Notas iniciais
Desculpe a demora, mas eu tive complicações pessoais, que se somaram com os estudos e me impediram de postar e de escrever. Mil perdões, gatinhas ♥

Hoje era meu segundo dia de liberdade e eu estava decidida a encontrar mais pistas sobre como viemos parar aqui e como sairíamos desse lugar. Não seria fácil e eu estava ciente de que não conseguiria arquitetar, sozinha, um plano que fosse bem sucedido. Eu precisava de mais mentes ao meu lado. Urgentemente.

Estava claro que ninguém me ajudaria, mas euprecisavade aliados nesta casa. E de pessoas fora dela também. Mas não tinha nenhuma ideia de como conseguir convencer essas pessoas a me ajudarem. Afinal mais cedo ou mais tarde eu iria embora e as deixaria à mercê da ira de Salimbeni, que as mataria, é óbvio.

Passei as mãos pelo cabelo, já estava irritada com as demoras de meu “noivo” e de seus guardas. Precisava sair daqui e podem arquitetar um plano perfeito que me levasse até Justin e Lourenzo, mas desta vez eu dispensaria os beijos de meu namorado, trocando-os por seus planos. Tinha certeza que ele já havia algo em mente. Ele sempre tinha.

Parei no meio do quarto, sentindo toda a minha decepção, frustração e meu medo, quase transbordarem por meus olhos. Tapei o rosto com as mãos e sufoquei as lágrimas com o máximo de força que pude, mas não consegui impedi-las de deixarem meus olhos levemente umedecidos. Suspirei, sentindo-me como uma bomba relógio. Uma hora eu explodiria.

Tinha certeza disso.

E quando me dei conta, meus ouvidos já captavam o som inconfundível de passos calmos, porem marcados, no corredor. Olhei meu reflexo no espelho e me vi em um vestido azul-celeste leve e simples, com os longos fios presos em uma trança lateral. Vi quão cansada eu aparentava estar, não tinha olheiras, mas meu olhar estava visivelmente marcado pelo cansaço, como se eu não dormisse à meses. E de fato eu me sentia assim, como se não tivesse paz por um misero segundo.

Tinha que sair daqui.

A porta foi aberta mais lentamente do que de costume e eu permaneci encarando meu reflexo no espelho. Sabia quem eram as pessoas que vieram me buscar, de maneira que não precisei olhar para elas. Nem por um instante.

Salimbeni tinha o mesmo ar de superioridade e majestoso de sempre, que eu pude captar pelo canto do olho. Com passos calmos, que eu diria que eram um tanto quanto elegantes, dignos de um líder. Dignos de um homem de respeito, mas esse homem, com toda a certeza, não era Salimbeni.

Suspirei pesadamente e me virei para olhá-lo, mas sem olhá-lo diretamente. Mantive a cabeça baixa, como se estivesse entregue a qualquer que fossem suas exigências. Não poderia bancar a noivinha rebelde, tinha que fazê-lo pensar, de alguma forma, que eu tinha me conformado com meu destino. E que logo mais seria sua esposa, que o respeitaria como o homem de minha casa e que lhe daria lindos filhos.

Suspirei outra vez, quando pensei que esse seria exatamente meu final se nada desse certo. Senti um calafrio passar por meu corpo, quando ele tocou minha mão, levando-a até seus lábios. Depois de alguns “beijinhos” ele pousou sua mão em minha cintura e me puxou contra seu corpo, fazendo-me pensar que seria obrigada a aturar mais um de seus terríveis beijos, mas ele apenas aproximou seus lábios de meus ouvidos e permaneceu assim durante um segundo. Recusei-me a tocar nele.

-Mal posso esperar para me repousar contigo em nosso leito nupcial. – sussurrou. – Veras que não sou tão horrível como pensas. – uma risadinha abafada e quase inaudível. – Posso ter lá os meus encantos,amore mio.

Fechei os olhos com força. Não queria ouvir mais nenhuma palavra que saísse dessa boca imunda, que derramava veneno. Como se fosse possível, eu me vi sentindo ainda mais ódio dele. Um ódio mortal. Que eu consiga ter forças o suficiente para acabar com a vida dele, ou a minha, se for necessário.

