Just Give Me A Reason
1 Just Give Me A Reason
Notas iniciais
{just give me a reason}
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A primeira lembrança coerente de Victoire Weasley era de um garotinho de cabelos azuis, segurando sua mão, enquanto ela chorava. Não se recordava com precisão de mais nada. O que fazia sentido, já que tinha apenas três anos na época. Isso, no entanto, queria dizer que não se lembrava de sentar-se no sofá da casa dos avós, sentindo toda a indignação e revolta que o nascimento de uma irmã poderiam causar a uma criança pequena. Victoire havia sido, até pouco tempo, o centro do mundo de seus pais. A pessoa mais importante e especial de suas vidas. E, então, mamãe ficara grávida e tudo mudara. Havia, de repente, algo novo, atraindo a atenção de seus pais e de todos ao redor. Fazendo com que ela fosse deixada de lado. Abandonada. Ou, pelo menos, era assim que a menina encarava a situação.
A família inteira dizia que ela deveria ficar feliz por ganhar uma irmãzinha, porém, a última coisa que Victoire queria era uma irmãzinha. Bebês eram chatos – a prima Molly, por exemplo, não fazia nada além de chorar – e a garota não estava feliz com a perspectiva de dividir o que quer que fosse. Suas vontades, é claro, não impediram a chegada de Dominique. A irmã indesejada que viera arruinar tudo! Então, não, a menina não estava satisfeita. Pelo contrário, se debulhava em lágrimas, se sentindo completamente esquecida, quando Teddy Lupin, o afilhado de tio Harry com quem ela costumava brincar, se sentou ao seu lado, segurou suas mãos e prometeu que tudo ficaria bem.
Com o passar dos anos, boa parte da memória ficaria borrada e os pormenores de todo seu ciúme infantil seriam esquecidos. A moça não conseguiria recordar o motivo de seu descontentamento ou choro. Ainda assim, se lembraria de Teddy segurando sua mão e prometendo que tudo ficaria bem. E, no fim do dia, essa era a única parte da lembrança que realmente importava.
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Duas linhas azuis contrastavam contra o branco do plástico. O sinal universal de positivo. O sinal que não tinha nada de universal. Para algumas pessoas seria um pesadelo, para outras um sonho. Victoire Weasley se encontrava no segundo grupo, encarando o teste de gravidez, enquanto o júbilo crescia em seu peito. Aos 27 anos, ela tinha a vida perfeita. Um ótimo emprego no St. Mungus, como medi-bruxa pediátrica, uma situação financeira estável, um casamento feliz com o homem mais incrível do mundo. Teddy Lupin havia sido o dono de seu coração desde que a moça conseguia se lembrar. Seu melhor amigo, seu primeiro amor, sua maior constante. Os dois estavam casados há cinco anos e a vida nunca havia sido mais bela. Começavam a achar, entretanto, que era hora de dividir toda aquela beleza com mais alguém.
Teddy queria filhos, Victoire sabia. Queria crianças correndo pela casa, uma mesa cheia, uma família grande. Ou simplesmente qualquer família que pudesse chamar de sua. Crescer como um órfão não havia sido algo fácil para o rapaz e agora ele sonhava em construir o que nunca pudera ter. A esposa, por sua vez, havia crescido em uma família imensa e não conseguia imaginar uma vida diferente para si. Além disso, amava crianças. Não teria escolhido se especializar em pediatria, se fosse diferente. Sendo assim, filhos eram a conclusão óbvia. Principalmente agora que os dois estavam suficientemente confortáveis no departamento monetário.
Com tudo isso em mente, Victoire valsou pelas escadas, descendo em direção ao marido, ansiosa para lhe dar a boa notícia. Estancou no lugar, assim que chegou à sala, parando um por um minuto para apreciar a cena. Teddy estava sentado na pequena mesa, próxima a janela, cercado por uma pilha de livros e uma xícara de café. A mulher torceu o nariz para a bebida instintivamente, detestava cafeína. Era bastante inglesa, nesse sentido, sempre preferindo uma boa xícara de chá. O Lupin, no entanto, tinha o péssimo defeito de ser um amante de café, mas até isso fazia a Weasley sorrir naquela noite.
O resto da cena era ainda mais adorável. Lá estava o rapaz com seus cabelos azuis despenteados, os brincos na orelha, a camiseta velha e esburacada de As Esquisitonas, as calças de moletom, os pés descalços. Tudo isso gritaria desleixo e rebeldia, não fosse pelos óculos bem equilibrados na ponta do nariz, a expressão de concentração no rosto e o fato de que se dedicava a escrever seu novo livro. Teddy era um historiador e, apesar de se parecer muito mais com um astro do rock, era bastante respeitado no mundo acadêmico, no qual se tornara reconhecido por seus estudos sobre a Segunda Guerra Bruxa.
No momento, contudo, resolvera mudar seu foco de pesquisa e escrevia sobre a história e os modos de vida dos lobisomens. Era um trabalho importante para ele, Victoire sabia, uma forma de se aproximar do pai e contribuir para desmistificar e quebrar estereótipos negativos que ainda afetavam tantas pessoas. A esposa não poderia estar mais orgulhosa. Não poderia estar mais apaixonado. Não poderia estar mais feliz.
— Teddy! — ela chamou, fazendo o marido finalmente se voltar para ela. Um sorriso se formando imediatamente em seu rosto. Edward Lupin era sempre sorrisos e afeto, quando se tratava de Victoire.
Ela sorriu de volta.
— Oi, Vic.
A mulher praticamente saltou até ele, rindo sozinha.
— O que foi? — ele perguntou, já se rendendo aos risos. A empolgação da Weasley era sempre contagiante.
Victoire pensou em fazer mistério. Pensou em fazer um discurso. Pensou em dizer coisas bonitas. Porém, não fez nada disso, sentindo apenas uma vontade imensa – e um tanto anticlimática – de dividir aquela notícia com o homem que amava.
— Eu estou grávida. — disse simplesmente, porque perder tempo com qualquer outra coisa seria tolice.
Teddy a encarou surpreso por meio minuto, então se levantou em um ímpeto e pegou a esposa nos braços. Os dois dançaram pela sala, enquanto a gargalhada compartilhada os embalava como a mais doce das melodias. A vida nunca havia sido tão bela. A vida nunca havia sido tão perfeita.
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Victoire Weasley tinha oito anos, quando sua vida mudou para sempre. Começara como um dia perfeitamente comum, entediante até, e a menina apenas brincava com Dominique, a irmã que provara não ser tão ruim assim e que ela aprendera a amar, no instante em que o grito da mãe cortou o Chalé das Conchas, estilhaçando toda a paz. A garota se lembrava de ter paralisado, a boneca abandonada, o pavor crescendo no rosto de Domi. Ambas mal conseguindo respirar. Foi a irmã, inclusive, que a trouxe de volta à vida, ao sussurrar seu nome com tanto receio que doía. Victoire suspirou, ficando de pé e entregando a boneca favorita à outra menina. A caçula sempre odiara bonecas, mas agarrou aquela como se sua vida dependesse disso.
— Eu vou ver o que aconteceu. Fiquei aqui! — a mais velha ordenou, recebendo um aceno de cabeça em resposta.
Victoire não queria ir ver o que estava acontecendo, queria apenas se trancar no quarto e esperar que tudo se resolvesse. Mas não podia fazer isso. Mamãe havia gritado de uma forma horripilante. Papai estava no trabalho. Dominique tinha apenas cinco anos. Ela era a única pessoa que poderia fazer alguma coisa. Então, mesmo aterrorizada, se obrigou a colocar um pé em frente ao outro e descer as escadas.
— Maman. — chamou receosa, ao chegar na sala.
Não obteve nenhuma resposta, porém ouviu um gemido vindo da cozinha e caminhou até lá. A cena que encontrou ficaria gravada em sua mente por anos e anos. Sua mãe estava estirada no chão, chorando baixinho. Ao redor dela havia uma dúzia de ovos quebrados, uma jarra de leite derramado e sangue. Victoire correu até ela, sentindo um sentimento novo dominá-la: o desespero. Tinha somente oito anos, mas sabia que aquilo não podia ser bom. Especialmente agora que Fleur estava grávida novamente. Uma gravidez que, dessa vez, não parecia um horror para a menina. Pelo contrário, na maior parte do tempo, ela gostava de ter uma irmãzinha e estava ansiosa para ter outra. Ou outro. Embora realmente fosse preferir se fosse uma menina. Meninos eram terríveis e chatos. Com exceção de Teddy, é claro.
— Maman! — Victoire chamou, se ajoelhando ao lado da mulher e sujando seu vestido favorito de leite e sangue.
— Oh, Vic! — Fleur exclamou, entre lágrimas, e então acrescentou algo em francês que a filha não conseguiu compreender.
— Maman, o que está acontecendo? — a garota queria chorar, mas algo dentro dela a dizia para se segurar. A dizia para ser forte.
— O bebê! — a mãe disse com dificuldade. — Eu estou perdendo o bebê.
Victoire nunca havia visto a mãe daquela forma. Os cabelos despenteados, as roupas sujas, lágrimas e dor marcando seu rosto. O pânico em cada respiração. O sangue saindo dela. Aos seus olhos, Fleur sempre havia sido perfeita. Uma imagem imaculada de sofisticação, graça e coragem. Uma super-heroína, linda e imbatível. Naquele momento, Victoire Wasley descobriu que sua mãe era humana. Que sangrava, chorava e não era invencível. E talvez aquela tenha sido a parte que mais a apavorou. Como se pudesse ler seus pensamentos, Fleur segurou as mãos da primogênita e olhou no fundo dos olhos.
— Não deixe que Dominique me veja assim, por favor — a mulher implorou e a filha assentiu, ciente de que também não queria que a caçula visse aquela cena. Que aprendesse o que ela acabara de aprender. — E se algo me acontecer, cuide da sua irmã.
Victoire sabia que precisava fazer alguma coisa. Precisava pensar rápido, porque não havia mais ninguém ali e mamãe não parecia sequer capaz de se levantar sozinha.
— Vai ficar tudo bem, maman. — ela prometeu, com uma convicção que não sentia, e correu para a sala.
Há alguns meses, papai a havia ensinado a usar pó de flu para chegar até À Toca. “Para o caso de alguma emergência”, ele havia dito. Aquela definitivamente era uma emergência. Vic encontrou Domi no pé da escada, ainda segurando a boneca. Sequer ficou surpresa por a irmã não ter seguido suas ordens. Dominique nunca seguia ordem alguma. No entanto, não havia tempo para ralhar com a irmã, ela apenas a puxou pelo braço, ignorando as perguntas da menina, e correu com ela para a lareira, rezando para não se esquecer de nenhuma das instruções do pai e fazer tudo certo. Suspirou aliviada, quando viu a sala da casa dos avós aparecendo a sua frente.
