Notas iniciais
Obrigada Música entre os posts: Best thing you never had, Butch Walker

VI

Eu acabei não dormindo aquela noite. Tudo na minha cabeça girava em torno daquela conversa e na vontade que eu tinha de terminá-la de modo diferente. Com um beijo, com um abraço, com uma declaração ao pé do ouvido. Daquelas que ele fazia antes enquanto eu dormia.

Girei meu corpo por um momento em direção a cabana e ele não tinha fechado o zíper da mesma. Eu conseguia ver seu corpo magro, esticado desajeitadamente sobre o chão da barraca. Eu passei alguns minutos observando-o e querendo estar mais perto. Suspirei e fui até ele no meio da madrugada. Acariciei seus cabelos castanhos, o cobri e dei um beijo paternalmente no topo da sua cabeça e suspirei.

- Eu te amo tanto... – Movi os lábios sem som para que ele não notasse minha presença. Era um tanto estranho essa “inversão de papéis”, mas eu começando a me acostumar. Saí da barraca e fechei bem o zíper da mesma enquanto fiquei olhando para o fogo enquanto assava alguns marshmallows.

Comi os doces enquanto pensava no que fazer para ter o meu Ryro de volta. Alguém precisava me dar um conselho sobre o que fazer. Não sabia a quem pedir. Aliás, eu precisava de um conselho de alguém que estivesse totalmente de fora da situação. Não de Shane. Eu precisava de alguém pra me ajudar de verdade.

Depois de umas horas, Ross acordou. Eu deveria estar com uma cara terrível, porque ele franziu o cenho ao me olhar lavando o bule que usávamos. Aproximou-se de mim em pequenos passos e abaixou-se na beira do lago, sorrindo.

- Bom dia, Bden.

- Bom dia, Ryan – Respondi sorrindo também. – Como dormiu?

- Bem. – Sorriu maior – Você tá bem, Brenny?

Suspirei em resposta e não o respondi, apenas encolhi os ombros, como se não me importasse como o que eu sentia, com o que eu fazia e com a falta dele, porque essa sim me causava transtrornos. Ryan também não insistiu, provavelmente achou que eu não estava muito a fim de conversar. Eu queria que ele tivesse insistido, mas me conformo em vr que ele ficara preocupado.

Fomos gravar então. Tava tudo indo muito bem até a hora do almoço. Cada qual foi para seu lado e eu estava completamente sem fome. Comi pouco e fui para o lado de fora da cabana fumar um pouco. Eu estava farto de toda aquela situação que eu mesmo tinha provocado.

- Que saco! – reclamei para mim mesmo enquanto soltava lentamente a fumaça e olhando a mesma se dispersar no ar. Olhei pra trás quando senti uma mão em meu ombro, era Jon, provavelmente queria conversar sobre Ryan e seu efeitos colaterais em mim.

- Quer conversar?

- Yep. – Sorri, indicando os pequenos degraus ao meu lado. – Sente-se. Sabe, Jon, eu só queria mostrar ao Ryan que eu sou o mesmo de antes, mas toda vez que eu tento, ele fecha os olhos.

- Brendon... – Jon puxou o cigarro da minha mão, tragou-o e o apagou no chão. – O Ryan não está acostumado com você, ele quer aquele cara de volta. Eu penso, cá com meus botões, que ele quer ser desprezado.

- Por quê – Franzi o cenho – Eu só queria cuidar das feridas que causei.

- Brend, o Ryan não está notando o quanto mal está te fazendo. – Sorriu – Você lembra quando a Hayley te deixou a primeira vez, que você ficou assim como tá agora e ele disse...

- ”Porra, B, você tem que reagir. Se você não pode esquecer a Hay, faça o que pode. Se divirta em cima disso” – Interrompi o Jon ao repetir as palavras e suspirei.

- Se não pode esquecer o Ryan, divirta-se em cima disso. – Suspirou – Não que eu seja a favor desse método, mas se foi o próprio Ryan quem disse, deve funcionar.

- E se não der certo?

