#Just Like Broken Glass to me.#

#Capítulo 01:# Nails for Breakfast.

As coisas deveriam ser diferentes pra mim. Deveriam ser como é para Brent ou para Spencer, mas era sempre diferente. E não se trata só da minha pseudo-família, mas de tudo.

Está certo que eu nunca fui dos caras mais bonitos, mas acho que as garotas deveriam olhar para mim e dizer: “Eu quero ficar com ele. É o Ryan Ross. O cara legal que não entrou no time...”.

Como se entrar no time e fazer parte daquele bando de garotos idiotas que correm atrás de uma bola seja a coisa menos fútil e talentosa que se tem a fazer. Acho que as garotas poderiam olhar pra mim e dizer: “Olha, é o Ross... Ele não é lindo?”, mas eu era só Ryan Ross e o dia que uma garota me chamar de lindo o mundo acaba.

O garoto esquisito que gostava de boné para trás e roupas largas... Creio que eu era visto assim, mas sequer ligo, apesar de isso não me ajudar a ‘pegar’ mais garotas que o Spencer — que por sinal é B.V. Ele deve ter algo de melhor — ou mais bonito — que eu. Talvez os olhos azuis. Quem resiste?

Eram base de oito e meia da manhã e eu já estava enfiado em uma entediante aula de matemática só para tentar descobrir a inutilidade de todas aquelas operações matemáticas — exceto que fração serve para delimitar um tom a baixo, ou meio tom a cima do que tocamos — o resto é inútil.

Meus pensamentos foram cortados quando ouvi o som do meu celular e eu saí correndo da sala já deixando Brent em alerta, pois de novo era a minha mãe e provavelmente eu ia ter que sair correndo e fugir da escola.

Bem vindos ao meu inferno pessoal.

- Oi. — atendi sem ânimo nenhum. Por que eu teria algum ânimo pra atender a minha mãe? Logo ela que me ‘abandonou’ para perder metade da minha infância e adolescência com meu pai.

- George, meu filho.- Ela tinha aquela voz aflita de sempre. Quando meu pai conseguia achá-la. Odiava isso... Refletir sobre a inutilidade da matemática é sempre melhor. — Preciso que venha agora buscar o ‘bebum’ do seu pai na minha casa.

- Mas mãe é aula de matemática e eu estou indo muito mal nessa matéria — choraminguei. Cuidar do meu pai e suas bebedeiras é a pior das hipóteses. — E o meu pai sabe se virar sem mim.

- Mas nada, George. — ela disse me repreendendo — Te espero em vinte minutos.

- Acha certo o seu filho fugir da escola quase todos os dias? — Eu disse tentando convencê-la que eu devia ficar. — Enquanto as demais mães fodem a vida dos filhos se eles matam meia hora de aula, você me implora pra que eu fuja. — Disse indignado — Não deveria chamar você de mãe.

- Cala a boca, menino e vem logo. — Ela disse — Vinte minutos, Ryan e eu amo você.

- Ah, sei. — Eu disse com descaso. — Até mais.

E desligou, como sempre. Por mais entediantes que fossem as aulas, eram sempre melhores do que cuidar de um bêbado. Pelo menos eu não teria que sentir aquele cheiro de álcool de quinta categoria, dar-lhe banho, comida, trocar-lhe, fazê-lo ficar sóbrio e ouvir de novo aquele ‘blá-blá-blá’ de que vai mudar, que vai se internar no ‘Alcoólicos Anônimos’ para que eu tenha uma vida melhor.

É engraçado como a minha mãe dizia que ele batia nela por tão pouca coisa e ela ainda me deixa morando com George... Ó vida cruel! E porque raios eu tive que nascer exatamente nessa família? Essa dependência que meu pai tem agora — principalmente de mim — é no mínimo ridícula e frustrante.

Andei devagar pelas ruas vazias da cidade — após um esforço sobre-humano para fugir da escola sem ser visto. A cidade me apavorava por estar vazia e ser de manhã. Provavelmente pelo inverno que banhava Las Vegas, mas mesmo assim era estranho as ruas estarem vazias.

Ao chegar à casa de minha mãe fui recebido com um abraço e com um ‘presente’ — meu pai bêbado. De novo ele implorava que a minha mãe voltasse pra ele. Liguei para a senhora Smith enquanto meu pai dormia no sofá da casa de minha mãe e como sempre, ela me prestou socorro.

- Seu pai está acabando com sua vida, não é Ryan? — dizia a senhora Smith enquanto parava o carro em frente de casa.

- Ah, ele só me tira de algumas aulas de matemática. — E eu ainda o defendi. Como se o ódio dele que eu alimentasse não fosse grande o suficiente. — Depois eu pego as anotações com o Travi... Travor ou Brent e fica tudo bem... — dei de ombros enquanto entrava com meu pai — Sempre me viro na hora ‘h’. Obrigado de novo.

- Que isso, Ryan, precisando é só chamar. — ela deu duas buzinadas e saiu.

Terminei de ajudar o meu pai e o coloquei para dormir. Estava sozinho em casa e sabia bem que eu não podia voltar à escola então decidi atentar os únicos amigos que eu tinha, quem sabe o tempo passasse mais rápido.