— Vovó! — gritou desesperada. — Vovó!
— Victoire? O que aconteceu? — Molly correu até a neta, sendo seguida por vovô e tio Charlie – que estava de férias na casa dos pais –. Bastou um único olhar para que soubessem que algo estava errado — O que aconteceu?
— É maman! — a garota tentou explicar, enquanto o desespero se enrolava em seu estômago — Tem algo errado com maman e o bebê.
Os adultos trocaram um olhar e vovô e tio Charlie aparataram imediatamente. Victoire quis chorar de novo, mas, no mesmo instante, Dominique explodiu em lágrimas e ela soube que não podia chorar. Havia prometido para a mãe que cuidaria da irmã, afinal. Molly prendeu as duas netas em um abraço e, enquanto a mais velha tentava consolar a caçula, as levou até o banheiro para que pudessem se lavar.
Quando se lembrasse daquele momento, anos mais tarde, Victoire se lembraria de estar coberta de sangue. Não era exatamente a verdade, embora houvesse de fato algumas manchas rubras em suas mãos e vestido. Não importava. Na sua memória sempre haveria sangue em todo lugar: nela, em Dominique, na mãe, na cozinha inteira. Um tipo de hemorragia que jamais seria possível, mas que ficaria eternamente fixada na mente da menina.
Depois disso, não houve muito o que fazer além de esperar. Tio Charlie e vovô haviam levado mamãe para o hospital. Papai havia sido avisado no trabalho. Vovó fizera o melhor para distrair as duas netas. Dominique se agarrou a irmã como se sua vida dependesse disso. E Victoire tentou manter a calma, para não assustar ainda mais a garotinha. Um pouco mais tarde, tia Ginny apareceu, trazendo Teddy Lupin para fazer companhia às sobrinhas.
Nenhum dos três sentia vontade de brincar ou mesmo conversar. Então, apenas se sentaram juntos. Dominique segurando a mão de Victoire. Victoire segurando a mão de Teddy. E quando Domi finalmente dormiu, Vic enfim se permitiu chorar. Teddy a abraçou, sussurrando palavras de conforto em seu ouvido e fazendo a menina se sentir segura, pela primeira vez naquele dia. Em algum ponto, ela também adormeceu. Acordou um pouco antes do nascer do sol, ainda embolada entre Teddy e Dominique, quando papai finalmente veio buscá-las. Bill sorriu para as filhas e contou a elas que Fleur estava bem e o bebê também. Elogiou, então, a primogênita por ter sido tão forte, corajosa e inteligente. A contou sobre como havia salvado a mãe e o irmãozinho.
Victoire se forçou a sorrir para o pai, embora não sentisse qualquer alegria. Alívio sim, mas não alegria. Porque aquele dia deixou impressões digitais em sua alma e ficou com ela para todo o sempre. O dia em que tudo mudou. O dia em que ela descobriu que a vida era imprevisível e coisas ruins podiam acontecer. O dia em que ela percebeu que a mãe não era uma força da natureza que estaria sempre ali para cuidar dela. O dia em que ela entendeu que, como filha mais velha, algumas coisas eram sua responsabilidade. E que sempre seriam sua responsabilidade.
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O gemido escapou por seus lábios, enquanto o copo escapava por seus dedos. A dor fez seu corpo se curvar, no mesmo instante que o vidro colidiu contra o chão, se fragmentando em um milhão de pedaços. A moça instantaneamente levou as mãos ao abdômen, de onde vinha aquela maldita aflição. As lágrimas escorriam por seu rosto, ao mesmo tempo em que o sangue escorria por suas pernas. “Não! Por favor, não! ”. Pensou desesperada, enquanto suplicava a misericórdia de todos os deuses que conhecia.
Seus soluços deveriam ter feito Teddy descer as escadas, porque quando Victoire se deu conta já estava nos braços dele. Lupin não perdeu tempo e simplesmente tentou acalmar a esposa, enquanto aparatavam no St Mungus. Victoire nunca antes detestara tanto seu local de trabalho.
Todo resto foi como um borrão. Quando se deu conta, já estava em um maldito quarto branco, ouvindo as péssimas notícias do medi-bruxo que a atendera. A mulher ouviu o homem lhe dizer que sentia muito e que não havia nada que pudesse ser feito. Sentiu uma vontade imensa de gritar com ele, de lhe estapear, ou de lhe lançar alguma maldição. Aquilo, no entanto, não era o tipo de coisa que poderia fazer. Então, apenas acenou com a cabeça, da forma mais gentil que conseguiu, com mais lágrimas correndo pelo rosto. No fundo, sabia que não era culpa dele. A culpa era dela. Seu bebê estava morto e ela era a única culpada.
Teddy se aproximou e a abraçou com força. Seus cabelos atingindo um tom triste e desbotado de castanho. E tudo o que Victoire conseguiu pensar foi em como havia falhado com ele. Justo com ele que sempre quisera tanto uma família.
— Vai ficar tudo bem, Vic. — o marido lhe disse, acariciando seus fios prateados.
Mas ela sabia que era uma mentira.
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Victoire Weasley tinha oito anos quando realmente entendeu o conceito de morte. Ela sabia o que a palavra morte significava, é claro. Tanto em inglês quanto em francês. Ainda assim, havia uma diferença entre conhecer a definição de um termo e realmente compreender seu significado. Até então, a menina não compreendia.
Naquela tarde, ela estava com tio George e tia Angelina. Ela e Dominique viviam assim agora. Passando de avós a avós, tio a tio, oscilando entre estar na França e na Inglaterra. Mamãe passava o tempo todo na França. No hospital. Após quase perder o bebê, Fleur descobrira que aquela era uma gravidez de risco. Alguma coisa relacionada à magia veela, que a menina não conseguia compreender. Ir para a França, onde os medi-bruxos entendiam muito mais sobre veelas, fora a conclusão óbvia. Victoire e Dominique foram com a mãe, que se recusava a se separar das filhas, e as três ficaram hospedadas na casa de grand-mère Apolline. Tudo correra relativamente bem. Até o bebê resolver nascer aos seis meses. Fleur estava saudável, mas Louis – sua nova criança – era pequeno e doente e ninguém acreditava realmente que ele iria sobreviver. No entanto, contrariando todas as expectativas, estava sobrevivendo.
A mãe havia praticamente se mudado para o hospital, se recusando a deixar a UTI neonatal. Já seu pai, tentava equilibrar seu emprego, a vida em dois países diferentes, a esposa devastada, o filho caçula doente e as duas filhas mais velhas. Seria demais para qualquer pessoa. Então, Victoire e Dominique se tornaram nômades, vagando de parente a parente. Todos eram muito amorosos e receptivos, as meninas, contudo, queriam ir para a casa e queriam os pais. Vic conseguia entender, não sem incômodo e tristeza, toda a situação. Domi, por outro lado, estava revoltada. Se sentia abandonada e esquecida, encontrava novas formas diariamente de demostrar toda sua indignação infantil ou simplesmente conseguir algum vestígio de atenção. Cabia, portanto, a Victoire remediar os danos, porque ela não queria causar mais problemas para os familiares e porque a irmã era sua responsabilidade.
Naquela semana, de toda forma, estavam com tio George e tia Angelina. O que era bom, porque havia sempre algum brinquedo das Gemialidades Weasley para experimentar. Além disso, haviam os primos, Fred, que era apenas um ano mais novo do que Dominique, e Roxanne, que tinha apenas um ano, mas era muito fofa e ria o tempo inteiro. Os dias ali estavam sendo leves, com os tios se esforçando para distrair as garotas e fazer com que se divertissem.
Sendo assim, Victoire realmente não esperava a aura sombria que a esperava, quando subira até o sótão, na noite de quinta-feira, para chamar tio George para o jantar.
— Tio George, a tia Angelina pediu para avisar que o jantar está pronto. — ela informou, se sentindo bastante prestativa, porém, estancou na porta diante à visão a sua frente.
O tio estava sentado no chão, um baú aberto a sua frente, lágrimas caindo por seu rosto, enquanto soluços sacudiam o seu corpo. Naquele ponto, Victoire já estava se acostumando a ver adultos chorarem. A mãe, o pai, todos os avôs e avós, tia Gabrielle, tia Ginny, até mesmo tio Ron. Ainda era algo que a pegava desprevenida, mas já não lhe parecia tão estranho ou fora de lugar. Aparentemente não eram apenas as crianças que encontravam escape no choro e isso era um pouco assustador, contudo, também parecia ser uma realidade.
— Vic! — exclamou assustado e tentou seu melhor para disfarçar o pranto. Não foi bem sucedido.
A menina entrou receosa no cômodo.
— Você está bem, tio George? — perguntou, torcendo uma mecha do cabelo loiro nos dedos.
— Estou. Claro. — ele disse, secando o rosto.
— Então por que você está chorando?
George suspirou, claramente pensando no que dizer. A garota ficou feliz por não voltar a negar o choro. Seria praticamente como chamá-la de burra e ela se considerava uma garota bastante inteligente.
— Aconteceu alguma coisa com a minha mãe ou o Louis? — Victoire perguntou, quando não recebeu nenhuma resposta. Aquela era sempre a primeira preocupação da sua mente e, naquele momento, era único cenário que conseguia imaginar.
A menina já sentia o horror – agora tão familiar – crescendo em seu peito, quando o homem negou.
— Não. Não! Não aconteceu nada com a sua mãe ou o seu irmão. — ele lhe sorriu tranquilizador.
— Então o que foi?
— Foi algo com o meu irmão.
— O meu pai? — o medo retornou com ainda mais força.
— Não, Vic. Outro irmão. O Fred.
— Ah! — ela disse, finalmente entendendo. Victoire sabia que seu pai tinha um irmão que ela nunca conhecera. O tio Fred que morrera na Batalha de Hogwarts, antes mesmo dela nascer. O que parecia ter sido há muito tempo. — Pensei que ele tinha morrido há muito tempo. — deixou escapar em sua inocência.
George sorriu de forma melancólica, sendo atingido pela ingenuidade da sobrinha. Querendo conservá-la.
— Sim, faz muito tempo, Vic. Dez anos. — ele podia ver a interrogação no rosto da garotinha, como se não conseguisse compreender o motivo dele ainda chorar após uma década inteira. Uma década era mais do que ela tinha de vida, afinal — Mas há alguns sentimentos que nós carregamos conosco para sempre. — George tentou explicar — Alguns são bons, outros ruins. O luto é um deles.
Victoire refletiu sobre as palavras do tio e se aproximou um pouco mais dele, se sentando ao seu lado. Dali, conseguia enxergar o conteúdo do baú: fotos, cartas, tacos de Quadribol, suéteres e todo tipo de bugiganga que ela não conseguia nomear, mas que se assemelhavam bastante ao tipo de produto vendido nas Gemialidades Weasley.
