Jurassic Park

11 Capítulo 10 - Um recomeço


Os quatro se encontravam em silêncio dentro da redoma menor. Do lado de fora, um tubarão circulava pelo vidro. Pela primeira vez sabiam como era se sentir dentro de um aquário. Jessy abraçava os joelhos a um canto. Nima apoiava a cabeça na parede e mantinha uma das pernas esticadas. Gerry encarava o vazio a sua frente. Sarah tentava não pensar na dor da perna.

— Alguém mais está ferido? — o veterinário cortou o silêncio. — Todos estão bem?

— Você quer dizer, além de estarmos presos numa bolha de vidro por culpa daquele “desgraciado”?! É, estamos bem como a morte!

— Não diga isso. Alguém pode... alguém virá atrás de nós! Scott ... Ele seguiu o Yoder. Trará ajuda!

— Se ele estiver vivo... — a latina completou. Sarah engoliu seco.

— Ela está certa — a loira comentou — Mesmo que os dois consigam subir, será fácil pra ele dizer que Scott está louco, assim como os outros soldados que vimos. Até descobrirem a mentira, será tarde para nós... 90 minutos. É o tempo que levará até lançarem as bombas.

— Além disso, Yoder já está com o recipiente! Levará até o vendedor e dirá que nós morremos.

— Bem, talvez ele não vá — Jessy soltou o comentário.

— Como?

— Eh... hum... Ele não está com o recipiente... — e a menina ergueu a lata em suas mãos, fechando os olhos, aguardando a próxima bronca.

— O que...? — Gerry se aproximou.

— Desculpe. Eu prometi não roubar mais. É só que...

— Tudo bem. Isso será um brinde.

A menina sorriu.

— Gente! — Sarah exclamou se levantando do chão com dificuldade. Todos então viram que a água começava a entrar pelo laguinho.

— Ah, ótimo! — ironizou o homem.

— Por que está inundando? — Nima questionou.

— Deve ser a porta quebrada. Estamos perdendo pressão de ar. Esse lugar vai encher d’água completamente em pouco tempo! E não podemos voltar pela rotunda...

— Espere! Eu lembrei! — Nima comentou — Talvez ainda haja uma maneira da gente sair.

— Como?

— Nadando.

— Nadando?! Não iremos fazer isso há vinte pés com esse Mosassauro passeando por aí!

— Talvez. Olhem esse encanamento — e apontou para um cano que seguia por toda a extensão da redoma até do outro lado do mar. — Ele leva para fora do lagoon. Há cavernas nos fundos. E essas cavernas se conectam com outras que levam direto para a praia. Nós podemos utilizar os encanamentos como proteção. Como peixes dentro dos túneis de pedra.

— E você acha que podemos segurar a respiração por todo o percurso?!

— Usamos equipamento de mergulho! — sugeriu Jessy.

— Ora, e onde vamos... — a fala do homem se perdeu ao ver a menina abrindo um armário e encontrando roupas e cilindros de ar.

— Não, não, não! Nós nem sabemos os princípios básicos de mergulho!

— Eu sei nadar — a menina deu de ombros.

— Sabe? — mais uma surpresa para o homem.

— Eu devo ter tido umas duas aulas — Sarah confessou. — Já vi meu irmão fazer isso.

— Nós temos que distrair o Mosassauro. — Nima encerrou — Arrume um jeito e saímos daqui.

— Todas contra mim? — o homem cruzou os braços — Hum...

As garotas começaram a vestir os uniformes. O de Jessy ficou um pouco grande e tiveram que improvisar uns elásticos. Gerry encarou os cilindros atrás dele:

— Ah, qual é... — disse pra si mesmo — Não deve ser tão difícil.

— Pai, é só não mexer na válvula de combinação. Todas elas são pré-definidas.

— Desde quando você sabe sobre mergulho?

— Lembra daquelas aulas que você não me deixou ter?

— A sua mãe passou por cima da minha decisão?

— Hum... bem. Steve me ensinou. Era um segredo...

— O namorado da sua mãe?

— Sim... Se isso serve de consolo, eu tenho princípios e Steve dormiu no sofá por uma semana.

Gerry decidiu não falar mais sobre isso e subiu as escadas da redoma, até alcançar um quadro:

— Criadouro B, Piscina 4. Certo, este deve ser o programa da alimentação de hoje — o homem encarou os painéis e acionou um deles. Avistou ao longe um cardume ser liberado do tanque — Isso deve mantê-lo ocupado.

Logo o gigante se aproximou e começou a se divertir. Gerry desceu para vestir seu uniforme: um preto com laterais verdes. Jessy estava de amarelo, Nima de vermelho e Sarah, de azul.

