Notas iniciais
Reviso tudo depois...

Depois de toda aquela cerimonia ridícula, eu finalmente me vi sentada em minha cama, escondida no escuro, enquanto tentava deixar meus medos e aflições de lado e só pensar em algo: Justin estava são e salvo.

Eu não poderia pedir mais do que isso agora.

Suspirei aliviada e sorri boba, levando meus dedos até os lábios, tocando-os com suavidade e pensando no beijo que compartilhei com Justin, horas atrás. Sentia falta dele e esse quarto escuro e frio, só me fazia quere-lo ao meu lado cada vez mais.

Salimbeni fez questão de me expor a todos como um troféu e vi Justin ir embora sorrateiramente, junto com Lourenzo. Vê-lo partir sem poder acompanha-lo, fora como cravar um punhal em meu próprio peito. Quis levantar-me daquela cadeira e caminhar até o homem que deveria se tornar meu marido por direito.

Sentada no escuro, eu perdi a conta de quanto tempo eu estava aqui, fitando o nada e pensando no que eu teria que fazer para quebrar essa maldição, se a mesma existisse realmente. Mas, vejamos, Julieta jurou fazer mulheres de sua linhagem consanguínea sofrerem por um amor impossível. Mas ela não dissera nada sobre o que deveria ser feito para desfazer a tal maldição. Essa vadia só poderia estar brincando comigo.

Tentei, então, me lembrar da história que vovó me contava. Comecei por organizar os papéis. Julieta, Romeo, Frei Lourenzo, Salimbeni e os Tolomei. Supus que eu e Justin fossemos o casal apaixonado e os demais deveriam ser eles mesmos. Ó céus, se Julieta queria amaldiçoar alguém, ela deveria ao menos deixar uma pista de como quebrar essa maldita praga. A não ser que... Não pudesse dar fim à onda de sofrimento, que essa incompetente jogara sobre minha cabeça.

Falha-me Deus, onde estivera eu com a cabeça quando achei a história romântica? Eu poderia estar enganada, mas a história, supostamente original, poderia ser tudo, menos romântica. Shakespeare se saiu melhor no quesito romance. Apesar do velho maluco também ter matado os apaixonados.

Qual era o problema do amor, afinal? Eu começava a pensar, que talvez esses bandos de inúteis sentissem inveja daqueles que conseguiam agarrar o amor e guarda-lo com todas as forças. Como eu fizera com Justin. Suspirei e deixei que meu corpo caísse sobre a cama macia, porém vazia, e agarrei um travesseiro, querendo matar as lágrimas que insistiam em cair.

Não adormeci com facilidade, ao invés disso eu só conseguia pensar no que teria que fazer para voltar a ter a mesma vida de antes, que poderia até ser tediosa, mas, com certeza, era bem melhor que essa que estava vivendo agora.

**

Estava mais uma vez parada na sacada, observando o céu, pedindo que forças superiores me ajudassem a tirar a mim e Justin desse lugar. Não via a hora de voltar para Atlanta, livrando-me desses monstros. Ficar presa nesse lugar sugava toda a minha felicidade. Agora tudo o que eu desejava era ir pra casa.

Ouvi passos no corredor e me apressei em sair da sacada, fechando a porta rapidamente. No mesmo instante a porta se abriu escancaradamente e Salimbeni entrou sorridente. Enrolei o mesmo roupão por cima da camisola e o encarei sem emoção. Era incrível como eu o odiava mais, cada vez que o via.

Caminhando de forma pretenciosa, ele se aproximou de mim. Virei o rosto para o lado, negando a mim mesma o direito de olhá-lo. Salimbeni me encarou por alguns segundos e teve a audácia de descruzar os meus braços, segurando minha mão e levando-a até seus lábios.

Puxei-a de volta, mas ele tonou a pegá-la e, desta vez, beijou meu pulso. Quase grunhi em protesto, sentindo enjoou por estar tão próxima a ele. Salimbeni ergueu seus olhos até meu rosto e sorriu de um jeito malicioso.

