Juliet.
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Olhei para a janelinha do avião, não vendo mais nada do que nuvens. Nunca me imaginei indo para a Itália. Seria verdade se dissessem que eu sempre amei Roma, e a ideia de pisar em um lugar que era carregado de histórias me fascinava ainda mais. Principalmente por que a Itália fora palco para o amor fiel de Romeu e Julieta. Uma história de amor que era conhecida por todo o mundo, uma história universal, mas que era marcada pela tragédia.
Dois amantes separados pelo ódio existente entre suas famílias. Existe algo mais dramático — e clichê — que isso?
Vovó e eu sempre fomos fascinadas por esse casal de loucos apaixonados. Mas eu sempre achara Julieta um tanto idiota, não sei explicar o porquê. Eu compreendia com facilidade o sofrimento dela, mas não conseguia aprovar o rumo que as consequências de seus atos tomaram.
Fechei os olhos por alguns segundos, sentindo que meu sonho estava prestes a ser realizado, e respirei lentamente, na ânsia de tentar me acalmar. Meu coração pulsava com ansiedade e parecia não querer se aquietar. Se acalme, Julieta, estamos quase chegando. Sorri abobada e dei um risinho.
Essas férias seriam as melhores de toda a minha vida, com certeza. A terra dapizzaestava ao meu alcance agora. Tão perto, mas eu sentia que ainda estava tão distante.
–Julieta? – perguntou uma voz serena e rouca ao meu lado. Sorri imediatamente.
–Oi amor. – respondi docemente, vendo Justin me dar um de seus melhores sorrisos, daqueles espontâneos e que exibem a maioria dos dentes. Deixando-o mais lindo, se é que era possível. Suspirei tentando reprimir a vontade de atirar-me em seus braços e beijar-lhe, mas em vez disso tudo o que eu fiz foi sorrir e tocar sua face com as pontas dos meus dedos – O que foi?
–Nada, é que você estava tão linda sorrindo de olhinhos fechados. Tão meiga, tão frágil, que eu e perguntei se era você mesma, a Julieta durona e teimosa por quem me apaixonei. – ri pelo nariz, mas logo senti um mal estar horrível, algo como um mau pressentimento. Engoli a seco e estremeci. Isso não estava certo, estava? Eu não era de me sentir assim... Tão vulnerável. – O que houve? – perguntou Justin.
Balancei a cabeça negativamente. Não queria deixá-lo preocupado, afinal estávamos aqui indo em busca de um pouquinho de paz. Era o que nós merecíamos por termos passados por tantos transtornos nesses últimos tempos.
–Nada. – murmurei. Respirei fundo por mais de duas vezes e o encarei com cautela. – Só um mal estar.
–Tem certeza? – perguntou desconfiado. Disse que sim e voltei a olhar para a janela, tentando esquecer o mal estar repentino. Isso não poderia abalar a nossa viagem, nem por míseros segundos.
Mas minha avó costumava dizer que maus pressentimentos eram a forma que uma força superior costumava usar para nos dizer que algo daria errado. Nunca acreditei nela, talvez por eu nunca ter sentido isso antes, talvez fora por que minha mãe me dizia que vovó não andava bem da cabeça. Lembrou-me claramente de quando íamos a sua casa e ela me chamava em um canto, escondido dos meus pais e sussurrava: “Acredite em mim, querida, nossa família é amaldiçoada”.
