Junto por obrigação e opção
3 Progresso
Notas iniciais
—Cadê você?
Não respondi.
—Você se esqueceu de mim? Me abandonou?
Não consegui responder, as palavras ficaram presas na garganta.
—Você era o último que achei que me abandonaria. Por que você fez isso?
—Eu não te abandonei, só... Não sei onde você está.
—Mentiroso! Você só fica inventando desculpas para me enganar!
—Não! Eu estou falando a verda...
Acordei ofegando com o suor escorrendo pelo meu corpo. Ainda estava deitado na minha cama no hospital, sozinho no meu quarto. Esfreguei meu com as mãos trêmulas, tentando me acalmar. Era a vigésima vez que eu tinha esse mesmo sonho, mas a conversa com a esfera azul não avançou muito. Não fazia menor ideia de quem a bola de luz era, mas devia ser alguém muito importante para mim. Minha memória não tinha melhorado muito, só lembrava de pequenos pedaços de cena e a maioria eu preferia esquecer antes que me trouxessem mais pesadelos. Porém, não encontrei nada sobre a esfera azul. O pior de tudo era que me sentia péssimo quando acordava, a sensação de tê-la abandonado era horrível.
Um pequeno raio de luz atingiu meu olho, me cegando. Lentamente, sentei na borda da cama, sentindo meus pés balançando livremente, quase encostando o chão. Respirei devagar.
Calma, você consegue. É mais simples do que pensa.
Com um pequeno impulso, saltei da cama. Cai de pé meio cambaleante, demorei um pouco até conseguir me equilibrar. Arrastando a barra de metal, fui lentamente até a janela e abri a cortina. Parecia que ia fazer um dia bonito: o sol tinha acabado de nascer, o céu estava com poucas nuvens, alguns pokemons voavam livremente, a cidade de Verdian acordava.
Quatro meses se passaram desde que Red me salvou. Nesse tempo, fui me recuperando e ficando e menos cansado. Depois de muitas tentativas e quedas, consegui voltar a ficar de pé e andar sozinho, mesmo que com um pouco de dificuldade. Ganhei bastante peso: meu corpo não era mais esquelético como antes, estava até um pouco gordinho. Red me visitava quase todos os dias e , ás vezes, Yellow e Crystal vinham junto. De vez em quando, outros amigos dele apareciam. Eles sempre me ensinavam coisas novas e traziam pokemons diferentes para eu conhecer, alguns eram bem assustadores, outros bem legais.
Encostei no meu reflexo e sorri. Aquele dia foi engraçado: quando me vi pela primeira vez. Tinha passado apenas uma semana desde o meu salvamento e a Crystal resolveu cortar o meu cabelo. Aqueles “tec tec”s das tesouras atrás de mim me deixavam tão nervoso que Red ficou segurando minha mão o tempo todo.Depois de uma hora sofrendo, Crystal terminou e me mostrou um grande espelho oval. Lembro de ter tomado um susto e demorei uns dois minutos para perceber que era eu ali no vidro. Acho que era a primeira vez que eu me via. Meu rosto era claro, da mesma cor do meu corpo, enquanto meu cabelo era escuro, da mesma cor do Red. Mas, meus olhos eram diferentes: o da esquerda era marrom claro e o da direita, azul. Crystal me disse que isso era chamado de... Esqueci. É um nome muito estranho. Mas, graças ao meu olho, Red escolheu um nome para mim: Cobalt. Ele disse que combinava comigo. Eu gostei, é bem melhor que experimento 9808.
Toc toc
—Chansey chansey!
—Pode entrar, já estou acordado.
Uma chansey entrou no quarto trazendo uma bandeja com meu café da manhã. Devagar, voltei à minha cama e comecei a comer, olhando para a paisagem da janela. Depois de tanto tempo ali, ainda não sabia por que eles me deixavam aqui. Não tem nada de errado no meu corpo, eu acho. Então quanto tempo eu ainda ficaria ali e o que eu faria quando saísse?
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—Peraí, o quê?
— Foi exatamente o que você ouviu, Cobalt. Você acabou de receber alta, então tá na hora de sair daqui.
O médico que cuidava de mim tirou a agulha do meu braço e colocou um curativo por cima da marca roxa que ficou no lugar e se despediu. Eu sorri meio envergonhado, me lembrando do nosso primeiro encontro. Sinceramente, não esperava que minha resposta chegasse tão rápida. Red entregou pra mim um pacote embrulhado num papel marrom cheio de papel colado e rabiscado.
—O que é isso?
—Um presente. São algumas roupas que um amigo meu lá de Hoenn fez pra você. E nessa sacola tem algumas peças básicas.
—Mas eu já tenho essa.
— Hehe. Essa roupa de hospital não é muito apropriada lá fora. Vamos, experimenta.
Animado e nervoso, abri o pacote rasgando o papel e comecei a me vestir. Quer dizer, tentei, mas me atrapalhei tanto que acabei pedindo ajuda pro Red. Depois de uns cinco minutos com ele me ensinando como colocar cada roupa, consegui e me olhei no espelho do banheiro para ver como eu fiquei. Uma jaqueta azul escura com capuz e faixas pretas escondia uma camiseta branca. Um shorts marrom com vários bolsos tinha um cinto meio ondulado, com se fosse pra prender algo ali. Para terminar, tênis preto e luvas parecidas com as do Red. As roupas couberam perfeitamente em mim, parecia que alguém mediu meu corpo enquanto eu dormia.
