Just Another One

1 Capítulo único — End


Capítulo único — End

A xícara de café em minha escrivaninha me fitava insanamente. A insônia perseguia-me e perturbava meu ser sem pausa alguma, e tudo isso por causa dela. Por mais quanto tempo eu iria procrastinar esse momento?

É, meu amor, hoje iremos nos reencontrar. Já faz um ano desde nosso último encontro, não é?

Tomei o último gole da minha bebida amarga e decidi deitar. Sabia que não iria conseguir dormir, mas mesmo assim, queria ter um pouco de sossego antes de vê-la e tudo recomeçar.

Obviamente, à noite somos todos mais vulneráveis aos demônios que perturbam nossos pensamentos e fazem com que relembremos cada instante oportuno, de lágrimas e sorrisos. Mais especificamente, minhas lágrimas e seus sorrisos.

De início, lembrei-me da primeira vez que nos vimos. Seus belos cabelos morenos adornavam com perfeição seu rosto fino e pálido, complementando ainda mais sua beleza, a qual eu jurava ser impossível de complementar. Você usava uma blusa amarela de tecido leve, que mais tarde eu descobriria se tratar de sua peça de roupa favorita, e bermudas jeans na altura do joelho, um tanto quanto despojadas.

Nossos olhares se cruzaram com timidez, mas você foi corajosa o suficiente para se aproximar.

“Está calor hoje, não é?” — ecoou sua voz suave.

Conversamos até não se ter mais nenhum assunto para se falar, quando decidimos partir, cada um para sua casa. Porém, este foi o dia em que me dera o primeiro pedaço de você: seu número de telefone.

Eu estava disposto a colecionar todos os pedaços.

Algumas semanas depois, você veio me visitar em casa. Dessa vez, não usava mais roupas soltas e despreocupadas, como em nossos encontros anteriores. Seu corpo era delineado por um justo vestido vermelho, capaz de converter qualquer homem ao pecado. Completamente em contraste, seu rosto emitia a mesma pureza que senti na primeira vez em que te vi.

Mais tarde, esse vestido estaria jogado no chão do meu quarto, e você estaria se rendendo à todas minhas carícias e desejos. Jurei para mim que agora você era minha. Mal sabia que eu quem estava me rendendo à você.

E aí eu conquistei outro dos seus milhares de pedaços.

Seus beijos eram doces e aveludados, capazes de me hipnotizar por horas. Seus abraços eram reconfortantes, meus prediletos, os únicos que eu tinha necessidade de sentir. Suas risadas, ah, suas risadas... Simplesmente, as mais gostosas que já ouvi. Cada um desses pedacinhos seus compunham minha coleção, que eu expunha com orgulho.

Por incrível que pareça, suas risadas ficavam ainda mais gostosas se você as soltava de surpresa, como quando eu te dava margaridas. Eram as flores que você mais gostava.

Muitos dos meus amigos afirmaram que eu estava louco, que homem algum poderia se render desse jeito. Sim, eu estava louco. Completamente desprovido de lucidez. Mas o que fazer quando a loucura é seu único ponto estável?

Você também tinha seus ápices de loucura: quando afirmava que eu era seu herói, embora eu não fosse tão forte; quando me abraçava forte e não queria mais soltar, embora você também não tivesse força para me manter preso; quando dizia que eu era único, embora...

Eu estava quase completando meu quebra-cabeça, mas uma única peça faltou.

Ou melhor, o único pedaço.

Aos poucos, você foi entrando cada vez mais profundamente em minha vida. Agora, os sábados não eram mais os mesmos sem tê-la por perto. Os domingos não eram mais os mesmos sem nós dois enrolados em cobertores enquanto assistíamos à um bom filme. As segundas não eram mais as mesmas sem receber uma mensagem sua, afirmando estar ansiosa para me ver. Nenhum dia era mais o mesmo sem seu sorriso para me aconchegar.

Porém, todos os dias começaram a não serem mais os mesmos quando você se afastou de mim.

Não fui capaz de aceitar sua ausência, e como todo homem inconformado, corri atrás. Quem diria que iria encontrar um outro alguém ocupando o meu lugar na sua vida?

Você tentou se explicar, e usando de seus eufemismos me contou: eu era apenas um passatempo, assim como muitos outros homens que caíram em sua armadilha barata, encoberta por um belo rostinho de porcelana.

“Pensei que não tínhamos nada sério.” — ecoou mais uma vez sua voz suave, mas dessa vez, não soou da mesma forma.

Eu fingi não me importar. Dizem que o amor é um jogo, não é? Acabara de perceber o quão boa jogadora você podia ser. De qualquer jeito, não pude negar: estava perdidamente apaixonado por você. Sim, fui idiota, cego, imbecil. Qualquer adjetivo depreciativo encaixava-se bem. Mesmo assim, fui idiota, cego, imbecil e apaixonado.

Notei que a peça que faltava no meu quebra-cabeça era algo que eu jurava ter, mas na verdade, estava fora do meu alcance: você.

Como eu seria capaz de esquecer tudo? Cada palavra e cada toque preencheu-me até que não sobrasse espaço para mais nada. Só fui perceber do que realmente se tratavam as palavras e toques quando já estava completamente preenchido por mentiras.

Obviamente, eu não fui capaz de esquecer. Já faz mais de um ano que isso aconteceu, e mesmo após você partir completamente da minha vida, eu não te esqueci.

Cada vez que lembrava do quanto fui enganado, mais magoado eu ficava. Cheguei a um ponto em que não era mais preenchido por suas mentiras, e sim por toda a mágoa que elas originaram.

De qualquer modo, toda mágoa que é guardada há de ser expelida em algum momento. E ela foi expelida há exatamente um ano atrás.

Lembro-me perfeitamente. Fui aproximando-me dentre o campo gramado, à sua procura. Depois de alguns minutos, eu finalmente achei. Estava escondida, ignorada e vazia, contrastando completamente com você. Ajoelhei-me, e com as margaridas em mão, as entreguei. São suas flores favoritas, não? Ou ao menos eram.

Depositei-as com cuidado sobre sua sepultura. Eram as únicas flores que decoravam a lápide fria e crua.

Mesmo em seu leito, você continuou a me esconder coisas. Ainda não sei porque você se foi, porque me deixou. Todavia, eu te perdoarei. Assim como perdoei suas mentiras, perdoarei também sua ida sem aviso algum. As margaridas são minha forma de comprovar que apesar de tudo, eu te perdoo. Sei como você ficava feliz em recebê-las.

Hoje, eu estaria depositando-as novamente.

Fiz novamente meu caminho dentre o campo gramado. Mas dessa vez, não estava escondida, ignorada e vazia. Minhas margaridas continuavam lá. As únicas flores que ainda decoravam a lápide fria e crua. Agora, elas receberiam companhia. Depositei mais um buquê de margaridas, que estavam vivas assim como meus sentimentos por você.

Eu fui apenas mais um na sua vida, mas o único que lembrou de você na sua morte.

O amor não mata a morte, a morte não mata o amor. No fundo, entendem-se muito bem. Cada um deles explica o outro.

— Jules Michelet

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!