Meu corpo estremecia toda vez que ela me dizia isso, mas eu nunca tivera coragem de lhe perguntar que maldição rondava a nossa família. Até que certo dia quando ela me perguntou se eu acreditava nela, eu enchi meus pulmões de ar e disse: “Que tipo de maldição vovó?”. Então ela piscou para mim e me pediu para sentar-me ao seu lado no grande sofá carmim. Sentei-me e me aconcheguei ao seu lado, enquanto ela arrumava sua saia e logo depois de tossir brevemente, vovó me olhou nos olhos e disse:
–Muitas moças de nossa família morreram em nome do amor. Foram tantas aquelas que tiveram seus sangues derramados sobre os lençóis. – a encarei com extrema curiosidade, enquanto ela tossia novamente. – Tudo começou no ano de 1340, quando uma jovem chamada Julieta finalmente encontrou o amor nos braços do charmoso Romeo, mas a pobre coitada fora castigada pelos céus, pois não conseguira viver em paz com aquele que escolheu para chamar de marido... – ela me olhou por alguns segundos, como se tentasse descobrir o que eu pensava e depois continuou. – Quando Julieta morreu, ela jogou sobre nossas cabeças uma maldição...
–Que maldição? – perguntei imediatamente.
–Ora, de nunca sermos felizes com aquele que amamos. – senti um arrepio na espinha. Vovó me encarou como se o que ela tivesse acabado de me dizer fosse a coisa mais natural.
–Mas a mamãe...
–Não é com todas que isso acontece, meu bem. – explicou. – Eu fui feliz com seu avô, mas conheci muitas mulheres de nossa família que morreram de desgosto por não ter com elas o homem amado.
–Mas por que Julieta rogou essa tal maldição para nossa família? – perguntei confusa.
–Por que somos a família dela, e a história diz que foi seu tio, Messer Tolomei, quem a entregou para o homem que fez de sua vida um inferno. Então Julieta jurou que faria as mulheres de sua família sofrerem como ela sofreu.
–E... Como se quebra isso? – perguntei hesitante. – Quer dizer... O que eu tenho que fazer para que isso não aconteça comigo?
–Eu não sei. Como ei de saber se a maldição não me atinge? – perguntou como se fosse óbvio. – Mas você saberá... Porque tu és uma Julieta.
–Mas vovó... – indaguei.
–Tudo o que você tem que fazer é encontrar o seu Romeo.
Semanas depois vovó morreu, vitima de uma parada cardiorrespiratória. Sofri calada por muito tempo, mas nunca me esqueci do que ela dissera naquela tarde. O que ela quis dizer com “Porque tu és uma Julieta”?
Durante muito tempo eu guardei esse segredo comigo, mas depois de um longo tempo queimando meus neurônios, decidi contar à minha mãe tudo o que vovó me dissera naquele dia. Depois que terminei de falar, mamãe me encarou perplexa e se limitou a dizer:
–Sua avó estava maluca, Julieta. Minha mãe era dramática, sempre gostara de me contar histórias de antigas maldições, principalmente essa. Romeo e Julieta nunca existiram, eles são frutos da grande imaginação de Shakespeare.
Dez anos depois eu conheci meu Romeo. E agora estava indo para a Itália com ele. Olhei para Justin novamente e ele lia alguma coisa pela qual eu não me interessei naquele momento, apenas fechei meus olhos e deixei minha cabeça repousar sobre seu ombro esquerdo.
Seu cheio era bom, meio amadeirado e... Eu não sei explicar. Na verdade eu nunca conseguira explicar nada quando se tratava dele. Nunca consegui dizer a ele e nem a ninguém o quanto eu amava aquele brilho nos olhos dele, e em como ele ficava mil vezes mais bonito com um sorriso no rosto. Nunca consegui traduzir em palavras o quanto eu o amava. Talvez nunca conseguisse.
[...]
Desespero.Se algo pudesse traduzir melhor o que eu sentia agora, esse algo era a palavra desespero.
Turbulências durante os voos sempre me assustaram e sempre que pensava em viajar em um avião, a ideia de passar por uma situação assim me fazia desistir de embarcar. Mas agora era diferente. Muito diferente.
E eu começa a me perguntar se sempre era assim, ou se as pessoas tentavam amenizar a situação, dizendo que turbulências eram comuns e que não duravam mais do que segundos, mas agora era como se isso estivesse durando uma eternidade.
Sentir meu corpo sacolejar não era uma sensação agradável. Não mesmo. Eu detestava me sentir em desespero. Mas nada se comparava com o medo que senti, quando Justin agarrou minha mão e a apertou com força contra seus dedos, fechando os olhos. Ele também sentia medo.