- O mundo está cheio de garotas querendo uma noite com você, Brenny Bear. – Sorriu novamente – E um monte de garotos, como o Shane, que seriam gays por você.

- Bobo. – passei uma das mãos na cintura de Jon, num abraço amistoso e desajeitado. O menor não me negou o abraço e sorri para mim mesmo. – Obrigado, Jon. Eu estava mesmo precisando de um abraço.

- Todo mundo merece um abraço de vez em quando. – Sorriu novamente, confortador.

Entramos um pouco depois daquela conversa e Ryan estava tocando. Involuntariamente acabei abrindo um sorriso grande, sem ter jeito algum de disfarçar, porém eu mordi o canto do lábio. Sentei-me perto do meu teclado e cantei “Linger” baixinho, pra mim mesmo.

- You know I’m such a fool for you... – Suspirei, ligando o microfone a minha frente e como teste, cantarolei – Do you have to let it linger? – Ross voltou os olhos para mim, dando um sorriso fraco. Nós dois sabíamos o quão importante era essa música em nosso começo de relacionamento fracassado.

Depois do nosso ensaio, Ryan e eu fomos para a cabana. Tentei usar o celular para seguir o conselho do Ryan, mas não pegava onde estávamos. Suspirei e dei um rosnado mais alto, porque já que eu ia ficar sem Ryan e precisava fazer ciúmes nele, nada melhor que juntar o útil ao agradável e fazer sexo. Foi então que senti a mão de Ryan em meu ombro e em seu rosto tinha um leve sorriso.

- Você tá bem? – Ross perguntou baixinho, encostando o queixo no meu ombro, entregou então uma lata de Red Bull para mim. Dei um sorriso em agradecimento, segurando a lata. – Anda rosnando assim, por quê?

- Tô sim. – Sorri fraquinho — Eu tô ótimo, Ryan. Me sinto maravilhoso!

- Tem certeza? – Afastou o queixo e deu um gole na lata de refrigerante que tinha em suas mãos – Você me parece distante, triste... – Segurou devagar minha mão e a apertou amistosamente. – Não parece o Brendon Urie colorido e saltitante que eu conheço.

Era desesperadora minha situação. Cada dia que passava eu parecia ter Ryan um pouco mais perto e ao mesmo tempo mais longe. Eu implorava por um palco, mentalmente, que era onde eu disputaria seu carinho sem ter que conversar diretamente com Ryan Ross, o problema era que eu não ia me apresentar por um tempo longo. Cada dia que passava, eu o amava mais que tudo.

- Você conhece minhas razões. – Respondi, como a última tentativa antes de decidir. – Eu quero uma chance pra te mostrar o quão especial é pra mim, Ryan. – A última parte eu disse bem baixinho, mais para mim que para ele, sem intenção algum de ser ouvido.

- Não começa, B. – Suspirei baixinho. Ele ameaçou soltar minha mão, mas eu a segurei com força, entrelaçando nossos dedos. Foi então – já sabendo que ia pôr tudo a perder – que decidi falar o que estava entalado. – Não. Começa.

- Toda vez que eu toco em nós você vem com “Não começa, B”. – Resmunguei – Eu não tô bem, Ryan Ross, e a culpa é toda sua e do seu “Não começa.” Quanto tempo eu vou ter que implorar para poder resolver as coisas entre nós? Até quando não vamos conversar sobre “nós”?

- E você acha que eu tô bem tendo que rejeitar você, Brendon? – Ryan dizia em tom de desabafo e desviou os olhos de mim — Você me traiu, B. Dormiu com o Shane na mesma cama que dormia comigo.

- E você, Ryan Ross? – Disse triste. – Não me traia com a Keltie todos os dias, em todos os lugares. – Segurei seu rosto, o obrigando a olhar para mim – Não era você que exibia sua Keltie só pra me fazer sofrer e passava a maior parte do tempo com ela, me deixando carente e sempre pra segundo plano, Ryan Ross. Não olhe essa história com um único prisma.

- Eu não quero falar sobre isso.