-Posso convidar-te a me acompanhar no jantar lá embaixo hoje à noite? – senti-me estupefata com seu convite. Como ele tem coragem de me propor tal coisa, sabendo que a única coisa que desejo dele é distancia? – Pelo que sei, tens feito as refeições sozinha nos últimos dias. – fiquei em silêncio. Recusava-me a falar com ele. – E então, minha doce Julieta, o que me diz? Concedes-me a honra de ter tua presença no jantar? – apertei meus lábios, até que os mesmo sumissem.

-Não. – respondi firme, antes de dar um passo em direção à cama, mas o senti agarrar meu braço com força. Gemi baixinho de dor, sentindo-o apertar meu cotovelo ralado. Fiz uma careta, mas ele me puxou para mais perto, olhando-me com raiva.

-Pois tu vais me acompanhar. – disse, enquanto me olhava nos olhos com tal intensidade, que eu quase fui capaz de sentir a raiva que emanava dos mesmos me atingir, como um tapa na cara. – Nem que tenhas que ficar sentada me observando, mesmo que não comas nada. – ele apertou meu cotovelo e eu reprimi um grito dolorido. – Eu deveria é castigá-la por suas atitudes. Deveria deixá-la trancada no quarto, sem comer absolutamente nada, quem sabes assim tu não me dê valor?

-Meu... Braço... Está doendo! – gemi de dor, quando ele o apertou com mais força. – Por favor! – me contorci, dobrando os joelhos e quase gritando para todo mundo o quando doía. Agarrei sua roupa, com uma das mãos e fechei os olhos, sentindo que ele apertava ainda mais meu machucado. – Tudo bem... Eu... Eu aceito jantar com você!

Ele sorriu de uma forma diabólica e me soltou com força. Envolvi meu cotovelo com a outra mão e fechei os olhos, sentindo que o local latejava. Respirei fundo, vendo-o se afastar. Salimbeni parou na porta e antes de fechá-la, olhou para mim e com um sorriso no rosto, se limitou a dizer:

-Estou te esperando lá embaixo. – ele fez menção de fechar a porta, mas parou imediatamente. – Não se atrase, ou me obrigue a subir aqui novamente. Posso não ser bonzinho!

Fechou a porta com um baque, fazendo algumas velas se apagarem, e foi trancada logo depois. Suspirei tristemente. Ó céus, eu estava perdendo a esperança de que pudesse sair daqui. Talvez eu nunca mais saísse da minha gaiola, talvez eu nunca mais fosse ser feliz com Justin. Talvez eu tivesse me tornado um canário, condenado a morrer enjaulado.

[...]

Quando cheguei, a mesa estava posta e Salimbeni se levantou, enquanto eu caminhava até a outra porta da extensa mesa de jantar. Ao menos eu ficaria longe dele. Sentei-me, enquanto o porco aproveitador começava a degustar uma comida qualquer.

Uma mulher parou ao meu lado, colocando uma bandeja ao meu lado. Neguei com a cabeça, dizendo que não queria comer nada. Ela me olhou confusa, mas assentiu e se retirou. Estava ali obrigada, mas não seria obrigada a comer nada.

Respirei fundo pela décima vez, quando ouvi Salimbeni pigarrear, chamando minha atenção.

-Veja Julieta, olhe em sua volta. – franzi o cenho. – Estás vendo quantas coisas poderás ter se tornando minha esposa? – abaixei a cabeça, negando com a cabeça. Eu realmente o achava ridículo. – Basta me amar.

-Amor não se compra, nem se implora. – disse baixinho. O olhei por alguns instantes antes de prosseguir. – Amor se conquista, e o meu já fora conquistado.

Nesse exato momento ele se levantou e bateu as mãos na mesa. Assustei-me a principio e encarei-o com medo. Meus olhos deveriam estar arregalados.

-Imbecil! – gritou. – Amas aquele pirralho, mas o que ele pode lhe oferecer? – não respondi. Abaixei a cabeça sentindo o ódio me consumir por inteira. – Amor? – respirei fundo, ouvindo a gargalhada de Salimbeni invadir meus ouvidos. – Ora, não seja tola! – quando o olhei, vi que o homem caminhava até mim com as mãos para trás, enquanto mantinha seus olhos fixos nos meus. Engoli em seco.