-Sua tia, Monna Antonina, teve a petulância de vir até anossacasa, dizer-me que eu... Ou melhor, obrigar-me a dar-te o direito de ir até a igreja, para que possas confessar-te. – fiquei estupefata com o uso do termo “nossa”.

E, ótimo, agora terei que aturar a ”queridíssima” Monna Antonina. Mantive os olhos fechados, enquanto sentia os lábios dele provar a minha pele. Por alguns segundos me senti completamente enojada.

Mas no segundo seguinte eu estava nos braços do meu verdadeiro amor, deliciando-me com suas palavras e seus toques, que me pareciam como gotas de salvação, enquanto eu me via sendo arrastada pelo imenso oceano que era o nosso amor.

Estávamos na casa dele, só nós dois. Hoje havia sido uma tarde chuvosa, mas parecia que agora o tempo, enfim, se aquietara. Senti seus braços ao redor do meu corpo e me envolvi ainda mais, enroscando-me em seu colo. Não sairia de seu abraço tão já.

-Por mim eu ficaria aqui pelo resto da minha vida. – disse tranquilamente.

-O que te impede de fazê-lo? – perguntou calmamente. Suspirei afundando meu rosto em seu peito.

Seu cheiro invadiu minhas narinas, como um tsunami e me perdi na onda de sensação, pela qual eu estava sendo arrastada. Fechei os olhos e me abracei a ele ainda mais. Justin me apertou ainda mais e eu resmunguei baixinho, rindo logo depois e o ouvindo rir também.

Olhei-o e sorri, admirando suas feições angelicais. Um anjo que me fora enviado, talvez para que eu cuidasse dele, ou ele cuidasse de mim. Isso não importava agora – não mesmo – e a verdade era que eu nunca o deixaria partir.

Não sabia ao certo por que havia projetado essa lembrança em minha mente. Talvez por que, apesar de ser simples, era uma das lembranças mais doces que eu conseguira me recordar naquele momento. E o fato de nunca ter percebido o quão doloroso era ficar distante dos braços daquele que realmente amava, me causava ódio.

Era realmente triste não poder abraça-lo quando ficava com tanto medo que chegava a estremecer. E ficar diante de alguém que vivia me causando tais sensações, era pior ainda. Às vezes – não, era quase sempre – eu tinha a sensação de que meu corpo gritava desesperadamente pelo meu namorado.

[...]

De manhã, depois de andar mais um pouco, eu, enfim, testei minha teoria de que a ala leste era o local onde eu encontraria as respostas para todas as minhas perguntas. E, como eu esperava, estava proibida até mesmo de chegar perto daquele lugar. A ordem fora uma só: Eu, Julieta, não poderia entrar naquela sala, ou ficaria trancada em meu quarto.

Suspirei derrotada. Estava perdendo as esperanças. De certa forma eu sabia que isso só nos levaria à morte ainda mais depressa, mas estava difícil – quase impossível – descobrir alguma coisa. Direcionei meu olhar ao céu e observei as nuvens, um sorriso brotou em meus lábios e mais uma lembrança incendiou minha mente.

O céu estava cheio de nuvens hoje. A grama sob nossos corpos estava levemente umedecida, mas nada que nos molhasse, ela apenas refrescava. Sorri, sentindo a brisa fria, mas reconfortante, acariciar meu corpo ainda mais. Respirei fundo, sentindo o cheio agradável de flores.

Maravilhoso.

Fechei meus olhos e quando senti as mãos dele no meu cabelo, um sorriso se formou quase que no mesmo segundo. Quando abri meus olhos e olhei o céu, pude deliciar-me com as nuvens que mais pareciam figuras enfeitando o mesmo. Sorri. E pude perceber que esse fora o sorriso mais puro que já havia se formado em meu rosto.

Justin se virou para mim e sorriu de uma maneira doce e abraçando-me, depositou um beijo no topo da minha cabeça. Minha mãe esquerda pousou em seu abdômen, sentindo os poucos músculos do local.

Voltei a encarar o céu, que mais parecia uma folha em branco, onde qualquer um de nós poderia desenhar o que quisesse, apenas usando a imaginação. O azul celeste me transmitia calma e paz. E era exatamente por isso que esse tom de azul era minha cor favorita. Por ser capaz de me fazer sentir tanta coisa, apesar de ser extremamente simples e delicada.

