Juntos pelo acaso
30 Consolando
Notas iniciais
“Minha mãe aliviou um pouco a barra. Talvez eu esteja parecendo uma garota mais comportada e a culpa tenha sumido um pouco de meus olhos. Pergunto-me o que isso significa. Será que a culpa sumiu de meus olhos porque agora eu finalmente percebo que nunca fiz nada de muito errado? Eu apenas queria viver um verdadeiro amor.
Espero do fundo de meu coração que seja isso. Ou que ela tenha aceitado que eu estou diferente do que costumava ser. Mais radiante, talvez? Mais desafiadora. Nunca antes tinha desafiado suas ordens ou parecido tão preocupada e desgostosa com suas palavras. Talvez ela tenha enxergado que eu cresci. Que mudei.
Enfim. Estou morrendo de saudades, meu amor. Precisamos nos ver nem que seja para apenas um beijo. Beijo para matar a saudade e me dar ânimo para mais uma semana enfrentando a vida.
Te amo.
Sali”.
.
“É estranho começar a trabalhar. Um pouco assustador, na verdade. Arrumei um trabalho em um laboratório e ajudo um pouco na parte administrativa. No começo a minha função era um tanto confusa, mas agora consigo me entender melhor com aquilo que preciso fazer. Na maior parte do tempo, não consigo pensar em nada além do meu trabalho. E isso diminui um pouco da saudade que sinto de você.
Não. Estou errado. Não diminui a saudade que sinto por você; apenas a torna um pouco mais suportável. No entanto, isso acaba no momento que chego em casa. Meu peito arde com a sua ausência. E então eu tenho que fazer companhia aos meus pais que ainda estão tentando conciliar suas vidas e ao meu irmão e eles não param de me bombardear de perguntas. “Onde está Sabrina? Faz tempo que não a vejo”. Meu pai já sabe que nós temos mais dificuldades que costumamos demonstrar, mas minha mãe e meu irmão ainda estão às cegas. E sentem a sua falta.
Não vejo a hora de poder ir te buscar na sua casa em um horário normal para que você me faça companhia a tarde toda. E, quando for te buscar, espero que sua mãe sorria para mim e me ofereça um bolo de cenoura dizendo que está muito feliz que nós nos damos tão bem.
Parece meio distante, mas é um sonho que gosto de preservar na mente. Ele me ajuda a continuar.
Sinto sua falta.
Guto”.
.
“O vestibular se aproxima e estou uma pilha de nervos. Não consigo me concentrar quando quero estudar. Meus pais estão brigando com frequência; a relativa paz que me rodeava agora está me deixando também. Estou tão perdida e preciso de sua ajuda, Guto. Preciso do seu colo.
Nós podemos nos ver logo? Já faz três semanas. Sei que é perigoso nos arriscarmos tanto, mas eu realmente estou precisando.
Sexta-feira. Meia-noite.
Esteja aqui.”
.
— Onde quer ir? — perguntei a uma Sali que me abraçava angustiada.
— Não no cemitério. Tem muita tristeza para ir no cemitério e eu o considero um lugar para nossos momentos felizes — ela murmurou. — Qualquer outro lugar, Guto.
Assenti e a ajudei a subir em minha bicicleta. Pedalei calmamente pela noite, levando-a ao único destino possível. Minha própria casa. Lá eu poderia cuidar dela de forma confortável.
— Tem certeza? — ela perguntou baixinho, andando na ponta dos pés.
Suspirei e abri um pouco a porta, conferindo se alguém estava acordado. O silêncio era o único barulho de minha casa. Puxei Sali pela mão cuidadosamente e a levei ao meu quarto na ponta dos pés.
— Seus pais não vem te ver dormindo durante a noite? — ela sussurrou assim que eu fechei a porta.
— Se eles fizerem isso você entra embaixo da cama — murmurei enquanto pegava um livro qualquer na minha estante e colocava-o no criado-mudo ao lado do abajur, acendendo-o no mesmo ato.
— Por que tudo isso?
— Se meus pais aparecerem, eu posso falar que estava lendo — justifiquei e a puxei para a minha cama, fazendo-a sentar em minha frente. Peguei em suas mãos. — Agora me diga o que está acontecendo, Sali.
Ela apertou meus dedos e fechou seus olhos, parecendo esgotada. Se não quisesse falar eu entenderia. Parecia sem forças até para desabafar.
