Não pude acreditar. Eu fui escolhida. Eu iria para os Jogos. A multidão me olhava com pena, ou alívio. Pude ouvir a menina que estava ao meu lado sussurar "boa sorte" e foi então que a ficha caiu. Brooky repetiu:

"Cassie Stevenson? Venha querida, suba!"

Dei alguns passos e me virei para tentar enxergar minha mãe, mas acabei vendo Abi. Ela me observava de casa, ou pelo menos, tentava. Quando eu subisse no Palácio da Justiça, ela certamente me enxergaria. Me virei para Brooky, que me olhava sorridente, subi as escadas e parei ao seu lado.

"Senhoras e senhores, Cassie Stevenson!"

O silêncio permaneceu, me fazendo ouvir as águas do rio onde eu pescava para ter alimento. Eu só pensava em Abi. Como seria sua vida sem mim? Ela precisa de mim. Tão nova para perder a única irmã. Eu queria chorar, minhas lágrimas cairíam no chão, demonstrando a minha fraqueza. Mas somente uma lágrima caiu, e eu permaneci forte, como sempre fui.

"Bem, vamos terminar isso logo." — disse Brooky

Ela andou até a outra bola. Novamente, mergulhou sua mão nos papéis e retirou o primeiro que ela pode segurar. Voltou ao microfone, retirou o colante e abriu o bilhete que continha o nome de meu novo parceiro de Distrito.

"Dan Clark!"

Procurei por este nome em minha cabeça, mas não fazia idéia de quem era. Olhavam para Dan Clark assim como olhavam para mim, com pena ou alívio, mas ele reagiu normalmente ao ouvir seu nome. Dan era muito atraente. Seus olhos eram azuis e seu cabelo castanho combinava com sua pele bronzeada. Ele veio andando calmamente em direção à nós, sem olhar para trás. Por sua expressão era possível julgar que ele estava muito determinado, e nada o impediria de vencer. Ele aparentava ser mais velho que realmente era.

Ele não me olhou por nem um segundo, até o momento de me cumprimentar na frente de todos. Suas mãos estavam suadas, mas ele estava muito calmo. O sol batia em seus olhos claros e Dan olhava em meus olhos profundamente. Brooky interrompeu nosso aperto de mão dizendo:

"Cassie Stevenson e Dan Clark, os tributos do Distrito 4!"

A porta atrás de nós se abriu e eu me direcionei imediatamente à ela, deixando os outros expostos ao sol forte. Lá dentro pude ver um corredor e nele haviam algumas portas. Pacificadores me olhavam, um deles indicou com a cabeça que eu devia entrar na primeira porta e sem hesitar entrei e fechei a porta.

Eu estava sozinha. Era uma pequena sala, era lá que eu esperaria por minha família. O chão era macio, coberto por um carpete azul. Havia também um sofá muito confortável. Eu poderia dormir durante meses naquele sofá, mas sua cor vermelha me lembrava sangue, e sangue me lembrava dos Jogos. O nervosismo da colheita consumiu toda a minha energia e eu me sentia fraca. Percebi que já estava deitada e sem sapatos. A sala estava mais fresca que o palco do Palácio da Justiça.

Abriram a porta sem ao menos bater. Pude ver um Pacificador e ele olhou para o chão, ele olhou para a pequena Abi. Ela permaneceu parada, enquanto a porta era fechada novamente. Ela ainda estava longe de mim. Eu me agachei e abri meus braços, e Abi correu até eles, dando-me um grande abraço.

"Você não pode ir! Eu preciso de você, todos nós precisamos!"

"Tudo ficará bem, Abi, eu te prometo. Nada jamais irá nos separar. Se lembra disso?"

"Sim." — disse ela com uma voz triste.

Abi chorou em meu colo por um tempo, mas parou imediatamente quando um Pacificador bateu na porta e disse que Abi só tinha mais cinco minutos para se despedir. Eu dei algumas instruções para ela, por exemplo, quais são os remédios que mamãe devia tomar de manhã. Nossa mãe tem uma doença, ela não se lembra de nada mas aquele remédio a ajuda lembrar de todo o resto. Ela acorda sem memória alguma, então Abi teria que se lembrar sempre.

"Eu te amo, Cass! Muito!" — disse ela

"Eu te amo mais, abelhinha."

"Você pode me prometer mais uma coisa?"

"Claro, o que você quer?" — eu perguntei.

"Você me promete que tentará voltar para mim?"

Aquilo realmente mexeu comigo. Abi era a criança mais madura que eu já conheci. Ela ainda tinha lágrimas escorrendo quando eu respondi:

"Eu te prometo." — e dei um beijo em sua testa.

Depois disso, Abi saiu da sala, me deixando sozinha novamente. Seus cinco minutos haviam passado e eu estava prestes à entrar no trem que nos levaria para a Capital. Vesti meus sapatos, ajeitei meu cabelo e enxuguei minhas lágrimas antes de sair. Ao abrir a porta, me deparei com Brooky e Dan me aguardando para finalmente partir.

"Tudo bem, querida?" — disse Brooky

"Sim, obrigada." — eu respondi

Ela então nos guiou até o carro que nos levaria ao trem. A Capital não era tão distante do Distrito 4, somete meia hora para quem vai pelo trem-bala que eles oferecem aos tributos de cada Distrito. Quando entrei no trem, pude ver que ele se parecia muito com a sala que eu fiquei, porém muito maior, o chão era macio e azul, igual ao outro. Havia muita comida, e eu estava faminta, mas não comi nada antes de Brooky nos permitir comer.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.