A presença de Justin só contribuía para me deixar mais... Feliz. Eu podia sentir cada célula do meu corpo preenchida pela calma e o afeto que somente ele era capaz de transmitir. Senti seus olhos em mim e olhei em sua direção no mesmo instante.

Seus olhos encararam os meus durante alguns segundos e eu retribuí. Sua face preenchida pela calma e paciência. Colei nossas testa e baixei o olhar. Jus se sentou ao meu lado e, segurando uma de minhas mãos, entrelaçou os nossos dedos de uma forma terna. O encarei com suavidade, enquanto ele umedecia os lábios.

-Julie... — chamou-me pelo apelido. — sei que já lhe disse isso outras vezes, mas... Eu estou perdidamente apaixonado por você. – disse baixinho, quase em um sussurro inaudível. Meu coração deu um salto no peito e senti que eu estava prestes a ouvi-lo dizer as três palavras que seriam capazes de mudar minha vida – Eu... Eu amo você.

Suas palavras me causaram um arrepio que pareceu durar uma eternidade. Fechei os olhos deliciando-me com som de cada sílaba pronunciada, doces como o mel. Não, nada era mais doce que o amor. Senti-me estuporada, congelada, paralisada, completamente sem saber o que fazer. Ele se inclinou, até que nossos rostos estivessem bem próximos e colou nossos lábios. Passei meus braços em volta do seu pescoço e o abracei com força, sentindo medo de deixá-lo escapar por entre meus dedos me consumir.

-Eu amo você também, Justin. – disse emocionada, assim que nos separamos. Abracei-o ainda mais forte. Minha alma suspirou aliviada. – Eu te amo muito.

Justin sorriu, exibindo a fileira de dentes brancos.

-Não sabe quanto tempo eu esperei para ouvir isso!

Suspirei pesadamente. Isso era apenas uma lembrança.

Abri os olhos lentamente, sentindo a realidade me puxar cada vez mais depressa. Quando me recordei de onde eu estava, soltei um suspiro. Se eu ao menos pudesse voltar para minhas lembranças e revivê-las uma a uma. Eu sabia que viver eternamente em lembranças era impossível, mas já deixara de acreditar em coisas impossíveis, havia algum tempo.

[...]

A tarde passou rápido, mas rápido do que esperava que fosse. O quarto estava iluminado por luz de velas e parcialmente escuro. Eu agradeci mentalmente por estar sozinha, não que eu gostasse, mas não queria dividir meu sofrimento com mais ninguém além de mim mesma.

Entrelacei as mãos sobre o colo, encarando-as.

Não demorou muito para que eu ouvisse passos no corredor. Soltei o ar que havia em meus pulmões com lentidão e me coloquei em pé. Já sabia quem entraria pela porta. Mantive-me em frente ao espelho e encarei meu reflexo. Estava com uma expressão abatida e sem cor, que era resultado da minha má alimentação.

A porta se abriu um tanto quanto devagar e com humildade — bem diferente de como acontecia com Salimbeni — como previsto por mim, Angelita, a criada que me arrumara na noite do anuncio do noivado, entrou com a cabeça baixa e trazia nas mãos um vestido meio azul, meio amarelo, que brilhava sob a luz das velas e o deixava com uma aparecia um tanto mórbida.

Logo depois de deixar as peças de roupa sobre a cama, Angelita caminhou até mim e começou a desfazer os laços da camisola. Assim que terminou, senti o tecido fino deslizar por meu corpo, deixando-me nua no meio do quarto. Abracei minha própria cintura, vendo-a ir até a cama e buscar outro tipo de camisola. Estiquei a mão para pegá-la e vesti-la, mas a criada recuou e eu compreendi que esse era uma tarefa dela, digo, vestir-me.

Encarei-a um pouco envergonhada e recuei, deixando que ela viesse até mim. Rapidamente ela passou a peça por minha cabeça e estiquei os braços, para passá-los pela manga da vestimenta, sentindo-me desconfortável por ter meus seios descobertos na presença de outra pessoa.

Depois de vestir achemise,ela me ajudou a vestir o corpete e virando-me de costas para ela, começou a puxar os laços da peça, apertando-o cada vez mais. Eu sentia-me cada vez mais esmagada, como se meus pulmões fossem explodir. Mochei a barriga e prendi a respiração, ouvindo o barulho agoniante das fitas sendo puxadas a media em que iam apertando ainda mais a minha cintura.