— Guto… só me abrace — pediu ao avançar sobre mim e enterrar sua cabeça em meu peito.
— Shh — sussurrei e deitei na cama com ela apoiada em meu corpo. Meus dedos acariciavam seu cabelo levemente. — Estou aqui. Agora eu estou aqui.
Ela chorou baixinho abraçada a mim por um longo tempo. Estava angustiado com aquele som que rasgava meu coração ao meio; eu não sabia a origem de suas lágrimas. A única coisa que me aliviava era o fato de eu ter sido escolhido para dar colo a ela, porque assim eu sabia que o problema não era eu. Ou talvez fosse. Talvez fosse algo muito maior que pudesse nos impedir de ficar juntos.
Mais uma vez.
Suspirei.
— Sali… me conte o que aconteceu — sussurrei em seu ouvido, trazendo-a para mais perto de mim.
Ela agarrou com as pontas dos dedos o tecido de minha blusa de moletom e o retorceu. Respirou fundo antes de falar com a voz rouca e um pouco embargada.
— Acho que estou exagerando — ela limpou a garganta antes de continuar. — Tenho certeza de que estou exagerando, na verdade, porque muitas pessoas passam por isso. Muitas mesmo. Incluindo você. Mas eu realmente estou muito chateada e triste.
— Com o que, Sali?
Tentei me lembrar de todo o conteúdo de sua última carta. Ela me pedia para encontrá-la. E falava também do vestibular e dos seus pais…
— Com a separação de meus pais — falou baixinho. — Quero dizer, eles ainda não decidiram nada e não falaram a mim diretamente. Só que eu sei de tudo, sabe? Eu escuto tudo. E é tão horrível…
Ela recomeçou a chorar baixinho. Apertei mais sua cabeça contra meu peito.
— Shh — peguei a ponta de sua trança e brinquei com ela. Percebi que ela não tinha dormido ou não estaria de trança embutida. Ela geralmente dormia antes dos nossos encontros noturnos. — Vai ficar tudo bem. Quem sabe eles se acertam…
— Eles não vão se acertar — ela se afastou um pouco e limpou as lágrimas. — Eu sei que não. Talvez eu não tenha querido enxergar, mas já faz algum tempo que tem uma tensão palpável entre os dois. Acho que estava preocupada demais com os meus próprios assuntos para perceber — ela deu de ombros parecendo culpada. — Mas eu não consigo… imaginar um mundo em que eles não estejam juntos. Eles sempre foram minha inspiração, sabe? O casal que aguenta firme. O casal que continua perto. Que continua junto. Sempre me considerei sortuda por não ter pais separados. E agora…
— E agora alguma coisa deu errado — murmurei e acariciei sua bochecha com o polegar. — Você já pensou na possibilidade de que eles somente demonstravam a felicidade e a firmeza na sua frente para não decepcioná-la? Quem sabe agora tudo o que estava somente entre os dois explodiu e se tornou visível. Talvez agora eles pensem que você seja madura o suficiente para suportar uma separação.
Ela olhou para o teto e soltou um gemido de desgosto.
— Se for isso, eles estão errados. Se tivessem se separado ano passado, eu não me importaria tanto. Acontece com todo mundo, infelizmente — ela deu de ombros. — Mas agora, especificamente agora, eu me importo e muito. Parece que nenhuma união suporta todos os obstáculos. Parece que todas as uniões caem no óbvio: separação. E isso é um pouco assustador, não acha? Porque todos os relacionamentos começam intensos como o nosso e então os sentimentos vão se dissipando…
Finalmente entendi sua linha de raciocínio. Ela não temia por seus pais; temia por nós. Temia por nós porque já tínhamos obstáculos e muitas dificuldades e nem fazia tanto tempo que estávamos juntos. Ela tinha medo que caíssemos no óbvio e que cansássemos um do outro cedo. Ao ver tantos casais separados, chegou à conclusão que nem todo obstáculo consegue ser superado e tem medo que em algum momento nós dois alcancemos esse obstáculo, não podendo evitar a consequência.
— Não vai acontecer conosco — segurei sua mão firmemente. — Você sabe que podemos ser mais fortes do que qualquer coisa se permanecermos unidos. Nós não vamos cair no óbvio, Sabrina.