- É claro que não, Ross. – Disse, rindo debochadamente – Você sempre foge quando é pra falar dos seus erros e do quanto você pode ser mortal pras pessoas. Você. Sempre. Foge, Ryan.

- Não fui eu quem começou isso, Brendon. – Discordou com a cabeça – Você que nos tornou o que somos hoje. Você sempre soube da Keltie, você concordou em viver do jeito que vivíamos, Brendon Boyd Urie. – E soltou sua mão da minha, suspirando fortemente. – Mas você foi lá pensando com sua maldita carência e no sexo, que o Shane deve ser expetacular, e fodeu com tudo por causa de uma aposta. Você nunca faz nada certo, Brendon.

Foi difícil segurar o rio de lágrimas que surgiu em meus olhos. Meus lábios começavam a tremer involuntariamente e eu abracei meu próprio corpo. Eu não o condenei, mas sabia que eu também estava certo e sabia que nenhum de nós daríamos o braço a torcer por nosso relacionamento. Então sorri fraquinho, abrindo minha lata de energético e dando um gole grande no mesmo, como uma fórmula para ter coragem de continuar a dizer:

- Quer saber, Ryan. Eu desisto completamente de ter você. – Murmurei contra minha vontade, tomando mais um gole da minha coragem enlatada. – Nunca mais vou implorar sua atenção fora dos palcos ou mesmo neles. Nunca mais. Acho que o que tínhamos para resolver, acabou completamente aqui.

- Certo, B. – Sorriu – Eu concordo plenamente contigo e não vou obrigá-lo a nada.

- Pra você tanto faz, não é? – Murmurei, mais pra mim do que pra ele – Tanto faz se eu quero ficar perto ou longe de você. Aliás, eu acho que você tá pulando de alegria que eu vou deixar você em paz para casar com a sua Keltie.

- Você está sendo mesquinho. – Ryan resmungou.

When you act like nothing ever happened

I feel like I should feel bad, but I can’t like someone who thought

They’re the only one that mattered.

- É a impressão que me passa, Ryan Ross. – Respondi sem me importar com as consequências daquela minha frase. Tudo tinha começado porque eu não tinha medido consequências dos meus atos, deveria acabar da mesma forma. – Você sempre faz tudo supostamente tão certinho que não vê o quanto me fere diariamente.

E Ryan deu uma gargalhada baixa, nervosa, virando o resto de seu refrigerante de uma só vez. Repeti seu ato, jogando a lata em qualquer canto e, logo após, acendi um cigarro, o tragando como se fosse aquilo a única coisa capaz de me confortar. O guitarrista puxou o cilíndro de papel dos meus lábios e pisou em cima dele com grande fúria e de forma protetora.

- Por que simplesmente não desiste de mim sem ficar me explicando cada passo da sua vida? – Perguntou e sorriu depois. – Ou você ainda não desistiu de mim?

I hope that you’re flattered

Cause you broke this down

The best thing that you never had.

- Eu desisti. – Murmurei – Só estou querendo que você não espere mais por mim. Além do que eu ainda preciso dizer algo que está me matando. Depois disso, você está completamente livre de mim.

- Pois diga e acabe de uma vez com isso. – Suspirou.

- Você me prometeu que me mostraria o quanto era bom te amar, o quanto poderia ser incrível quando você me amasse de corpo e alma, o quanto queria que eu fosse só seu, mas, sinceramente, eu não estou vendo nenhuma maravilha em te entregar minha vida diariamente. – Segurei novamente o rio de lágrimas que queria descer, mas eu o mantive retido em meus olhos. – Você só tem me ensinado a sofrer. Eu não tô vendo nada maravilhoso em te amar e nós eramos mais felizes quando só você me amava, Ryan.

- Eu bem que tentei te mostrar o lado feliz do amor, Brendon. – Ryan sorriu tristemente – Mas mesmo assim eu te agradeço pelo que vivemos juntos, B. Eu posso ter te ensinado a sofrer, mas você me ensinou que homens como eu não tem como eu ser feliz com alguém como você que não percebe as coisas...