— Está tudo pronto, querida?

— Hum, pai... eu mudei de ideia. Esses tanques são diferentes. Eu nunca usei um desses. Não estou preparada pra isso...

— Ei... Você pode fazer isso.

— Não... E se algo der errado? Eu não quero fazer isso! Eu não quero que ninguém se machuque!

— Jess. Eu sei que não digo isso o suficiente, mas eu te amo. Sei que às vezes sou super protetor, mas é porque Sarah me deixou, e não quero que aconteça o mesmo com a gente. Mas agora, tudo que importa é passarmos por isso. Todo o resto pode ser deixado pra depois. São coisas pequenas comparadas com isso. Além disso, você estava certa sobre tudo. Eu nunca te dei a confiança que você merece. E nunca te dei a chance de provar isso. Mas aqui, hoje, e agora, você fez mais do que suficiente para merecer essa confiança. Eu sei que você é capaz de grandes coisas. Confio em você, Jessy. E sei que isso é algo que você pode fazer.

A menina sentou no chão e abraçou os joelhos:

— Eu só... não quero que você vá embora! Estou tão cansada de você sempre ir embora!

— Eu sei querida. Mas eu estou aqui agora. E não vou deixar você sozinha. Eu estarei com você o caminho todo. Agora, qual é o sinal de mergulhador para “ok”?

— O sinal é universal, pai! Dãã!

— Ah, certo, certo. Prometo fazer o sinal pra você conferir, ok?

— Estou com medo.

— É mais assustador do que a vez em que você pegou o tio Wallace limpando o nariz dele?

— Aquilo foi tão nojento. — ela sorriu — Eu não sabia que era, como ele diz, protético.

Sarah riu e Nima fez o mesmo.

— Você está pronta?

— Sim, vamos fazer isso.

— Então, como essas coisas funcionam?

— Bom, esses são circuitos fechados dos respiradouros. Eles parecem personalizados. — ela apontou para uma máscara — Esse é o regulador. É projetado na máscara. Ajuda na respiração... Não segure a respiração.

— Ok. Não segurar a respiração.

— Esse tanque é pequeno. Talvez dê 15 minutos de ar.

— É o suficiente? — perguntou a Nima.

— Não sei dizer.

— Maaaas — Jessy continuou — Ele recicla o ar que você respira. Então deve dar uns 45 minutos. Tente respirar com calma, se não você usará o ar todo de uma vez. Você pode até mesmo estragar os depuradores de CO2.

— Isso parece ruim...

— Intoxicação por CO2. É totalmente ruim. E bem, o traje é em grande parte automatizado. Irá te manter como uma boia e gerenciar seu oxigênio.

— E tente nadar pouco.

— Nada pouco?

— Não fique se debatendo. Isso atrai os tubarões.

— E quanto a mosossauros?

— Provavelmente eles também.

Gerry ainda pegou um arpão e aceitou a máscara que Sarah lhe entregava. Desceram o tanque e após alguns metros acostumados ao ambiente, alcançaram a tubulação. Jessy ia na frente; virou-se para o pai que fez sinal de ok. A menina nadou por debaixo do tanque e seguiu o caminho com calma.

Sarah alcançou Jessy; pensava se a perna ferida poderia chamar atenção. Atrás dela, Nima se preparava para descer quando seu tanque de ar ficou preso na abertura. Ela começou a se mexer, tentando se soltar. Gerry veio atrás, ajudando a soltar o cilindro.

Pouco atrás, o barulho de metal tilintando chamou a atenção do Mosassauro. Nima conseguiu passar no instante em que o Mosassauro enfiava a cabeça por debaixo do cano. Gerry foi jogado para trás e a latina foi para o alto. Ela avistou uma cabine aberta por baixo e nadou até ela. O dinossauro aproximava-se em seguida.

Nima conseguiu entrar na cabine a tempo enquanto o gigante predador nadava ao redor procurando uma forma de pegá-la. Ele pareceu desistir e sumiu por detrás de uma parede rochosa. Mas estava enganada: logo a mulher pode ver o gigante se aproximando em alta velocidade, em direção a cabine.

A latina pensou rápido ao avistar o pino de segurança da cabine. Forçou a tranca e soltou o pino. A cabine caiu e o animal passou direto por ela. Gerry fez sinal para Nima permanecer parada e esta devolveu o sinal.

