Jurisdição do Amor
2 Capítulo 2: O Reencontro
Seis anos depois
Yoo Mi estava sentada em seu lugar no tribunal, revisando, pela última vez, as pastas repletas de documentos. Os óculos escorregaram levemente pelo nariz, mas ela não se importou. Inspirou fundo, mantendo a postura impecável, pronta para enfrentar um julgamento decisivo. Seu cliente, herdeiro de uma corporação poderosa, ajeitou a gravata nervosamente ao lado dela.
“Tem certeza de que conseguimos sair vitoriosos dessa?”
Yoo Mi assentiu, quase como se falasse consigo mesma, mantendo a calma aparente. Seus olhos percorreram a sala, verificando que, até aquele momento, ninguém ocupava a bancada oposta.
O silêncio do tribunal foi quebrado apenas pelo eco dos passos quando a porta pesada se abriu novamente. Yoo Mi ergueu os olhos sem expectativa e então seu corpo enrijeceu.
Lee Jae Min.
Lee Jae Min?
Depois de seis anos, o que ela mais temia acontecera: ter de enfrentá-lo como advogados profissionais. Por um instante, seus pensamentos congelaram, tentando processar a presença dele ali, imponente e confiante. O cabelo impecável, o terno ajustado, o ar de quem já estava acostumado a vencer. O olhar dele finalmente encontrou o dela e, por um segundo, seis anos de silêncio explodiram em um único instante.
Ela respirou fundo, tentando manter o controle, enquanto ele caminhava até a bancada oposta com aquele sorriso irritantemente seguro. Pequenos detalhes, como o jeito de ajeitar a gravata ou o brilho nos olhos, pareciam gritar lembranças que ela havia tentado esquecer.
O juiz entrou, impondo silêncio com a voz firme, e a audiência começou. Fez uma breve explicação sobre o caso para todos os presentes e, então, anunciou:
“Advogada da defesa, por favor, pode iniciar.”
Yoo Mi reuniu todas as forças e se levantou. Era rotina para ela, mas naquele dia, com ele ali, era diferente. Sentiu cada olhar se fixar nela, mas não podia vacilar. Cada gesto, cada palavra, precisava ser perfeito ou aquele reencontro poderia custar caro.
“Excelentíssimo, está claro que a negligência da empresa adversária causou prejuízos financeiros e morais irreparáveis ao meu cliente,” a voz de Yoo Mi ecoou pelo tribunal, firme e segura. “Apresentamos contratos, registros de auditoria e e-mails internos que comprovam cada falha. Cada documento reflete a realidade, não suposições. Conforme o Art. 421 do Código Civil, a liberdade contratual deve respeitar a função social do contrato, algo que foi completamente ignorado pela parte contrária.”
Ela voltou ao assento, sentindo o peso do olhar de todos. Como se o universo quisesse provocá-la, a voz que sempre cortava seus nervos surgiu ao seu lado.
“Com todo respeito, Excelentíssimo, a advogada da parte contrária parece se apegar aos papéis em vez de enxergar a realidade dos fatos,” Jae Min disse, avançando com aquele sorriso irritantemente seguro. “Testemunhas foram instruídas, relatórios selecionados, mas a verdade é que o cliente dela tenta encobrir suas próprias falhas. E vale lembrar o Art. 422 do Código Civil. A boa-fé objetiva deve guiar todas as relações contratuais, algo que a defesa parece ignorar.”
O tom era firme, quase cortante, e ele não olhava para o juiz, apenas para ela. Yoo Mi cerrou os punhos sob a mesa, retornando ao ataque verbal.
"Se tivesse lido os relatórios com atenção, advogado Lee Jae Min, saberia que detalhes isolados não alteram a análise completa dos fatos. E como prevê o Art. 187 do Código Civil, abuso de direito não será tolerado, algo que certas condutas tentam mascarar.”
