Junho
3 O cálamo invisível dos fantasmas
Eu não sei como explicar isso só com palavras. Tem coisas que o silencio proporciona que bem mais sutil e delicado. E essa atmosfera com ausência de linguagem oral me fascina por sua tão preciosa precisão. A vida inteira procurei a ocasião certa para poder dizer os momentos certos quando hoje vejo que só tava personificando toda uma remoção de coisas que já fazem parte do passado. Até que ponto isso tudo pode realmente ser levado em consideração? Eu não entendo perfeitamente a vida.
O que entendo agora é que saudade é bem aquilo que a MM disse mesmo: “é sentir a presença de alguém”. Acontece que hoje existe uma diferença muito grande naquilo que eu sinto saudade. Em certas ocasiões eu sinto saudade e quero estar perto para celebrar a vida. Em outras ocasiões eu sinto saudade e tudo me traz um aspecto de coisa longínqua e pertencente a paginas já viradas do meu caderno do agora.
Certas coisas realmente morreram. Certas fantasmas insistem seu preciosismo pra mim e só consigo oferecer um cálamo invisível para concretizar sua tão sonhada perfeição dos fatos. A beleza das palavras efêmeras e coisas que são efêmeras também os encantam e tapeiam. Mas de fato a morte ocorreu e de nada adianta ressuscitar. Tantas vezes isso já aconteceu e foi como desperdiçar açúcar no rio. Hoje o rio recebeu sua enchente e trouxe um pouco de amargura para meu paladar. Sinto saudade da doçura de outrora. Que desperdício meu achar que vale a pena insistir em algo que não faz sentido algum.
Sigo feliz com esse insight mas mesmo assim não por completo. Há algo que precisa muito ser concretizado e ainda não foi possível tocar em suas asas. Eu clamo pela paz das lagrimas caídas de um rosto sem ressentimentos. Onde a dor é nova e completamente diferente. Por que o corpo também é novo e também é diferente.
Fale com o autor