Quando terminou, eu mal podia respirar fundo. Parecia que meus ossos da costela estavam sendo triturados. Para uma americana como eu que nunca havia usado uma única peça que me ficasse apertada, usar um corpete era mais do que desagradável. Virei-me olhando meu reflexo no espelho. Notei nitidamente a diferença em minhas curvas. Minha cintura estava visivelmente marcada e meus seios quase saltavam para fora de todas essas camadas de roupas. Eu até gostei do efeito que a peça causara em meu próprio corpo e seria capaz de usá-lo se não fosse tão apertado, é claro.

Em seguida veio o vestido. Depois de vesti-lo, Angelina começou a abotoar os infinitos botões das costas. Fiquei me encarando no espelho. O vestido até que era bonito. Em um azul exótico no fundo, que parecia brilhar e com um uma espécie de "avental" por cima em uma cor meio amarelo claro, meio azulada também com um padrão de desenho que expressava bem essa coisa medieval na roupa. Assim que a criada terminou de abotoá-lo, percebi que nunca conseguiria usá-lo sem a ajuda do corpete. O vestido era minúsculo, principalmente na cintura.

Observei meu reflexo no espelho, vendo que Angelina me guiava para mais próxima da penteadeira e me sentava no "banquinho" em frente à mesma. E soltando os grampos do meu cabelo, deixando-os cair em cascata sobre meus ombros e formando cachos nas pontas, ela começou uma intensa e incessante escovação. Franzi o cenho, vendo que ela interrompia o processo a todo instante para desfazer os nós do meu cabelo. Resmunguei várias vezes, quando ela o puxava tanto que deixava meu coro cabeludo dolorido, e ela então murmurava algo em um idioma enrolado e incompreensível.

No final da escovação, ela esticou o braço, apanhando uma tiara simples que parecia ser de ouro, mas que não havia nada além do material que era feito, nenhuma pedra preciosa. Era fina e delicada. Observei-a com paciência, enquanto a mesma ajeitava meu cabelo, que não estava mais tão cacheado como antes, mas levemente ondulado. A tiara servia como uma espécie dehandband.

No rosto nada fora feito, e eu também não esperava que ela passasse maquiagem em mim. Então apenas esperei que ela se afastasse, juntasse as mãos em frente ao corpo e sorrise. Me levantei, percebendo, então, que o vestido cobria totalmente os pés, de maneira que se arrastava quando eu andava, tanto na frente quanto atrás.

Puxei-o um pouco para cima, facilitando a caminhada e Angelina me esticou algo. Era uma máscara. Sorri-lhe com delicadeza e apanhei o objeto. Caminhei até a porta e assim que a abri, vi o mesmo grandalhão que sempre me levava pra lá e pra cá. Suspirei, enquanto ele caminhava poucos passos à frente. Olhei para trás e vi Angelina parada ao lado da porta — já devidamente fechada — e só depois de haver uma boa distancia entre nós, é que ela voltou a andar, mas ainda assim muito timidamente.

No fim da escada, Salimbeni me esperava. Trajava uma roupa ridiculamente ridícula e eu senti uma vontade imensa de rir. Tapei a boca com as duas mãos, para abafar a risada e o gigante me lançou um olhar severo, repreendendo-me. "Engoli" a risada e vi Salimbeni sorrir com ar de vitorioso. Estendeu o braço para mim e o homenzarrão saiu da minha frente, dando-me passagem. Com muito desgosto eu enlacei meu braço em torno do de Salimbeni e caminhei com ele e mais alguns homens, que, convenhamos, não era tão grande como o que perseguia.

Chegamos a frente do palácio, e eu vi duas carruagens paradas à poucos metros da escada. Agarrei o vestido puxando-o mais para cima, evitando que ele sujasse e caminhei ao lado do meu desprezível 'noivo'. Um terceiro homem me ajudou a estar em um dos meios de transporte e eu suspirei, imaginando que iria sozinha em uma delas. Mas, para meu desgosto, eu vi o homem de quem eu sentia tanto nojo entrar logo depois e a única porta ser fechada. Franzi o cenho, não entendendo o porquê duas carruagens estavam postas, se só iríamos nós dois.