Salimbeni parou em minha frente e, com um gesto, me pediu para ficar de pé. Relutei em silêncio, mas ele franziu o cenho e apertou meu braço, puxando-o levemente e me fazendo levantar.

Olhei pra o lado. Sua mão desceu até a minha, agarrando-a. Quis relutar, mas no exato momento em que iria me soltar, ele agarrou minha cintura, colando nossos lábios. Meus olhos ficaram arregalados de espanto, enquanto sentia suas mãos passando por toda a extensão das minhas costas.

Dei um soco em seu ombro, mas a única reação dele foi sorrir. Senti ainda mais nojo desse homem desprezível. Em um ato apressado, ele desceu os beijos passando-os, agora, para meu pescoço. Grunhi de raiva e o empurrei.

-Não... Encoste-se a mim! – disse, enquanto tentava escapar do seu “abraço” apertado. Salimbeni me apertou ainda mais e tornei a empurrá-lo. – Solte-me, seu porco nojento! – Lutei para que ele me soltasse, até que finalmente me vi livre de seus braços. Minha primeira reação foi passar as mãos pelos lábios, demonstrando o quão nojento eu o achava. Ele riu brevemente e minha única reação foi cuspir em seu rosto.

Arrependi-me logo em seguida. Sua face ficou vermelha e seu semblante cheio de ódio. Engoli em seco, encolhendo-me, enquanto ele se aproximava. Senti, então, novamente a ardência em meu rosto e deixei minha mão tocar o local, onde ele me atingira.

-Podes relutar agora, mas quando nos casarmos serás minha... – rosnou. Ergui meus olhos, sentindo as lágrimas embasarem minha visão. Agora eu tinha mais certeza ainda de que precisava arquitetar logo um plano e descobrir uma forma de acabar com tudo isso, o quanto antes. – Até que eu me canse de você,mia cara. – senti um nó na garganta, tentando imaginar o que esperaria por mim, quanto esse homem se cansasse de me torturar. – Agora, voltes para seu quarto e fique lá... Não desejo vê-la tão já.

Depois de me olhar por mais algum tempo, ele se retirou, mas antes chamou alguém. Respirei fundo e solucei, deixando que mais lágrimas caíssem. Lágrimas de desespero banhavam meu rosto. Ó, pobre Julieta, eu nunca havia imaginado o quão desesperador seria viver assim, mas Shakespeare nunca relatou o quão doloroso fora a vida dessa menina.

Um homem alto parou em minha frente e me disse algo que eu não consegui entender, então apenas o encarei, mas o mesmo se irritou comigo e agarrando meu braço arrastou-me até meu quarto, onde eu fora jogada e esquecida no meio dessa escuridão. Suspirei pesadamente e quando conclui que estava de fato sozinha, eu me derramei em lágrimas, perguntando a mim mesma onde estava Justin nesse momento. Por Deus, que ele não se meta em nenhuma enrascada.

[...]

De fato eu não sabia o que estava acontecendo comigo, todas as noites eu dormia com extrema facilidade, mas hoje era uma exceção. Meu sono parecia ter me abandonado, igualmente as pessoas desta casa. Pelos meus cálculos eu devia estar acordada ao que deveria ser duas horas. Suspirei de novo.

Por mais que eu tentasse descobrir pistas para sair dessa “realidade paralela” nada fazia sentido. Se Julieta havia deixado instruções para o que deveria ser o antidoto dessa maldição bizarra, onde ela teria deixado?

Pensei durante infinitos minutos, mas um barulho na sacada fez-me despertar dos meus devaneios. Enrolei na coberta e aguardei ansiosa e com medo que algo acontecesse. Um assovio. Franzi a testa e pensei que talvez eu estivesse delirando, porque esse parecia ser o assovio de Justin. Talvez eu estivesse com sono, mas antes que pudesse me deitar o assovio preencheu meus ouvidos novamente.

