Notas iniciais
Sexta-feira, gente, mais um capítulo de JPA! Agora com o Guto tendo consciência de seus sentimentos, a história vai começar a esquentar. O que acham disso? :D Sem mais delongas, aqui vai mais um capítulo de JPA :3 Espero que gostem ♥

— Quer ir buscar o Rafa comigo, Sali?

Ela suspirou e olhou para o céu. Naquele dia, o sol estava oculto pelas nuvens e o ambiente estava com uma aparência triste e sombria. No entanto, para mim o dia estava preenchido pelo ar da esperança e da revelação. O sol oculto não me intimidava; em vez disso, trazia-me a esperança de que dias melhores e mais bonitos ainda viriam e que eu os aproveitaria tanto quanto estava fazendo naquele momento.

— Tudo bem. Vamos lá — ela sorriu e se levantou, estendendo sua mão para eu fazer o mesmo.

A partir do momento que entendi que Sali era mais do que apenas uma amiga, os sinais se tornaram absurdamente claros para mim. Todas as vezes que reparei em seu cabelo, em sua roupa e que quis tocá-la vieram a tona. Lembrei-me também do quanto eu gostava que ela vestisse meu moletom, assim como das vezes que liguei para ela somente para ouvir sua voz. Os sinais estavam lá o tempo todo e eu os ignorava com frequência assustadora.

Havia me apaixonado aos poucos; aos poucos e sem querer. E aquilo era incrível.

Aceitei sua mão estendida com um sorriso no rosto. E senti um choque elétrico percorrer meu corpo no momento que nos tocamos.

— Tudo bem, Guto? — ela me perguntou com a expressão engraçada.

— Claro. Por quê? — franzi meu cenho em confusão. Eu estava parecendo doente? Lipe tinha me machucado?

— Nada não — ela balançou a cabeça. — É só que você está meio… sorridente.

Desviei o olhar e cocei a nuca em um gesto constrangido.

— Troquei de pasta de dente — dei de ombros.

— Ah — ela riu. — Isso explica tudo. Você está tentando me seduzir com esse sorriso branco, então?

Minhas mãos começaram a suar. Pensei em negar, mas isso deixaria terrivelmente óbvio meu nervosismo. E eu queria parecer seguro e despreocupado. Além de tudo, ainda não era hora de Sali descobrir sobre meus sentimentos.

— Exatamente, Sali — brinquei. — Estou tentando te seduzir. Fiz um bom trabalho?

Ela ficou na ponta dos pés e sussurrou bem perto do rosto; pensei que meu coração fosse sair pela minha boca quando senti seu hálito de morango. Sali não estava tímida aquele dia. Senti que ela tinha sido impulsionada pelo nosso plano errado que tinha, de algum modo, funcionado. Estava contente e segura.

— Um ótimo trabalho.

Quis que fosse verdade.

Ela riu e se afastou, saltitando em minha frente pelo caminho. Não se calou e não parou de sorrir amplamente em nenhum momento enquanto caminhávamos em direção à escola onde Rafa estudava.

— Guto, eu tive um sonho tão legal — ela comentou no meio do caminho.

— E como foi? — perguntei. Seus sonhos me interessavam. Imaginei os pensamentos que existiam nos recônditos de sua curiosa mente.

— Eu era namorada do Homem-Aranha — ela riu constrangida. — Provavelmente a Gwen, porque não gosto tanto da Mary Jane. Ou eu era eu mesma… Enfim — ela fez um gesto com a mão para indicar que não importava. — Ele tinha uma missão em algum lugar e eu não queria que ele fosse porque estava preocupada, então subi junto no trem que o levaria até o lugar. E ele se sentou do meu lado, abraçou meus ombros, beijou minha testa, entrelaçou nossas mãos e falou que tudo ficaria bem — no final do relato ela tinha um sorriso bobo e as duas mãos cruzadas sobre o peito. — Foi tão lindo, Guto — ela suspirou.

Quis estar no lugar do Homem-Aranha. Quis dizer isso para Sali.

Mas apenas ri.

— Então você foi a namorada de um super-herói por uma noite.

— Sim! — ela exclamou. Adorava ver seu sorriso empolgado. — E ele estava prestes a salvar o mundo.

— E você não queria deixar — fingi-me de indignado. — Nenhum super-herói ficaria satisfeito com uma namorada que o impedisse.

Ela me empurrou.

— Cale a boca, Gustavo.

— Não mesmo, Sabrina.

— Eu seria uma ótima namorada de super-herói, ok?

— O impedindo de salvar o mundo? — retruquei. — Ah, não mesmo.

— Eu me preocuparia! Melhor do que ter uma namorada indiferente. Você quereria uma que não se importasse com você?