-Duas carruagens? — perguntei.

-A outra é para Gino... — disse calmamente. Tentei lembrar-me se já havia ouvido este nome e cheguei a conclusão de que ele soava novo para mim. — Não seria apropriado ter vocês dois juntos, mesmo comigo presente... Gino tende a ser extremamenteinoportunona presença de mulheres...

-Gino? — Salimbeni sorriu de canto.

-Saberás quem é ele, no momento apropriado,amore mio.- fiz uma careta e vi ele me olhar espantado. Rapidamente desfiz minha expressão de repulsa e o vi relaxar sob o acento. — Mas não vamos falar daquelemenino...Estamos em clima de festa, commemorazione!

-Podes me dizer, ao menos, para onde estamos indo?

-Dio!Você não sabe para onde estamos indo? — balancei a cabeça negativamente e ele riu pelo nariz, com ar de deboche. -Ragazza stupida! — disse enquanto balançava a cabeça, rindo. — Nós estamos indo até a casa de Messer Tolomei... É o aniversário de sua prima mais nova, Adelina.

-Ah. — disse como se soubesse quem ela era. — Aniversário de prima Adelina.

Ele não pareceu se interessar em dizer mais nada, mas não parava de me olhar.

[...]

A festa não estava nem um pouco animada. Só havia velhos dançando com seus trajes horrorosos. Messer Tolomei e Monna Antonina vieram nos saldar assim que nossa chegada foi anunciada. Temi que fosse receber um abraço exagerado de Monna Antonina, mas tudo o que ela fez foi cumprimentar-me com uma suave reverencia e me elogiar com um "ficaste uma beleza".

Sorri com impaciência e mal podia esperar para estar em casa outra vez. Fiquei parada no mesmo lugar, enquanto Salimbeni conversava com algumas pessoas. Ao olhar ao meu redor, percebi que todos usavam as máscaras, menos eu. Cobri meu rosto imediatamente e dei um sorrisinho amarelo para algumas mulheres que me encaravam do outro lado do recinto. Abaixei a cabeça, sentindo meus olhos arderem.

Respirei fundo e em poucos segundos alguém parou ao meu lado. Não fiz questão de olhar. Apenas o ignorei completamente. Quem quer que fosse não tinha a mínima importância.

-Julieta, não é assim que te chamam? — a voz fez com que eu franzisse o cenho. Era engraçada, como se a pessoa forçasse uma voz que não era sua. Lembrei-me da voz de Justin... Pensando bem as duas eram bem parecidas. — A nova e adorada noiva do terrível Salimbeni?

-Não. — disse com uma tristeza na voz que era palpável.

-Não? — perguntou confuso. — Não és tu a Julieta?

-Sim. — disse firme.

-Sim ou não?

-Sim, eu sou Julieta. — vi seus olhos por trás da máscara. Suaves. — Mas eu não sou noiva dele... Quero dizer, não por vontade própria.

-Entendo. — forcei um sorriso e desviei os olhos de seu rosto, vendo que Salimbeni olhava em minha direção de um jeito nada agradável. — Não é a primeira em toda a Siena que passa por isso... Muitas até dizem amar seus maridos depois que os conhecem melhor... Quem sabe isso também não acontece com você?

-Duvido. — murmurei.

-O que disse?

-Nada, não disse nada. — ele concordou com um aceno de cabeça e eu voltei a fitar a barra do vestido, já que os pés estavam escondidos.

-Hã... A proposito, eu sou Adari... Adari Marescotti... — sorri delicadamente. — Sou umáquila.

-Áquila?

-Sim... Não sabe o que é um áquila? — neguei com a cabeça. — Bem, eu sou um Marescotti, minha contrada é a da águia, o que faz de mim um áquila. — franzi o a testa e ele revirou os olhos, deixando-me levemente irritada. — Olhe você é uma Tolomei, certo? — assenti. — Pois bem, tua contrada é a da coruja, o que faz de você umagufo. -concordei, mesmo não entendendo nada. — E o teu noivo é um Salimbeni, logo a contrada dele é a do beija-flor, o que fez dele umcolibri. -fingi entender e o garoto desconhecido me encarou por alguns segundos e eu sorri, mesmo estando de máscara. Ficamos alguns segundos sem dizer nada. — A senhorita me concederia a honra de uma dança?

