Juntos pelo acaso
26 Felicidade
Notas iniciais
Quando cheguei em casa na hora do almoço, havia um pequeno caminhão estacionado na frente da garagem e meu pai sorria largo ao ajudar um homem desconhecido a descarregar um móvel. Mas, espera… alguma coisa estava fora do lugar. Meu pai raramente vinha nos visitar em Irati e quando vinha não trazia um caminhão de mudanças junto.
— Ei, pai — gritei e corri até ele.
— Oi, filho — ele alargou ainda mais meu sorriso. — Tudo bem?
Ele ainda carregava o móvel junto com o homem.
— É… eu acho que sim — cocei minha nuca. — O que está acontecendo exatamente?
— Ainda não descobriu? — ele fingiu espanto e se concentrou no seu serviço.
Estaquei em um passo e passei a analisar a situação. No último final de semana minha mãe tinha aparecido de surpresa na casa de meu pai — surpresa para mim, pelo menos — e eles pareciam muito próximos, quase como se nunca tivessem rompido. Uma semana depois, na sexta-feira, eu encontrei um caminhão de mudança em frente a minha casa e meu pai ajudando a descarregar com o maior sorriso do mundo.
Era tudo muito óbvio.
Tão óbvio e incrível que eu tinha custado a enxergar.
Meus pais tinham reatado o relacionamento. Meu pai estava voltando para casa.
Corri para dentro de casa no mesmo instante que percebi o que estava acontecendo. Rafa pulava de um lado para o outro de maneira eufórica e minha mãe tentava contê-lo sem sucesso. Logo que me enxergou, porém, se jogou no meu colo.
— Eles voltaram, Guto!
— Eu sei, Rafa — ri e coloquei-o no chão, me agachando para que ficássemos da mesma altura. — Eu sei.
— Mas uma vez você me disse que eles não voltariam e que tinham muitas cicatrizes que não podiam ser curadas — ele franziu o cenho.
Respirei fundo e coloquei minhas mãos em seus ombros.
— Olha só, Rafa, é um pouco complicado. Eles estavam machucados, mas talvez o tempo tenha bastado para que eles melhorasses. Às vezes o tempo basta, sabe? Na época em que eu te disse isso estava sofrendo com uma desilusão amorosa e talvez tenha exagerado. Mas sempre existe uma possibilidade de retorno e de melhora.
— E as cicatrizes?
— Vão continuar lá… Um pouco mais apagadas. Apenas lembranças distantes.
Sua expressão se suavizou novamente por poucos segundos antes dele se lembrar de outra questão preocupante.
— Eles vão terminar de novo?
— Isso eu não posso te dizer — lamentei não poder dar aquela certeza à Rafa. Mas que certeza tínhamos? — Mas vamos torcer para que eles fiquem juntos para sempre, ok? Vamos torcer para que nada nunca mais separe os dois.
Ele assentiu e sorriu, em seguida abraçando bem forte o meu pescoço. Era confortador. Percebi que Rafa se sentia seguro depois de anos de espera e de incerteza ao ter sua família unida mais uma vez. E eu tinha que admitir que também gostava da situação e que fazia tempo que não me sentia tão aliviado. A saudade que esmagou meu peito por anos finalmente partiu, com memórias boas e inesquecíveis, mas sem nenhum lamento. Eu simplesmente amava o fato de ter minha família completa mais uma vez.
— Já descobriu o que estou fazendo aqui, Guto? — meu pai perguntou e quando o olhei estava abraçando a cintura de minha mãe. Eles não se desgrudariam tão cedo.
Levantei-me.
— É… talvez eu tenha descoberto sim. Mas também acho que mereço algumas explicações.
— E as terá — ele sorriu largamente. — Por enquanto, vamos apenas aproveitar o momento?
— Eu adoraria aproveitar o momento — sorri e me precipitei para abraçá-lo.
Ele riu ao meu ouvido e passou os braços ao meu redor. Senti-me novamente como uma criança, sendo aparado por meu pai. A verdade é que eu sentia muita falta daquele clima de união. Sorri ao imaginar os almoços de domingo. Eles voltariam a se repetir com a família toda unida.