Mesmo que estivéssemos no meio de uma brincadeira inocente, sua frase me atingiu em cheio.

Não, Sali. Eu já tive a experiência de ter uma namorada indiferente e não foi muito interessante. Eu preferiria, mesmo que fosse um super-herói, uma namorada preocupada como você. Eu preferiria que você fosse minha namorada.

Engoli em seco e, em vez de falar aquilo que estava pensando, disse:

— Preocupada seria melhor.

Mas eu tinha falado sério. E então a brincadeira tinha acabado.

Não falamos muito pelo resto da trajetória, mas Sali não parecia chateada. Algumas vezes ela me olhava e sorria delicadamente; e eu sentia meu coração se aquecer. Eu estava apaixonado por alguém que valia a pena e tinha esquecido Laura. Era um formigamento inédito. Algo tão agradável e confortável que quis que aquela sensação permanecesse para sempre dentro de mim.

Quando chegamos à escola, Rafa e seus amigos já estavam amontoados na saída e conversavam animadamente. Tentamos nos aproximar sorrateiramente — o que não era exatamente fácil considerando meu tamanho, portanto logo fomos denunciados. No entanto, Rafa não ficou animado com o fato de eu ter chegado; ele se animou com o fato de Sali estar me acompanhando.

— Essa é a menina que gosta de super-heróis — ele exclamou, agarrando o braço de Sali e a mostrando para a turma de garotos como se fosse um objeto que quisesse vender. — Eu não tava mentindo, viu?

Sali riu e se agachou na altura dele.

— Claro que você não estava mentindo, Rafa — ela disse. — Eu gosto sim de super-heróis. E isso deveria ser totalmente normal.

— Aquelas meninas só gostam de coisas da Barbie — disse um menino. Ele parecia enojado. — Argh. É tão chato.

— Não é chato — Sali retrucou. — Mas, se vocês querem saber, algumas meninas também acham chato jogar futebol ou gostar de super-heróis. E, na verdade, julgar o gosto de outra pessoa não é muito legal. Você pode achar chato aquilo que uma pessoa gosta, mas a pessoa não precisa necessariamente ser ruim.

— Então tem meninas ali que são legais? — um dos meninos apontou para outro aglomerado de garotas que conversavam de modo empolgado.

Sali sorriu amplamente.

— Com certeza. E vocês deveriam tentar se tornar amigos delas.

— Isso só funciona quando as pessoas crescem — disse um garotinho de braços cruzados. — E só funciona pra namorar.

— Claro que não! Guto e eu não somos namorados e nos damos superbem — ela disse, erguendo-se até que ficasse em sua altura normal. Seu olhar se encontrou com o meu.

Sim, a nossa amizade funcionava. Mas, talvez, depois de algum tempo apenas ela não fosse o suficiente.

No tempo certo.

Retribui o sorriso que ela me lançou.

— Vocês logo vão descobrir como podem ser amigos de meninas — disse. — E, acreditem, vão achar elas bem legais.

— Nunca — um deles balançou a cabeça veementemente.

— Que tal uma aposta? — Sali cruzou seus braços. — Quando chegar o fim do ano, vamos perguntar a mesma coisa a vocês. Só que vocês vão ter que realmente tentar ser amigos das meninas, somente amigos. Aposto que vão adorar.

— Qual o valor da aposta?

— Um pacote de bala.

Todos sorriram.

— Fechado.

Eu sorri também, me prendendo ao fato de que Sali tinha firmado um compromisso até o final do ano ao meu lado. Nós teríamos tempo. E coisa mais incrível que aquilo não havia.

.

— Guto, o Lipe tá aqui — gritou Rafa.

Eu ainda estava jantando na cozinha quando Lipe chegou eufórico em minha casa. Revirei meus olhos e fui até a porta onde Rafa estava — ele tinha insistido para atender.

— E aí, pirralho — ele bagunçou os cabelos de Rafa. Parecia consideravelmente feliz. — E aí, sacana.

Respirei fundo e me apoiei no balcão mais próximo.

— Você parece bem feliz, então eu acho que a minha ajuda contou — provoquei-o. — Logo, não sou tão sacana assim.

Ele revirou seus olhos e se jogou na cadeira mais próxima. Lipe não era exatamente chegado a convenções.

— O fato de ter funcionado não quer dizer que você não foi sacana.

— Então funcionou?

— Algo assim — ele parecia feliz de um jeito que eu nunca tinha visto. Seus olhos astutos brilhavam de entusiasmo.

Sorri.

— Como foi?