-Hã... Não sei se devo... Meu noivo, ele...

-Ele não irá se opor em relação àisso. — o vi estender o braço para mim. — E eu lhe garanto que uma dança não comprometerá, em nada, a sua honra.

-Não sei se posso...

-Não vou tentar nada contra a senhorita... Posso lhe dar minha palavra se quiser. — disse firme. Olhei para Salimbeni que gesticulou com a cabeça para que eu fosse dançar com o rapaz.

Aceitei seu convite e caminhei com ele até onde vários casais dançavam. Ele me guiou até o meio da multidão, enquanto o som da música ficava cada vez mais alto. Virando-se de frente para mim, ele segurou minha cintura com gentileza e me fez apoiar uma das mãos seu ombro. Ele segurou minha mão livre com a sua — também livre — e em segundos começamos a dançar. Não usávamos mais as máscaras. Vi seu rosto que era magro e com o queixo pontudo. Os olhos verdes se destacando sob os cabelos quase prateados. Ele sorriu de uma forma que eu tinha certeza que deixava muitas jovens caidinhas por ele.

-Suponho que seja você a amante de Justin, não? — estremeci com suas palavras. Ele soltou uma leve risada e eu fiquei paralisada. Percebi que havíamos parado de dançar — Ei, não tenhas medo... Não lhe farei mal algum... E se fizesse, tenho plena certeza de que Justin não ficaria nada feliz.

-Conhece Justin? — perguntei assombrada. Ora, garoto idiota, eu lhe disse para não confiar em ninguém além de Lourenzo. Ah, Justin...

Adari olhou ao nosso redor e depois voltou a me encarar, enquanto me entendia a mão. Suspirei.

-Há muitas pessoas ao nosso redor. — ele disse baixinho, de modo que só eu ouvisse. — Pessoas bisbilhoteiras.

Assenti e aceitei sua oferta para ir conversar em um lugar mais afastado. Pousei minha mão sobre a dele e o vi entrelaçar nossos braços, caminhando comigo para algum canto. Assim que chegamos ele parou e eu me soltei, encarando-o. Suspirei e esperei que ele começasse a dizer algo, mas nada fora pronunciado. Vasculhei minha mente, que era preenchia por inúmeras perguntas. Ah Deus...

-Como isso... Como o conheceu? — perguntei finalmente e foi inevitável não gaguejar. Coloquei a mão na testa, percebendo que suava frio. Sentia-me tonta, talvez fosse o choque, talvez a falta de alimento. Adari segurou-me pelos ombros e eu voltei a olhar em seu rosto.

-Há alguns dias atrás ele foi até o Palazzio Marescotti, exigindo falar com meu pai...

-Exigindo. — repeti. Esse garoto só pode estar ficando louco.

-Ele lhe contou toda a história de vocês... E pediu ao meu pai que o ajudasse a recuperá-la das mãos de Salimbeni... — respirei fundo e fiz uma nota mental: Quando ver Justin estapeei-o até que sinta a sua mão dormente. — Meu pai, é claro disse que era uma loucura, mas se pensarmos em tudo o que aquele homem fez as suas antigas esposas, era melhor mantê-la bem longe dele... — ele fez uma pausa. — Mas, como você mesma sabe, isso não parece ser uma missão das mais fáceis, já que o homem está determinado a se casar com você, Julieta.

-Antigas esposas? — senti a tontura novamente. — Salimbeni já foi casado?

-Inúmeras vezes... — ó, Deus. — Mas apenas a primeira lhe concedeu um filho...

-Gino.

-Sim, Gino Salimbeni. — afirmou. — Já o conheceu?

-Não. — disse baixinho. — Eu nunca soube que Salimbeni já fora casado, tampouco que tinha um filho. — respirei fundo. Mal podia acreditar. — Mas... O que aconteceu com todas as esposas dele?