— Morrer é tão ruim assim? — ela quase sussurrou. Não sabia o motivo de estar falando tão baixo, no entanto, sentia que ela e o tio estavam compartilhando um segredo e não queria arruinar o momento. Além disso, apenas não parecia certo falar sobre a morte em voz alta.
— Morrer? — o ruivo ponderou, o rastro das lágrimas bem mais evidente em seu rosto sardento, agora que a menina se aproximara — Acho que não. Morrer é apenas uma nova jornada. Uma jornada para um mundo sem dor e tristeza. Ou é o que dizem. É no que eu gosto de acreditar.
— Então por que ficar triste?
George ficou em silêncio por um tempo, tentando encontrar as palavras certas. Falar sobre morte nunca era fácil. Falar sobre morte com uma criança era ainda mais complicado.
— Porque nós, que ficamos, sentimos falta das pessoas que partiram. É como se elas fossem para uma viagem muito distante e nunca mais fossem voltar. Mas não é porque não vão voltar que deixamos de querer estar com elas, conversar com elas, dividir momentos com elas. O amor não acaba, porque alguém morreu, Vic. Nós apenas não podemos mais estar com aqueles que amamos. E isso dói, mesmo após muitos anos. Você se costuma, aceita, segue sua vida e encontra novas pessoas para amar. Mas ainda dói. Em alguns dias mais do que em outros.
Foi a vez de Victoire refletir silenciosamente sobre as palavras do tio. A mãe estava em uma viagem e ela sentia falta de Fleur todos os dias. A saudade nunca diminuía, só aumentava. Ainda assim, sabia que a mãe iria voltar. Que só precisava esperar mais um pouco, para que pudesse estar com ela de novo. No caso de tio George, tio Fred não iria voltar. Haveria apenas espera e saudade. E foi então que a menina compreendeu que a morte era sobre ausência. Sobre perder algo que você ama e nunca mais poder ter de volta. E nunca mais era muito tempo.
Essa conclusão a fez pensar sobre Teddy Lupin. A menina sabia que os pais do amigo estavam mortos e que aquilo era algo triste, porém, finalmente percebeu que Teddy nunca os teria de volta. Por toda sua vida, ele seria um menino sem pais e, de repente, tudo pareceu pior e muito mais triste.
— Tio George, o meu irmão vai morrer? — ela questionou, porque subitamente pareceu uma questão importante.
O homem suspirou.
— Não sei, Vic. Realmente espero que não.
A garota anuiu com a cabeça, apreciando o fato do tio não tentar mentir para ela. Adultos gostavam muito de mentir ou fazer promessas falsas para crianças, ela havia percebido recentemente. Dito isso, Victoire também esperava que o irmão não morresse. O havia visto algumas vezes, quando o pai as levara a França para visitar a mãe. Louis parecia muito pequeno e Dominique havia dito que ele era feio, antes de sair correndo irritada. Mas Vic o achara bonitinho e havia desejado que ficasse bem logo, para que todos pudessem ir para casa. Sem nenhum aviso, tio George se levantou, espanando a poeira das calças com as mãos e a retirando de seus devaneios.
— Vamos, Vic, sua tia Angelina deve estar começando a se preocupar e está na hora de jantar.
A menina seguiu o exemplo do mais velho. Porém, antes de deixarem o sótão, lhe deu um abraço, porque achava que era algo que o tio precisava e merecia. Nenhum dos dois disse mais nada e apenas se reuniram com Tia Angelina e as outras crianças para comer. Tio George até contou uma ou duas piadas e sorriu bastante. Talvez uma parte dele estivesse realmente feliz. A garota, contudo, aprendera que uma parte do tio sempre estaria um pouco triste também. Sempre estaria sentindo falta de alguém que jamais voltaria.
Naquela noite, quando todos já estavam em suas camas dormindo, Victoire chorou. Chorou pelo tio Fred que não conheceu. Ou melhor, por ele ter partido antes que ela pudesse conhecê-lo, o que também era um tipo de ausência. Chorou por tio George, sempre sentindo falta do gêmeo. E pelo pai que também deveria sofrer a perda do irmão. Chorou de saudades da mãe, apesar de saber que ela iria voltar. Chorou por Louis, o irmãozinho que não conhecia direito, mas que queria muito conhecer. E chorou por Teddy, porque os pais deles haviam partido e nunca mais voltariam. E nunca mais era muito tempo.
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A moça passou a mão pelo ventre inconscientemente. Não havia nada ali. Nenhuma pulsação. Nenhum amontoado de células. Nenhuma vida. Nada. Havia existido, mas não mais. Seu útero fora um jardim e agora era um cemitério. Ou algo igualmente melancólico e marcado pela morte. Victoire Weasley já não sabia o que era. Porque não podia dizer que era uma mulher que nunca soubera o que era ter uma criança, porém, também não podia se chamar de mãe. Sua criança morrera antes mesmo de nascer, afinal. Será que podia sequer dizer algo assim? As pessoas costumavam acreditar que a morte era o oposto da vida. Se alguém nunca chegou a nascer, esse alguém sequer existiu? Poderia chamar de “filho”, alguém que nunca fora nada além de um “e se"? Poderia realmente denominar aquilo uma morte? Mas se não, o que lhe restava?
A morte, ela havia aprendido há muitos anos, era sobre ausência. Sobre perder algo que você nunca mais poderia ter de novo. E nunca mais era muito tempo. Sendo assim, não fora exatamente o que lhe acontecera? Por alguns meses, havia existido uma criança em seu ventre. A promessa de um filho. Uma vida. Ela sabia que estava lá, havia sentido em seu corpo. Não havia sido um sonho ou uma ideia abstrata. Pelo menos, não para ela. Para o resto do mundo, sim. Para o resto do mundo, uma pessoa só era uma pessoa, se chegasse a nascer. Mas não para quem experimentara na própria pele uma gravidez. Para Victoire, tudo havia sido real. Houvera um bebê. Ou um quase bebê. Agora não havia mais. E para ela aquilo contava como uma morte, porém, não parecia contar para mais ninguém. Seu filho nunca chegara a ser, então sua dor não fazia sentido. Seu luto era invisível.
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Teddy Lupin tinha um segredo. Embaixo de seu colchão, para que ninguém pudesse encontrar, havia um caderno de recordações. Um caderno que enchia com qualquer foto, carta ou informação que conseguia encontrar sobre os pais. Detalhes entreouvidos das conversas dos adultos, histórias sobre grandes feitos ou momentos engraçados que lhe eram narradas repetidamente, pormenores nos quais esbarrava por acidente. Qualquer coisa, por mais insignificante que pudesse parecer, que o ajudasse a resolver o grande enigma que rondava com frequência sua mente: quem foram Remus Lupin e Nymphadora Tonks?
Victoire Weasley era a única que sabia sobre esse segredo. Porque Victoire era sua melhor amiga e sabia de todos os seus segredos. A menina costumava dizer que ele era como um colecionador e talvez estivesse certa. O menino, afinal, passava seus dias buscando peças que o ajudassem a montar um grande quebra-cabeças. Um quebra-cabeça que o faria se sentir mais perto dos pais que, há muito, haviam partido para um lugar que não poderia ser alcançado. Um lugar longe demais.
— Maman vai voltar para casa amanhã. Com o Louis. — Victoire praticamente dançou, antes de se sentar ao lado dele, no jardim do Largo Grimmauld, nº 12 — Você vai ter que ir nos visitar e conhecer meu novo irmãozinho.
Teddy sorriu. Gostava da tia Fleur e ficava feliz por ela estar voltando para a casa. E também queria conhecer o novo bebê. Ele sempre gostava dos bebês da família Weasley-Potter. Gostava de fingir que faziam parte da família dele. A família de Teddy, a verdadeira, era muito pequena. Apenas ele e a vovó Andrômeda. Ela era uma ótima avó, mas isso não preenchia os vazios. Tio Harry era seu padrinho, então ele supunha que, de alguma forma, isso o configurasse como família. Tia Ginny, assim como seus muitos irmãos e cunhadas, fazia questão de dizer que Teddy era um Weasley honorário. E o menino gostava disso. Amava todos eles e sentia que também era amado. Porém, ainda havia algo faltando. Algo fora de lugar. A sensação de que tudo aquilo não era dele de verdade.
— Isso é muito bom, Vic. — ele se esforçou para sorrir, enquanto arrancava pedaços da grama do jardim.
— O que foi, Teddy? — Victoire perguntou, sua voz melodiosa soando preocupada.
— Nada. — ele tentou mentir.
A garota lhe deu uma cotovelada no estômago.
— Eu te conheço melhor do que isso.
Ele sorriu, ela realmente conhecia.
— Eu estou feliz pela sua mãe e pelo seu irmão. De verdade. — o Lupin começou, olhando para a amiga. A Weasley assentiu — Mas às vezes eu queria ter a minha própria mãe. O meu próprio irmão. Os meus próprios primos. Gosto muito de ter sua família emprestada, Vic, mas às vezes queria ter a minha própria família.
Victoire o observou atentamente por um minuto inteiro. Os olhos azuis dela, parecendo compreender mais do que ele poderia ter imaginado. Então, ela entrelaçou os dedos aos dele e lhe sorriu. Um sorriso lindo e acolhedor.
— Eu não posso devolver seus pais, Teddy. Mas se você quiser, posso ser sua família.
E Teddy percebeu que queria aquilo era (quase) tudo o que ele queria.
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Silêncios significavam ausência. Ao menos, era assim para Teddy Lupin. O metamorfomago nunca soubera lidar muito bem com a falta de som, com a quietude, com a calmaria. Talvez fosse algo que viera de sua infância. Do fato de que estar com os Weasley era sempre barulho, cacofonia, vida. Os sons de uma família grande e feliz. Sons que desapareciam, quando voltava para casa. O rapaz amava a avó e era grato por tudo o que ela fizera ao criá-lo, no entanto, Andrômeda Tonks sempre fora uma mulher silenciosa e sua companhia nunca parecia o suficiente para preencher os buracos que os pais deixaram ao morrer tão cedo. Talvez por isso, o jovem houvesse se tornado tão barulhento e inquieto. Precisava preencher os vazios, precisava varrer para longe a melancolia.
Já não parecia ser capaz de obter sucesso nessa empreitada. Sua casa, afinal, era toda silêncio. Victoire chorara por uma semana inteira, após perderem o bebê. E fora horrível, mas até isso estava começando a parecer preferível a toda quietude que dera lugar ao pranto. A esposa se fechara completamente. Era capaz de passar dias sem dizer uma única palavra e, quando o fazia, não costumava ser algo agradável. Teddy nunca a havia visto assim. Havia algo arrasado dentro dela, uma completa ausência de luz em seus olhos. E ele queria – mais do que qualquer outra coisa – ajudá-la. Entretanto, tudo o que fazia parecia ser a coisa errada.