— Cena: eu batendo na porta da casa dela. Ela não querendo me atender. Tentei ligar para ela e também fui ignorado. Eu podia apelar para métodos do tipo serenata embaixo de sua janela, mas sou mais prático, então simplesmente entrei em sua casa sem permissão. Quando entrei em seu quarto, ela estava sentada no chão chorando. Nada muito dramático. Parecia apenas cansada, o que cortou meu coração — Lipe não costumava falar coisas como “aquilo cortou meu coração”, portanto ele deveria estar mesmo apaixonado. — Sentei-me ao seu lado e comecei a explicar a situação…

— Inclusive a parte que você tinha procurado minha ajuda?

Ele suspirou.

— Sim, Guto, inclusive essa parte. Ela relaxou aos poucos, sabe? Entendeu que não estava sozinha naquele barco.

— E então vocês se beijaram? — deduzi animadamente.

— Não — ele balançou a cabeça, destruindo minhas ilusões. — Nada de beijo. Apenas uma segunda chance.

— Segunda chance?

— De fazer tudo dar certo. Sem métodos equivocados. Sem esconder sentimentos. Decidimos começar do zero, como tem que ser.

Estendi meu braço para ele.

— Pode me beliscar? Tenho que conferir se isso é verdade.

Ele me olhou sério.

— Caramba, Guto. Como você é engraçado! Por que não está fazendo shows de stand up pelo Brasil?

— Porque ainda não me descobriram — dei de ombros rindo. — Sério, Lipe. E depois eu sou o “clichê romântico”.

Ele revirou os olhos.

— E é mesmo.

Rafa se sentou em outra cadeira, se manifestando pela primeira vez.

— Com quem você começou do zero, Lipe?

— Com a Bia.

— Bia? — ele sorriu. — Sempre soube que vocês gostavam um do outro!

— Você é bem mais esperto que muita gente, pirralho — Lipe sorriu. — O problema é: como vou conquistá-la?

— Você já a conquistou — retruquei.

— Não. É tipo uma brincadeira. Quero que ela se impressione comigo.

Respirei fundo.

— Certo, vamos ver no que você precisa investir — franzi a boca enquanto pensava. — Primeiro: você tem barba, então mais da metade do trabalho já está feito.

Ele riu.

— Se você deixasse crescer poderia ter também.

— Não mesmo. Eu só tenho uns pelinhos feios no queixo. Seria ridículo se eu deixasse crescer e você sabe disso.

— Sei. Só quis dar uma força. Você sabe, coisas que amigos costumam fazer.

— Obrigado. Ajudou muito — revirei meus olhos. — Mas Sali não gosta de barba, então…

Vi Rafa e Lipe trocando um demorado olhar. Olhar cheio de intenções.

— O que foi? — perguntei cautelosamente.

— Guto, como foi mesmo que a Sali entrou na conversa?

Opa. Engoli em seco.

— Sali? Ninguém falou sobre a Sali — gaguejei. Por que eu tinha que ser tão óbvio quando se tratava de nervosismo?

Você falou.

— Não — balancei a cabeça com exagero. — Nós estávamos falando de você e de Bia. Aliás, como você vai conquistá-la mesmo?

Ele me encarou por algum tempo e eu entendi o que dizia através do olhar. Ele já sabia. Ele sempre soube. E nada, nenhum álibi que eu tentasse, o enganaria.

— Você não pode cometer o mesmo erro que eu cometi, Guto — ele murmurou.

Desviei meus olhos e não respondi.

Porque era exatamente aquilo que eu mais temia.

.

— Guto?

— Só um minutinho — murmurei.

Desci do trem rapidamente antes que ele partisse. Na cidade onde eu morava, havia um parque com um trenzinho onde as crianças costumavam ir. O trem não costumava funcionar nos dias de semana, mas houve uma exceção e não pude desperdiçar a oportunidade. A volta ao redor do parque era rápida: cinco reais para cinco minutos.

Tirei minha jaqueta e peguei a máscara em minha mochila, não conseguindo evitar um sorriso ao imaginar a expressão de Sali quando eu voltasse ao trem. No final de semana anterior meu pai tinha me dado uma fantasia de Homem-Aranha. Ele queria uma do tamanho do Rafa, mas as de tamanho infantil tinham se esgotado e ele decidiu comprar uma para mim porque sabia que eu também era grande fã do super-herói. A fantasia contava com tudo — desde calçado até máscara —, no entanto optei apenas pela blusa e pela máscara. Era o suficiente.

Entrei novamente no trem em passos calmos e me sentei ao lado de Sali, que deu um pulo e se afastou um pouco.

— Mas o quê…?

As crianças estavam eufóricas e apontavam para mim o tempo todo.

— É que… eu tenho uma missão agora — murmurei.

