Notas iniciais
Mais um capitulo, pra quem está lendo.

Logo que Messer Tolomei e Monna Antonina foram embora, Salimbeni pediu que me acompanhassem até meu quarto e que eu deveria ficar lá, até que alguém fosse me buscar ou que ele desejasse me ver. Caminhei silenciosamente até o quarto, sentindo vontade de gritar com esse velho. Se ele achava que me teria com facilidade, ele estava extremamente enganado.

Assim que entrei no quarto, ouvi a porta se fechar atrás de mim e a mesma ser trancada logo depois. Ó, Salimbeni tem medo de que seu passarinho fuja da gaiola. Caminhei pacientemente até a sacada, deleitando-me com a visão do jardim. Ao menos algo nesse lugar é bonito. As rosas vermelhas eram minhas preferidas e eu sentia-me bem as observando.

De alguma forma elas me lembravam de Justin e faziam eu me sentir um pouco mais perto dele. Enrolei-me no “roupão”, sentindo a brisa fria acariciar meu corpo sem pudor, enquanto eu desfrutava da sensação de liberdade por um breve tempo.

Mas foi quando abri meus olhos, que perdi totalmente a vontade de estar ali. Vi Salimbeni caminhando soberanamente pelo jardim, não parecendo notar minha presença na janela. Senti nojo daquele homem, então o máximo que eu poderia fazer era entrar e me trancar dentro do quarto. E foi exatamente o que eu fiz. Fechei a porta da sacada com força e logo depois a cortina, vendo-me acolhida pela escuridão.

Caminhei cuidadosamente pelo quarto, até que me deparei com a cama bem a minha frente. Tateei a mesma e quando percebi que já poderia deitar, eu nem fiz questão de tirar a peça de roupa que estava por cima da camisola. Apenas me deitei, cobrindo-me até o pescoço e desejando poder adormecer com facilidade.

**

Dois dias haviam se passado pelos meus cálculos, e eu ficara sabendo de última hora que em pouco tempo eu teria de participar de um baile extremamente ridículo. Lembro-me exatamente das palavras que Salimbeni me dirigiu: “Deveis se aprontar e ficar mais bela do que já és, Julieta, quero lhe apresentar a toda Siena como minha noiva e dizer a todos os homens desta cidade, que és uma flor que já fora colhida”.

Desgraçado. Eu sentia era nojo dele e de todos esses facínoras que participavam dessa desgraça. E que queimem no inferno. Todos, todos eles, porque eu jamais, jamais, serei desse homem. Nem que me matem.

Sentei-me na cama desolada. O que eu faria? Eu sabia desde o começo que teria que fugir, mas não sabia como fugir. Não sabia para onde ir, nem mesmo onde ficava a casinha de Frei Lourenzo. Percebi então que teria que ter a ajuda de alguém para escapar. Mas quem? Todos nessa casa eram uns bandos de baba-ovos do Salimbeni. Bem, talvez alguns deles só estivessem ao seu lado por medo, porque como diz o ditado: “Se não pode com eles, junte-se a eles”.

Eu precisava de tempo e precisava desesperadamente de alguém que se dispusesse a me ajudar. Meu Deus, mas quem me ajudaria? Olhe para mim, sou só uma garota de 17 anos, fraca e que só sabe chorar.

Durante um bom tempo eu achei que fosse forte o suficiente e ainda cheguei a dizer que se estivesse no lugar de Julieta eu teria feito às coisas diferentes, que teria lutado e não teria tomado a poção idiota que a fez dormir. Mas agora eu vejo que a garota estava realmente desesperada. Quase tanto quanto eu estou agora.

Olhei o vestido vermelho de veludo que estava sobre a cama e que parecia ter saído de alguma peça de Shakespeare, enquanto pensava que hoje eu deveria começar a traçar o plano. Talvez eu tivesse um pouco de aceso à outras partes desse lugar e poderia começar a armar um esquema para fugir daqui o mais rápido possível.

Levantei-me um pouco animada e, como já estava limpa, eu só precisava me arrumar. Retirei a camisola quase transparente e coloquei o vestido, que ia até os pés e tinha um decote quase inaceitável para o que deveria ser um baile. Dei de ombros, calçando uma sapatilha de tiras e caminhando até o que seria uma penteadeira, tentando decidir o que eu faria no cabelo. Um coque talvez?

Mas no exato momento em que comecei a arrumar meu cabelo, eu ouvi alguém bater a porta e caminhei até lá, abrindo-a impaciente. Dei de cara com um homem e uma mulher.

-O-Olá. – ela disse hesitante. Franzi o cenho para ela, sem medo de estar ou não sendo grosseira ou indelicada, afinal eu não fazia a menor questão de estar aqui. Por mim eu iria embora agora, ou melhor, eu nunca teria vindo. – Eu arrumar você. – ela disse de um jeito confuso. – Quero dizer, eu ajudar você se arrumar.

