Jurada
2 Sorte na vida...
Notas iniciais
Os capítulos podem sofrer edição a todo o tempo.
O sorteiro tinha acontecido na tarde de um domingo, mamãe estava na cozinha terminando seu famoso Estrogonofe de frango abrasileirado, como havia apelidado.
Eu e meu irmão estávamos na frente da televisão, todos estávamos ansiosos para saber quem seria os sortudos a entrar para a tão desejada lista dos vinte próximos famosos vampiros do ano a se mudarem para o Planalto.— Coloque a mesa para mim querida.— Já vou mãe!Sai correndo aproveitando mais uma dos muito comerciais das marcas patrocinadoras do evento, todos queriam ser lindo e glamorosos como eles, sabendo disso muitas marcas se aproveitavam para enviar seus produtos e fazer o Merchant nos horários nobres.— Ainda não acredito que não tentou participar do sorteio, teria sido a salvação da família, quando eu tinha a sua idade era tudo que eu sonhava.Revirei os olhos enquanto colocava os pratos desajeitadamente na mesa.— Mãe, não vamos discutir sobre isso de novo — era só disso que falávamos nos últimos dias — Sabe muito bem que não quero ir embora, e você precisa de mim para ajudar a cuidar da casa e de Nick, você não aguentaria um dia sem mim! Olha as hipóteses são mínimas, são apenas dez em todo o país.— Eu sei, eu sei — disse colocando a travessa fumegante de Strogonofe cheia de batata palha no meio da mesa, o cheiro me fez salivar — apenas não me conformo de você ter que sacrificar um sonho apenas por minhas escolhas erradas.— Não acho que estou sacrificando nada, gosto de viver aqui. Olha meus devaneios de criança já não são os mesmos.— Ainda acho que você madura demais para sua idade.O comercial tinha acabado e logo sairia o anúncio, não pude conter a empolgação e joguei o último prato em cima da mesa e saí correndo em direção a sala, a louça passou direto pelo forro e caiu no chão fazendo um barulho de porcelana estilhaçando.— Mesmo que mais desajeitada e azarada que o normal — mamãe me olhou feio se saiu para buscar a vassoura e a pá.— Desculpe! — dei um grito por cima do ombro.Ela voltou com os itens e começou a resmungar.— Isso vai sair da sua mesada — e começou a recolher os cacos — não aguento mais você destruindo as coisas de casa, logo não vou ter pratos para servir as visitas.— Mas mãe, o repórter já começou a fazer a entrada da família real, eu não queria perder.— Sem mais! — encerrou a discussão — para quem não se inscreveu você está muito ansiosa.— Não estou ansiosa — fingi um falso desdém e acrescentei — é só que Felícia se inscreveu — prometi que contaria tudo assim que ela saísse do hospital.Felícia era minha melhor amiga, e tinha sofrido um acidente de bicicleta a uns dias atrás. Um carro ultrapassado no sinal vermelho enquanto ela atravessava a faixa da ciclovia o choque foi frontal, o que rendera a ela algumas costelas quebradas e uma luxação no braço. O quarto de hospital era simples da qual tinha sido internada não tinha televisão, prometi que contaria todas as fofocas a ela e o resultado assim que o saísse.Na televisão, Carlos o jornalista começou narrar a entrada da família Real, todos deslumbrantes em suas vestes se direcionavam para as cadeiras (que mais me pareciam tronos). Ao lado estava cabine gigante de trem 6 metros de altura lotada de papeis que voavam para todos os lados com a força do ar.— Vossa majestade — disse a voz de Karlus na TV — ansioso para conhecer os novos membros de sua corte?A voz a seguir foi firme e audível como um político em campanha para eleições.— Tenho certeza que a mão de minha filha Seraphine escolherá nada mais do que os melhores, e todos serão recebidos pela minha família esplendorosamente bem.Cheio de gestos suntuosos o rei Henrique realmente era magnífico, tanto de beleza quanto de presença, já que não parecida ter muito mais que 45 anos. O que sabíamos que não era verdade, uma vez que desde a Revelação (como chamamos quando eles se mostraram ao mundo) apenas tínhamos tido mais um Rei.— Venham comer, o almoço já está pronto.Terminando de arrumar a minha recém peripécia minha mãe chamou.— Mãe, podemos comer na sala só hoje? Não quero perder um minuto do sorteio — pediu Nick de mãos juntas.Sabendo que era um evento que só acontecia uma vez por ano ela cedeu.— Tudo bem façam seus pratos.Felizes com a exceção nos servimos rapidamente da comida, arroz branco com o famoso “Estrogonofe Abrasileirado” de mamãe era uma refeição simples, mas deliciosa. Corremos o máximo que podíamos para não perder nada, quando retornamos a sala o sorteio já estava para começar.— Princesa Seraphine, poderia se direcionar à cabine?— Com prazer.Reparei nas roupas que ela vestia, um vestido branco de tecido fino e maleável que caía em várias camadas a partir da sua cintura na cor branca, mas não como gelo, eram como Marfin e brilhavam com pedras no busto a luz do ‘flashs’ das câmeras, não saberia identifica-las brilhantes já que nunca tivera ganhado uma joia na vida, não havia dinheiro em casa para tal luxo.