O Lupin nunca antes tivera problemas para entender Victoire. Os dois se conheciam desde sempre. Eram melhores amigos desde sempre. Se amavam desde sempre. Eram capazes de ler um ao outro com uma precisão incrível. De adivinhar pensamentos. De antecipar movimentos. Sabiam o que o outro precisava sem que nada fosse dito. Ou, pelo menos, costumavam saber. Victoire parecia muito longe agora, distante de uma forma dolorosa. E, pela primeira vez na vida, Teddy não sabia como alcançá-la e trazê-la de volta para seus braços. E esse era o pior dos sentimentos.
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— Tio Percy e tia Audrey vão se divorciar. — Victoire Weasley sussurrou, recebendo um aceno de cabeça de Teddy Lupin.
Os dois estavam escondidos no armário de vassouras, ao lado da cozinha d’A Toca. Com um pote de biscoitos roubados entre eles. Porque, se vovó Molly os pegasse, estariam encrencados. Porque não queriam dividir os espólios do assalto com as outras crianças. E porque aquele era um ótimo lugar para se refugiar e ouvir as conversas dos adultos. Victoire não era do tipo que se envolvia em traquinagens, sendo a neta mais velha, sabia que cabia a ela dar o exemplo. Ainda assim, Teddy às vezes conseguia despertar seu lado encrenqueiro. Além disso, os dois eram espertos o suficiente para nunca serem pegos e sua boa reputação fazia com que jamais fossem suspeitos de qualquer crime. Eram uma dupla perfeita.
— Eu sei. — Teddy concordou, com a boca cheia de biscoitos — Ouvi a tia Ginny falando com o tio Harry ontem à noite. Ela disse que sempre soube que esse casamento não ia durar.
— Maman diz que tia Ginny sempre gostou de ser pessimista sobre os casamentos dos irmãos. — a menina afirmou.
O garoto deu de ombros, seus cabelos azuis brilhando no cômodo pouco iluminado.
— Dessa vez ela tinha razão.
Victoire foi obrigada a concordar.
— Papai disse que o tio Percy só se casou, porque a tia Audrey ficou grávida e era a coisa correta a fazer.
— As pessoas podem ficar grávidas antes de se casarem? — Teddy questionou espantado, nunca havia pensado muito sobre o assunto.
A amiga deu de ombros, pegando mais um biscoito.
— Aparentemente sim. Então maman disse que as pessoas deveriam se casar, porque se amam e nada mais.
— Acho que a sua mãe está certa.
Victoire sorriu presunçosa, como se o elogio também se estendesse a ela.
— Ela costuma estar.
Teddy riu baixinho.
— Tia Ginny disse que o casamento durou mais do que ela imaginava. Mas que é uma pena se separarem agora que a Lucy é tão pequena.
— A Lucy é realmente pequena. — Vic concordou, pensando na prima de apenas dois anos — E a Molly também.
— A Molly é só dois anos mais novo do que você, Vic. — Teddy informou.
Para Victoire Weasley qualquer um que fosse mais novo do que ela era jovem demais.
— Ou seja, muito nova.
Teddy balançou a cabeça.
— Você é dois anos mais nova do que eu.
A garota revirou os olhos.
— Isso é diferente, Teddy.
— Diferente como?
— Você é um menino, eu sou menina. Todo mundo sabe que meninas são mais espertas e maduras. — a Weasley informou com superioridade.
O Lupin a encarou cético.
— Isso não é verdade!
— É sim!
— Não é!
— É sim!
— Não é!
— É claro que é. — o tom da garotinha deixava claro que aquela discussão estava encerrada. Teddy cruzou os braços emburrado, Victoire terminou de comer o biscoito. — Além disso, esse não é ponto do debate. — ela afirmou, muito séria e formal, enquanto afastava os farelos da roupa. Deixar evidências nunca era uma boa ideia.
Teddy reprimiu o sorriso. Victoire adorava falar como os adultos falavam. Ela realmente se achava muito madura e importante. O que era um pouco fofo.
— E qual é o “ponto do debate”, Vic?
— O divórcio. — a menina afirmou, como se ele fosse um idiota. E como se aquela fosse uma palavra feia e proibida.
— Ah, sim! Tio Harry disse que é melhor que os dois se separarem do que ficarem brigando na frente das crianças. Tia Ginny concordou e disse que, quando o assunto são emoções, Tio Percy tem mesmo dificuldade em fazer a coisa certa.
Victoire assentiu de forma solene.
— Papai também disse isso, que era melhor se separarem enquanto ainda havia respeito. Maman concordou, mas disse que era tudo muito triste. E que gosta muito da Tia Audrey. E que papai deveria chamar Tio Percy para jantar qualquer dia, porque todo mundo sabe que Tio Percy não é bom em lidar com sentimentos. E que também seria bom se convidassem Molly II para uma noite do pijama comigo e a Domi, porque essas coisas sempre são terríveis para as crianças. E que se papai um dia pensasse em se divorciar dela, ela o mataria. Mas acho que essa última parte era brincadeira, porque ele apenas riu e falou que nunca faria algo assim. — ela despejou tudo em um único fôlego.
— Você acha que a Molly vai ficar muito triste? — Teddy questionou preocupado. Lucy era jovem demais para sequer notar que algo estava acontecendo.
— Acho que sim. A Molly é muito nova para entender os problemas dos adultos. — a garota respondeu com muita dignidade.
Teddy a olhou debochado.
— E você entende?
Vic deu de ombros.
— Entendo que adultos fazem sempre uma grande confusão com tudo.
— Isso é verdade. — Teddy foi obrigado a concordar — Por que ter uma filha antes de se casar? E se casar com alguém que você não ama de todo o coração?
— Não faz nenhum sentido! — Victoire compactuou com o sentimento do amigo. — Quando eu me casar será com alguém que eu ame muito. Muito mesmo. E nós vamos ficar juntos para sempre. Como nos livros.
Teddy assentiu.
— Eu nunca me divorciaria da minha esposa, porque será alguém que eu vou amar mais do que tudo.
Não havia mais nada a ser dito sobre a estupidez dos adultos. Então, os dois apenas dividiram o último biscoito e sorriram um para o outro.
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Victoire Weasley sabia que estava se tornando difícil conviver com ela. Sabia que, naquele momento, estava longe de ser a mais agradável das criaturas. Nunca fora uma mulher ríspida ou amarga, no entanto, esse lado dela parecia haver florescido recentemente. Não era algo de que ela gostasse ou de que se orgulhasse. Muito pelo contrário. Contudo, também não conseguia evitar explodir com as pessoas, pelos menores motivos. Por coisas que sequer importavam.
Sentia uma raiva que nunca havia sentido antes e que não conseguia explicar. Uma raiva que a dominava e que parecia ser o único sentimento que a libertava do entorpecimento total. Raiva do mundo. Raiva de Deus. Raiva de si mesma.
Na maior parte do tempo só queria ser deixada em paz. Quieta e em silêncio. Não queria que falassem com ela. Não queria que olhassem para ela. Não queria que se lembrassem de sua existência ou a importunassem com o que quer que fosse. Seria isso tão difícil? Aparentemente sim. Especialmente para Teddy Lupin. O marido nunca fora um homem que sabia lidar com o silêncio. Ela sabia disso. Sabia também que ele estava sofrendo e que, ainda que não intencionalmente, o infringia dor diariamente.
Essa consciência só fazia com que se odiasse mais. Havia falhado com ele e com o filho deles e continuava a machucá-lo. Não era mais a garota por quem se apaixonara e não sabia se um dia voltaria a ser. Talvez fosse melhor que ele apenas a deixasse, fugisse para onde ainda havia luz, enquanto ainda havia tempo. Talvez fosse esse tipo de pensamento que a houvesse guiado naquela noite. A noite em que tudo explodira.
Victoire não se lembrava exatamente de como a briga havia começado. Ela e Teddy estavam jantando e ele tagarelava sobre algo, mas a medi-bruxa sequer fingia prestar atenção. Poderia ser uma noite normal de sexta-feira, ou tão normal quanto às noites dos dois haviam se transformado, não fosse pela única parte da conversa que a Weasley realmente escutou.
— Nós podemos tentar de novo, Vic. — o Lupin havia dito com um suspiro.
Era provável que a mudança do tom houvesse despertado a mulher de seu estupor.
— Tentar de novo o que, Ted? — questionou, se virando para ele.
— Filhos. — o historiador respondeu.
Ela encarou o marido em silêncio por uma eternidade, sentindo um milhão de sentimentos conflitantes, mas principalmente a já tão conhecida ira. Não disse nada e apenas se levantou da mesa. Teddy a seguiu, soltando um novo suspirou audível.
— Vic…
— Não!
— Por favor…
— Não!
Mas ele não desistiu. Não daquela vez.
— Eu sei que o que aconteceu da última vez foi horrível, mas não quer dizer que vai acontecer de novo. Pessoas sofrem abortos espontâneos o tempo todo e, na maioria das vezes, conseguem ter filhos depois sem problemas. E se passar por outra gravidez não for algo que você desejar, sempre podemos pensar em adoção.
Victoire nunca antes sentira uma vontade tão grande de socar alguém. Mas apenas soltou uma risada amarga.
— “Pessoas sofrem abortos espontâneos o tempo todo”. Você é um babaca, sabia?
— Vic… — ele já soava arrependido.
— Não! — ela gritou — Você sequer se escuta, Edward Lupin? É claro que não, para você tudo isso é muito fácil!
— Não seja injusta, nada disso é fácil para mim, Victoire. Eu também queria um filho.
— Você queria um filho. Eu tive um filho, Teddy! Você não percebe que esse é o problema? Para você essa criança era uma ideia, para mim era um fato. E agora você simplesmente sugere substituir nosso filho morto, como se isso não fosse nada. Como se sequer importasse. Como se você pudesse simplesmente apagar o que aconteceu, fingir que aquela criança nunca existiu. Talvez você consiga fazer isso, mas eu não.
Victoire se sentia um pouco louca dizendo aquelas palavras em voz alta. Na verdade, as berrando para o marido. Talvez ela estivesse um pouco louca. Talvez aquela fosse a explicação para tudo isso. Teddy definitivamente a olhava como se ela estivesse perdendo o juízo. A olhava como se nunca a houvesse visto antes. Isso só a deixou mais irritada.
— Vic, eu não… — ele tentou dizer algo, porém a esposa não permitiu.
— Já que você quer tanto filhos, por que não procura outra mulher que possa dá-los a você? — ela perguntou venenosa.