Levantei-me, então, quase tropeçando nos meus próprios pés. E abri a porta da sacada com receio. Mas o que eu vi fez meu medo sumir no mesmo instante e, no lugar dele, uma alegria preencher minha alma. Justin estava parado bem a minha frente e segurava uma única rosa vermelha. Sorri, sentindo a brisa fria da madrugada, alisar meu corpo.

-Jus. – foi a única coisa que consegui dizer. E como se fosse possível, seu sorriso tornou-se mais belo, iluminando sua face e quase me servindo de luz para esse quarto, que se encontrava na quase penumbra.

Senti seus braços agarrarem minha cintura e me levantarem, girando-me rapidamente. Ri de um jeito infantil e quando senti meus pés tocarem o chão, vi-me pressa à realidade, mas Justin me abraçou e afagou meus cabelos.

-Ó, eu senti tanta saudade. – disse, senti-me repleta de emoção, como se tivesse ficado uma eternidade sem vê-lo. – Isso é tão... Cruel. – escondi meu rosto entre seu pescoço e funguei baixinho, sentindo-o alisar minhas costas. – Não é justo! – protestei.

-E quem lhe disse que a vida é justa? Hm? – perguntou enquanto se afastava de mim. Limpou minhas lágrimas com o polegar e beijou meu nariz, antes de colar nossas testas e encarar-me no fundo dos olhos. – Estou aqui agora, Julieta. – sua voz suave me fez esquecer de todo o medo que eu passei todo esse tempo. – Não precisas mais chorar ou ter medo de algo. Não vou deixar que ele lhe encoste um dedo, meu anjo!

Aninhei-me a ele, como se tudo estivesse prestes a acabar, como se o chão fosse desaparecer sobre meus pés. Seu suspiro pesado pareceu ecoar por meus ouvidos, mas senti ele me abraçar logo depois. Com força.

As lagrimas insistiam em cair dos meus olhos, mas eu impediria que isso acontecesse, com todas as minhas forças. A última coisa que eu precisava agora era que Justin pensasse que sou uma fraca, enquanto ele é quem foi espancado.

Respirei com calma, tentando controlar minhas emoções, mas meu corpo reagia ao dele de uma forma única. Só ele me fazia sentir certas coisas. Afundei meu rosto na curvatura do seu ombro e aninhei-me a ele, apertando-o um pouco mais.

-Ei, calma. – disse baixinho, afagando meus cabelos. – Eu estou aqui.

-Não quero ficar sozinha de novo. – soltei um suspiro e o senti me abraçar com mais necessidade e beijar o topo da minha cabeça. – Não vá embora, por favor, não me deixe – supliquei.

-Ei, ei, eunãovou deixar você, Julieta. – ele sussurrou, fazendo um carinho na minha cintura e deixou seu queixo apoiado na minha cabeça. Suspirei com mais calma. –Jamais.

-Promete? – sussurrei baixinho. Eu queria ouvir a promessa da boca dele, mesmo que ele já a tenha feito em seu coração. – Promete que não vai me deixar, mesmo se nós formos condenados a morrer? Promete que vai ficar comigo até na hora da nossa morte?

-Shhh.– interrompeu-me imediatamente. Justin se soltou, não muito, o suficiente para poder olhar em meus olhos, mas ainda me abraçava com força e delicadeza ao mesmo tempo. Seu olhar estava um tanto inquieto, mas mesmo assim ainda me transmitia uma calma sem igual. – Nósnãovamos morrer. – disse paciente. Encarava-me ainda, com a mesma calma e a mesma ternura de antes. – Não vamos, Julie. Eu prometo que não vou deixar isso acontecer... E estou lheprometendoque não vou deixá-la. Nunca.

Foi a última palavra que ele me disse, antes de colar nossos lábios lentamente, como se quisesse me torturar. Deixei que as coisas acontecessem a seu modo, queria que ele pudesse agir e até mesmo me beijar da maneira que quisesse. Eu só o queria, não importava o que ele faria oucomofaria. Tê-lo comigo era a única coisa que desejei há dias. E agora que o tinha, eu não queria protestar.