Pensei se corríamos risco do avião cair, e esse pensamento me causou um arrepio e, involuntariamente, apertei a mão de Justin, que permaneceu imóvel. Congelei no mesmo instante.
Ouvi gritos de agonia e senti necessidade de tapar os ouvidos, mas no instante em que tentei fazer isso, senti a mão de Bieber sobre a minha e decidi deixar a mesma onde estava. Então, sem mais recursos, eu fechei meus olhos com força, agradecendo por estar com cinto de segurança. Mais alguns segundos naquela gritaria e sentimos um baque, que fez meu corpo ir pra frente e depois para trás, chocando-se contra os bancos com uma força arrebatadora. Barulhos de galhos se quebrando preencheram meus ouvidos e eu quis sair dali o mais rápido o possível.
Depois de desejar a mesma coisa pela quinta vez, tudo parou. Os gritos, os galhos se quebrando, o desespero. O que diabos estava acontecendo agora? Eu não conseguia enxergar nada, absolutamente nada que estivesse fora da nossa poltrona.
Não havia mais passageiros, nem bagagens que caiam, não havia mais nada. Absolutamente nada. Então, será que eu morri? Será que Julieta me castigou por conseguir ser feliz ao lado de quem eu amo?
Em meio aos meus pensamentos, minhas pálpebras caíram e apaguei.
**
A primeira coisa que senti quando minha consciência voltou, foi uma dor por todo o corpo e o mesmo se movimentava de uma forma que fazia tudo doer mais ainda. Franzi a testa, em um ato involuntário e resmunguei baixinho, enquanto forçava meus olhos a se abrirem. Quando finalmente consegui, vi o céu azul com poucas nuvens e uma estradinha estreita, que sumia um pouco mais a cada instante.
O próximo sentido a “despertar” foi à audição, permitindo que eu ouvisse cavalos cavalgando. Pra onde eu estava indo? Ao mexer um pouco a cabeça para a direita, vi Justin caído ao meu lado, com o rosto coberto por sangue, a camisa xadrez que usava estava suja e um pouco rasgada. Tateei meu corpo, percebendo que minhas roupas não estavam em condições melhores que as dele.
Tentei me esticar para tocá-lo, sem sucesso algum e logo depois juntei todas as forças que ainda me restavam, para que conseguisse ao menos sentar-me. Quando me vi sentada percebi que estávamos em uma carroça e que seguíamos calmamente pela pequena estrada. Olhei ao meu redor, à procura de quem guiava a carroça.
Um cara estranho estava no comando e senti meu corpo estremecer. Para onde ele estava nos levando? E o que aconteceu? Respirei fundo e consegui puxar Justin com cuidado, deitando sua cabeça sobre minhas pernas, enquanto tentava achar alguma coisa para limpar o sangue de seu rosto. Rasguei, então, um pedaço da sua camisa e há enrolei um pouco, colocando-a em cima do ferimento, para estancar o sangue.
–Vejo que tomou consciência de si, minha jovem. – resmungou o homem. Assustei-me a principio, mas mesmo sem ver seu rosto, eu relaxei. Seu tom de voz soara calmo e isso fez com que meu medo se calasse um pouco.
–Hã... O que aconteceu? – perguntei, enquanto segurava o pedaço de pano sobre a testa de Justin. – E pra onde estamos indo?
–Achei vocês dois embaixo de uma arvore. – explicou. Franzi o cenho. – Ouvi os gritos do rapaz e decidi ajuda-los. Quando cheguei até vocês, o jovem já havia perdido a consciência, mas eu o ouvi gritar para que eu lhe ajudasse, pouco antes de achá-los. – respirei fundo, olhando para Bieber, que tinha uma expressão serena. O homem pigarreou e voltou a falar. — Espero que não sejam inimigos, ou pessoas de caráter duvidoso.