— Victoire, isso nem faz sentido.
— É claro que faz! — ela continuou a gritar, sem ter certeza de que qualquer coisa que saia de sua boca fazia algum sentido — Você quer ter filhos, quer isso mais do que tudo. Mas essa fonte aqui está fechada. Fechada. Não é nem uma possibilidade para mim tão cedo e eu definitivamente não sou fria o bastante para substituir o bebê que perdemos e fingir que não foi nada. Então, você deveria simplesmente procurar outra mulher que possa te dar os filhos que você quer. A família que você quer.
— Eu pensei que você fosse a minha família. — a voz de Teddy se quebrou e ouvir aquilo estilhaçou algo dentro de Victoire.
Ela poderia ter chorado, se o ódio não queimasse tão forte em suas veias. A verdade era que não estava sequer irritada com o Lupin. Era muito mais profundo do que isso. Estava apenas descontando nele, a raiva que sentia de si mesma. E o afastando, porque não suportava estar perto de ninguém. Especialmente do homem que amava. Especialmente do homem com quem havia falhado.
— Todos nós pensamos muitas coisas. Não significa que sejam verdade.
— O que você quer dizer com isso? — ele perguntou ainda mais magoado.
— Eu quero que você suma da minha frente, Teddy. Isso é o que eu quer dizer com isso.
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Teddy Lupin era um grande idiota, Victoire pensou irritada, se jogando em sua cama. Não era exatamente verdade. Na realidade, não havia nada de verdadeiro naquela afirmação. O fato era que ela sentia falta do amigo e era mais fácil acolher a raiva do que lidar com a saudade. Teddy, afinal, havia embarcado para seu primeiro ano em Hogwarts há meses, a deixando completamente sozinha com um bando de crianças pequenas. O menino lhe escrevia semanalmente – algo de que ela gostava muito e que sempre a fazia se sentir um tanto importante, por ter alguém com quem se corresponder, como os adultos fazia –, ainda assim, as cartas já não pareciam suficientes. Ela queria estar com ele pessoalmente!
Lia sobre o castelo de Hogwarts, as aulas e todas as aventuras que Teddy estava vivendo e desejava estar ao lado dele, presenciando tudo isso. Ou então, desejava que o garoto estivesse ao lado dela, lhe fazendo companhia. A vida, afinal, era muito entediante sem o Lupin. Ela tinha os irmãos, é claro, e apreciava bastante esse fato. Mas Louis era apenas um bebê. Um bebê fofo e muito bonzinho, que quase nunca chorava ou se queixava, mas com quem todos ainda viviam preocupados. Ela inclusa. Havia assimilado que o irmãozinho era frágil e precisava ser protegido e era isso o que sempre fazia. Dominique havia revelado não ser imune aos charmes do garotinho e acabara encantada por ele também. No entanto, ainda era Dominique, o que indicava que estava sempre se enfiando em alguma confusão ou fazendo bagunça demais. E cabia a Victoire ficar de olhos atentos na irmã mais nova.
Os primos eram legais, porém, todos pareciam jovens demais e como a mais velha, Victoire tinha o dever de cuidar deles, evitar brigas e inimizades e ser um exemplo. Teddy era o único com quem ela podia realmente brincar sem preocupações. O único de quem não precisava cuidar ou para quem não precisava ser um modelo de comportamento. E a menina sentia falta disso. Sentia falta de como podia simplesmente “ser” ao lado dele.
Só que não era só isso. Havia também as coisas completamente intrínsecas ao Lupin, das quais ela sentia muitas saudades. Como, por exemplo, do modo como os cabelos dele estavam sempre mudando de cor, revelando demais suas emoções e se assemelhando a um arco-íris. Ou de como ele era desajeitado, sempre tropeçando em algum lugar ou “esquecendo” seus membros ao andar. Do senso de humor peculiar e das piadas bobas, que não eram exatamente engraçadas, mas das quais Victoire acabava rindo mesmo assim. Do modo como ele se empolgava com qualquer coisa histórica, especialmente se pudesse ter relação com os pais. De como era paciente, gentil e sempre a defendia, comprando suas brigas, mesmo quando ela estava errada. E do sorriso dele. Victoire sentia especialmente falta do sorriso de Teddy Lupin. Tudo era um tanto cinza sem o garoto e ela só queria seu melhor amigo de volta.
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A mulher se virava e revirava na cama, incapaz de encontrar descanso. Tudo estava fora de lugar. O colchão parecia grande e frio demais, agora que ela se deitava ali sozinha, sem o corpo esguio e quente do marido para lhe fazer companhia. Victoire sentia falta de Teddy. Sentia falta de sua presença aquecedora, do som suave e constante de sua respiração, de se entrelaçar a ele, em um amontoado de braços e pernas. E era estranho, porque há uma semana tudo o que ela queria era ficar sozinha. Incapaz de lidar com o Lupin, suas expectativas e promessas vãs. Incapaz de lidar com qualquer pessoa. Mas agora a solidão lhe parecia sufocante e o silêncio era ensurdecedor.
Ela não sabia exatamente para onde Teddy havia ido. Apenas que atendera seu pedido e “sumira” de sua frente. Victoire sabia que o havia magoado. Sabia que havia se comportado como uma lunática. Porém, não conseguia encontrar forças para se arrepender. Porque talvez fosse melhor assim. Porque, embora sentisse falta do marido como sentiria falta de um pulmão, o rapaz ficaria melhor sem ela. Ou sem essa sua nova versão. Essa com quem nem a própria Victoire conseguia lidar. O mundo da Weasley sempre seria cinzento sem Teddy Lupin. Mas era provável que o dele fosse mais brilhante sem ela.
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A menina encarava a gravata azul e bronze, sentindo emoções conflitante se embolando em seu estômago. Havia passado a noite anterior em claro e infelizmente sua insônia não fora motivada por estar finalmente em Hogwarts, a escola com que sonhara a vida inteira. Na verdade, mal conseguia se encantar pelo o colégio, sentindo todo aquele peso sob os ombros. Victoire Weasley, a primeira Weasley de sua geração, havia sido sorteada para a Corvinal, quebrando assim uma tradição de décadas. Todos os membros da sua família eram da Grifinória. Vinha sendo assim há tempo demais para que alguém se lembrasse de algo diferente. Mas não ela.
Victoire Weasley era agora uma corvina. O que não era exatamente ruim. Inteligência, criatividade e sagacidade eram boas qualidades, ela sabia disso. Ainda assim, não conseguia não se preocupar. Tinha medo de decepcionar a família inteira. Tinha medo de que isso significasse que não era corajosa ou boa o suficiente para ser uma Weasley. Além disso, ela era a mais velha. A primeira. Aquela que deveria ser o modelo para os irmãos e primos. E o único exemplo que tinha dado, no instante em que pisaram em Hogwarts, era de como estilhaçar tradições familiares.
— Ei, Vic, você está bem? — ela ouviu a voz muito familiar de Teddy Lupin e se virou para ele.
Ali estava o garoto em suas vestes lufanas, os cabelos bagunçados e brilhando em rosa-choque, a gravata mal amarrada no pescoço. Victoire foi obrigada a sorrir. Teddy se sentou ao lado dela, ignorando que aquela não era sua mesa de café da manhã.
— Você pode fazer isso? — ela perguntou assustada, olhando em volta e esperando que alguém aparecesse para reprimir o menino.
Lupin apenas deu de ombros.
— Posso e estou fazendo. — afirmou, roubando uma maçã da mesa. — Queria ter falado com você ontem à noite, mas esses monitores tirânicos nos tocaram para a cama como se fossemos gado.
A garota riu. Teddy às vezes era tão absurdo!
— Você está bem? — ele perguntou, dessa vez com alguma seriedade. Seus cabelos oscilando entre o rosa choque e o cinza. Quando se tratava de Edward Lupin, cinza era sempre sinal de preocupação. Ela confirmou com aceno de cabeça.
— Estou. — soou como uma mentira até mesmo aos seus ouvidos. Victoire Weasley sempre havia sido uma péssima mentirosa.
— Tem certeza? Você parecia meio verde ontem à noite. Sabe, logo depois do Chapéu Seletor gritar “corvinal”, surpreendendo todo mundo e fazendo o salão explodir em cochichos.
Vic lhe enviou um olhar irritado. A última coisa que ela queria era ser lembrada desse momento específico. Se até estranhos estavam surpresos, como sua família iria reagir? Ela sabia que precisava escrever para os pais, no entanto, ainda não havia encontrado coragem para isso. O que certamente explicava o fato de não ter sido mandada para a Grifinória, pensou amargamente.
— Estou ótima. — mentiu novamente, querendo apenas encerrar aquela conversa.
Teddy a analisou atentamente, então se levantou em um salto e a puxou para longe da mesa.
— Teddy! — a menina exclamou surpresa, enquanto o garoto a levava em direção a porta do Salão Principal — O que você está fazendo?
— Nós não vamos ter essa conversa aqui, Vic. — foi tudo o que disse, enquanto continuava a levar a amiga pelo castelo. Só parou quando ambos estavam em um corredor vazio. — Ok, pode falar.
— Falar o que? — Victoire perguntou, enquanto ajeitava a trança nos cabelos.
— O que está errado.
Ela abriu a boca para dizer que não havia nada de errado, porém o garoto a interrompeu.
— Não me diga que “nada está errado”. Eu te conheço melhor do que isso, Victoire Apolline Weasley.
Aquela era uma verdade. Teddy a conhecia melhor do que ninguém. Então, apenas suspirou resignada.
— Você acha que eles vão ficar decepcionados? — perguntou com a voz falhando, tocando a gravata azul e bronze de forma inconsciente.
O Lupin entendeu imediatamente que o “eles” se referia à família da amiga.
— Por você ter ido para a Corvinal?
A menina anuiu, lágrimas emergindo em seus olhos. O que fez o coração de Teddy se quebrar um pouquinho, não era certo que Victoire chorasse. Nunca seria certo que Victoire chorasse.
— É claro que não, Vic.
— Eu sou a primeira Weasley a não ir para a Grifinória em gerações.
— E daí? Se quer saber minha opinião, isso só mostra que você é a Weasley mais inteligente em gerações.
Havia tanta convicção na voz do garoto que Victoire não conseguiu não sorrir.
— Além disso, essas coisas não importam de verdade. Todas as casas têm seu valor e nós somos mais do que elas. Todos dizem que a tia Hermione foi a bruxa mais inteligente da sua geração e ela era uma Grifinória.
— Então você não acha que vão ficar magoados? Decepcionados? Ou me achar menos Weasley?
— A sua mãe nem estudou em Hogwarts, então acho que não vai se importar nenhum pouco com isso. E o seu pai não ficaria decepcionado com você nem você incendiasse Hogwarts. Tio Bill sofre de um caso sério de corujice paterna.
