Just A Villain
20 Bondade

A energia que provinha daquele objeto era suficiente para arrastar tudo que estava presente em seu território, a cidade estava sendo sugada como um vórtice e todos os seus pedaços estavam caindo dentro daquele enorme buraco negro em forma de páginas azuis com dourado, ninguém ali nunca viu tal magia, nunca havia visto um objeto mágico sendo tão poderoso. Mas aquele objeto mágico em si, continha tanta fúria, tanta magia acumulada, tanto ódio dos criadores e dos habitantes de Poneros, que ele mal podia ser contido.
Os quatorze ali presentes desejavam que aquilo parasse, ou que o ancião ainda estivesse ali para arcar com seus pecados, mesmo que para isso precisasse dizer-lhes o que eles poderiam fazer, para ajudar aqueles que ainda estavam de pé.
— Precisamos detê-lo – Owen grita chamando a atenção dos outros – não podemos deixar o vórtice chegar a Auradon, o futuro depende disso.
— Ele não vai parar, mas nós podemos detê-lo, precisa haver algo, sempre há – Ross diz com um suspiro, afinal, eles já haviam tentado de tudo para deter o livro, já haviam usado magia de convergência, já haviam atacado o livro diretamente e até tentaram laça-lo com uma rede mágica, mas de nada adiantou e o livro continuava sugando tudo e todos, até a fonte havia sido sugada para dentro dele levando consigo um pouco do tormento.
— O sacrifício – Pandora fala com a garganta seca, ela tinha informações demais para saber que o livro só pararia quando tudo ali estivesse destruído, pois ele queria vingança, o mago preso em seu coração queria que Poneros ruísse. Aliás, queria que todo aquele mundo criado pelos criadores fosse pelos ares.
— Pandora – Bella chama a atenção da amiga com cuidado, não podiam doar suas almas, não podiam fazer aquilo – isso não, eu não posso, nós não podemos, não há volta, seremos condenados.
— Nós já somos Bella – Pandora fala encarando a amiga e lhe lança um sorriso triste – somos condenados desde que nascemos, não somos criados pelos nossos pais, nem os conhecemos, somos criados por um único propósito, servir os malditos felizes para sempre, nós somos ruins.
— Ruins por dentro – Ravenna fala recebendo um aceno positivo – se devemos ser quem somos, então que seja.
Eles se entreolham naquele momento de silêncio, certos de si, perderiam o resto da bondade que tinham, seriam os últimos heróis daquele lugar, mas em contrapartida, se tornariam aquilo que mais temiam, aquilo que mais lutavam para não ser, porque eles já eram quebrados e ruins por dentro.
A intenção ali era aceitar a magia do livro, era que ele se dividisse em quatorze partes, que tomasse o coração de cada um ali e pudessem torná-lo o pior de si. Eles acabariam com a energia do livro, mas também acabariam com eles próprios.
— Vocês não podem fazer isso – June insiste, aquela era a famosa fada madrinha – deve haver outro jeito, vocês não precisam fazer isso, Balthazar está cego de ódio pelo tempo que passou nutrindo sentimentos ruins dentro da floresta dos condenados.
— Balthazar se tornou aquilo que os criadores queriam que ele se tornasse June – Declan fala – ele deveria ser um herói e foi transformado em um vilão, nós devemos isso a ele.
June engole em seco enquanto mantinha seus olhos grudado nos seus amigos, a garota não havia ficado muito por ali, já que logo quando se formou, teve que partir para cuidar da menina Ella.
— Não há mais criadores, não há mais livros, e não vai haver mais padrinhos – June alerta – é isso mesmo que desejam? Vocês serão ruins.
— Nós já somos – Dandara fala e sorri triste.
— Quando entrarmos, feche o livro – Asafe fala para June que assente pronta – obrigada por tudo.
— Foi um prazer – June fala e eles voltam a encarar o livro.
Eles se reúnem em uma roda e seguram as mãos uns dos outros, firme, fechando os olhos, preparando a si mesmo para aceitar o destino.
— O canto dos condenados – Pandora fala e todos começam a recitar.
De todos os contos e histórias, seremos nós quem protegeremos o destino, de todas as paginas e tintas, seremos nós quem guiaremos a trilha, de todos os príncipes e princesas, seremos nós quem os abençoará, de todos os contos escritos, seremos nós quem os realizará, de todos os padrinhos e madrinhas, seremos nós quem irá postergar, porque do destino eu nasci e do destino eu irei voltar, porque o herói que habita em mim, um vilão se tornará.
De cada um deles, uma lagrima solitária caiu, como parte de um ritual, um que lhes condenaria, mas seria ele quem salvaria o futuro daqueles que mereciam um. Todos juntos adentram o livro, fazendo uma grande quantidade de magia ser expelida. E aquela era a deixa para June, a mantenedora de todos os segredos daquele lugar, a última madrinha existente, porque depois daquele dia, seus amigos não existiriam mais. Ela utilizou o próprio livro diante de si para criar aquilo que vocês já sabem, a barreira da ilha dos perdidos, e lá, todos os vilões dos contos de fadas foram aprisionados.
Asafe se tornou Rumpelstiltskin. Belladona se tornou Malévola. Connor se tornou Jafar. Dandara se tornou Úrsula. Declan se tornou Hades. Eleanor se tornou a Rainha de Copas. Harriet se tornou Yzma. Kane se tornou Gargamel. Kian se tornou Capitão Gancho. Naomi se tornou Gothel. Owen se tornou Scar. Pandora se tornou Cruella de Vil. Ravenna se tornou a Rainha Má. Ross se tornou o Dr. Facilier. E os heróis dali em diante seriam apenas vilões, como devia ser desde o início, como havia sido destinado, como havia sido condenado. É triste dizer que eles não se lembrariam daquilo, eles se lembrariam apenas da sua vida de maldade, mas é certo dizer que quanto menos pessoas soubesse daquilo, melhor os filhos deles poderiam ser, afinal, fora para aquilo que haviam se sacrificado, para dar ao seu legado, a chance de decidir entre o bem e o mal.
Se formos pensar na vida de cada vilão, de fato eles nunca foram vilões legitimamente, por trás de cada ambição em suas histórias, há uma pitada de amor, uma pitada de heroísmo, uma pitada de algo que ninguém definitivamente teria pensado, bondade.
“Algumas lendas são contadas, algumas se tornam pó e outra ouro, mas você vai se lembrar de mim, lembrar de mim por séculos – Fall Out Boy”.
Fim.
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