentava olhar para a figura da amiga, que ainda permanecia desacordada.
— Eu realmente odeio aulas vagas! — comentou o garoto que a guiava pelos corredores — Nunca acontece algo bom.
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