–Nós não somos inimigos, eu lhe dou minha palavra quanto a isso. – respondi suavemente e ouvi o homem dizer algo em italiano. – Mas para onde estamos indo? – perguntei imediatamente. – Eondenós estamos?
–Vou leva-los até meu pequeno chalé, assim poderão cuidar de seus ferimentos com melhores condições. – respondeu com calma. – E, respondendo sua pergunta, nós estamos em Siena.
Siena? Como é? Espera... Mas eu e Justin estamos indo para Roma. Como viemos parar em Siena? E que tipo de pessoa ainda andava de carroça? Oh meu Deus, que diabos está acontecendo? Era só pra ser uma viagem inocente, de dois anos de um relacionamento, mas acabamos em um lugar totalmente diferente, na carroça de um desconhecido, indo para sei lá onde.
–Siena? – perguntei confusa. – Ó meu Deus. – exclamei imediatamente. Respirei fundo algumas vezes, enquanto olhava atentamente Justin e limpava com cuidado o sangue de seu rosto, imaginando por quanto tempo ele teve que gritar por ajuda.
Pela primeira vez eu olhei para meu corpo e me surpreendi com o tanto de machucados que eu tinha. Meus cotovelos estavam na carne viva e eu gemi baixinho, meus joelhos não estavam melhores e eu tinha ferimentos por todos os lados, o que me fez pensar que meu rosto deveria estar cheio deles também. Fechei os olhos, pensando que assim que estivéssemos recuperados, nós voltaríamos para casa.
Justin gemeu tão baixinho, que se eu não estivesse prestando toda a minha atenção nele, eu não teria sequer ouvido. Sua testa franziu levemente e eu deduzi que ele estava retomando a consciência. Graças a Deus.
–A propósito, qual é seu nome? – perguntei.
–Lourenzo! – respondeu imediatamente. – Frei Lourenzo! – exclamou – E por qual nome deverei chamá-la, minha jovem?
–Julieta. – respondi simplesmente.
A carroça parou bruscamente e eu iria protestar se Lourenzo não me olhasse com a uma expressão surpresa. O que esse cara tem afinal? Ele me encarou por alguns segundos, até que respirou fundo.
–O que houve? – perguntei irritada.
–Dio mio! – exclamou. – Você é Julieta!
–Não me digas que tu és um amante de Shakespeare? – debochei. – Pois, se for, vou logo lhe dizendo que não tenho semelhança alguma com Julieta Capuleto. – ele pareceu confuso, mas voltou a guiar a carroça.
–Shakespeare? – perguntou confuso. Franzi a testa. Será que esse homem nunca leuRomeu e Julieta?– Creio que não o conheço, mas ficaria honrado se me contasse um pouco mais sobre ele e essa tal de... Julieta Capuleto. É assim é a chamardes, não?
–O senhor nunca ouviu falar de William Shakespeare? – o ouvi responder um não e me perguntei se ele era desse mundo. Afinal que ser humano nunca ouviu alguém falar de Shakespeare? – O senhor vai me desculpar, mas em que época você vive? – ri pelo nariz. – 1330? – disse o primeiro ano que me veio à mente.
–Creio que já passamos dessa data, senhorita. – Óbvio que sim – Estamos exatamente no ano de 1340.
Fiquei sem fala. Como assim 1340? É impossível! Senti uma tontura e escorei minha cabeça em um local qualquer. Acho que esse velho era um maluco. É impossível voltar ao passado, não é? Ora, Julieta, estas ficando louca?
Respirei fundo e resolvi deixar que o homem continuasse o que estava fazendo. E que Deus abençoe essa pobre alma maluca.
[...]
Chegamos à casa do tal Lourenzo em alguns minutos, e eu o ajudei a colocar Justin em uma pequenina cama, de modo que ele teve que ficar encolhido. Suspirei pesadamente, me perguntando por quanto tempo ele ficaria desacordado, mas Frei Lourenzo me acalmou dizendo que o garoto não havia perdido muito sangue, portanto não demoraria a despertar.