Sorri e a vi entrar, sendo acompanhada pelo homem, que ficou parado em frente à porta. Assenti e caminhei com ela até a penteadeira, sentando-me no banco e encarando meu reflexo no espelho. Deixei que ela fizesse o que quisesse ou o que fora mandada fazer, enquanto apenas pensava que minha vida seria um inferno, vivendo com guardas atrás de mim o tempo todo.

Sem que eu notasse uma lágrima caiu e vi que a mulher tinha me visto chorar. Limpei-a mesma com rapidez e abaixei o olhar, evitando olhá-la pelo reflexo no espelho.

-Como se chamar? – perguntou de um jeito engraçado, me fazendo rir. Logo deduzi que ela não falava bem meu idioma, nem mesmo o italiano.

-Julieta. – respondi com doçura. – Me chamo Julieta.

Ela assentiu, mas não me disse como se chamava, também não senti vontade de tomar conhecido do seu nome, então tudo o que fiz foi sorrir e deixar que ela terminasse seu trabalho, sem mais interrupções. Depois de alguns minutos ela terminou de pentear meu cabelo e deixou suas mãos pousarem em meus ombros, parei para admirar o que ela tinha feito.

Meu cabelo estava solto, apenas com uma trança no topo, parecendo uma tiara. Levantei-me e fiquei de lado, vendo o resultado de todos os ângulos que me eram possíveis. Sorri, vendo como havia ficado bonito. As pontas estavam com cachos grossos e escuros, apenas com alguns fios mais claros. Lembrei-me que tinha feito as mechas especialmente para a viagem. Ou eu deveria dizer, especialmente para minha tragédia?

Suspirei e, então, ouvi passos pelo corredor, enquanto admirava um pouco mais de mim através do espelho. A mulher sorriu, mas se afastou assim que bateram na porta. O homem a abriu e eu logo vi quem era que viera para me tirar do casulo. Pena que esse era o homem errado.

Salimbeni caminhou até mim e parando em minha frente, olhou para as outras duas pessoas que ainda estavam no quarto e as enxotou com uma palavra ofensiva em italiano. Ambos saíram o mais depressa possível e a porta fora fechada com um baque.

Logo depois ele me olhou com malicia e pegando minha mão direita com delicadeza, levou-a até os lábios, deixando um pequeno beijo ali. Não sorri, nem retirei minha mão da sua, o que era de minha vontade, apenas o olhei sem expressão. E endireitando a postura, ele sorriu.

-Vós sois tão bela, Julieta. – disse em um tom que constatei ser de admiração. Era uma pena que eu já o odiasse. – Eu jamais pude comtemplar uma beleza como a vossa. – levou minha mão até seus lábios, mas dessa vez beijou também o meu pulso, deixando seus lábios repousados por longos segundos no mesmo. – Preciso ter-te por inteiro, à minha mesa e à minha cama, caso contrário, eu definharei.

Senti-me enojada com suas palavras. Não que eu não gostasse de versos românticos e poemas, mas os dele me soavam como ofensas. E eu nunca seria capaz de amá-lo, porque meu coração já estava preenchido quando ele me sequestrou. Bem, talvez nem se eu estivesse solitária no amor, eu não o amaria. Esse homem me causava ânsia de vomito. E tudo o que mais queria quando estava perto dele, era saber quando ele me proporcionaria a alegria de sua ausência.

-Como ousa me cortejar? – perguntei, enquanto retirava minha mão da sua, interrompendo seus beijos, que eram deixados em meu pulso. Ele me olhou e pude ver um flash de raiva em seus olhos. – Sabeis muito bem que já tenho um amor à minha espera.

-Aquele verme de quem eu poupei a vida? – ele riu. Uma risada inaudível, como se risse no seu interior. – Ora, minha deusa, aquele rapazote nunca saberá como tratar uma mulher como tu.

-E como se trata uma mulher como eu? – perguntei irônica. – Raptando-a e deixando-a presa em um quarto escuro? É assim que trata suas mulheres Salimbeni? – eu sabia que estava sendo audaciosa, mas não aguentava ficar calada diante da raiva que sentia desse homem. – Pois saibas que Justin é mil vezes melhor que tu.

Salimbeni agarrou meu braço e me olhou com puro ódio. Engoli a seco, mas fiz o máximo que pude para não deixar meu medo transparecer.

-Pois vós sois minha a partir de agora. – rosnou. – E terá que aprender a me chamar de marido e me tratar como o Deus de sua morada. – respirei fundo e virei meu rosto, negando a mim o sacrifício de olhá-lo. O maldito aproximou seus lábios do meu ouvido e eu fechei os olhos, esperando sua ameaça, que não tardou a chegar. – Ou tu se esqueceste de que eu posso acabar com a vida do rapaz, por quem você jura amor eterno?

-Você não ousaria tocar num fio de cabelo dele. – exclamei. – Me destes a tua palavra!

-Pois você também me destes a tua e olhe só para você agora. – ele fez uma pausa e roçou seus lábios levemente em meu pescoço e eu reprimi o desejo de empurrá-lo para longe. – Recusa-te a receber um carinho de teu futuro marido.

-Que você queime no fogo do inferno! – gritei.