Demorou mais alguns segundos, até que senti sua respiração se chocar com a bochecha e seu indicador elevar um pouco meu queixo. Beijou-me na face, roçando seus lábios pela minha pela e chegando ao meu pescoço.Arfei. Agarrei-o pelos ombros, deixando que ele continuasse o que estava fazendo.

-Jus... – sussurrei, sentindo-o agarrar minha cintura com uma mão, enquanto mantinha a outra a centímetros do meu seio esquerdo.

-Julie... – chamou-me pelo apelido, fazendo-me arrepiar quando a palavra saltou docemente dos seus lábios. Mordeu meu lábio inferior, sugando-o logo depois. Não protestei. Somente o agarrei, puxando-o para mais perto de mim. Quase como se quisesse fundir seu corpo no meu, tornando-nos um só.

Isso não me pareceu possível, pois já estávamos atracados no meio do quarto escuro. Era bom, de certa forma. Mas eu temia que isso pudesse ser só um sonho e pensar na possibilidade de acordar sozinha nesse lugar me fez estremecer.

Justin notou e parou de me apertar em suas mãos. Olhou-me com extrema cautela, estudando minhas expressões. Fiz o mesmo.

-O que houve? – perguntou. Pensei em negar, mas não era justo mentir para ele. Não para Justin. Não para o garoto que eu amava. Hesitei por alguns instantes e sua mão tocou meu rosto, afagando-o. Fechei meus olhos, entregando-me aos seus cuidados. – Não precisa ter medo, meu amor. – abri meus olhos, desejando poder acreditar em suas palavras quando o olhasse. E isso realmente aconteceu. Pareceu-me mágica. – Eu sei que tu és corajosa, Julieta. É a garota mais corajosa que eu conheci.

Se ele soubesse que toda essa coragem havia evaporado. Eu estava com medo, muito medo que nada desse certo. E se nós morrermos? Ó, que Deus nos ajude.

Justin voltou a me agarrar, puxando-me para mais perto e seus beijos voltaram ao meu pescoço. Por alguns segundos eu hesitei, mas seu toque era tão doce, tão inebriante que eu não pude resistir. E ter seus lábios macios e quentes roçando por toda a extensão do meu pescoço me fez desligar de tudo o que nos impedia.

Soltei um suspiro, sentindo as mãos dele no meu quadril. Demorou alguns segundos até que eu percebesse que ele estava tentando desabotoar o vestido rosa-claro que eu usava. Só então percebi o risco que corríamos. Eu não poderia deixar que isso continuasse, pois tinha certeza que não conseguiria dizer não mais tarde.

Afastei-me com cuidado, fazendo-o perceber o quão perigoso isso poderia ser.

-Não quero pôr sua vida em risco. – justifiquei. Justin bufou e encarou a porta por alguns segundos. – Não sou tão corajosa assim quando estou diante da possibilidade de morrer! – exclamei.

-Você não vai morrer,eunão vou deixar isso acontecer. – disse baixinho. – E não estamos colocando a vida de ninguém em risco, Julie. Você pertence amim, assim como eu pertenço avocê!

-Shhh.– silenciei-o com o indicador, pressionando-o contra seus lábios. – Eu sei, eu sei. – disse baixinho, puxando-o para mim e beijando seu ombro com suavidade. – Mas o que eu posso fazer afinal? Estou presa aqui,nósestamos presos nesse lugar ridículo. – beijei seu ombro novamente e o ouvi arfar baixinho. Subi meus lábios até sua orelha e mordisquei-a levemente. Justin me apertou em seus braços. – Me dê mais algum tempo, ok? Vou achar uma forma de sairmos daqui. – ele clareou a garganta e me encarou, acariciando minha face.

Senti extrema necessidade de beijá-lo. Pus minha mão em sua nuca e puxei seu rosto em direção ao meu. Ele fechou os olhos, mas continuei com os meus abertos. Toquei seus lábios com os meus levemente e me separei dele, vendo-o franzir o cenho. Beijei seu queixo e subi para sua boca levemente, deixando nossos lábios colados.