-Morreram. Todas elas. — um calafrio tomou conta do meu corpo. Então era isso que ele faria comigo? Ele... me mataria? — A primeira morreu de doença, já as outras... — ele hesitou por um instante, mas voltou a falar, logo depois de umedecer os lábios. — Bem, depois de se casarem com ele, viviam muito pouco tempo no Palazzio Salimbeni... Assim que percebia que elas não engravidavam, ele as mandava para a Rocca de Tentennaro, uma espécie de prisão e de lá saiam apenas para irem direto para o tumulo. — novamente a pausa, enquanto me encarava, esperando minha reação. — Há rumores de que ele lhes dava uma porção de veneno todos os dias... De maneira que morriam gradativamente... Tornando possível para ele justificar a morte como consequência de uma doença terrível.

-Então ele matou todas as esposas dele? — suspirei. — Isso significa que Salimbeni também irá me matar.

-Ivo.

-Quem? — perguntei, franzindo a testa.

-Seu noivo... Ele se chama Ivo. — disse calmamente. — Ivo Salimbeni.

-Ivo... — disse sentindo a acidez daquele nome em minha língua.

Suspirei, pensando em todas as coisas que o loiro havia dito. Pensei então no nome de meu desprezível 'noivo'. Ivo. Por que Salimbeni não me dissera seu nome? Por que esconderia tanta coisa de mim, a garota com ele pretendia se casar? Fechei meus olhos e, então, Justin invadiu meu pensamento repentinamente. Ó céus, será que o garoto não compreendia o risco que corríamos se alguém soubesse sobre nós? Alguém que poderia sercumplicede Ivo Salimbeni.

Abri os olhos e agarrei o pano do vestido, puxando-o um pouco para cima. Virei-me, encarando os casais que dançavam animados à alguns metros de nós. Os olhei por alguns segundos. Todos alegres, celebrando, com um sorriso no rosto. Respirei fundo e umedeci os lábios, pensando no que dizer para Adari. O olhei por sob o ombro e o vi de braços cruzados me encarando, como se esperasse de mim alguma reação.

-Já acabou? — perguntei calmamente, vendo-o assentir — Bem, obrigado por ter me contado tudo a respeito de Ivo Salimbeni, eu...

-Isso, certamente não é tudo, senhorita. — disse rapidamente, interrompendo-me de maneira brusca. — O homem de quem vos fala, é um amante do ocultismo, se me compreende.

-Eu o compreendo muito bem,signore. — disse gentilmente, vendo-o sorrir de forma gentil. — Mas... Bem, se eu não me engano me disseste anteriormente que és um 'amigo' de Justin, certo? — ele assentiu outra vez. — E como amigo creio que sabes onde ele está e em que condições ele se encontra. — Adari nem ao menos se mexeu, apenas continuou a me encarar. — E, sendo assim, eu preciso que dê a ele um recado e que me digas, urgentemente, como está Justin. — fiz uma pausa, esperando uma reação dele. Mas ela não veio. — Faria isso para me ajudar? Você pode me dizer como ele está?

-Engana-te se pensas que sei onde ele está vivendo... — disse calmo — Mas sobre o recado... Por que a senhorita mesmo não diz a ele?

-E você, por acaso, acha que é fácil sair do Palazzio Salimbeni sem levar comigo uma escolta, que mantem os olhos bem cravados em mim?

-E quem lhe disse que precisas fugir do Palazzio para falares com seu amado? — ele arqueou uma sobrancelha, enquanto me encarava com um olhar de deboche. — A senhorita só precisa de uma pequena distração para o seu noivo.

-O que quer dizer com isso? — perguntei em um sobressalto e institivamente apertei o pano do vestido sob os dedos. Ele deu um sorriso discreto e deu dois passos em minha direção. Recuei imediatamente.

-Não vou machucá-la, eu já lhe disse isso. — ele revirou os olhos e riu levemente. — Eu só achei que gostaria de saber que Justin está aqui, e que gostaria ainda mais que isso continuasse a ser um segredo, certo?

Quando fechei os meus olhos, percebi que prendia a minha respiração e notei o quão alterado estava. Na luta frenética para controlar meus nervos, apertei com força a mascara, que já não cobria mais meu rosto. Uma onda de informações fora jogada sobre mim e tanta coisa assim, em tão pouco tempo era demais pra mim... Seria demais para qualquer pessoa. E ainda tem Justin, que... Espera. O garoto estava mesmo aqui? Justamenteaqui?

Senti a tontura novamente, desta vez mais forte. Bem vinda, minha cara amiga!


Notas finais
Gostaram?
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.