Então, meu passatempo seria ligar pra Trevor. Ele sempre foge da escola quando eu o faço primeiro. Alguns dizem — entre os corredores da nossa amada escola católica — que éramos mais que amigos, mas não me lembro de ter apelado a esse ponto por falta de garotas.

- Travis. — disse após discar o número do menino (que eu já tinha de cor) e o mesmo me atender.

- Porra, eu estou na aula. — disse meio irritado me fazendo dar uma risada enquanto passava os canais da TV a cabo.

- Eu sei... E eu também deveria estar, mas olha só, você não vai aparecer por aqui? — Disse abaixando o volume da TV, que por sinal estava passando um filme pornô bem legal. — Sei lá, a gente podia ir adiantando aquela melodia que você me disse ter feito.

- Certo, Ry. — Ele disse — Vou cabular a aula e apareço em sua casa. A gente precisa conversar. — Disse novamente, parecia soar mais tímido. Mais calmo que tudo o que ele costumava falar... Esse jeito não era normal do Travor.

- Conversar? — Eu disse atordoado e nenhum som soou. Só podia ouvir a respiração dele contra o telefone, ela parecia falhar. — Sobre o quê? — Arrisquei minutos depois, ainda o ‘ouvindo’ se acalmar.

- Er... Sábado tem uma festa na casa do Lincon, você vai?

- Acho que não, sabe... Agora com meu pai apodrecendo em cima daquela cama, fica difícil, por quê? Quer realmente... Quer realmente que eu vá? — Senti meu rosto ficar rubro com a pergunta e sequer sei bem o porquê dessa minha reação. — Se bem que você sabe que eu não sou dos mais populares para esse tipo de festas, mas talvez Spencer e Brent irão.

- Não vai perder esse B.V. nunca, George? — Travis me dizia como se ‘mandasse’ divertidamente em mim. Sequer conseguia olhar para a TV — Ou vai passar o resto da vida se punhetando na frente da TV?

- Não me chama de George. — Disse meio nervoso — George é meu pai e você sabe bem que eu não sou como ele e convenhamos, nenhuma mulher me quer. — disse fazendo um bico qualquer.

- Fica com um homem, oras. — Ele disse — É simples assim.

- Sempre soube que você era gay, Travis, agora tive certeza. — Dei uma gargalhada pondo a mão na boca em seguida e de novo enrubesci sem saber o porquê. Travor parecia um cara legal e talvez eu tivesse procurando a pessoa certa por caminhos errados.

- Ryan, Ryan... — disse ele, brincalhão — Mas, olha, faz assim... Vai à festa do Lincon e eu te mostro bem quem é o teu gay.

- Tá certo. — disse prestando atenção mais no ‘teu gay’, o que será que ele quis dizer com isso?- Até mais.

- Até. — ele disse em seguida me fazendo ouvir o ‘tu-tu-tu’ corriqueiro.

Desliguei o telefone meio que pisando em nuvens. Nunca contei pra ninguém — nem pra Spencer — minha frustrante primeira transa. Meu pai sacaneou comigo e um dia isso vai ter troco.

#Início do Flash Back#

- George! George! Eu cheguei. — gritava meu pai. Troquei rapidamente de canal para um desenho inocente e o fiz muito rápido. Meu pai me olhou e sorriu insanamente. Um sorriso insano e diferente dos sorrisos normais.

Podia sentir a distância o cheiro de álcool que ele exalava por toda a casa. George tinha a companhia de duas belas garotas (que de longe pareciam — e eram — putas).

- Quem são? — eu disse enquanto apontava com desdém.

- Não quero um filho bichinha... — disse dando um leve empurrão na garota que a fez cair sentada em meu colo causando um leve desconforto em mim. (Ok, doeu pra caramba) Ela soltou um gemido sensual em meu ouvido a fim de me excitar.

- Mas o que a garota tem a ver com a parte do ‘filho-bichinha’? – Perguntei.

- Cansei de ver você com aqueles três caras. Sei que você pode e vai comer bem o seu ’lanchinho’ na minha frente e aqui na sala.

- Você está louco, não é? — eu disse indignado e com um sorriso sarcástico no rosto — Não posso transar com ela na sua frente.

Ele que estava um pouco distante de mim e já pelas costas do sofá puxou meus cabelos com força, fazendo-me inclinar a cabeça para trás e disse com aquele bafo alcoólico batendo em minha pele branca:

- Você pode e você vai! — Me soltou fazendo com que a jovem senhorita em meu colo arregalasse os olhos. Aproximei-me de seu ouvido e disse:

- ¡Cálmate, mi chica! Está todo en mi control. – Arrisquei, lembrando-me das poucas frases em espanhol que Travis me ensinou.

- O que disse? — Ele perguntou e eu dei os ombros. — Agora docinho... — Ele disse nojentamente á garota -... Ele é virgem.