— Teddy! — a menina o censurou, mas estava rindo. As lágrimas esquecidas — É claro que ele ficaria decepcionado, se eu incendiasse Hogwarts!
— Nah, ele iria apenas fingir ficar decepcionado e te dar uma bronca, para parecer um adulto responsável. Mas não seria real. Você o tem nas mãos, Vic.
A menina balançou a cabeça.
— E o resto da nossa família?
Teddy não deixou de notar como ela havia dito “nossa” família e não “minha família”.
— Todos te amam demais para se importar com isso. E se qualquer um ameaçar falar algo, sua mãe resolve o problema. Você sabe como ela pode ser assustadora, quando se trata de defender quem ama.
Aquilo era um fato. Victoire respirou fundo, um pouco mais segura.
— Eu quebrei uma tradição de família. Isso é muito estranho.
Teddy sorriu maroto.
— Às vezes é bom quebrar as regras. Além disso, você fica muito bem de azul, Victoire Weasley.
As bochechas da menina se tornaram escarlate.
— Você também, Edward Lupin.
E apenas naquele momento o menino se deu conta de que seus cabelos estavam azuis. Azuis corvinal.
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Victoire Weasley nunca aprendera a falhar. O fracasso parecia antitético demais para alguém que tinha a vitória no nome. Ela chegara ao mundo em um 02 de maio, há dois anos exatos da Batalha de Hogwarts, da derrota do Lorde das Trevas e do fim da Segunda Guerra Bruxa. Todos sempre contavam, com sorrisos nos rostos, sobre como seu nascimento trouxera luz e vida nova à família Weasley. Sobre como os ajudara a vencer o luto e começar de novo. Ela era a prova de uma vitória, era inspiração, era vida renovada. Era também a mais velha de três irmãos e doze primos. Eternamente a primeira. O (bom) exemplo a ser seguido. A perfeição lhe fora imposta desde o primeiro instante e ela se agarra a ela, sem saber o que mais poderia fazer. Erros jamais seriam aceitos. Falhar nunca fora uma opção.
Sendo assim, quando seu chefe apareceu, naquela terceira-feira chuvosa, e a informou que achava que a moça deveria tirar uma licença, Victoire sentiu seu mundo rachar. Não era exatamente uma demissão. Ainda. Mas estava bem claro que seu desempenho profissional andava aquém do esperado, para usar um eufemismo. Ela havia falhado como mãe. Havia falhado como esposa. E agora falhava como medi-bruxa. Sua vida inteira estava ruindo e ela não fazia ideia de como lidar com isso. Não sabia como juntar seus pedaços. Não sabia como consertar a rachadura. Não sabia como fracassar. E a pior parte era que tudo o que queria era correr para os braços de Teddy Lupin. Porque Teddy sempre fora a única pessoa com quem ela se permitiu ser vulnerável. A única pessoa com que se permitiu ser qualquer coisa além de perfeita.
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Era um sábado frio e esbranquiçado de dezembro. A neve invernal dera seus primeiros sinais na madrugada passada, o castelo fora todo decorado em enfeites natalinos, a maioria dos estudantes estava em Hogsmeade e os que restavam em Hogwarts se divertiam, fazendo anjos, construindo bonecos e travando batalhas de bolas geladas. Victoire Weasley mantinha os olhos presos ao livro de transfiguração. Tinha os cabelos loiros presos em um coque, em volta de uma pena azul, um cachecol da corvinal no pescoço e uma ruguinha de frustração marcando sua testa. O quinto ano era um inferno!
— Andrew Smith vai te convidar para o baile de inverno. — Teddy Lupin informou, se sentando ao lado dela, na biblioteca quase vazia.
— Eu sei. — a menina respondeu, sem se sequer tirar os olhos do livro.
O baile de inverno se tornara uma tradição pouco depois do fim da Segunda Guerra Bruxa, quando os professores concluíram que os alunos – e o colégio em si – precisavam de um pouco de alegria e leveza. A chance de voltarem a ser jovens e sorrir. Era algo que vinha sendo mantido, desde então.
— E? — o amigo indagou.
— E o que?
— Você vai aceitar?
— Nah.
Andrew Smith era legal, porém Victoire não se imaginava valsando uma noite inteira ao lado dele. Na verdade, só conseguia se imaginar se dando ao trabalho de comparecer àquele baile, que tão claramente seria um desperdício do tempo que poderia estar estudando para os N.O.M.s, com uma pessoa.
— Por que não? — Teddy perguntou, fazendo a garota finalmente encará-lo. Os cabelos – bagunçados como sempre – dele estavam avermelhados naquele dia. Algo que indicava algum constrangimento. O rubro também tingia seu rosto. Ele usava um velho suéter amarelo e trazia uma coleção de brincos na orelha direita. A visão fazia o coração da Weasley saltar.
Aquilo estava ficando ridículo. Havia algo acontecendo entre os dois. Algo muito maior do que a amizade. Ela sabia disso e sabia que Teddy também sabia. Na verdade, todos sabiam. Amigos, colegas de classe, professores. Até mesmo a família deles. Especialmente a família deles. Começara como uma piada, uma brincadeira de Tia Ginny para irritar o pai dela, e logo todos estavam conjecturando sobre como seria incrível se Teddy e Victoire crescessem e se apaixonassem. No entanto, o tempo foi tornando cada vez mais claro que havia alguma verdade na brincadeira. A garota, inclusive, tinha convicção da existência de algum tipo de apostas entre os tios, sobre quanto tempo levaria para que ela e o Lupin se tornassem um casal. Talvez devesse se sentir ofendida, mas não sentia. Ela e Teddy eram simplesmente inevitáveis e qualquer um poderia perceber. Se conheciam desde sempre. Se amavam desde sempre.
Fora muito fácil para Victoire entender que estava apaixonada por Teddy, porque, sendo honesta, não conseguia se lembrar de um único instante em que não o houvesse amado. Poderia não saber nomear seus sentimentos antes, mas eles sempre haviam existido. E sempre haviam sido amor. Havia uma parte dela que sentia medo de se declarar e estragar a amizade tão bela que os dois compartilhavam. Essa parte, contudo, se tornava menor a cada dia. Porque aquele era Teddy Lupin e se havia algo do qual a garota nunca seria capaz de duvidar era do fato que Teddy Lupin a amava. Sem qualquer condição ou limite.
— Ele não faz meu tipo. — afirmou, se levantando da mesa e caminhando em direção as estantes. Lupin a seguiu, tropeçando nos próprios pés, da forma como ela sabia que faria.
— Ele é capitão do time de Quabribol da Grifinória.
— Eu não gosto de Quabribol. — a menina comentou, enquanto passava os olhos pelos livros.
— Ele é bastante popular, todo mundo o adora.
A garota deu de ombros.
— Uma pessoa agradável, mas não o suficiente para despertar meu interesse.
— Ele é bastante bonito.
— Bom, então eu suponho que você deveria convidá-lo para o baile, Teddy. Já que está tão determinado a exaltar as qualidades do rapaz.
Ela nem precisou olhá-lo para saber que o rubor em seu rosto havia aumentado e chegado até as orelhas.
— Só não quero que você se arrependa depois, Vic.
Victoire quase revirou os olhos.
— Não vou.
— Bom, de qualquer forma, imagino que metade dos rapazes de Hogwarts irá lhe convidar para o baile.
— Alguns até já convidaram. — ela contou e, pelo canto dos olhos, o viu paralisar. Sentiu vontade de sorrir. Teddy até ficava fofo, quando estava sendo tão inseguro e tolo. Ainda assim, a Weasley não estava mentindo. Havia recebido uma coleção de convites para aquele baile. Os rapazes a cercavam como abutres e desperdiçavam seu tempo com suas baboseiras sem fim. Era irritante e muito inconveniente.
— E você aceitou algum? — a corvina ouviu o medo na voz dele.
— É claro que não, Teddy!
— Por que não?
— Nenhum deles fazia meu tipo. — contou, ainda olhando os livros.
— E qual o seu tipo, Victoire?
— Metamorfomagos desleixados, que eu conheço desde criança, e são incapazes de fazer perguntas diretas. — ela afirmou, finalmente se virando para ele.
Estava exausta de jogos e de hesitações. Victoire queria Teddy Lupin e estava convicta de que ele também a queria. Os dois haviam nascido para ser muito mais do que apenas amigos. E se ela ia àquele baile idiota seria com ele ou mais ninguém. Era agora ou nunca.
— Victoire. — ele sussurrou o nome dela como se fizesse uma prece.
A garota se aproximou. Se aproximou. Se aproximou. Se aproximou até que pudessem sentir a respiração um do outro. Até que restasse um espaço ínfimo entre eles.
— Última chance de recuar, Edward Lupin.
Mas ele não recuou e com um beijo ela aniquilou qualquer centímetro que ousasse separá-los.
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O cheiro de maresia a atingiu no instante em que aparatou. As botas afundaram na areia, enquanto o vento bagunçava seus longos cabelos loiros. Uma tempestade se formava no oceano. Era tudo tão familiar que a mulher poderia começar a chorar, enquanto caminhava em direção ao Chalé das Conchas. Em direção a sua casa. Não importava quanto tempo passasse, aquela continuaria sendo a casa de sua infância. O lar de seu coração. Seu maior refúgio. O lugar para onde ela corria, quando não parecia haver nenhum outro lugar no mundo para ela. Victoire Weasley bateu suavemente na porta de madeira branca e aguardou.
Uma mulher, na faixa dos cinquenta anos, não demorou a atender. Ela ainda se parecia com uma deusa. Nem mesmo o passar dos anos poderia macular a beleza de Fleur Delacour, afinal. Para a moça, no entanto, ela era apenas “mãe”. E tudo o que ela mais precisava naquele momento era do colo de sua mãe.
— Victoire? — Fleur questionou assustada, não estava esperando a visita da filha. Especialmente uma visita sem avisos prévios, no meio da semana. Dominique e Louis certamente poderiam aparecer ali de forma espontânea e repentina. Mas não Victoire. Nunca Victoire. Se aquilo não lhe fosse suficiente para perceber que algo estava errado, um único olhar na primogênita bastaria para isso. A garota era a própria definição da desolação. — O que aconteceu, mon chéri? Qual o problema?
A jovem tentou encontrar palavras. Tentou traduzir seus sentimentos. Chegou até mesmo a abrir a boca para dizer alguma coisa. No entanto, não conseguiu. A visão da mãe, a olhando com tanto amor e preocupação, a fez quebrar. Partiu suas partes já repartidas e, quando se deu conta, Victoire já estava presa a um abraço, enquanto chorava desesperadamente. Ela não era capaz de definir quando tempo ficara assim. Fleur devia a ter levado para dentro da casa e se sentado com a filha no sofá, mas a moça sequer percebeu. Apenas chorou, como se o mundo estivesse acabando. Como se fosse novamente uma criança. De certa forma, era assim que se sentia.