Ele me dera um pano úmido para que eu pudesse limpar as feridas de Justin. Vi o homem colocar uma bacia com um pouco de água ao lado da cama e comecei limpando o rosto do meu namorado, que ainda estava sujo de sangue.
Perguntei a Deus o porquê disso tudo. Quer dizer, além do nosso avião cair – foi o que deduzi que tivera acontecido – nós ainda somos mandados para a casa de um Frei maluco, que acha que estamos no ano de 1340. Tentei dizer-lhe que já estávamos em 2012, mas ele negou diversas vezes.
Justin resmungou e eu o encarei, seus olhos demoraram a se abrirem, mas quando finalmente isso aconteceu, eu agradeci por poder vê-los. Abracei-o, mas assim que me encostei a ele o ouvi resmungar de dor.
–Desculpe-me, amor. – pedi, sorrindo amarelo. Vi Justin sorrir fraquinho e esticar a mão, afagando meu rosto.
–Tudo bem. – disse com a voz fraca. Ele olhou ao nosso redor e depois me encarou. – Onde estamos?
–Numa pequena casinha. – ele franziu o cenho, como se não se lembrasse. – Lourenzo nos encontrou caídos em uma arvore e nos ajudou. – uma faísca de compreensão surgiu em seu rosto, mas ele parecia ter duvidas ainda. – Você se lembra do que aconteceu?
Justin ficou pensativo por algum tempo, mas logo me olhou e eu compreendi que ele havia se lembrado.
–Sim... Eu me lembro Julieta! – exclamou. Fechou seus olhos por alguns segundos e eu aguardei pacientemente que alguma expressão surgisse em sua face. Quando finalmente vi a dor banhar todo seu rosto e depois, sem pressa, o sofrimento e o pavor, que ele talvez tivesse sentido naquele momento – Eu vi você caída e machucada perto do enorme carvalho e eu me arrastei até lá, mas você estava desacordada e eu não tinha forças nem para me manter em pé, quem diria para carrega-la... Então fiz a única coisa que pude. – Justin segurou minha mão, apertando-a. – Eu gritei por socorro. – Abaixei os olhos e me estiquei, para conseguir colocar o pano dentro da bacia com água. Justin passou a mãos pelos cabelos, que tinha uns fios pintados com seu sangue e suspirou. – Graças a Deus alguém nos achou. – no exato momento em que me sentei, ele segurou minha mão novamente. – Quem é essa alma bondosa que nos ajudou?
–Eu não sei direito, acho que é algum monge, talvez. – dei de ombros e continuei o encarando. Ele contorceu o rosto algumas vezes, e eu me preocupei se ele tinha algum osso quebrado, mas Justin me garantiu que estava bem, só sentia dores musculares e um grande cansaço.
Eu fiz uma pausa, enquanto examinava meu corpo, que doía, mas era uma dor suportável. Nada mais que dores musculares, claro que era muito mais intensa e incomodavam muito mais que as dores que sentimos quando dormimos de mau jeito, mas eu resolvi ignorá-las. Eu estava feliz e agradecida por estar viva e com o meu namorado à salvo.
Meus cotovelos estavam enfaixados de uma forma improvisada e eu não esperava que passasse disso, afinal o pobre frade não me parecia sequer ter uma ideia de como se fazia curativos, de forma que eu mesma tive que arranjar melhor os pedaços de pano enrolados nos meus cotovelos.
Meus joelhos não sangravam, nem estavam enfaixados, o que me fez pensar que eu teria de dar um jeito nisso depois, afinal não é nada indicado ficar com uma ferida exposta. Eu sabia que isso só poderia prejudicá-las ainda mais. Mas o lado bom é que estavam todos limpos, exatamente como as feridas de Justin estavam. Limpas.