— Eu troquei os meus turnos de trabalho, Guto — minha mãe comentou assim que soltei meu pai. — Trabalharei de manhã e de tarde. Contratarei uma babá para Rafa. Assim poderemos passar a noite unidos.
— Tudo bem — assenti. — Eu também estava pensando em começar a trabalhar.
— Isso é ótimo — ela exclamou com um sorriso. — Mas e Sali? Eu bem sei que vocês passam a maioria das tardes juntos.
O tom de malícia em sua voz não me passou despercebido, mas optei por ignorá-lo.
— Ela também está trabalhando.
— E quando vocês vão se ver? De noite? — riu um pouco debochada no final. Apesar de ser liberal, ainda não permitia que eu trouxesse garotas para casa durante a noite.
Na verdade, nós nos veremos de noite sim, mãe. Não exatamente do jeito que você imagina… mas não posso te contar como.
— Não sei direito — dei de ombros. — Em qualquer tempinho livre.
Ela franziu o cenho e notou que algo estava errado. Temi que ela começasse uma lista de questionamentos naquele momento, no entanto deixou passar. Sabia que alguma hora ela me abordaria.
— Tudo bem. Se vocês querem assim — e então mudou de assunto, fazendo-me respirar aliviado. Ainda tínhamos a casa toda para arrumar e ela trabalharia durante a tarde, deixando-me sozinho com o meu pai.
Ele e eu arrumamos tudo como deveríamos e, depois de horas, finalmente sentamos na sala para descansar. Meu pai parecia relaxado e satisfeito.
— Então, como isso foi acontecer? — fui direto ao assunto, não conseguindo mais conter as minhas dúvidas.
Ele riu um pouquinho, achando graça na minha pressa. Mas então respirou fundo e finalmente começou a falar.
— Nós sempre mantivemos contato, principalmente para conversar sobre você e Rafa — ele explicou. — No começo era uma distância fria, mas de alguma forma cheia de sentimentos. Afinal, tínhamos recém-terminado. À medida que o tempo passava, as conversas deixaram de ser forçadas. Era algo mais natural, como se fôssemos amigos. E foi assim por muito tempo… até que a saudade que eu sentia dela se tornou insuportável. Eu sei que você conhece esse sentimento, Guto. Eu simplesmente não suportava mais ficar longe de sua mãe. Nossos assuntos mudaram… se tornaram mais sentimentais. Até que eu convidei ela para passar um final de semana conosco. E percebi que não podia mais fingir que tudo estava bem e que eu não gostava dela. Porque eu gosto, amo e estou perdidamente apaixonado por ela, como se tivesse dezesseis anos — ele sorriu. — Depois desse final de semana, precisei apenas pedir transferência no trabalho para cá novamente. E agora reatamos oficialmente.
Senti que meu queixo quase tocou meus pés.
— E vocês esconderam tudo isso?!
— Não podíamos ter certeza de que funcionaria — ele deu de ombros. — E esconder algo nos fez parecer jovens outra vez.
Balancei a cabeça de forma maravilhada.
— Vocês são impossíveis — ri. — Não acredito que voltaram sem contar a ninguém. Eu adoraria ter descoberto antes!
— Eu sei, Guto. Desculpa por isso. Mas nós precisávamos sentir isso com privacidade. Você entende, não é? Tentei explicar um pouco disso a Rafa e ele não pareceu compreender muito bem.
— Ele não entendeu porque nunca sentiu isso. Mas eu entendo, pai. Pode ficar tranquilo. E estou simplesmente muito feliz por vocês dois.
Ele sorriu e deu tapinhas orgulhosos nas minhas costas.
— E como está Sali? — ele perguntou, querendo dar continuidade ao assunto.
Hesitei por alguns segundos, tentando avaliar até que ponto podia contar ao meu pai sobre Sali. Tive medo que ele me impedisse de vê-la. Mas ele mesmo não tinha dito que o fato de esconder algo rejuvenescia?
— Ela está bem — respondi de forma simplória esperando me livrar do resto dos questionamentos.
— Na verdade, ela não parece tão bem assim — ele franziu o cenho. — O que aconteceu, Guto?