“Ah, os resultados, vejo que ainda acredita em versões cuidadosamente montadas para parecerem convincentes. Mas ignorar o Art. 421 e distorcer a função social do contrato é um erro grave.”
As sobrancelhas dela se arqueavam cada vez mais, a voz afiada.
“Convencimento não substitui a verdade. E a verdade, advogado Lee Jae Min, é que você parece especialista em dramatizar documentos.”
Um murmúrio percorreu o tribunal. Ele sorriu, lembrando um detalhe antigo.
“Curioso, Yoo Mi-ssi. Até na faculdade, você falava mais alto quando perdia a razão.”
O ar entre eles ficou pesado, como se cada palavra fosse uma lâmina prestes a cortar. Eles se levantaram quase ao mesmo tempo, passos medidos, olhares fixos, o mundo reduzido ao duelo silencioso entre eles. Pequenos gestos denunciavam a tensão: pastas apertadas, respirações curtas, mãos que tremiam discretamente.
“Ahjussi!”
“Agassi!”
O martelo do juiz caiu com estrondo, interrompendo o silêncio carregado.
“Ordem no tribunal! Advogados, comportem-se ou a sessão será encerrada.”
Mas nada parecia alcançar os dois. Permaneceram imóveis, olhos fixos, a rivalidade de anos comprimida em segundos. Outro golpe seco ecoou no mármore.
“Diante da conduta imprópria, esta audiência está encerrada e será remarcada.”
O cliente de Yoo Mi se levantou em silêncio, o rosto marcado por desapontamento. Ao passar por ela, inclinou-se apenas o suficiente para sussurrar.
“Então é isso? A filha do Sr. Han Seok deixa a emoção falar mais alto que a razão?”
Ele se afastou sem esperar resposta.
O ar se tornou pesado, sufocante. Yoo Mi, rígida por fora, sentia-se em ruínas por dentro. Abaixou a cabeça e começou a recolher os papéis espalhados pela mesa.
Foi então que sentiu um olhar.
Não era o do juiz, nem de pessoas curiosas. Era mais profundo, severo. Quase cruel. Por um instante, entre a multidão, ela jurou ter visto seu pai, Han Seok, fitando-a com o mesmo desdém que sempre temera. Ela piscou, e ele já havia desaparecido.
Engolindo a angústia, forçou as mãos a se moverem, guardando as pastas com precisão mecânica. Totalmente desestabilizada, uma sombra caiu sobre sua mesa.
“Há quanto tempo, Yoo Mi-ssi,” a voz de Jae Min cortou o silêncio, carregada de ironia. “Confesso que imaginei reencontrar você em qualquer lugar, menos em pé contra mim em um tribunal. Afinal, por onde você andou? Ouvi todos os boatos possíveis sobre você.”
“Boatos?” Ela riu, desacreditada.
“Sim. Um deles dizia que você havia abandonado a carreira e se casado com um herdeiro francês,” disse ele, apoiando-se na mesa. A sala já estava vazia, restando apenas eles. “É verdade? É por isso que conseguiu desaparecer sem deixar rastros?”
Ela não respondeu. Recolheu a bolsa, ajeitou os óculos e passou por ele com passos firmes, mantendo a compostura.
“Me diga que é só um boato, por favor,” ele insistiu, a curiosidade evidente em cada palavra.
Yoo Mi parou, impaciente, virou-se e percorreu-o com os olhos.
“Boato ou não, o que você tem a ver com isso? Quem é você para querer saber da minha vida?” baixou o olhar por um instante, tentando se controlar, e depois o ergueu com firmeza. “Diferente de você, eu tenho coisas a fazer. Tenha um bom dia, Jae Min-ssi.”
E saiu.
Ele ficou parado, observando a porta se fechar. Por um instante, pensou em deixar o ódio de lado e tratá-la como estranha. Mas, assim que ouviu aquela última palavra, o ressentimento antigo voltou a latejar.
Jae Min inspirou fundo, sentindo o gosto amargo da raiva. E saiu logo em seguida.
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