O mosassauro passou então a perseguir Jessy que nadava por entre os dutos. O predador tentava abocanha-la, mas sempre acabava prendendo a mandíbula nas passagens. A menina alcançou um buraco no meio de rochas e foi puxada para dentro, dando de cara com Sarah. Gerry e Nima entraram pouco tempo depois. Jessy foi na frente com Gerry: aguardavam o mosassauro mudar de lado e atravessavam para o próximo buraco. Atrás, Nima e Sarah repetiam o caminho. Os quatro passaram por debaixo da cauda do animal e pararam numa pilha de rochas.

O gigante destruiu a pilha com a cabeça e ficou com metade de seu corpo preso no arco de pedra. O grupo aproveitou para nadar em direção a cela do animal. Gerry se virou para ele e disparou com o arpão. O tiro acertou o botão de acesso e a porta se fechou a tempo. Continuaram nadando, dessa vez mais aliviados, e logo alcançaram a superfície de um laguinho.

Largaram os uniformes na beirada e saíram para a claridade da gruta, suas roupas secando no sol.

— Ali, o farol! — apontou Gerry. A praia estava logo ao lado e no final da plataforma de madeira, o porto com um navio atracado.

— Sim, vamos por lá! — concordou Nima. Sarah apertou a mão de Jessy e sorriu para a garota, comemorando um novo nascer.

— Mas parece vazio — Sarah comentou.

— Talvez um dinossauro tenha comido eles — Jessy sugeriu.

— Talvez Billy tenha matado a todos.

E no instante em que disse isso, o mercenário atingiu Gerry na cabeça.

— Bem, bem, bem. A fortuna vem para os corajosos.

Todas se viraram para ele. O rapaz tinha inúmeros hematomas pelo corpo, quase irreconhecível.

— Pai! — Jessy se abaixou ao lado do homem.

— Eu pensei que tinha trabalhado em vão. Não contava com a nossa pequena ladra aqui. Bem jogado, Jess. Bem jogado — ele fez uma reverência para a menina. — Mas então, eu pensei que tinha enterrado meu bilhete para fora desta ilha, no fundo do mar. Mas eis que, os filhos da mãe, sobrevivem.

— Imbecil, o que fez com o Scott?! — Sarah mancou até ele.

— Ah, seu namorado. É claro. Ele está ali, ó. Dormindo como a bela adormecida.

Sarah o avistou amarrado contra um mastro, a cabeça pendendo pra frente, cortes pelo corpo e hematomas como os de Billy.

— Mas espere aí! Vocês vieram aqui nadando?!

— Seu desgraçado! — Nima gritou — O que seus chefes irão pensar quando descobrir que você tentou nos matar?!

— Mas eles não irão saber disso. Não sei como chegamos a esse ponto, Nima. Você era a última pessoa que pensei que podia confiar. As coisas não começaram assim, mas tínhamos trabalhado numa solução mutuamente benéfica no acordo! Mas agora se quer tenho isso. Tudo que sobrou pra mim, foi a droga do recipiente. Agora, entre pra mim garota.

Um soco na face de Billy o tirou dos eixos. Nima alongava braços e pescoço se preparando para enfrenta-lo.

— Sabe, as coisas não precisavam ser desse jeito. Vamos nos abraçar e nos beijar, e compartilhar desse pagamento, como planejamos.

— Você fala muito, Yoder. Nós iremos brigar ou ter uma conversa entediante?

Billy mandou três socos em Nima que desviou de todos.

— Vamos Nima, você também é uma mercenária como eu. Você tem contas a pagar! Esses três realmente valem tudo isso?

— Não é mais sobre o dinheiro! Agora, cale a boca e lute!

Nima lhe acertou um soco e ele desviou do segundo. Avançou contra ela que desviou, mas levou uma joelhada na barriga. Billy então sacou uma faca. Ele avançou por cima, mas Nima bloqueou o braço e acertou em sua costela. Bloqueou uma investida de frente e chutou sua barriga, empurrando-o para trás. Desviou de mais uma facada, mas foi atingida pela segunda, abrindo em corte em seu braço.

Billy avançou mais uma vez, empurrando Nima contra a grade elétrica. Esta segurou, tentando impedir de se aproximar. No último instante ela se afastou e empurrou a cabeça dele contra o choque, sendo atingida também.

Ambos caíram, a lata logo adiante. Recuperaram a consciência e uma luta se iniciou para quem conseguia se levantar primeiro e chegar até a lata. Nima foi a primeira e acertou o joelho contra a cabeça de Billy. Ela alcançou a lata, mas um soco a deixou tonta.

— É por isso que brigamos? — o mercenário ironizou — Tá querendo bancar a heroína?!