Mas talvez não importasse. Aos oito anos, Victoire Weasley havia descoberto que a mãe era humana e não uma força invencível da natureza. Havia descoberto também que, assim como crianças, adultos também choravam e sangravam. Talvez fosse hora da mãe descobrir que a primogênita era humana. Que também chorava e sangrava. Talvez estivesse na hora do mundo inteiro descobrir isso. Porque a farsa da perfeição havia sido reduzida a ruínas. E a mulher já não aguentava mais fingir e já não sabia mais como triunfar.
A mãe, de qualquer forma, não fizera nenhuma pergunta. Apenas a mantivera perto, acariciando seus cabelos e cantarolando canções de sua infância. Pela primeira vez, em semanas, Victoire se sentiu segura para desmoronar. Chorou pelo que pareceram ser horas. Chorou até que não restasse uma única lágrima. Chorou até todos os soluços morressem. E, só então, começou a falar. Fleur serviu uma xícara de chá para a filha mais velha e ouviu atentamente, enquanto ela lhe narrava todos os seus tormentos. Ela já sabia sobre a perda do bebê, é claro, porém todo o resto lhe foi uma novidade. Uma novidade que, graças ao bom Merlin, ela ouviu sem julgamentos ou interferências.
— Às vezes eu acho que estou enlouquecendo. Porque eu sei que não faz sentido me sentir assim. Como se tivesse perdido um filho. Porque não foi o que aconteceu. Porque essa criança nunca chegou a nascer e algumas pessoas podem questionar se era sequer uma criança. Mas… mas… mas de certa forma existiu. E agora não existe mais. E eu não consigo lidar com isso, mesmo que não faça sentido. — Victoire desabafou.
Fleur entrelaçou as mãos as das filhas.
— Faz sentido, Victoire. Pelo menos, faz sentido para mim. Eu quase perdi seu irmão durante a gravidez, você deve se lembrar disso. — ela disse com um arrepio, detestava se lembrar disso — E se tivesse acontecido, teria sido uma perda devastadora. Para mim, seria como uma morte. Provavelmente uma experiência diferente de perder um filho que já nasceu, uma criança com nome ou rosto. Mas ainda seria uma perda. Uma perda muito real e dolorosa. Então, não, você não está enlouquecendo, Vic. Você está em luto. E tem todo direito de estar em luto.
— Eu odeio isso. — ela admitiu, enquanto mais lágrimas se formarem em seus olhos. No entanto, havia conforto em estar ali, segurado as mãos da mãe, se sentindo compreendida pela primeira vez. Conforto em saber que não estava enlouquecendo. Em sentir sua dor ser validada.
— Eu sei. Mas você vai passar por isso. Não vai esquecer nunca e é provável que a dor volte a bater à sua porta no futuro. Mas vai passar por isso. E não precisa fazer isso sozinha. Eu estou aqui e seu pai e seus irmãos e todos os seus primos e tios e avós. E o Teddy também.
A moça suspirou.
— Acho que eu estraguei tudo com o Teddy.
Fleur lhe enviou um olhar cético.
— Estou falando sério, maman.
— Victoire, eu conheço esse menino desde que ele nasceu e não consigo me lembrar de um único momento em que ele não fosse completamente louco por você. Bom, talvez os dois anos antes de você nascer, mas acho que isso não conta.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!Um sorriso involuntário se formou nos lábios da jovem.
— Eu fui horrível com ele por semanas, maman. Indiferente, fria, grosseira. O tranquei do lado de fora, enquanto ele tentava desesperadamente entrar. E então finalmente explodi e disse algumas coisas bem horríveis.
— Peça desculpas. — a mãe disse como se fosse simples.
— Eu falhei com ele, maman! Tudo o que ele sempre quis foi uma família e não pude lhe dar isso. E agora nem sei o que eu quero. E definitivamente não estou pronta para pensar em filhos. Não agora. Não tão cedo.
— Então diga isso a ele. Converse com ele. Seja honesta.
— E se ele não conseguir me perdoar? E se não achar que valho a pena. E se não conseguir amar essa versão de mim.
Fleur lhe sorriu com muito afeto.
— Vic, parte de estar casada, na verdade, parte de amar alguém, qualquer um, é confiar no amor dessa pessoa. É ser completamente verdadeira, honesta e vulnerável e confiar que a outra pessoa vai te amar por inteiro. Até as partes feias, até as partes confusas, até as partes difíceis. É acreditar que a outra pessoa vai te amar e ficar ao seu lado, mesmo que você não seja capaz de lhe dar um único instante de paz. — Fleur sorriu, como se risse de alguma piada interna — E essa é uma parte uma assustadora do amor. Acredite em mim, eu sei. Mas também é uma parte essencial. Tudo o que você pode fazer é ser honesta com o Teddy e confiar que ele ainda vai te amar mesmo assim. E se não amar, bom, eu conheço alguns feitiços bem horríveis e capazes de causarem uma morte lenta e dolorosa.
E aquela era mãe dela, Victoire pensou com um sorriso.
— Obrigada, maman.
— Sempre, mon chéri. — a mulher apertou as mãos da filha com mais força. — Antes de você ir, acho que preciso te dizer isso: você não precisa ser perfeita, Victoire. Nós lidamos com imperfeições e falhas muito bem nessa família. Você vem cuidando de todo mundo há muito tempo. Eu te agradeço por isso, mas está na hora de deixar que nós cuidemos de você também.
Victoire apenas assentiu, porque sabia que voltaria a chorar se tentasse dizer qualquer coisa. Porque sabia que a mãe estava certa.
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O livro voou da mão da garota, a sobressaltando. Victoire Weasley encarou o lado oposto da mesa e encontrou Teddy Lupin. A varinha em uma mão, o livro na outra.
— Você por acaso fez alguma refeição no dia de hoje. — ele nem tentou diminuir o tom. Ela era a única pessoa a estar até tão tarde na biblioteca. E, se fosse honesta, não se lembrava se havia ingerido alguma comida. Achava que havia almoçado, mas isso poderia ter sido no dia anterior, fazia tempo que não dormia de verdade.
— Eu... tomei café…? — ela sugeriu, recebendo um olhar irritado do namorado.
— Primeiro, café não é comida. Segundo, você odeia café.
— Eu não preciso gostar, Teddie, só preciso que me mantenha acordada.
— Não, Victoire, você precisa dormir. E comer. Não necessariamente nessa ordem.
A garota suspirou exasperada.
— Não tenho tempo para dormir ou comer, Teddy. Os N.O.M.’s estão chegando, preciso estudar.
— Não dessa forma insana. Isso não é saudável, Vic. Você é suficientemente inteligente para tirar notas boas e sabe disso.
— Notas boas não são suficientes. Eu preciso de notas perfeitas! — ela praticamente gritou. — estava tão estressada que mal conseguia conter a própria exasperação.
— Quem disse? — ele também elevou o tom.
Ninguém havia realmente dito ou chegado perto de verbalizar tais palavras, porém, ela sabia. Era o que esperavam dela. Todos sempre esperavam a perfeição dela. A filha exemplar, a irmã mais velha dedicada, a aluna brilhante, a Weasley genial. Além disso, os N.O.M.’s determinariam todo o seu futuro, um deslize ali e ela estaria destruída. Não podia falhar. Não sabia como falhar.
— Eu digo! — ela respondeu.
— Vic, é só uma prova…
— Não é só uma prova, Teddy. É uma prova que determina tudo o que eu vou ser. E se eu falhar, estarei arruinada para sempre.
— Você não vai estar arruinada para sempre, se não tirar nota máxima em todos os seus N.O.M’s, Victoire. Você tem 15 anos, pelo amor de Merlin!
— Eu estarei, sim! — ela gritou — Além do mais, minha família precisa disso. Meus pais precisam disso. Dominique não para de se meter em confusão, uma pior do que a outra. E você sabe muito bem que todo mundo está começando a se preocupar com o fato do Louis ainda não ter demonstrado o mínimo sinal de magia. Então…
— Então você tem que ser perfeita, porque seus irmãos não são? — Teddy estava incrédulo.
— Sim!
— Isso não faz nenhum sentido, Victoire.
— Não faz, porque você não tem irmãos ou… — ela se interrompeu bem a tempo. Mas a expressão no rosto do rapaz deixava claro que ele sabia exatamente o que ela estava prestes a dizer. Ele não tinha irmãos. Ou pais. — Teddy… Teddie.. Teddie… Não, não, não. Me desculpa. Eu não queria… Não estava pensando… — a menina irrompeu em lágrimas nesse instante. Lágrimas de raiva de si mesma, lágrimas de medo, lágrimas de exaustão. Estava tão, tão, tão cansada...
Esperou que Teddy lhe virasse as costas e a deixasse chorando sozinha. Merlin sabia que era o ela merecia. Que espécie de pessoa horrível diria algo como aquilo? O garoto, no entanto, apenas se aproximou dela, se sentando no chão – ela sequer havia percebido que deslizara até o chão – e a prendendo em um abraço.
— Eu... sinto… tanto.. tanto. — a Weasley tentou dizer, entre soluços.
— Eu sei, Vic.
— Teddy… eu…
— Shiii… — ele afagou os cabelos dela.
— Me perdoa, por favor. Por favor.
— Já está perdoada.
— Eu… não mereço…
— Isso sou eu quem decide.
— Você... devia me... odiaaaar. — ela explodiu em outra tempestade de lágrimas.
Teddy balançou a cabeça, a abraçando com mais força.
— Não posso te odiar, Vic. Especialmente quando você está uma bagunça tão grande.
— Eu sou uma pessoa horrível.
— Você é uma pessoa que precisa dormir. E comer. E relaxar. Não necessariamente nessa ordem.
— Eu falhei com você, Teddy.
Teddy ergueu o rosto da namorada delicadamente e a forçou a olhá-lo. Os olhos dela presos aos dele.
— Falhou e magoou, mas tudo bem, porque eu não preciso que você seja perfeita.
Aquela frase tão simples fez uma represa se romper dentro de Victoire e ela chorou ainda mais. Por um instante, chegou a pensar que iria se afogar nas próprias lágrimas. Mas então percebeu que Teddy ainda estava ali, a segurando. Percebeu que ele nunca a deixaria naufragar. Percebeu que Teddy sempre seria seu porto seguro.
