Just A Villain

18 Um homem covarde


A mão fina da garota segurou o pescoço do homem, o fazendo engasgar com o próprio ar. O homem temia pela sua vida, mesmo sabendo que já não a tinha mais porque ela pertencia a garota a sua frente, bem, ali era apenas um receptáculo, porque na verdade, era o homem que dominava aquele corpo, que queria o ver morto.

— Eu confiei em você – diz, seus olhos estavam cheios de lágrimas, perdera as contas de quantas vezes havia dito isso no passado, odiava ter que repetir, mas lhe era necessário, ele tinha que despejar toda a raiva de uma vez, porque Chiang não teria outras vidas para se redimir, não teria uma consciência para tentar fazer melhor, se bem que ele apenas repetiu os mesmos erros, porque era obediente demais e medroso ao extremo para exigir mudanças. Aquelas mudanças não existiriam ali, porque ela não era possível naquele vórtice temporal, por isso ficaria a responsabilidade para as futuras gerações, definir seus próprios finais felizes e equilibrarem as coisas entre o bem e o mal – eu o odiei por todos esses anos, e o que fez comigo, você... você deveria me proteger.

— Mas... – ele conseguiu dizer, mas novamente se entalou com as palavras – por... favor.

Balthazar o soltou, fazendo-o arfar no chão.

— Eu o protegi Balthazar – Chiang diz mexendo na garganta – eu juro que foi apenas isso que o fiz, porque Hilla teria lhe matado se eu não pusesse você no livro.

— Cego – Balthazar ri incrédulo, não acreditava naquela pouca vergonha – Hilla me ofereceu um acordo, ela traiu a nós dois, ela jurou tirar a maldição da minha pequena se eu entregasse os meus poderes, e eu aceitei, mas ela não podia controlá-lo e o que lhe restou de opção foi me trancar no livro para que eu não fosse aquele que acabaria com a eternidade dela, mas advinha – Balthazar ri com escárnio – eu a destruirei mesmo assim, porque depois que eu acabar com você, eu usarei os próprios triunfos dela, para trancar tudo que um dia foi Poneros.

— Você não pode fazer isso – Chiang parecia ter ouvido um absurdo, estava ultrajado, mas Balthazar estava mais.

— Não só posso, como vou – Balthazar sorriu maléfico, se aproximando do rosto do homem – e deixe-me contar um segredinho bem sujo para você meu caro, aquela que liderará os vilões, será a descendente de Jumbo, aquela maldita vidente – ele sorri ao ver o espanto no rosto de Chiang – ah, você não sabia de onde ela tinha vindo? Oh, que pena, mas deixa eu lhe informar, Jumbo previu tudo isso, e deixou que acontecesse, sabe porquê? Porque ela não se importa, porque o nosso destino é mais importante do que a salvação coletiva.

— Você está mentindo!

— Estou mesmo? – Balthazar parecia testar todos os limites de Chiang usando aquele rostinho bonito de Harriet, falando nela, estava a muito tempo esperando pelo seu corpo de volta, bem, ela o teria de volta, logo, logo – você sabe bem quem são eles.

O silêncio se instalou ali, porque a verdade era apenas uma, e eles sempre souberam dela, mesmo que tivessem decidido que era mais conveniente ignorar.

— Você não é assim Balthazar – Chiang diz, em uma última tentativa de o fazer desistir daquilo – você queria sempre o bem, lembra? Você deseja um mundo bom.

— O passado é tão engraçado – Balthazar ri, enquanto negava e encarava Chiang de cima, achava o velho um miserável e agora vê-lo de joelho, apelando para um sentimento bom vindo de seu íntimo, lhe parecia patético – eu tive muito tempo para pensar nisso Chiang, você me deu anos de uma vida inteira, a idade daquelas crianças, então sim, eu tive muito tempo para mudar de opinião por me sentir amargurado com a sua falsidade.

— Nunca foi...

— Sua intenção? É, você já disse isso – Balthazar dá de ombros – mas agora é tarde meu caro – ele indica a direção da floresta, estavam ali perto, e algo poderoso parecia acontecer dentro dela, é como se uma força muito grande estivesse tomando conta, quase tão poderosa quanto aquela que criou o próprio reino deles.

— Você ainda pode desistir, ainda pode deixar toda essa loucura de lado e se livrar do livro.

— O livro de Douros é um objeto interessante Chiang, ele nos mostra muito, e com muito eu quero dizer, tudo que você fez – Balthazar ri de escárnio e Chiang arregala os olhos – eu sei o que você desejou, padrinho – Balthazar voltou a segurá-lo pelo pescoço, só para olhá-lo no fundo dos olhos – eu sei que você a amava, tanto quanto eu amei, porque era a sua filha, a filha que você deixou ser criada por outro homem porque não tinha amor suficiente por si próprio, você me invejou, você não queria que sua filha casasse com um monstro, não era assim que me via? – Balthazar ri amargurado enquanto apertava mais o pescoço do homem, este que apenas chorava, não tinha mais palavras, nem em sua mente, nem na garganta apertada, ele apenas merecia o seu fim – seu erro foi ser cegamente obediente, porque se não fosse, poderia ter descoberto por si próprio o quão incrível foi a filha que VOCÊ condenou ao sono eterno.

Balthazar apertou a garganta de Chiang até lhe tirar o ar, mas não foi aquilo que o matou e sim a sua energia sendo sugada para dentro do corpo da garota. Aquela era a última vez que faria algo ruim, porque dali para a frente tudo seria culpa inteiramente do destino.

Ele caminhou em direção a floresta, enquanto suas memórias o levavam direto para o passado, o mesmo passado que ele se juntaria em breve, o único onde poderia encontrar a sua bela.

Ele sentia tanto a falta dela, que nos últimos momentos de lucidez, foi seus belos olhos que viu, foi um futuro que não teriam que desejou, e foi a vontade de nunca ter sido escolhido que reverberou por sua mente e existência caótica.

Ele sabia que nem todos eram escolhidos para terem um padrinho, e sabiam que aqueles eram donos do próprio destino, havia visto Elsa, Moana, Merida, e todas as outras no livro de Douros, o original, aquele que não poderia ser modificado. E bem, elas terão a própria sorte, e viverão bem, bem até demais, talvez isso seja pelo fato de não haver mais padrinhos no futuro, ou talvez seja apenas porque elas realmente não precisavam deles, seja o que for, estará feito.

A questão daquele livro, é que ele nunca pôde ser alterado, todos os pergaminhos gerados por ele, foi verdadeiro, bonito e belo, mas aqueles que desejavam brincar de senhores do destino, acharam uma magia antiga e rara, capaz de alterar o pergaminho, e por isso o segundo livro nasceu, a sombra do primeiro, mas completamente falso, descrevendo coisas que se quer poderiam ter existido. O livro de Douros original foi a prisão de Balthazar por muito tempo, mas ele lhe mostrou muitas verdades, e a única verdade que não poderia ser concertada, era a do passado de um homem covarde.