Ela me deu um sorriso meio tímido e eu apertei sua cintura vagarosamente. Ignorei qualquer ‘pessoa’ me olhando e fiz o ‘serviço’. Ela gemia alto e meu pai gargalhava que não me deixava concentrar. Quando terminei, caí sob o seu corpo ofegando em seu colo. Acabei por dormir. Aquilo foi absolutamente frustrante.

#Fim do Flash Back#

- Ryan! — ouvi passos atrás de mim, arrancando-me do pior flash back. Era Travis batendo em minha porta.

- Travor. — balancei a cabeça negativamente afastando aqueles pensamentos sobre ‘primeira vez’ e fui recebê-lo. Nossos lábios se tocaram levemente. Corei de imediato e ele disse:

- Já disse como é estranho que você me chame de Travor?

- Mas esse não é o seu nome? — Disse em descaso, fazendo-o revirar os olhos e me deixando meio corado ao dizer: — Gosto de ser o único a te chamar de Travis.

- Ah, queria ser o único a te chamar de Ry. — Ele suspirou — Mas deixa isso de lado, vamos trabalhar, compor e exercitar as nossas mãos.

Dei uma gargalhada enquanto ele deixava a guitarra em cima do sofá.

- O que tem pra beber? — Ele disse — Fugir da escola cansa.

- Tem bebida alcoólica na geladeira, só pegar. — eu disse dando os ombros.

- Sei o quanto te irrita essas merdas e eu não vou beber. — Travis disse balançando levemente a cabeça. — Mas aceitaria um copo d’água, se não lhe for muito incômodo.

- Ah, Travis, pare de ser formal, sim? — Eu disse levando-o a cozinha que era bem próximo de onde estávamos. — Pode escolher o que beber... Já disse, esta é a nossa casa.

- Hm. — ele disse se aproximando de mim. Eu estava sentado na pia e ele vinha em direção do meio das minhas pernas. — Adorei o ‘nossa’, mas nem brincando é nossa, tem o encosto do seu pai aqui.

Me deu um beijo estalado na bochecha e afastou-se. Dei um sorriso sem que o mesmo mostrasse nenhum dos meus dentes. Ele pegou sua água e me chamou de volta para a sala. Era bom sentir que alguém... Ao menos alguém gostava de verdade de mim do jeito que eu sou.

Voltei pra sala e me sentei no sofá com minha guitarra no colo. Estávamos prontos para começar a tocar quando:

- Ryan! — recebi um tapa em minha cabeça — Tô indo trabalhar.

- Ah, você trabalha? — Eu disse o olhando — São quase meio dia, cara. Acha mesmo que o seu [i]patrão[/i] é bonzinho desse jeito?

- Para de merda e me arranja grana pro ônibus. — Rolei os olhos e fingi não tê-lo ouvido.

- Não tenho. — Disse firme — Não acredito que vai encher a cara tão cedo, mal chegou e já vai sair para beber. É patético, não acha?

- Não vou encher a cara, sério. — George disse olhando para Travis ao meu lado. — Eu aprendi filhão... De verdade, aprendi. Não vou pôr nenhuma gota de álcool sequer na minha boca. Dessa vez é sério.

Travis deu um sorriso irônico pra mim enquanto eu arqueava a sobrancelha e tirava dez dólares do bolso.

- Se beber de novo eu não vou buscar você na casa da minha mãe.

- Qual é moleque? — Esbravejou fazendo Travis rir. — Acho que eu ainda sou seu pai.

- É? Não parece! — eu disse quase gritando — Mas um dia você morre de uma vez e me deixa em paz.

- Também te amo, Georginho.

- Vai logo trabalhar, vai. — Eu disse sarcasticamente.

- Pare com esse sarcasmo, bebê do papai. — George disse ironizando.

- Vai se ferrar e me deixa em paz. — eu disse sentindo a mão de Travis em cima da minha, acariciando-me lentamente.

- Vou tomar a sua guitarra a próxima vez que me responder. — Tentou ser autoritário, inutilmente tentou ser um pai.

- E eu não te dou mais grana. — disse nervoso — Agora some!

Ele saiu batendo a porta e eu e Travis ficamos sozinhos.

- Odeio esse cara! — disse jogando a guitarra no chão. — Lo odio! — disse arriscando as duas palavras em espanhol.

- Deixa esse cara e vamos trabalhar, ok? — ele disse me abraçando — Vamos relaxar e fazer o que dois adolescentes fazem sozinhos em casa.

- O que dois adolescentes fazem sozinhos em casa? — eu perguntei.

- Vêem filme pornô e ficam se punhetando até as mãos pedirem pra parar. — ele disse rindo — Ou trabalham em músicas pra sua banda ou...

- Ou...? — eu repeti.

- Tá parecendo um papagaio, Ry. — Travis disse com um tom de voz debochado.

- Adoro seu jeito debochado de ser, Travor. — eu disse colocando no canal mais adequado. — Vai pensar em quê pra se punhetar?

- Você. — ele disse e logo gargalhou quando me viu corar — Deixa de ser besta, Ry... Vou pensar em qualquer garota bonita, ou só na atriz.

- Hm.

“Watch your mouth, your speech is slurred enough that your might swallow your tongue...”

#Fim do Primeiro Capítulo#

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.