Ela me olhou com o cenho franzido por um bom tempo antes de finalmente entender e sorrir. Apaixonei-me mais ainda por ela naqueles segundos.

— E eu estou muito preocupada com você por causa disso — ela sussurrou.

Realizando seu sonho ao pé da letra, puxei-a pelos ombros, ergui uma parte da máscara, beijei sua testa e entrelacei nossos dedos. Ela suspirou e se aninhou melhor nos meus braços. Minha pulsação estava tão acelerada que eu era capaz de sentir seu latejar em minha cabeça.

— Vai ficar tudo bem — sussurrei.

Ela hesitou.

— Você, sendo um super-herói, não se importa que eu seja tão preocupada e sempre queira te impedir de correr riscos?

Fechei meus olhos e apoiei minha cabeça na sua.

— Na verdade, essa é a melhor parte.

Ficamos algum tempo parados enquanto absorvíamos o momento mágico. Inalei o odor suave e doce de seu cabelo e imaginei-me deslizando meu rosto até a curva de seu pescoço e de seu ombro. Seria confortável e quentinho. Ela brincou um pouco com nossas mãos entrelaçadas, como se realmente fôssemos namorados. Sua respiração estava cautelosa; eu conseguia perceber que ela se forçava a controlá-la.

Imaginei o que aquilo significava.

Mas então o momento acabou. Ela se afastou um pouco e sorriu amplamente para mim, tirando a minha máscara em movimentos medidos. Seus dedos frios roçaram em meu pescoço sem querer; e não pude conter um arrepio. Ela sorriu um pouquinho, dando-me a certeza de que ela tinha sentido e gostado. Suspirei. Algumas crianças balbuciaram lamentos quando ela pegou minha jaqueta em minha mochila e a estendeu para mim. Eu também lamentei. Tinha acabado o momento de poder abraçá-la tão intimamente.

Quando terminei de vestir minha jaqueta, porém, ela se aninhou novamente em meus braços. Confortavelmente. Como se fosse natural, como se fizéssemos aquilo o tempo todo. Sorri e passei meu braço pelos seus ombros, trazendo-a para mais perto de mim. O momento não tinha acabado; ela apenas queria vivê-lo comigo, não com o Homem-Aranha.

— Você é impossível, Guto — ela murmurou, brincando com a gola de minha blusa.

Estava corada. Naquele dia, a timidez não tinha a abandonado.

— É um elogio?

Ela ergueu a cabeça para mim; seus olhos estavam insondáveis.

— Sim. É um elogio.

— Obrigado, então — sussurrei.

Ela suspirou e se ajeitou novamente, fazendo eu me sentir vivo. Completo. Preenchido pelo maior e melhor amor do mundo. Lembrei-me das palavras de Lipe: Você não pode cometer o mesmo erro que eu cometi, Guto. Não, eu não cometeria. Mas, enquanto olhava para o corpo de Sali tão entrelaçado ao meu, percebi que aquele ainda não era o momento. Eu deveria ir lentamente e cuidar para que ela entendesse e aceitasse por conta própria. E, se eu desse sorte, ela corresponderia.

Aqueles momentos deveriam ser preservados para toda a eternidade.

Quando saímos do trem e começamos a andar em silêncio através do parque, minha mão acidentalmente enroscou na sua. Com medo que ela me achasse precipitado, afastei-me rapidamente.

— Desculpa.

Ela hesitou um pouco.

— Tudo bem — murmurou enquanto se aproximava novamente, deixando nossas mãos se roçarem.

Seus olhos encontraram os meus; e eu fui incapaz de desviar o olhar. Minha boca estava seca. Minhas mãos começaram a suar. Com quem eu tinha me sentido daquele jeito antes? Sali era mágica e fazia-me sentir coisas que eu nem mesmo sabia que podiam ser sentidas. Suspirei e deixei que nossas mãos encontrassem o caminho por elas mesmas, deslizando entre si até que se entrelaçassem. Sua mão era fria, macia e se encaixava na minha. Ela ainda sustentava o meu olhar e parecia nervosa, mas não mais envergonhada. Seus lábios se curvaram um pouco para cima, formando um sorriso singelo. Um sorriso lindo.

Quis beijá-la.

Em vez disso, retomamos a caminhada ao redor do parque, trazendo conosco todas as dúvidas e o silêncio.

Perguntei-me o que aquele silêncio significava.

Notas finais
E entããããããão? O que acharam da aposta? Da situação do Lipe? Do Guto vestido de Homem-Aranha? Deles abraçados? Das mãos entrelaçadas? Quero saber o que acharam! Contem tudinho pra mim :3 Até sexta que vem, amores ♥