Juntos
17 Epílogo
Notas iniciais
Ouço ela rir.
Abro os olhos e tudo que vejo é um longo, não tão longo assim, par de pernas. Novamente estou molhado. E a areia brilha em tons de dourado.
Ela se ajoelha ao meu lado. Molly. Em seu vestido branco, que infelizmente não estava transparente agora.
– Você demorou! Sabe quantos dias estou aqui sozinha sem fazer nada?
Estou confuso. Meus olhos encontram seu rosto e ali está ela. Com seus trinta e poucos anos, como quando fomos parar naquela... Ilha.
Eu estou de volta à ilha. Com Molly.
Fecho meus olhos com força e volto a abri-los. Meu coração está disparado e não devia estar nem batendo. Ergo minha mão para que possa olhá-la. Jovem. Eu estou jovem.
Então eu começo a rir, ainda deitado na areia. Um riso incontrolável, misturado com lágrimas que saem dos meus olhos de modo involuntário.
Finalmente consigo me sentar e olho para Molly. Ela está chorando também. O sorriso em seus lábios é a coisa mais incrível que eu poderia desejar ver.
– Nós conseguimos. — Ela diz baixinho enquanto se aproxima de mim e coloca uma mão em meu rosto. — Nós voltamos.
A puxo para mim, com força demais, e nós caímos. Os cabelos dela fazem cócegas em meu rosto.
– Deus, como eu senti sua falta. — Paro de enrolar e trago seu rosto até a mim, beijando-a. E ali estão. Os mesmos gostos, as mesmas sensações, os mesmos sentimentos...
Quando nos separamos, depois do longo beijo, eu a abraço junto a meu peito. Inclino a cabeça um pouco para trás e vejo, de ponta cabeça, a casa. Nossa casa na ilha. A mesma varanda onde Molly me fez perceber que eu estaria perdido ao limpar os dedos da calda de chocolate do nosso primeiro bolo.
Ficamos um tempo interminável abraçados. As ondas vinham e molhavam nossos pés. Achei que nunca mais fosse sentir o calor e o peso do corpo dela sobre o meu.
– Essa ilha não é tão legal quando você não está. — Ouço ela dizer e dou risada. A risada mais sincera de minha vida (ou morte, escolham).
– Você estava me esperando?
– Não, Sherlock, estava passeando de lancha e caí aqui. — Ah como senti saudades dessas respostas rápidas. Não consigo resistir em sorrir de novo.
– Como você sabia que eu viria? Eu poderia querer continuar minha vida, você sabe. Os bailes da terceira idade estavam lotados.
Ela belisca a região de minhas costelas e começa a se levantar, afastando-se de mim.
– Você estava um pouco velho para sessões de sexo selvagem, pelo o que consigo me lembrar... E faz só uns 20 dias que deixei você. Sabia que você não resistiria a mim e viria correndo.
Pior que ela tinha razão. Levanto-me também e corro atrás dela, agarrando-a pela cintura.
– Agora não estou mais velho.
– Você é um safado, Sherlock. Não sei como vou te aguentar por toda a eternidade. — Molly me dá um beijo rápido e continua andando. — Venha, vou mostrar a você.
– Gostei desse negócio de E-T-E-R-N-I-D-A-D-E. – Eu falo pausadamente, saboreando a palavra. — Podemos fazer tudo que não tivemos tempo em vida!
Observo ela me olhar e revirar os olhos, tentando esconder um sorriso.
– Não sobraram muitas coisas, não é?!
– Se é de ideias que você precisa... – Já consigo pensar em inúmeras coisas para fazer com Molly nessa ilha. Principalmente agora que não temos preocupações sobre como sair daqui.
– Sherlock, você pode me acompanhar, por favor?
– Você acaba com minha festa. — Faço birra só para vê-la sorrir.
– Teremos muitas festas depois... – Ela vira e pisca pra mim.
Começo a me animar com isso e ando em silêncio ao lado dela. Molly sempre cumpriu as promessas que fez pra mim, não irei duvidar agora.
Chegamos à sala, e na mesma mesa onde encontramos o primeiro bilhete de boas-vindas encontra-se um outro, um novo bilhete. Ela o pega e me entrega.
“Molly Hooper,
Sherlock Holmes está atrasado, mas chegará. Pedimos que você o aguarde por alguns dias.
Nós somos gratos pela preferência e confiança eterna em nossos serviços.
Eternity Island”
– Nossa ilha trocou de nome? – Ergo a sobrancelha. Que ilha mais engraçadinha.
Molly não responde e me arrasta para o sofá. Sentamos lado a lado e ela segura minha mão.
– Como ficaram todos?
– Tristes por sua perda, é claro. E espero que tristes pela minha agora. — Sorrio de canto.
– Não seja perverso, Sherlock!
– Oras, você quer que eu deseje que eles fiquem felizes? — Faço uma pausa antes de contar, deliciando-me em vê-la rir de mim. — Deixei nossos diários com Amy. E uma carta também. Contei algumas curiosidades sobre nós que achei que ela gostaria de saber.
– Você vai chocar a pequena Amy! Vai achar que somos dois velhos pervertidos!
– Ela já não é pequena, Molly. E nós não éramos velhos.
– É, pensando bem acho que você está certo... – Ela não parece tão convencida, mas logo parece como uma criança feliz. — Será que ela vai gostar de nossa história? Se Liv ler vai chorar como uma manteiga derretida.
–Foi o que eu disse na carta. Vocês são idênticas. Tomara que ela não nos amaldiçoe por mostrar tudo aquilo à Amy.
– Liv vai adorar saber das partes quentes de nossa juventude. Eu não choro por tudo, Sr. Holmes. – Ela me olha emburrada e eu não resisto mais. A beijo com carinho, enroscando meus dedos em seus cabelos e a deitando no sofá.
– Sabe do que me lembrei agora? Nós nunca usamos esse sofá...
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Esse é meu último relato feito em folhas de papel que achei na nossa nova casa definitiva. Sei que ninguém vai ler, mas quero ter guardado para mim o momento em que reencontrei Molly.
Ela diz que não quer voltar a escrever por enquanto, que vai ter muito tempo para isso quando se enjoar de mim. Mas, quando passa pela mesa que estou escrevendo em seus trajes de banho – irei encontrá-la na piscina assim que terminar isso – diz, após deixar um beijo em meu pescoço: “escreva que eu sempre amarei você”.
E é recíproco.
Eu sempre a amarei. Diria que até o fim, mas nós já ultrapassamos o fim.
'Cause all I can say
I love you till the end
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