Ela me olhou nos olhos. No fundo de meus olhos. Encarava-me tão intensamente que pensei que ela pudesse ter visto a minha alma e o meu coração. Sustentei seu olhar e permiti que ela me lesse por completo e descobrisse que cada palavra que tinha dito era sincera.
— Hoje. Hoje nós podemos superar todos os obstáculos — ela enfatizou.
— E por que quer pensar no amanhã? Ele não nos pertence.
— Agora ele não nos pertence. Mas e quando pertencer? Continuaremos juntos?
Suspirei e peguei seu rosto entre minhas mãos. Seus olhos ainda estavam vermelhos e inchados, mas ela parecia mais segura e firme. A Sali que eu conhecia. A minha Sali.
— Nós continuaremos juntos até onde aguentarmos. E nós vamos aguentar muita coisa — afirmei com convicção. — E, se tivermos sorte e muita dedicação, superaremos até o obstáculo capaz de nos fazer cair no óbvio.
Ela pensou um pouco sobre o assunto em silêncio, sustentando o meu olhar. Uma sombra de determinação surgiu em seu rosto depois de um tempo e um feto de sorriso apareceu como consequência.
— Promete que vai lutar muito quando chegarmos ao obstáculo mais perigoso? Promete que vamos tentar de todas as maneiras sem fingir uma vida que não nos pertence?
Não era uma promessa difícil. Eu faria aquilo mesmo se não tivesse uma promessa para cumprir.
— Eu prometo, Sali. Eu prometo.
Ela relaxou seus ombros e fechou seus olhos, parecendo exausta. E devia estar. A pressão com nossos encontros às escondidas, o seu trabalho, o vestibular, a separação de seus pais. Tudo aquilo estava em sua cabeça o tempo todo; imaginei o quanto era turbulento comparado à rotina fácil e calma que ela tinha antes de me conhecer.
Pela primeira vez desde que tínhamos começado a ficar, hesitei antes de beijá-la. Ela parecia tão frágil e quebradiça. Mesmo assim, não pude aguentar o desejo que expandiu dentro de mim. Seus lábios pequenos e rosados estavam ligeiramente separados, extremamente convidativos.
Com movimentos lentos, aproximei nossos rostos. Quando nossos narizes se tocaram Sali se mexeu levemente, movimentando o nariz junto ao meu. Ela também queria que eu a beijasse; mas eu queria beijá-la lentamente e do jeito certo. Queria beijá-la como se fosse o nosso primeiro beijo, como se não conhecêssemos o gosto dos lábios um do outro, como se estivéssemos nervosos e hesitantes.
Suspirei quando seus lábios roçaram nos meus. Ela percebeu a minha intenção e ficou parada, deixando que eu conduzisse o momento. Primeiro pressionei os nossos lábios, sentindo a maciez dos dela. E então ela abriu sua boca como um convite e eu não pude recusar; intensifiquei o beijo imediatamente. Mas prestei atenção a cada detalhe que tinha deixado passar das outras vezes.
Sua boca tinha gosto de maçã verde. Ela sempre estava comendo bala de maçã verde e descobri que era um gosto muito bom e particular. Senti seus dedos frios encontrarem caminho até o meu pescoço e um arrepio bom percorreu meu corpo. Sali beijava lentamente; imaginei que ela também quisesse aproveitar o momento. Não era apressado ou rude; era gentil e suave. Delicado. Mesmo assim, quente. Ardente. Sua boca fervia em contato com a minha.
Deslizei a ponta de meus dedos gentilmente pelo seu rosto, então pelo seu pescoço e seu braço, até alcançar sua cintura e poder juntar seu corpo ainda mais ao meu. Ela apoiou suas mãos suavemente em meus ombros e separou nosso beijo com selinhos delicados, passando seus lábios por todo o meu rosto então. Minha testa, minhas pálpebras, bochechas, nariz, queixo, pescoço. Ela se demorou no meu pescoço, fazendo-me sentir um arrepio quando ela apenas roçou seus lábios macios no local. Suspirei quando ela voltou a me beijar e senti que era a minha hora de retribuir. Encostei meus lábios em cada lugar de seu rosto que ela tinha me beijado, refazendo o caminho. E também me demorei em seu pescoço; um sorriso de satisfação surgiu em meus lábios ao senti-la estremecer levemente.
— Eu te amo — ela sussurrou quando levantei meu rosto novamente. — Eu te amo muito.
