Juntos

16 Capítulo 16


Notas iniciais
Penúltimo! :(

♫ ♪ ♫

I cannot be without you, matter of fact

I'm on your back

Amy,

Você é o perfeito equilíbrio entre meu cérebro e o coração de sua avó. Por isso deixo para você todas as nossas memórias, com a esperança de que você consiga compreender a profundidade de nossos sentimentos. Sua mãe, de mim só herdou os olhos. É uma cópia perfeita de Molly, inclusive com as mesmas palavras ácidas e sorriso conquistador. Temo que ela iria desidratar em lágrimas mesmo nas partes mais felizes. Caso você avalie que seja seguro, poderá deixar que ela leia. Eu já não estarei mais nesse mundo para vê-la chorar, o que partiria meu coração.

Você gostará de saber que Molly nunca adotou o sobrenome Holmes. Ela era independente demais para isso. Aliás, nós nunca oficializamos nosso casamento, porque para nós sempre bastou a pequena cerimônia que fizemos naquela praia deserta.

Como você deve ter percebido nas reuniões em família, Molly e Microft sempre trocaram farpas. A vida toda foi assim, mas eu sei que Molly ganhou uns pontos com o insuportável do seu tio-avô quando deixou que ele comesse um pedaço do bolo de chocolate que ela tinha feito pra mim. Por costume, eles mantiveram as pequenas guerras em forma de diálogo. Desconfio que sempre se divertiram com isso. Era como um hobby.

Nós demos início aos diários quando sofremos o primeiro aborto. Foram dias de chuvas e trovoadas. E medo. Muito medo. Nos assustamos com a ideia de que nunca tivéssemos para quem contar tudo que vivemos. Então, começamos a escrever. Além de tudo, isso aliviou nossa dor. Demos por encerrado na cena em que Molly me conta sobre sua gravidez. Não foi porque não quisemos contar o resto ou por qualquer coisa desse tipo. Foi só porque enquanto eu escrevia a última cena, Molly foi fazer um de seus bolos de chocolate e ao tirá-lo do forno sentiu enjoos. Era a nossa quarta gravidez. Ficamos tão ansiosos e tínhamos parado a escrita numa parte tão condizente com nosso momento que só aguardamos. Só conseguimos comprar algo para o bebê quando sua mãe já estava quase nascendo. Era irreal para nós. Sempre pareceu algo inalcançável e de repente estava acontecendo. Nós estávamos em choque. Eufóricos. Surtados.

A gravidez não foi fácil. E o parto menos ainda. Não me orgulho por dizer isso, mas quando o médico me perguntou qual das duas eu queria que ele salvasse, eu escolhi Molly. Eu sempre escolheria ela. Se isso acontecesse mil vezes, seria mil vezes que eu imploraria por Molly ser salva.

Sua mãe nasceu e meu amor se multiplicou de uma forma inimaginável. Eu a embalava durante horas, e cuidei dela sozinho durante os dias que Molly ficou internada no hospital se recuperando da forte hemorragia que teve ao dar a luz. Parecia que segurava em meus braços o meu próprio coração. E desde então meu coração nunca mais voltou ao meu peito, ele sempre foi carregado por Liv. Quando ela estava feliz eu também estava. E quando ela chorava eu fazia o impossível para que isso passasse.

Nós a amamos infinitamente, como dos pais apaixonados e babões. A vi crescer e se tornar uma miniatura de Molly. Uma miniatura que me dava os mesmos sorrisos quando queria me convencer de algo. Liv. Sentirei muito a sua falta. Por favor, não se esqueça de dizer isso a ela.

Ainda lembro perfeitamente de quando ela segurava minha mão nos passeios ao parque e como a calda de chocolate tomava um sentido mais decente quando envolvia uma criança. Nunca imaginei que coubesse mais amor em mim, até Liv nascer. Quando a olho agora, vejo Molly e minha saudade aperta.

Após termos Liv, sempre adiamos a volta à escrita. E nunca voltamos. No fim, achamos que ali era o final ideal.

Nós fomos felizes, Amy. Muito. Os momentos tristes que vivemos não chegaram nem perto de ser maior que a nossa felicidade. Passamos por cima de tudo que foi ruim, porque tínhamos um ao outro. E mesmo quando estávamos tristes, um de nós fazia um comentário inconveniente que gerava alguma risada. Sempre foi assim, nós sempre achávamos um modo de melhorar a situação.

Não me arrependo de ter escolhido Molly. Eu ainda não vejo como continuar em um mundo onde ela não esteja, é uma dor maior que posso suportar. Nós escolhemos não ter mais filhos. Era arriscado. Muito. Eu não arriscaria perder Molly e ela não arriscaria me deixar sozinho. Nos entendemos assim.

Praia sempre foi sinônimo de nosso amor e agora você vai entender o porquê durante todos esses anos sempre fugíamos para alguma. Nós nunca voltamos para nossa ilha. Nunca aconteceu novamente. Nos momentos mais sombrios, nós deitávamos de mãos dadas em nossa cama e tentávamos nos levar até lá. Mas nunca conseguimos.

Também entenderá a importância de nossas queimaduras. E o porquê de nunca usarmos nenhum tipo de aliança. O sinal de nosso relacionamento estava ali, gravado em nossas peles. Era a marca de que nós nunca nos separaríamos. Era uma ligação. Quando tudo parecia confuso e perdido, nós olhávamos para elas e então tudo se encaixava novamente. O mesmo acontecia com o pequeno recipiente de vidro cheio de areia que ficava sempre em nossa estante.

Eu a amava, Amy. Eu a amo.

E sei, porque temos essa ligação, que não demorará para que eu me vá para junto dela. E se existe um outro plano, Molly deve estar infernizando alguém para que me leve até ela rápido.

Por isso, escrevo essa carta e peço para que o advogado responsável pelo testamento deixe com você após minha morte, junto com os diários e nosso pote de areia.

Não evite o amor quando ele chegar, Amy. É perfeitamente possível equilibrar o cérebro e o coração, nunca se esqueça disso. Eu me esqueci por longos anos e quase perdi Molly. Se não fosse por aquele coma, eu teria perdido.

Sua mãe, sendo uma cópia de Molly, não se enganou ao se apaixonar por seu pai. E acho que a genética dele até é boa, porque nos deu você.

Enfim, se você está lendo isso, eu provavelmente não estou mais nesse mundo. O que deixo para você é o melhor de minha herança e vale mais do que qualquer quantia que ficará.

Torça por mim. Torça para que exista um lado de lá e eu reencontre Molly. Ela não teve oportunidade de se despedir de todos nós, mas acho que ela diria para você: Torça pela vida. E pelo amor.

Nós amamos vocês todos.

Vovô Sherl.

PS: Espero que você não se choque com algumas passagens. Nós éramos jovens e extremamente atraídos um pelo outro. Não faça o mesmo...

Ok, ou faça. Eu não estarei aqui para matar o bastardo com quem você fizer qualquer coisa, mas talvez eu volte para assombrá-lo. Lembre-se disso.

If you walk out on me, I'm walking after you

Notas finais
Esse capítulo me arranca lágrimas... :(