Juntas
2 Choro
Sakura encarou a prateleira mais uma vez tentando lembrar o que estava procurando naquela sessão. Leite, fraldas, sabonetes, carne moída, lenços umedecidos... Repassou mentalmente lista de coisas que havia ido comprar. Passou uma das mechas que se encontravam soltas de seu rabo-de cavalo improvisado para trás da orelha, percorrendo os olhos pela prateleira buscando encontrar seja lá o que tivesse procurando. Shampoo! Exclamou mentalmente ao lembrar o que fora buscar ali, mas teve seu lampejo de memória interrompido pelo gemido de choro que se anunciava da cadeirinha de bebê do carrinho de supermercado.
Sarada. Ela a encarou com um misto de frustração, por ver que ela acordou, precipitando-se para pegá-la no colo, embalando-a em ritmo constante. Ela estava tão agitada nas últimas semanas, com crises de choro que duravam a madrugada e mais algumas durante o dia.
Voltou a fitar a prateleira mais uma vez, buscando se lembrar do que precisava, enquanto o choro se tornava cada vez mais estridente. Tinha tanta coisa para fazer naquele dia, e mal dormira. Encontrava-se em sua versão mais miserável, com moletom duas vezes maior que seu tamanho e o cabelo desengrenado que mal podia lembrar qual foi a última vez que lavara. Estava buscando retomar sua rotina no Hospital, resolvendo alguns problemas burocráticos com a ala infantil que havia instalado há alguns anos, e tentando conciliar isso com fraldas sujas, tortas de tomate, noites sem dormir, banheiros limpos, estufa regada e mantimentos em dia, ou seja: Não acompanhar Sarada em meio aquela crise de choro era um verdadeiro desafio.
Aliás, é de conhecimento geral que bebês choram. O fato mais previsível sobre eles, especialmente se você for uma médica renomada de Konoha e souber as quatro fases em que os bebês apresentam crises de choro durante o primeiro ano. E Sakura estava passando pela provação que é a crise dos oito meses enquanto tentava sobreviver à reintegração de sua rotina de Drª. Sakura. Mas o que ninguém falava era do quão desesperador era ver sua filha chorar por minutos a fio e não saber se ela está com dor, fome, frio, ou só dizendo que você é uma péssima mãe.
A mulher sacudia seu bebê exasperada, decidindo por fim se dirigir ao caixa imediatamente assim que a filha começou a dar os primeiros sinais de que estava se acalmando. Quando guardou as compras no porta-malas percebeu que a filha ainda estava chorosa, mostrando que ao mínimo desagrado que houvesse se precipitaria em chorar copiosamente, o que aconteceu assim que foi retirá-la do carro junto com as compras.
— Ei, princesa. — sussurrou buscando acalmá-la, embalando-a nos braços, entrando em casa, deixando as compras ainda no carro. Desde que tivera Sarada tudo sempre ficava inacabado, metade das roupas sempre eram lavadas no dia seguinte, parte do café da manhã sempre saia quase no fim da tarde, às vezes se sentia incapaz de administrar tudo. E em momento como aquele, se sentia mais perdida que nunca, como se estivesse fazendo tudo errado. Sua vontade era apenas de abraçar a filha e chorar junto. Mas não chorar junto com a cria era uma das regras número um de ser uma mãe minimamente decente, imaginou Sakura.
— A mamãe esta aqui, SHIII.— continuou sussurrando. Em geral, a constância do barulho do "shii" costumava ir a acalmando, bebês em geral se acalmavam com sons constantes, principalmente aqueles que remetiam a ondas e sua vida uterina. Ela se recostou em uma poltrona e ficou ali, não se sabe quanto tempo, até ver o choro cessar por completo, embalando a filha, sentindo seu cheirinho de bebê, sua respiração que assumiu um ritmo mais compassado, até que a sala fosse tomada por um silêncio absoluto, onde era possível ouvir as batidas ritmadas daquele pequeno coraçãozinho. Naquele momento duvidou que algo pudesse ser melhor que aquilo.
Talvez tudo que Sarada queria era que ela estivesse ali, exatamente como naquele momento, a abraçando, juntinhas, sem preocupações com a organização da casa, hospital, e todas aquelas mil coisas que a estava sobrecarregando. E mesmo que Sakura não soubesse até então, ela também precisava disso. Ela estava longe de ser a mãe ideal, e de saber o que fazer a maior parte do tempo, mas tinha uma ótima professora para lhe ensinar. Obrigado por tentar me ensinar a ser sua mãe, Sarada - pensou, beijando uma das suas pequenas mãozinhas.
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