Justin apertou meu quadril com força e reprimi um gemido. Minhas mãos deslizaram até seus fios de cabelos, finos e macios, puxando-o levemente. Sorri sobre seus lábios e ele fez o mesmo. Passei a língua pelo seu lábio inferior e o suguei logo depois, fazendo-o gemer muito baixo. Sorri satisfeita e ele entreabriu seus lábios, dando-me passagem.

Nossas línguas se encontraram e eu me agarrei ainda mais nele. Justin se separou por poucos segundos e me pegou no colo, voltando a me beijar logo em seguida. Senti-me como sua noiva, sendo carregada até a cama. Ele deu passos apressados, de forma que não demorou muito para chegarmos ao nosso destino.

Justin me sentou sobre o colchão e sorriu para mim de um jeito malicioso. Retribui. Ele arrancou os sapatos e logo se deitou sobre mim, beijando e mordiscando o meu pescoço. Minhas mãos logo agarraram suas costas, passeando por toda a extensão da mesma. Eu não queria que nada acontecesse. Não era seguro. Então antes que fosse tarde demais, eu me desvinculei de seus lábios e lancei lhe um olhar de reprovação, que não soou exatamente como uma reprovação.

Ele bufou e deixou que seu corpo caísse ao lado do meu. Virei meu rosto em sua direção e o vi encarando o teto, enquanto mantinha as mãos atrás da cabeça. Sorri, esticando meu braço e tocando seu queixo, fazendo-o olhar para mim. Justin me encarou por alguns segundos, antes de virar de lado e deitar sua cabeça sobre minha barriga, contornando meu corpo com seus braços.

-Eu amo você, Julieta. – levei uma das mãos até seus cabelos, afagando-os.

-Eu te amo mais. – respondi.

Ficamos em silencio por alguns segundos, somente curtindo como era a sensação de estarmos juntos novamente. Meus dedos se deliciando com os cabelos dele. Macios, como sempre.

Sua pele era como nenhuma outra. Tão macia, tão convidativa, tão... Irresistível. Sua cabeça, agora, estava deitada sobre meu peito, no local exato do meu coração e ele se mantinha tão quieto, tão calmo, que por segundos eu pensei que ele estivesse dormindo. Mas percebi que não, quando ele se remexeu levemente, talvez pensasse que eu estava dormindo e não quisesse me acordar. Acariciei seus cabelos de novo, mostrando-lhe que ainda estava acordada. Ele continuou deitado, sem se mexer muito.

-A melhor melodia do mundo, são as batidas do seu coração. – disse em um sussurro. Sorri boba e o senti se mexer.

Olhei em sua direção e o vi encarar-me intensamente. Justin se sentou na cama e deitou-se ao meu lado, e foi minha vez de abraçá-lo pela cintura e enterrei meu rosto em seu peito, sentindo-o me envolver em seus braços e puxar a manta vermelha, até que estivéssemos cobertos.

-Senti sua falta. – murmurou.

-Não tanto quanto eu senti a sua. – respondi lhe. Respirei fundo uma, duas, três vezes antes de encará-lo. – Como acha que vai ser daqui pra frente?

-Como assim? – perguntou, enquanto franzia o cenho e colocava uma mecha do meu cabelo atrás da orelha.

-Acha que vai ser fácil sair daqui? – perguntei mordendo o lábio. –Seexistir uma maneira de sair.

Justin suspirou demoradas vezes antes de sequer pensar em me responder. Apertei meus lábios, até que os mesmos sumissem. Continuamos a nos encarar. Abaixei os olhos, contornando com os dedos os desenhos dourados da manta, até que senti a mão de Justin agarrar meu pulso e se sentar na cama, de frente para mim.

-Vamos esquecer isso, ok? – ele ergueu as sobrancelhas e tornou a contornar minha cintura com um dos braços e com a outra mão segurou meu queixo, fazendo-me encará-lo. – Um tempo sem essa maluquice toda. O que acha? Hm? – assenti.