–Ora, vejam só isso! – exclamou Lourenzo, enquanto cruzava a porta, entrando no quarto. – Deus seja louvado! – ele juntou as mãos em sinal de oração e eu sorri levemente, quando Justin me olhou por um instante. – Eu pedi tanto para que o senhor cuidasse de vós, meu bom rapaz. – foi a vez de Justin sorrir. – Foste muito valente, é uma pena que não viu o socorro chegar, mas graças ao meu bom Deus tu ficastes consciente até conseguirdes uma ajuda. – Vi Justin se sentar na cama com dificuldade e frei Lourenzo se aproximou de nós, colocando a mão sobre meu ombro. – Sóis o que da bela donzela? Irmão? Guardião? Alguém de sua família, talvez?
–Não. – disse ele sorridente. Sorri junto com Justin, enquanto sentia-o acariciar as costas da minha mão e logo depois os mesmo entrelaçou nossos dedos. – Sou o namorado de Julieta.
–Ó, são amantes! — exclamou, enquanto nos encarava com uma calma que irradiava pelo quarto todo. Senti-me melhor tendo esse homem ao nosso lado.
[...]
Já havia escurecido e estávamos sentados cada um em um canto do cômodo pequeno, que deduzi que fosse a sala. Uma sala muito simples. Não tinha muitos móveis, nem mesmo uma televisão. Estranho.
Olhei para Justin de relance e o vi comendo o mingau, como se não comesse há anos. Fixei os olhos no ferimento em sua testa e os arranhões no braço, pensando por mais quantos dias ficaríamos aqui. Tudo o que eu queria agora era ir pra casa. A Itália já me aborrecera o suficiente.
A refeição fora feita em silêncio, e de cinco em cinco minutos em sentia necessidade de olhar ao meu redor. Frei Lourenzo parecia preocupado, assustado e com um pouco de medo. Por quê? Suspirei pesadamente.
No exato momento que eu iria dizer alguma coisa, ouvimos algo do lado de fora. Lourenzo se levantou imediatamente, caminhando até a porta e depois de olhar rapidamente lá fora, ele se virou para nós.
–Escondam-se. – sussurrou. Eu e Justin nos entreolhamos confusos. – Rápido! – gritou.
Bieber agarrou meu braço, me puxando em direção ao cômodo seguinte, enquanto nos encolhíamos num canto escuro. Minha respiração já estava desacelerada e vi Justin ficar apreensivo, enquanto não tirava os olhos da porta. Lourenzo abriu a mesma, provavelmente depois de ter certeza de que nós já havíamos nos escondido, e ouvimos passos.
–Olá, meu caro amigo! – disse uma voz desconhecida, em um tom de deboche.
–Diga-me logo o que Vos veiou fazer aqui, Salimbeni. – o homem que havia acabado de chegar riu, ou melhor, gargalhou. Respirei fundo algumas vezes, com a intenção de normalizar minha respiração, que já estava alta demais. Senti um medo terrível e tinha arrepios toda vez que o tal Salimbeni dizia algo.
–Ora, vejo que não sou bem vindo em sua casa... – disse em um tom calmo e pelas sombras em pude ver que o homem caminhava pelo cômodo de uma maneira pretenciosa. – Pois bem, já que quer saber, eu irei direto ao ponto. – ele parou de andar e se virou para Lourenzo. – Onde ela está?
–Ela quem? – Lourenzo perguntou. Mesmo sem ver a expressão em seu rosto, eu tive certeza que seria uma mescla única de surpresa e apreensão.
–Julieta! – senti um arrepio na espinha e uma tontura. Justin olhou imediatamente para mim, surpreso. Como esse homem sabia sobre mim, se eu nem o conhecia?
Busquei a mão de Justin e a segurei com força, sentindo a palma de a minha mão soar. Ok, eu admito que estou com medo. Os lábios de Bieber se moveram, tentando dizer algo, mas a surpresa não o deixou concluir com sucesso. Coloquei o indicador sobre seus lábios, e fiz sinal para que ele continuasse calado. Justin obedeceu imediatamente, passando as mãos pelo cabelo.