— Eu também te amo muito — sorri quando envolvi sua cintura. — Muito, muito, muito…
Quando ela voltou a me beijar, não tinha a mesma reverência de antes. Era apenas mais um beijo normal. A magia já tinha se esvaído; por enquanto, era apenas até onde iríamos. Ela separou o beijo com um suspiro de lamento.
— Provavelmente preciso ir pra casa logo — murmurou, passando seus dedos pelos meus cabelos.
— Não — afundei meu rosto em seu pescoço e apertei mais forte sua cintura. — Não — repeti com a voz abafada e inalei seu cheiro doce e suave. Era cheiro de perfume, mas era o seu perfume. E ele não me afetaria se estivesse em qualquer outra pele.
— Guto — ela acariciou o meu cabelo. — Eu tenho que ir. E se alguém aparecer aqui no quarto?
— Eu já disse que te escondo embaixo da cama — levantei meu rosto e a percebi com um olhar diferente. Preocupado. — Fique mais um pouco, Sali — sussurrei.
— Bem que eu queria — ela respondeu no mesmo tom de voz, pegando meu rosto entre suas mãos. — Mas você sabe que não posso.
— Eu queria não saber.
— Eu também — ela sorriu um pouquinho e respirou fundo, me dando um selinho demorado. — Me leva até a porta?
Suspirei e a segurei pela mão, apagando a luz de meu abajur e abrindo a porta silenciosamente. Aparentemente não tinha ninguém acordado. Com muito cuidado, a levei até a porta da frente e estava quase abrindo-a quando uma voz feminina me paralisou.
— Quem está aí? — perguntou minha mãe com toda coragem do mundo. Se não a conhecesse tão bem, não teria percebido o tremor de sua voz.
Como todos os cômodos estavam com as luzes apagadas, empurrei Sali delicadamente para a sala e empurrei-a sentada atrás do sofá. Distrairia a minha mãe.
— Sou eu — falei em alto e bom som, me dirigindo para a cozinha e acendendo a luz do cômodo. Perguntei-me se ela tinha percebido o nervosismo em minha voz.
— Ah, Guto — ela disse assim que chegou à cozinha. — Pensei que fosse um ladrão — uma de suas mãos estava sobre o peito.
Abri a geladeira de forma casual e peguei uma garrafa de água. Minha mão tremia. Minha mão não deveria tremer. Droga.
— E acha mesmo que ele se pronunciaria? — perguntei de forma despreocupada enquanto pegava um copo. Quero dizer, tentei parecer despreocupado.
— Bom, tem louco para tudo, não? — ela riu nervosa. — Mas o que faz acordado, filho?
— Eu estava com sede e me levantei para pegar um copo de água — esclareci.
— Ah — ela disse simplesmente e também pegou um copo, parando ao meu lado para se servir. — Por que suas mãos estão tremendo, Guto?
Ela tinha percebido. Droga, droga, droga. Ela estava desconfiando de mim.
— Frio — justifiquei, estremecendo ao primeiro gole de água. Talvez ela se convencesse.
— E essas roupas? Até parece que estava prestes a sair…
Justificar indignado ou parecer despreocupado? Justificar indignado ou parecer despreocupado? Eu tinha sempre esse questionamento quando era interrogado e realmente tinha culpa. Se parecesse indignado tinha uma chance mínima de convencer a pessoa; “ora, como pôde pensar isso de mim?”. E se parecesse despreocupado também poderia me salvar. O problema era que geralmente não sabia qual papel interpretar e ficava ridiculamente nervoso, gaguejando e rindo em horas desnecessárias. Quando eu tinha culpa, sempre acabava me entregando. Mas naquele caso não estava protegendo apenas a mim e resolvi tentar me acalmar.
Respira. Respira. Respira.
Mas não deixe sua mãe perceber que você está respirando.
Cacete, aquilo era realmente difícil.
— Eu estava lendo. Nem me preocupei em colocar pijama — tomei o último gole do meu copo e o deixei na pia, conseguindo uma desculpa para ficar de costas para minha mãe. Não manter contato visual. — Mas acabei pegando no sono e o resto você já sabe…
— E os seus calçados?
— Eu não tirei meus calçados para ler. Por que faria isso?