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Um suspiro aliviado escapou dos lábios da moça, quando ouviu a chave girando na fechadura e a porta da casa se abrindo. Victoire Weasley estava começando a acreditar que Teddy Lupin não iria aparecer. Ela havia enviado uma mensagem para ele, naquela manhã, pedindo para que voltasse, pedindo para que conversassem. Ainda não havia recebido qualquer resposta e estava começando a se preocupar. No entanto, ali estava ele, parado em frente à porta, sem saber muito bem o que fazer com as próprias mãos, suas cores completamente desbotadas, os cabelos em um tom triste de castanho escuro.
— Oi. — ele disse desconcertado, enfiando as mãos nos bolsos das calças.
— Oi. — Victoire disse, igualmente desconcertada, enquanto se levantava do sofá.
Aquilo era tão estranho. Tão errado. Ela e Teddy não deviam se sentir como estranhos ao redor um do outro. Ainda assim, nenhum dos dois parecia saber muito bem o que dizer. Ou como começar. Então apenas se encararam em silêncio por um longo tempo. Ela queria chorar. Queria correr para os braços dele. Queria consertar tudo.
— Me desculpe. — os dois disseram ao mesmo tempo. E se olharam espantados.
— Você não precisa se desculpar, Teddy. Fui eu quem bagunçou tudo. — a mulher disse, torcendo os cabelos entre os dedos, como costumava fazer quando criança.
— É claro que preciso me desculpar, Vic. Você estava certa. Bom, não sobre a parte em que eu deveria sair por aí e procurar uma outra mulher. Mas sobre como, para mim, o bebê que você perdeu era uma ideia e não uma realidade. O sonho com um filho e não um filho real. Ainda era cedo demais para que pensássemos sobre nomes ou começássemos a decorar quartos. Cedo demais para algo que me soasse concreto. Então, sim, era apenas uma ideia. E, por mais que se aborto me tenha sido doloroso, a ideia de um filho pode ser transferida, pode ser superada. Não havia pensando em como tudo era mais real para você. E me envergonho disso. Eu estava tentando te entender, juro que estava, porém, não conseguia nem imaginar o que você estava sentindo. Eu sinto muito por isso, Vic. Sinto mesmo.
— Não tinha como você saber, se eu não te contasse. E tudo o que eu fiz foi te empurrar para longe.
— Não, eu devia ter sabido. Era meu filho também. Tenho pensado nisso sem parar, desde a nossa briga. Você estava certa. Por isso não voltei antes. Estava envergonhado demais para te encarar.
— Não, não, não! — Victoire se agitou. — Teddy, eu não quero que você se martirize por isso. Eu não te culpo por nada disso. Seus sentimentos fazem sentido. Você mal tinha evidências dessa criança. Minha barriga mal havia começado a crescer, não sabíamos o gênero, não tínhamos nomes ou nada concreto. Faz sentido que fosse muito mais uma ideia do que um fato para você. Para a maioria das pessoas, a medicina inclusive, não há nem como chamá-lo de criança ou qualquer coisa assim. Mas…
— Mas para você era diferente. — o Lupin completou e acenou com a cabeça. — Eu sinto tanto, Vic.
— Eu também, Teddy. Sinto muito por ter me fechado, por ter te empurrado para longe. Por ter descontado toda minha raiva em você. Mas eu preciso que você saiba que não estava com raiva de você. Estava com raiva de mim.
— De você?
A mulher deu de ombros.
— Foi minha culpa, certo? Devo ter feito algo errado. Ou o meu corpo estúpido fez. Não faz diferença. A responsabilidade de cuidar desse bebê por nove messes era minha e eu não consegui. — ela tinha lágrimas nos olhos.
— Victoire, não faz isso! Você é uma medi-bruxa, sabe que isso não faz sentido. Nada disso é sua culpa.
— Então, por que eu sinto que é? — ela perguntou, com a voz rachando — E você queria tanto um filho… Eu falhei com você e então mal conseguia te olhar, porque isso me fazia lembrar de como havia falhado com você. De como havia fracassado com uma das pessoas que mais amo no mundo. E de como havia fracassado em ser uma mãe.
Teddy se aproximou dela e a trouxe para seus braços.
— Ei. — disse, erguendo o rosto da esposa — Você não falhou comigo. Está tudo bem. Nada disso é sua culpa.
Victoire finalmente começou a chorar, Teddy a abraçou mais forte.
— Eu sinto tanto, Teddy.
— Eu também sinto muito, Vic. Sinto demais.
— Eu não acho que consiga pensar em filhos tão cedo. Está tudo uma bagunça e aparentemente eu estou de luto. — ela quase riu amargamente —Eu apenas não consigo, Teddy. — acrescentou.
— Tudo bem. Nós não precisamos pensar em nada disso agora. E, se no futuro, você já não quiser ter filhos, tudo bem também.
— Mas você queria tanto uma família….
— Você é a minha família, Victoire. Você sempre vai ser a minha família.
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O sol brilhava em um céu sem azul e sem nuvens, a areia reluzia em um tom amarelado, o mar nunca estivera mais calmo e Victoire Weasley e Teddy Lupin estavam enroscados em um abraço infinito. Era o último dia de verão e, em menos de 24 horas, a menina estaria partindo para o seu sexto ano em Hogwarts, enquanto o rapaz iria estudar História Bruxa em Londres. Só se veriam novamente no natal e essa não era uma perspectiva que agradava nenhum dos dois. Victoire e Teddy nunca souberam muito bem como viver um sem o outro.
— Promete que você não vai me esquecer. — a menina pediu em um sussurro.
O rapaz a olhou incrédulo.
— Você está falando sério?
Ela deu de ombros.
— Você sempre pode conhecer alguma moça mais velha, mais inteligente, mais interessante…
Ele riu.
— Não existe no mundo alguém mais interessante do que você. Além disso, eu nunca poderia te esquecer, Victoire Weasley. Nem se tentasse por mil vidas.
A garota sorriu.
— E você? — ele questionou — Talvez existam garotos mais bonitos, inteligentes ou interessantes em Hogwarts. Talvez você me esqueça.
Ela riu.
— Nah, nenhum garoto de Hogwarts chega aos seus pés. Além disso, você sabe que eu só tenho olhos para metamorfomagos desleixados, que conheço desde sempre, e que são incapazes de fazer perguntas diretas. Eu nunca poderia te esquecer, Teddy Lupin. Nem se tentasse por mil vidas.
Ele riu.
— Nós vamos dar um jeito, não é? — Victoire perguntou, ainda se sentindo um pouco insegura.
— Você me ama?
— Com todo meu coração, Teddy,
— E eu te amo com tudo o que há em mim, Vic. Enquanto isso for verdade, nós sempre daremos um jeito.
Os dois sorriram um para o outro e, então, se beijaram. Era um beijo, mas também era uma promessa. Uma promessa de que tudo ficaria bem.
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A primeira lembrança coerente de Victoire Weasley era de um garotinho de cabelos azuis, segurando sua mão, enquanto ela chorava. Não se recordava com precisão de mais do que isso. Mas tão pouco importava. A parte relevante daquela memória sempre seria o fato de que Teddy Lupin estivera ao seu lado desde o começo. A moça se pegou pensando nisso naquela manhã. Chovia do lado de fora, no entanto, olhando a cena da janela, ela percebeu que o pior da tempestade já havia passado.
A tarde anterior havia sido longa e difícil. A noite ainda mais. Victoire e Teddy conversaram por horas, choraram bastante e então conversaram um pouco mais. Para a mulher ainda era difícil falar sobre tudo o que havia acontecido, porém, também era bom. Ou, ao menos, necessário. A fazia se sentir mais leve, menos sozinha e bem menos louca. O Lupin havia sugerido que ela conversasse com algum profissional e ela achava que faria isso. Ao longo dos anos, ela vira como terapia ajudara Louis a lidar com todas as questões que a ausência de magia lhe trouxera. Talvez estivesse na hora de descer do pedestal e seguir o exemplo de seu irmão mais novo. Era uma ideia engraçada, após anos se sentindo na obrigação de ser um modelo de conduta, mas nem por isso uma ideia ruim.
No mais, ela ainda não tinha muitas certezas. Sua vida continuava uma grande bagunça e a jovem não fazia ideia de como iria reorganizar seu mundo. Também não entendia muito bem como lidar com o próprio luto ou o que fazer com tempo livre de sua licença do trabalho. Uma parte dela ainda sentia o sabor amargo dos próprios fracassos, entretanto, havia uma outra parte que começava a achar que eles poderiam ser uma libertação. Pela primeira vez, em 27 anos, Victoire não precisava ser perfeita e essa perspectiva era aterrorizante, mas também (surpreendentemente) empolgante.
Teddy não havia saído de seu lado em momento algum e os dois acabaram adormecendo juntos, no sofá da sala. Era um sofá pequeno demais para duas pessoas e, ainda assim, aquela fora a melhor noite de sono que a Weasley havia tido em semanas. Os dois haviam resolvido se perdoar mutuamente. Tanto o que havia, de fato, para ser perdoado, quanto os erros que só existiam na mente um do outro, mas que, mesmo assim, pareciam precisar de absolvição. Os problemas dos dois não estavam resolvidos. Nem de longe. Aquele, contudo, parecia um começo promissor.
— Você está bem? — Teddy perguntou, enquanto oferecia uma xícara de chá à esposa. Os cabelos dele haviam atingido um tom muito claro de azul. Tão claro que mais parecia cinza. A mulher, no entanto, sempre conseguira enxergar todos os tons do Lupin e sabia que – definitivamente – havia um pouco de azul ali. Não um azul vibrante, mas ainda assim azul. E, quando se tratava de Teddy, qualquer tom de azul era também um tom de esperança.
— Não. — ela admitiu, fazendo careta para o café que o homem trazia na própria xícara — Mas está melhor do que ontem. Então, acho que é uma pequena vitória.
O Lupin sorriu para ela.
— Pequenas vitórias ainda são vitórias, Vic.
— Você não vai embora de novo, não é? — ela indagou, de repente. Não queria nunca mais se afastar dele. Talvez o relacionamento dos dois não fosse tão perfeito como ela um dia achara. E talvez a vida conjunta estivesse bem longe de um sonho. Mas, a moça finalmente percebeu, ela não precisava de perfeição ou de sonhos, precisava apenas de uma realidade ao lado de Teddy Lupin.
— Nem mesmo se você ordenar que eu suma da sua frente. Você não vai se livrar de mim tão cedo, Vic.
— Nós vamos dar um jeito, não é? — Victoire perguntou, porque, apesar de tudo, ainda se sentia um pouco insegura.
— Você me ama?
— Com todo meu coração, Teddy,
— E eu te amo com tudo o que há em mim, Vic. Enquanto isso for verdade, nós sempre daremos um jeito.
Os dois sorriram um para o outro, abandonaram as xícaras na pequena mesa da sala e, então, se beijaram. Era um beijo, mas também era uma promessa. Uma promessa de que tudo ficaria bem.
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