–Creio que a moça que procura, não está entre nós! – o tom de voz de Lourenzo suara calmo, da forma que ele planejava, creio eu, afinal por que ficaria tanto tempo em silêncio?
–Lourenzo, eu não estou aqui para brincar e se achas mesmo que vim sozinho, estás muito engando. – ameaçou. – Sei que Julieta esta escondida em algum lugar nessa casa e vou achá-la. – estremeci, sentindo nitidamente a firmeza no tom de voz daquele homem e percebendo que ele falava sério.
–Por Deus, Salimbeni, não estás cansado de fazer mal as pessoas? – perguntou. – Deixai-as em paz!
–Não saio desta casa sem a donzela! – ameaçou, chegando mais perto. Olhei para Justin que olhava atentamente as sombras. – Ela pertence a mim! – gritou.
Prendi a respiração, sentindo que Justin apertava minha mão com força e mordi meu lábio, me segurando para não sair correndo dali. Seria como suicídio, mas às vezes sair correndo funcionava. E era o que queria fazer agora.
–Nenhuma mulher jamais há de querer pertencer a um homem rude e sem coração! – gritou o frade.
Salimbeni caminhou rapidamente até ele, agarrando-lhe o pescoço e o empurrando até a parede. O frade levou suas mãos até as de Messer Salimbeni, tentando retirá-las de seu pescoço, mas não obteve sucesso. Justin respirou fundo e fechou seus olhos, proferindo algo baixinho.
–Pois eu farei de Julieta minha mulher... Nem que para isso eu tenha que matar todos àqueles que se colocarem em meu caminho. – rosnou. – A começar pelo senhor.
Lourenzo agonizou e eu percebi claramente que estava sufocando. Eu me senti em pânico e quis gritar, berrar, chorar. Mas eu nunca quis acordar de um pesadelo, como eu queria agora. Queria acordar em meu quarto, talvez até gritar, ou somente acordar suada e um pouco assustada. Mas eu tenho certeza que logo me acalmaria, assim que percebesse que estava em casa.
Mas depois de alguns segundos ali, vi que o frade estava cada vez mais sufocado e que não aguentaria mais tempo. Levantei-me assim que a primeira faísca de coragem se acendeu dentro de mim e senti Justin me puxar levemente de volta.
–O que vai fazer? – perguntou agoniado. – Ouviu o que ele disse... Ele quer você, Julieta.
–Não posso deixar que ele o machuque! – justifiquei. Justin me olhou com medo e eu sorri de forma corajosa. – Lourenzo é nosso amigo, Justin!
–Não vou correr o risco de perder você! – sussurrou. – Muito menos perdê-la para esse maluco! – hesitei por alguns instantes, mas puxei minha mão com força, soltando-a, assim que olhei novamente para a sombra. Caminhei com cuidado até a luz e ouvi Justin me chamar. Ignorei-o.
Parei um pouco antes de a luz me envolver e respirei fundo, saindo da escuridão.
–Ei, você! – chamei. Salimbeni parou de estrangular frei Lourenzo, mas continuava com as mãos sobre o pescoço dele e de costas para mim. Assim que virou o rosto em minha direção, ele sorriu com malicia e logo depois soltou o frade que caiu escorado na mesa, retomando o folego. – O que quer comigo?
–Julieta? – assenti calada, vendo que Justin se aproximava de mim, fazendo o homem franzir o cenho. Engoli em seco, enquanto ele nos analisava. Seu olhar parou em Justin. – E quem é ele?
Não respondi absolutamente nada, apenas respirei fundo e vi Justin parar ao meu lado, mas sem me tocar. Ao ver o olhar ameaçador daquele homem, eu me senti fraca e indefesa, como nunca estivera antes em toda a minha vida. Agarrei a blusa de Justin, que estava de qualquer cor, menos branca, que era sua cor original.
Salimbeni nos olhou por algum tempo e logo depois direcionou seu olhar para Lourenzo, que se recusou a olhá-lo. O homem gargalhou outra vez. Respirei fundo. Esse homem me dava medo.