— Muita coisa.
— Por que não me conta? Podemos conversar sobre isso.
Durante anos a figura de um pai me fez falta. Quando eu queria algum conselho desabafava para minha mãe, mas ela era mulher e muitas vezes não era capaz de me compreender. Tinha de esperar sempre pelo próximo final de semana se quisesse contar algo a meu pai. Daquela vez, eu não precisava. E percebi que nunca mais precisaria. O melhor que eu poderia fazer era aproveitar a situação e desabafar para o meu pai sobre Sali e tudo o que estava passando.
— A mãe de Sali não sabe sobre nós. Ou não sabia. Enfim, ninguém nunca contou a ela diretamente, só que ela desconfiou quando nos viu na rodoviária final de semana passado. E ela não podia ter desconfiado — fechei meus olhos. — Ela ainda pensa que Sali perderá seus focos em tudo caso se apaixone ou namore. Para a sua mãe, ela precisa apenas estudar. E quando desconfiou sobre nós… arranjou um trabalho a Sali para que ela não pudesse mais me ver — respirei fundo. — Sali não falou comigo por uma semana porque pensou que não poderíamos passar por isso.
— E o que aconteceu?
— Eu procurei por ela — olhei-o cabisbaixo. — E foi bom. Muito bom. Mas eu tenho muito medo de falhar, pai. Tenho medo de não conseguir, de…
— Você vai conseguir — ele colocou sua mão em meu ombro e apertou. — Vocês dois passarão por isso. É apenas uma barreira a ser ultrapassada. Se vocês passaram a barreira da amizade, essa vai ser moleza.
Não pude evitar um riso.
— Barreira da amizade?
— É. Quase todo casal precisa passar por ela. É o medo de estragar a amizade ao entrar em um relacionamento.
Franzi meu cenho.
— Tive muito medo de ter perdido nossa amizade quando tentei beijá-la pela primeira vez.
— É exatamente disso que estou falando. Era melhor ter sua amizade do que não ter nada, certo? E agora vocês já ultrapassaram essa barreira. As próximas serão bem mais fáceis.
Suspirei e assenti.
— Espero que esteja certo.
— É a voz da experiência falando — ele se vangloriou, mas não fui capaz de conter meus pensamentos. O casamento de meu pai e de minha mãe não tinha ultrapassado a barreira do segundo filho e da falta de dinheiro, pelo menos não na época. Talvez a voz da experiência não fosse tão sábia assim.
Forcei um sorriso e ignorei o pensamento, retirando-me para começar a planejar a noite. Ela seria longa, afinal.
.
Meu despertador tocou às onze e meia da noite. Tinha preferido cochilar antes de ir ver Sali para que não ficasse tão cansado na manhã seguinte, porque planejava passar muito tempo ao lado dela. Levantei-me e me vesti silenciosamente, me esforçando para não fazer nenhum movimento brusco e não ter o perigo de acordar meus pais e Rafa.
Na ponta dos pés fui até a porta da frente e estava prestes a abrir a porta quando uma voz conhecida ressoou no aposento. Senti todos os meus planos desabando.
— Guto? — perguntou meu pai, saindo da cozinha com um copo de água. Maldita mania que ele tinha de tomar água durante a noite. — Onde você está indo?
Poderia fingir que estava sonambulando, mas a minha posição estava demasiadamente tensa para que ele acreditasse. Eu estava agindo como o fugitivo que eu era.
— Lipe me pediu para encontrá-lo para que déssemos algumas voltas de bicicleta pela cidade durante a noite — menti.
— Mas isso é perigoso — ele franziu o cenho.
— Eu sei, eu… — cocei minha cabeça, não sabendo o que falar. — Desculpa, pai, mas eu realmente preciso ir.
Ele parou um pouco para pensar e deu de ombros.
— Você pode ir se me falar onde realmente está indo.
Droga! Seria perigoso falar que estava indo me encontrar com Sali? Era uma coisa que tinha que acontecer às escondidas. O nosso segredo. No entanto, meu pai não me liberaria enquanto eu não lhe contasse…
— Estou indo ver Sali, pai — suspirei derrotado.