Seus lábios tocaram os meus e nós trocamos um beijo só de lábios. Segundos depois, senti que ele afastara o meu cabelo jogando-o atrás do meu ombro e voltou a beijar meu pescoço e ombro. Agarrei sua nuca e inclinei a cabeça, como se dissesse que ele poderia continuar e que eu não iria protestar.

A mão que estava em minha cintura subiu até meus cabelos, enquanto a outra apertava minha coxa esquerda. Gemi baixinho e o senti sorrir sob minha pele, que fervia e latejava de desejo. Respirei fundo, tentando normalizar minha respiração assim que percebi que já estava ofegando.

Minhas costas repousaram no colchão com suavidade e me senti imprensada contra o mesmo e meu namorado. Abracei-o com todo o meu amor e carinho, beijando seu ombro. A pouca luminosidade do quarto permitia-me ver os músculos do seu braço, que estavam exaltados, e eu poderia senti-los claramente quando os tocava.

-Eu te amo. – ele sussurrou.

-Eu também amo você, Justin. – respondi lhe no mesmo tom. – E ninguém nunca vai nos separar.

-Nunca.

[...]

A porta se abriu com cuidado e eu não consegui reconhecer os barulhos de imediato, mas ouvia alguém falando algo. Olhei em direção ao som e vi uma mulher colocando uma bandeja com comida perto da penteadeira, acompanhada do mesmo homem que me trouxera de volta ao quarto na noite de ontem, parado em frente à porta.

Tentei me lembrar do que acontecera ontem depois do jantar e meu cérebro logo me atacou com lembranças. Lembrei, então, que tive uma noite agradável com Justin e...

Justin!

Sentei na cama em um sobressalto e agarrei a manta vermelha, colocando-a em frente ao meu corpo. Eu não estava nua, só assustada. Respirei ofegante vendo que a mulher se assustara com minha reação. Olhei-a com medo e pavor, depois eu direcionei meu olhar para a cama.

Vazia. A não ser é claro, por mim, que ainda continuava enrolada nos panos macios, o que me fez pensar se tudo o que aconteceu ontem não fora um sonho, uma peça da minha mente, ajudando-me a lidar com a saudade que sentia de Justin.

Não! Foi real. A noite de ontem foi real!

Passei a mão pelo cabelo, respirando fundo e tentando me acalmar. Ri boba, mas ainda sentia meu coração pulsar com rapidez. Justin fora habilidoso, saíra do palácio Salimbeni sem que ninguém sequer cogitasse a possibilidade de sua visita. Suspirei aliviada e orgulhosa também.

Assim que saíram todos, e eu me vi sozinha, corri em disparada até a bandeja, atacando-a, sem mesmo me importar com o fato de ainda vestir o vestido rosa de ontem. Tudo o que contava agora eram os protestos do meu estomago, exigindo um pouco de comida e eu fiquei surpresa por não ter desmaiado ou algo assim, afinal fazia uns dois dias que eu não me alimentava corretamente.

Enquanto devorava meu pão, que era feito de cereais, eu tentava desesperadamente encontrar uma forma de ao menos sair desse quarto, afinal era impossível planejar uma fuga se eu nem ao menos sabia como era esse lugar. Respirei fundo, tentando encontrar a coragem que precisava para enganar e persuadir Salimbeni, para que ele me deixasse sair do quarto. Precisava agir o mais rápido o possível.

[...]

Algum tempo se passou até que Salimbeni veio ao meu quarto. Ficou parado em frente à cama, onde eu estava sentada e me encarou com seriedade. Respirei fundo, tentando pensar em palavras que fossem convincentes o bastante. Tentei manter a calma e mostrar a ele que não sentia medo.

-O castigo que eu lhe dei fora o suficiente para pensares? – perguntou rudemente. – Creio que estás arrependida por suas atitudes grosseiras e quer uma nova oportunidade, certo? – assenti com um breve aceno de cabeça e juntei minhas mãos, entrelaçando-as em frente ao meu corpo. Um sorriso zombeteiro se formou em seus lábios e ele se aproximou de mim, agachando-se ao meu lado. – Não sabes o quão feliz eu me sinto ao ver que estámeoferecendo uma segunda chance. – ele respirou algumas vezes antes de beijar meu pulso e depois se levantar, me puxando para que eu também ficasse em pé. – És tão bela, nem todas as rosas do meu jardim possuem uma beleza como a tua.