–Sóis um homem corajoso, Lourenzo. – debochou. – É uma pena que a dama não se conteve. – seu olhar voltou-se para mim, mas ele não esboçou reação alguma. Apenas me olhou. Senti-me envergonhada e ao mesmo tempo frágil. – Venha. – engoli em seco, caminhando até ele. Justin sussurrou meu nome, mas eu apenas o olhei, continuando a caminhar e parando em frente ao homem.
Salimbeni ergueu a mão, tocando meu braço e subindo-a, até que a mesma parasse sobre meu rosto. Encarei-o. Tinha olhos sombrios, duros e cheios de maldade. Sentia-me como um ratinho indefeso, diante de uma cobra habilidosa e traiçoeira.
–O quer com Julieta? – Justin perguntou. Salimbeni levou sua mão até minha nuca e seus lábios se aproximaram de meu pescoço, enquanto ele olhava de maneira provocante para Justin. O empurrei lentamente, me afastando, mas senti sua mão segurar minha nuca com força.
–Solte-me! – tentei gritar, mas ele pareceu não ouvir-me, ou não ligar. – Solte-me imediatamente!
–Pare! – pediu Lourenzo. – Deixe-a em paz, Salimbeni. A garota já encontrou o amor nos braços de um homem. – disse calmo. – E este homem não sóis vós!
Salimbeni tentou me beijar a força e ouvi Justin grunhir algo atrás de mim, mas não compreendi. Ele avançou rapidamente, me puxando dos braços daquele homem desconhecido e eu me choquei com força contra uma pequena estante cheia de pergaminhos, caí, fazendo os mesmo caírem e se espalharem pelo chão. Fiquei no chão por alguns segundos, sentindo todas as partes do meu corpo latejarem em protesto, como se dissessem: "Já não estamos doloridos o bastante para sermos jogados contra os móveis?”.
Quando finalmente olhei para Justin vi um homem segurando-o, impedindo que ele se aproximasse de mim ou de qualquer outra pessoa presente, e o mesmo acontecia com Frei Lourenzo. Perguntei-me então em que momento esses homens haviam surgido.
Salimbeni parou olhando para Justin com raiva e ajeitou sua roupa. Depois de dizer algo – provavelmente ofensivo – para Justin em italiano, ele me olhou e esboçou um sorriso malicioso. Meu corpo se encheu de medo e me encolhi diante da estante, desejando que ele não me tocasse novamente. Mas meu pedido não fora atendido. Sua mão agarrou meu pulso e eu fiz uma careta, tentando soltá-lo. O que esse maluco queria? Ele me puxou contra seu corpo e olhei para Justin, que tentava avançar, de punhos cerrados.
–Vamos, minha donzela. – disse, puxando-me com ele. – Agora que a tenho em meus braços, não temos mais nada o que fazer aqui!
–O que? Não! – Justin me encarou perplexo. – Por que não diz logo que se recusas a ir?
–Ela não tem escolhas, rapaz! – disse calmo. – Julieta é minha noiva agora!
–Nunca! – gritou Justin. – Ela nunca ira contigo!
–Pois ela foi entregue a mim por sua própria família e tenho a permissão de seu tio, Messer Tolomei, para fazê-la minha!
Então tudo fez um pouco de sentido. Lembrei-me das palavras de minha avó. Julieta fora entregue nas mãos do homem que fez de sua vida um inferno, por seu próprio tio. Mas isso era impossível, por que se essa garota tivesse mesmo existido e essa história realmente aconteceu, isso foi no passado. Séculos atrás. Como eu poderia estar em seu lugar? Ó meu Deus, eu só poderia estar delirando.
–Seu porco, filho da puta! – gritou Justin. – Eu não vou permitir que a leve de mim!
Salimbeni olhou com desprezo para Justin e lançando um breve olhar para o homem que segurava meu namorado, disse:
–Mate-o!
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