Quando minha mãe me olhou, eu soube que ela não apenas desconfiava. Ela tinha certeza de que eu estava mentindo. Ela tinha certeza de que tudo aquilo era uma grande invenção para acobertar algo muito maior. Apenas não sabia o que era maior.
— Não sei — ela deu de ombros. — Sabe, você parece um pouco nervoso, Guto.
Não retruque, não retruque.
— Por que eu pareceria nervoso?
— Me responda você.
E o feitiço se voltou contra o feiticeiro…
Tive medo de que em algum momento ficasse tão desesperado que pudesse contar tudo o que estava acontecendo e rastejar aos pés de minha mãe para que ela não denunciasse o caso para a família de Sali. Mas eu ainda não tinha perdido a compostura. Eu ainda tinha as rédeas da situação.
Por enquanto.
— Eu não teria motivo para me sentir nervoso. Somente vir tomar água.
Ela respirou fundo.
— Guto, por que tenho a impressão que está mentindo pra mim?
— Não estou — respondi quase imediatamente. Apesar de ainda estar nervoso, percebi que sua expressão se suavizou. — Sério, mãe.
— Eu vou confiar em você — ela disse ao colocar sua mão em meu ombro. — Agora vou voltar a dormir. Vê se não demora a ir para a cama.
Assenti um pouco desconcertado. Somente naquele momento pude sentir a angústia da Sali na festa a que tínhamos ido. Minha mãe disse que confiava em mim mesmo quando eu estava mentindo, fazendo eu me sentir um milhão de vezes mais culpado. Fechei meus olhos e senti Sali me envolvendo por trás assim que minha mãe fechou a porta de seu quarto.
— Eu sei o que está sentindo — ela sussurrou. — Sinto muito por ter feito você passar por isso.
Peguei uma de suas mãos que estava em minha barriga e a levei aos meus lábios, depositando um beijo nela.
— Eu quis que você viesse aqui — sussurrei enquanto me virava para ela. Envolvi sua cintura. — Então aceito dividir a culpa.
Ela contornou o meu sorriso fraco com a ponta dos dedos.
— Queria tanto que não tivéssemos que passar por isso — havia lágrimas em seus olhos.
— Sali… — enterrei meu rosto em seu pescoço e senti que ela abraçou firmemente os meus ombros.
Percebi que, naquele momento, a mãe da Sali era a única culpada. Se ela tentasse ao menos entender os motivos da filha, tudo aquilo podia ser evitado. O nosso relacionamento deixaria de ser escondido e proibido. Eu não teria que mentir para a minha mãe ou magoar o meu pai por fazê-lo mentir para minha mãe também. Apenas uma pessoa tinha bagunçado a vida de várias outras por convicções arbitrárias e ela era a única desinformada disso.
— Vai ficar tudo bem — sussurrei e quis acreditar em minhas palavras.
— Vai sim — mas Sali tampouco parecia acreditar no que dizia.
Com um suspiro, desliguei a luz da cozinha e a levei até a porta mais uma vez. A abri silenciosamente e conseguimos chegar à bicicleta sem que fôssemos flagrados. Deixei Sali em frente a sua casa; durante a noite não tinha perigo.
Sali segurou em meu rosto mais uma vez.
— Quando vamos poder nos ver novamente?
— Eu não sei — e percebi o quanto a minha incerteza me machucava. — Mas ainda temos as cartas.
— Sempre teremos as cartas — Sali assentiu e me deu um selinho. — Amo você.
— Amo você — sussurrei em resposta e a ajudei a pular o muro para entrar em sua casa.
Quando Sali desapareceu, senti uma grande dor em meu coração. Por um momento foi como se o seu medo pudesse se tornar real e nós não conseguíssemos superar o obstáculo mais difícil. Eu sabia o risco que corríamos. Namorar escondido nunca tinha sido uma boa ideia; alguma hora sua mãe descobriria e então estaríamos perdidos.
Não quis pensar naquele momento que tentávamos evitar a todo custo, mas eu sentia sua proximidade. Sua mãe acordaria no meio da noite, ou leria nossas cartas, ou perceberia o novo colar de Sali. E não demoraria muito. Não poderíamos esconder nosso relacionamento para sempre.
Fechei meus olhos, rezando para que aquele momento demorasse a chegar ou nunca chegasse.
Mas no fundo eu sabia que minhas preces não adiantariam quando a hora finalmente chegasse. E então as nossas promessas seriam postas à prova.
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