Algum tempo depois eu finalmente consegui convencê-lo a me deixar sair daquele quarto. Hoje eu havia ganhado a permissão que precisava para andar por todo o palácio Salimbeni e ordens haviam sido dadas aos criados de que eu poderia circular por ai e que não deveria ser incomodada. Mas o ouvi mencionar para que não me deixassem chegar perto da ala leste.

Suspirei aliviada quando ele esboçou um pequeno sorriso e me deixou parada ao pé da escada, seguindo junto com o armário que ele chamava de guarda ou algo assim. Fiquei parada ali por alguns segundos, a fim de me certificar de que ele não estava brincando com a minha cara. Olhei para todos os lados, tentando achar algo que me chamasse à atenção e tentava ser o mais discreta possível.

Observei com cuidado as pinturas expostas na parede, que não passavam de retratos de pessoas horrorosas e velhas, com cara de mortas. Fiz uma careta e dei mais alguns passos, entrando no salão principal. Respirei fundo, tentando pensar por onde deveria começar e, como um raio, eu me lembrei de ele ter mencionado algo como ala leste. Estava claro para mim que este era exatamente o local no qual eu deveria ter acesso, mas eu duvido que consiga convencê-lo a me deixar fazer uma “visita” por lá.

Suspirei derrotada, tendo certeza de que era lá que ele guardava tudo o que poderia ter o mínimo de valor possível. Cruzei as mãos atrás do corpo e caminhei despreocupadamente por todo o salão e cheguei até a dar umas rodopiadas. Avistei a mesma estátua onde Justin estivera escondido naquela noite, e me aproximei dela com animação. Uma armadura de cavaleiro, sem o cavaleiro, é obvio. Toquei o metal com cuidado, como se ele fosse se desintegrar sob meus dedos e o admirei. Estava um pouco enferrujado, mas ainda brilha em algumas partes.

Sorri e deixei-a para trás, caminhando até uma passagem no canto do salão. Assim que a atravessei, percebi que dava acesso a um grande corredor, que continha mais duas portas de madeira. Caminhei até a mais próxima, pensando que uma delas teriam de me levar a algum lugar ou a algo que me ajudasse a escapar daqui. Mas me decepcionei ao ver que era só uma grande, suja e simples cozinha. Algumas mulheres trabalhavam ali, todas sujas e com cabelos desgrenhados. Logo às associei a criadas.

-Foglie, foglie!– assustei-me ao ouvir essas palavras e logo olhei em direção de onde viam, vendo uma mulher exatamente como as outras gritar comigo, enquanto fazia gestos com as mãos que indicavam que eu deveria me retirar.

[...]

Eu ainda não havia achado nada que me ajudasse de fato, mas sabia que teria que ser persistente. Eu tinha que vencer, afinal a minha vida estava em jogo e a de Justin também. Suspirei pesadamente, caminhando cuidadosamente pelo meu quarto.

Havia voltado para o escuro e frio cômodo há pouco tempo, sendo escoltada por Salimbeni e outro homem. Sentei-me na cama, soltando todo o ar que havia em meu pulmão. Acariciei levemente a colcha vermelha e fechei os olhos, deliciando-me com a sensação macia da roupa de cama. Mas meu coração deu uma pulsada em dor e apertei os olhos, sentindo a falta que meu namorado fazia.

Minha mente foi embriagada por memórias e mal percebi quando meus olhos estavam ficando úmidos. Pus a mão sobre a boca, impedindo-me de soluçar. Ah, como eu queria que ele viesse hoje, mas eu não podia coloca-lo em perigo. Justin deveria ficar longe das garras desses homens. Soueu quem deveria quebrar a maldição, se é que ela existia de fato, eeusou a Julieta.

Notas finais
O que acharam?