Mordi o canto do lábio e acabei dando uma risada nervosa. Segurei o Ross novamente e o puxei para mais perto do meu corpo, afim de que nossas se juntassem. Foi naquela hora que eu consegui notar a profunda dor no fundo daqueles olhos esverdiados. Eu era o único culpado e sabia disso, porém não quis pensar naquele momento. O guitarrista se debateu em mim, mas eu juntei nossos lábios de forma brusca e quando comecei a me entregar ao beijo, Ross me deu uma rasteira e se afastou:

- As coisas não se conseguem a força, B. – Discordou com a cabeça – Muito menos a mim.

- Eu acho melhor eu voltar a dormir lá dentro, já que tem um quarto sobrando. – Murmurei, contendo pra mim o tom choroso que tinha na voz. – Acabou entre a gente de uma vez por todas.

- É, acabou. – Suspirou.

- Acha que a gente vai voltar a ser amigos? – Torci os lábios, limpando a roupa suja da terra avermelhada em seu corpo. – Acha que vai voltar a ser como antigamente?

- Pra mim já voltou, Brendon. – Deu de ombros. – Agora só falta eu voltar a atender os seus telefonemas pra expulsar suas garotas de sua vida de uma vez por todas, afinal, eu só sirvo para isso mesmo, não é?

- Eu nunca disse isso, Ryan. – Rosnei. – Eu tava desesperado, te querendo, te chamando e você sempre virou as costas pro meu clamor. Eu só disse que preferia só quando você me amava, porque eu podia te tocar, te abraçar, tinha você cuidando de mim... Agora isso acabou, Ryan Ross. Acabou minha essência.

- Foi você quem desistiu dela, Urie. – Suspirou.

- E você queria o quê? Eu já implorei uma chance, já me humilhei, eu acabei de te beijar e você só faltou cuspir o meu gosto. Isso magoa, Ross. Eu tenho seguido a risca todos os seus pedidos, mas agora foi eu quem cansou.

- Dramático, meu caro. – Ironizou. – A única coisa que eu desejei na minha vida era ter sonhos sustentáveis. Eu disse que eu te colocaria fora dos meus planos uma vez, agora estou pondo na prática, porque percebi naquele dia, que você jamais se encaixaria nos meus sonhos. Por mais que eu te ame, Brendon, você jamais vai me dar o que eu quero e, sim, nossa história se encerra aqui.

- Por que a aposta? – Mordi o lábio, encolhendo os ombros – Por que você topou sabendo que não tinha condições nenhuma de ganhar? Sabia que o prêmio seria seu.

- Topei porque silenciosamente te dei sua chance e a única coisa que você fez foi tocar na ferida aberta. Você não consertou nada, B, só aperfeiçoou a besteira que tinha feito antes. Parabéns, meu caro, você destrói vidas com tanta facilidade quanto canta.

And I should be dead.

- Eu juro que não peço nada para você, Ross. – Murmurei bem baixinho. – Nunca mais.

- E quantos foram os juramentos que me fez que você cumpriu, meu caro? – Ryan perguntou baixinho. – Eu vou dormir agora, se não se importa.

- Tenha uma boa noite, Ryan. – Sorri falsamente. – Até amanhã.

- Até. – Sorriu e entrou na barraca, fechando a porta da mesma. Eu fiquei ali no fogo e acordado. Eu poderia jurar que ele também não dormiu nada bem. Minhas palavras o tinham abalado e se tinha feito isso era porque ainda existia sentimento. Talvez tanto sentimento reprimido dentro do seu ser frágil, que poderia ser comparado ao vulcão que carrego em meu peito.

Percebendo que não conseguiria dormir, Ross veio até mim, próximo a fogueira, e simplesmente abraçou seu corpo enquanto tentava se aquecer. Por estarmos brigados – e por correr o risco de acabar levando um soco – não o abracei como era da minha vontade. Ross e eu ficamos tocando alguma coisa, sem nos falar realmente. Aquela situação se tornava cada vez mais triste, desconfortável e devastadora. Ao menos, compomos alguma coisa indefinida ainda.