Gerry acordou. Sarah desamarrou Scott que recobrou a consciência e apoiou um dos braços dele em seu corpo.

— Sarah... Eu...

— Shhh... Não fala nada agora. Consegue andar?

— Claro...

Adiante, Billy rodeava Nima. O chão então tremeu; da mesma forma que todas as vezes anteriores.

— Você quer estragar nosso negócio?! — Billy continuava.

— Jessy...

— Eu percebi, pai...

Billy ergueu a cabeça de Nima e preparava um soco:

— PARE!!! — gritou Jessy. Ela e Gerry permaneceram parados de um lado e Billy e Nima do outro, o mercenário com o soco parado na metade do caminho. Sarah estava com Scott do outro lado, ambos também imóveis.

O T-Rex farejou Jessy que fechou os olhos segurando a respiração. A lata de spray estava parada logo adiante dos pés de Gerry. Ele esticou um deles com cuidado e chutou o objeto para a beira da plataforma. A lata rolou pelo chão e Billy não suportou: correu em direção ao frasco. Não deu outra, o T-Rex o abocanhou e engoliu de uma vez.

A lata voltou para o chão e foi a vez de Nima correr até ela.

— Corram! Corram! — ele gritou.

Gerry colocou Nima e Jessy dentro de um contêiner e chamou o T-Rex para o outro lado. O animal derrubou a pilha de metal e Jessy escorregou de dentro, ficando pendurada numa viga. A lata rolou para o lado, prestes a cair. Nima olhou da lata para a garota e no último instante segurou a mão de Jessy. A lata caiu e o T-Rex pisou em cima, encarando as duas na beirada da viga.

— Sarah, a lancha — Scott indicou — Temos que chegar até lá.

— Certo. Você fica aqui e...

— Não! Você fica!

— Scott ... Não seja burro! Você nem consegue andar!

— E você consegue pilotar uma lancha?!

A menina torceu o nariz e tornou a apoia-lo nos ombros, caminhando a passos firmes até a lancha poucos metros da plataforma. Gerry avistou-os e entendeu o plano: precisava ganhar tempo. Atirou um pedaço de madeira contra o T-Rex e correu para o outro lado.

Seguiu pelos corredores de contêineres, o animal derrubando tudo atrás de si. Precisou se jogar no chão para desviar de uma das gigantes caixas que caíam em cima dele. A caixa bloqueou o caminho entre os dois. O T-Rex começou a empurra-la com a cabeça enquanto Gerry andava para trás, pensando em qual caminho seguir.

Abriu a grade do contêiner e escalou, alcançando o topo de outro contêiner. Correu por cima dele, a cabeça do T-Rex surgindo em seguida. Desviou da mandíbula e saltou do outro lado para o contêiner seguinte. Saltou para o seguinte, quase perdendo o equilíbrio enquanto o animal batia contra eles.

Quando alcançou o último, o dinossauro o ergueu. Gerry desceu o contêiner como um escorregador, caindo dentro de uma pequena cela. O T-Rex encaixou a cabeça dentro da cela e Gerry começou a girar pelo ar, tentando se manter preso ao fundo. Por fim, caiu de lado, a abertura da cela dando de frente para a plataforma.

Scott ligou a lancha e ele e Sarah seguiram para perto de Nima e Jessy. Sarah ajudou as duas a entrarem. Gerry vinha em seguida, o T-Rex em seu encalço. O homem corria como nunca fizera em toda a sua juventude. Scott corria com a lancha em paralelo à plataforma. Na última beirada, Gerry saltou e se pendurou no barco.

— Pai! — a menina gritou. Sarah e Nima ajudaram-no a subir.

— Conseguimos... — o veterinário suspirou.

— Uhuuu!!! — Scott comemorou acelerando em direção ao barco que já seguia para o continente.

Nima encarava a ilha com tristeza:

— Acredite em mim: o mundo será melhor sem esse recipiente.

— Eu não, Gerry. Minha filha não.

— Pessoal! — Jessy os chamou, mas foi ignorada.

— Nima, eu fiz uma promessa. Vou ajudar você a voltar para Dallas com a gente. Nós acharemos um jeito pra você e Mariquita...

— Pessoal! Quanto esses embriões valiam? — Jessy questionou abrindo uma comporta da lancha repleta de dinheiro.

Sobre suas cabeças, alguns Pterodátilos voavam pela orla, em direção ao sol que brilhava intenso. Talvez aquela seria a última visão de dinossauros que teriam para o resto da vida. Bem, era o suficiente, ninguém mais ali queria ver aqueles animais de novo.

Mas... talvez não.

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