—Então, Cobalt, você gostou?
—Adorei, obrigado.
—Que bom. Vamos sair daqui então?
—Red...
Eu abracei ele com algumas gotas escorrendo pelo meu rosto.
—Obrigado por ter me salvado e... Por ter sido tão legal comigo.
Ele ficou uns cinco segundos parado. Fiquei com medo, talvez ele não tenha gostado ou ficado bravo comigo. Porém, Red me abraçou de volta e colocou a mão na minha cabeça.
—Não precisa me agradecer, Cobalt.Por algum motivo,eu realmente me importo com você, como se fosse um irmãozinho para mim.Então, se precisar de alguma coisa, eu vou te ajudar com o que eu puder. Agora, seque essas lágrimas e me mostre um sorriso.Tá na hora do mundo conhecer você.
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Quando atravessei a porta de vidro, senti a luz natural me cegar por alguns instantes. Depois que me acostumei um pouco, vi as pessoas andando, fazendo suas coisas, os pokemons no telhado e correndo pela cidade. Era um lugar muito animado, vivo e muito barulhento. Era muitos sons ao mesmo tempo, fazendo minhas orelhas doerem.
—Vamos?
—Sim.
Red segurou meu braço e começou a me guiar pela cidade, me mostrando as lojas, os pokemons, as pessoas. Achei muito divertido e conheci muitas coisas novas. Descobri que para pegar algumas coisas, você precisa dar um papel verde chamado dinheiro. Aprendi que os pokemons que não vivam com as pessoas eram chamados de selvagens. Sinceramente gostei do gosto da berries, embora fosse comida de Pokémon. No entanto, me sentia desconfortável no meio de tantas pessoas. Não estávamos andando muito rápido, mas fiquei praticamente colado no Red. Tinha a sensação de que alguém olhava para mim com muita atenção.
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—Para onde estamos indo?
—Quero te apresentar um velho amigo meu. Ele deve trabalhar em algum lugar por aqui.
Já era fim da tarde quando chegamos num lugar meio distante da cidade. Não tinha muitos prédios por ali, mas vi bastantes casas, uma com telhado vermelho e outro, azul. Andamos bastante pela cidade, se bem que eu fiquei um bom tempo montado no Saur. Mesmo que não tenha desgrudado do Red nem por um segundo, fiquei o tempo todo olhando para trás. Sentia que alguém me seguia. A ideia de que me procuravam para ser colocado de volta àquela sala me assombrava. Mas a simples visão de Red me acalmava. Havia algo de diferente nele, só não sabia o quê. Estava tão envolto nos meus pensamentos que acabei esbarrando nele.
—Ai! Por que você parou de repente?
— Porque nós já chegamos. Bem vindo ao ginásio Pokemon da cidade de Viridian.
Aquele prédio era gigantescamente enorme. Não era muito alto, mas largo com várias janelas na parede. Havia dois vidros bem grandes que iam até o chão. Quando Red se aproximou, elas se afastaram 3 , depois que ele atravessou, fecharam. Fiquei assustado. Parecia que o prédio havia engolido ele. Engoli em seco, com medo, me aproximei lentamente, mantendo uma boa distância, e estiquei meu braço devagar. Quase que imediatamente, os dois se separaram e quando puxei meu braço de volta, eles fecharam. Fiquei repetindo isso por uns dois minutos, estava finalmente entendendo como aquilo funcionava mais ou menos.
—Ei, Cobalt! Você vai entrar ou não?
—S-sim, já estou indo.
Engolindo em seco, atravessei entre os vidros. Entrei numa sala bem iluminada. Havia uma moça ali mexendo em alguns papéis, na frente de um retângulo preto grande. Red olhava para mim sorrindo, segurando a risada. No início, não entendi o porquê, mas meu rosto começou a esquentar quando percebi que o motivo da risada era eu.
—O que é tão engraçado?
Estava começando a ficar irritado, não gostei de ser o bobinho da situação.
—Nada, nada. Só que... Você faz coisas muito fofas de vez em quando.
Eu rosto esquentou mais ainda.
—Cadê seu amigo que viemos ver?
—Boa pergunta. Ester, o Blue está?
—Sim. A moça respondeu sem levantar os olhos, soltando um suspiro. — Cada vez mais gente vem treinar com ele e ainda mais vem desafiá-lo.
—Algum vencedor?—Um ou outro em acho. Podem entrar já, o senhor Blue já deve estar terminando.
— Ok, obrigado Ester. Vamos Cobalt!
Eu segui Red, acenando timidamente para a moça, que sorriu gentilmente para mim. Tinha duas saídas +uma era grande de onde vinha muitos sons diferentes, outra levava a um corredor bem comprido, meio escuro. Red escolheu esse último, então fomo caminhando devagar, com as luzes no teto piscando. De repente, senti um a mão cobrindo minha boca e me puxando apara trás.
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