Ele assentiu, provavelmente vendo mais sentido no que eu tinha dito.
— Está levando camisinha?
Arregalei meus olhos. Será que ele pensou que eu planejava levá-la para um motel ou coisa parecida? Pelo amor de Deus! Eu só queria vê-la e namorar um pouco.
— Não, pai — revirei os olhos de forma nervosa. — Eu só quero vê-la, ok? Ela não vai aparecer grávida depois desse encontro.
— Se for assim…
— É assim — confirmei, abrindo a porta silenciosamente. — Posso ir agora? Promete que não vai contar nada pra mãe?
— Como posso te prometer isso?
— Prometendo, ué! Ela vai surtar se saber que eu saí durante a noite somente para ver Sali.
Ele colocou o copo de água na pia e se dirigiu ao corredor.
— Somente para que ela poupe seus nervos, eu te cubro essa noite. Mas somente hoje!
Respirei aliviado e saí de casa o mais rápido possível, querendo me livrar do clima de nervosismo. Eu somente queria aproveitar a noite ao lado de Sali, jogando conversa fora, dançando, abraçando-a e beijando-a. Queria ficar ao seu lado naquela noite para compensar o final de semana que passaríamos separados.
Quando cheguei em sua casa, cinco minutos antes da meia-noite, ela já estava sentada no muro me esperando. Sorri e desci da bicicleta, estendendo meus braços para ajudá-la a descer.
— Cabelo solto hoje? — perguntei depois que ela me deu um selinho demorado.
— É — ela deu de ombros. — Mas não se acostume, porque em cinco minutos eu vou me cansar dele e prendê-lo.
— Eu não me importo com seu cabelo preso — falei com sinceridade. — É uma parte integrante sua. Quando você solta ele parece até menos Sali.
Ela riu e me empurrou.
— Seu bobo — então suspirou. — Viu que estou com seu moletom? — ela deu um giro em torno de si mesma e fez uma pose de modelo no final.
— Claro que vi! Acho que ele combina muito com você. Cairia muito bem na sua próxima sessão de fotos como modelo.
— Ah! Agora eu sou modelo? — ao contrário da última vez que andamos de bicicleta juntos, Sali se acomodou na minha frente assim que eu subi na minha bicicleta. Ela não era mais tão recatada.
— É sim — assenti, começando a pedalar. Ela apoiou o peso do seu corpo no meu tronco. — Você não sabia? Tem muito corpo de modelo.
— Tenho mesmo. 1,60 é a altura máxima para se estar em uma passarela, sabia? Mais que isso é considerado um… ultraje.
— Ultraje? — gargalhei. — Realmente. Então, quando é o seu próximo desfile?
— Amanhã, na verdade — ela falou com exagerada seriedade. — Vou exibir roupas de banho.
— Nesse frio?!
— Sim! É um absurdo isso, não acha? Me obrigarem a usar um biquíni nesse frio, apenas para exibir meu corpo magro e alto. Tudo bem que meu corpo é perfeito, mas…
Não conseguia conter os meus risos. A brincadeira era boba e aleatória, mas reforçava a nossa amizade. Porque nada tinha mudado essencialmente. Eu apenas podia beijá-la a hora que quisesse.
— Deveríamos convidar o Lipe e a Bia para irem ao cemitério junto — ela comentou depois de um tempo em silêncio. — Estou com saudade deles.
Inicialmente me senti incomodado com a sua sugestão. A noite não era para ser somente nossa? Mas então percebi que convidar Lipe e Bia deixaria tudo ainda melhor, trazendo novamente o clima de infância e reforçando mais ainda a amizade do grupo. Seria ótimo, na verdade, compartilhar aquele momento com todos eles.
— Pode ser. Ligue para eles.
Ela suspirou, satisfeita, e pegou o seu celular. Tudo estava indo bem. Tudo estava indo muito bem. E não pude evitar um sorriso espontâneo e que encheu meu coração de uma felicidade pura e gentil. A felicidade mais genuína e agradável do mundo.
A felicidade que eu tinha procurado durante todos aqueles anos de minha vida.
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