Ela entrou na cabine e imediatamente os papéis começaram a voar suavemente a sua volta, deu um suave pulo três metros acima do chão e pegou um papel, passou pela fenda no vidro para o apresentador com um sorriso encantador. Às vezes era fácil esquecer que eram vampiros, apenas terrivelmente lindos.O apresentador revigorante leu o papel rapidamente.— Thomas Strineg da província de Esperança.E assim os nomes foram sendo ditos ao longo que a princesa Seraphine foi pegando um por um, ao dizer cada nome multidão que fora ao evento vibrava e aclamava assim que era pronunciado por Karlus, acompanhar na praça da Explanada os teatros e eventos eram as únicas vezes em que podiam ficar tão próximos da família real e por consequência de vampiros, exceto raras exceções. Várias adolescentes e seus pais de todos os lugares do reino aguardavam e torciam ansiosamente a cada nome pronunciado.— Sinto muito não ter ido filha, sei como você e Felícia esperavam por esta viagem.Dei de ombros.— Tudo bem, sem ela não teria sido tão divertido, irei o ano que vem.Quando fui vendo que o nome de Felícia não tinha sido dito nos últimos nove papeis fui perdendo o interesse, preparando minha mente para consolá-la.— E finalmente o último — saiu a voz distante na televisão — Joselie D'Paule da província de Vitória.A plateia explodiu em gritos e emoção, e a família real inteira se levantou para aplaudir dez que tinham sido anunciados finalizando assim o sorteio.— Esperem, me desculpem — disse Karlus interrompendo os aplausos — houve um equívoco, parece que vou ter que consultar o regulamento do sorteio.Ele gesticulou com o braço, e alguém do palco veio correndo para averiguar a situação. O silêncio pairou no local, a curiosidade era palpável através da multidão enquanto palavras eram trocadas entre o Karlos e a equipe, quando ele finalmente disse no microfone.— Como podem ver — ele levantou a mão para a câmera — temos mais de um nome para o décimo sorteado.A imagem apareceu tanto no telão para a multidão e se refletiu para nós pela televisão dentro de casa. Na parte de trás do papel entregue pela Princesa Seraphine havia outro grudado, entrei em choque quando a câmera focou e ele foi revelado era meu nome ali.— Vejo que a situação ficou complicada uma vez que se eu apenas tivesse pego o papel ao contrário teria lido este outro nome que estava grudado ao da Srta. Joselie — continuou a voz na TV.Nick deu um grito abafado e começou a correr pela casa gritando.— Ela ganhooou! Ela ganhoou!Olhei para minha mãe em pânico, enquanto ela olhava atônita para a televisão com a boca totalmente aberta.— Uma vez que seria injusto sortearmos novamente, conversei com a equipe e pelas regras teremos este ano excepcionalmente, onze novos candidatos transformados, dito isso, anuncio a última e sortuda competidora, Alicia Silpx de Marisie.A multidão surpreendentemente fez ainda mais barulho, o rei e rainha continuaram aplaudindo discretamente enquanto a princesa Seraphine parecia dar pulinhos de alegria na cabine transparente de papéis.O resto ficou mudo para mim, como poderia eu ter sido selecionada se nem enviei o papel? Havia passado noites discutindo com mamãe sobre o que eu queria para o futuro, e ser uma sanguessuga (em todos os sentidos) não estava nos planos. Era assustador pensar que meu corpo teria o dobro ou o triplo do tempo de vida que uma pessoa normal, e que eventualmente toda minha família morreria e eu ficaria viva, sozinha.Poderia viver uma vida maravilhosa cheia de luxos e sem trabalhar? Sim, mas não gostava da ideia, desde que meu pai morreu mamãe teve que nos criar sozinha e trabalho desde os catorze ajudando a vizinha dona Dalva a cuidar da casa dela. Sabia dar valor ao suor do trabalho e suas recompensas, nunca me imaginara parada recebendo luxos e riquezas.A única pessoa capaz de enviar meu nome através de mim, seria um responsável, o que me direcionava diretamente a minha mãe. Olhei para ela com um olhar que imaginei ser de indignação, me deparei com o rosto pálido dela ainda olhando a televisão em silêncio. Já que ela não falava nada, preferi começar.— Como você pode? Tinhas concordado que eu não sairia de casa e que não iria virar uma sanguessuga!— Ora, não fique brava comigo! Não tenho culpa que seu nome foi parar ali, deve ter sido um erro no sistema, ou você escreveu errado no formulário — minha mãe parecia como um papelão.— Mãe você está bem? — ignorei por um instante a briga me preocupando com ela.— Apenas pressão que abaixou devido ao choque — relaxei.Ela colocou o prato que estava comendo na mesa de centro.— Mesmo que não tenha sido eu a te inscrever, fico feliz que tenha ganhado, uma vida longa e cheia de riquezas é tudo que posso desejar por minha filha.— Mas mãe, vou viver em outro lugar! Quem vai olhar o Nick quando estiver trabalhando? Quem vai cuidar de você quando ficar doente? Ajudar nas contas?Minha mãe sentou no chão comigo em frente a televisão e pegou minhas mãos.— Você é uma benção que seu pai deixou para mim, não poderia ter pedido por uma filha melhor, mas não posso te prender a mim a vida inteira. Vá! Irei conversar com dona Dalva ela deve olhar o Nick depois de tudo que você fez por ela. Viva sua vida meu amor, e para de se importar com os outros mais do que você, você possui uma oportunidade única e todas as jovens do reino sonham em conseguir uma transformação não negaria isso para você nunca.Meus olhos encheram de lágrimas, e abracei minha mãe. Ela era minha melhor amiga e minha confidente, ainda não estava de acordo com a situação, mas as palavras que ela disse tocaram meu coração.Haveria tempo para convencê-la a me deixar ficar, enquanto estivesse com minha família tudo daria certo.
Notas finais
Obrigada por ler, até a próxima.
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