-Nesse caso, minha querida, eu levarei você e seu Romeo comigo. – senti-me sendo puxada por ele e tentei fazê-lo parar, mais ele parecia ser uma parede, impossível de se mover.

-O nome dele é Justin. – protestei. – E eu juro Salimbeni, juro que se você tocar nele outra vez, eu mesma mato você. – ele riu, desta vez bem mais alto, como uma gargalhada e me olhou.

-Poupai tuas ameaças, Julieta, para quem sente medo delas. – disse rindo. – Pois vós não me causais nem mesmo um arrepio.

Durante o trajeto tentei dizer à ele que estava machucando meu braço, mas toda vez que eu tentava fazê-lo parar de apertar o mesmo, mais ele me prendia entre suas garras, e mais doloroso se tornava. Só então, quando finalmente ouvimos barulho de música e pessoas falando, é que ele afrouxou um pouco a mão, mas ainda me segurava com firmeza.

Tão logo ouvi a música, e já me vi parada em frente a uma multidão de pessoas, que nos olharam imediatamente. Uns com olhares cobiçosos, outros com olhares encantados e sorrisos no rosto, mas eu tinha certeza de que ninguém aqui ligava se eu gostava ou não do meu noivo e, tinha mais certeza ainda, de que nenhuma mulher gostaria de estar em meu lugar. Vi-me, então, sozinha na batalha pela minha própria felicidade ao lado de quem eu amo.

-Mostra-te feliz! – sussurrou, enquanto me conduzia para lá e para cá.

Paramos no que parecia ser um palco e Salimbeni segurou minha cintura. Fiz uma careta, mas não ousei protestar ou dizer uma palavra, apenas fingi que nada acontecia. Procurei um rosto familiar no meio das pessoas, mas foi completamente em vão. Eu não conhecia uma só alma ali presente, a não ser, claro, Messer Tolomei e Monna Antonina.

-Aqui estamos, caríssimos colegas, para que eu possa apresentar a todos vós, aquela que a Virgem Maria entregou em minhas mãos, para ser minha por toda a eternidade. – ele me olhou por alguns segundos, e desejei poder ser libertada das garras deste demônio, que se dizia meu noivo. – Julieta, a mais bela entre todas as mulheres que já tive o prazer de contemplar. – Senti-me presa nesse exato momento, como se a maldade desse homem me engolisse, no meio de tanta cobiça. Ó, Deus, eu estou perdida. – E o que o céu entrelaçou homem nenhum que residir sobre a Terra há de separar.

Parei por alguns instantes para analisar suas palavras. Era engraçado o modo como ele fazia parecer que eu também o amava. Olhei para os lados, assim que me lembrei do meu plano. Eu estive aqui dias atrás, mas a euforia de estar sendo raptada não me deixou prestar a atenção no caminho, portanto eu só me lembrava do meu próprio corredor, nada mais.

Algumas pessoas cochicharam diante de nós e Salimbeni enlaçou minha cintura. Empurrei-o delicadamente, não o querendo perto de mim. Sentia-me como um troféu, um objeto de poder, com o qual Salimbeni se vangloriava por suas bandas. Mas eu não era dele, nunca fui, nem me tornaria.

A música começou a tocar novamente e ele continuou ao meu lado, enquanto bebericava uma taça de vinho. Revirei os olhos. Estava angustiada demais para querer dançar ou comer. Tudo o que pensava era em como entraria em contato com Justin, para que ele, ao menos, tentasse me ajudar a sair daqui. E se eu não tivesse escapatória, que ele salvasse sua vida.

Foi, então, no meio da escuridão, perdido no esconderijo de sombras, que eu avistei Frei Lourenzo. Um sorriso espontâneo se formou em meu rosto, mas tratei de espantá-lo assim que o frade apontou o homem ao meu lado, lembrando-me de que eu deveria ser o mais discreta possível.

Respirei fundo, tentando acalmar a alegria que crescia dentro de mim, e me virei para ele, fingindo estar gostando da festa.

-Gostaria de andar um pouco. – ele me olhou por alguns segundos e depois direcionou um breve olhar para as pessoas. Por sorte Lourenzo ainda estava escondido. – Posso?

-Fique sob meu olhar. – avisou.

Assenti com rapidez e desci os poucos degraus, sempre o olhando de uma forma discreta, somente esperando o momento perfeito para sumir de suas vistas. O momento perfeito não demorou a acontecer. Um homem chamou a atenção de Salimbeni, que se virou para dizer algo ao mesmo e eu vi minha única chance dar as caras. Corri para esconder-me atrás de um enorme pilar e tomei o mesmo esconderijo de Lourenzo, a escuridão.

Dei passos cuidadosos até o próximo pilar, sempre observando Salimbeni e vi que ele ainda conversava com o mesmo homem e que mais se aproximavam deles, formando uma espécie de grupo em volta dele. Sorri, ao constatar que daria certo.

-Julieta! – ouvi alguém chamar meu nome baixinho e ao olhar com maior cuidado, vi Frei Lourenzo parado a três pilares de distancia, dei uma última olhada em Salimbeni, mas desta vez não consegui vê-lo, devido o aglomerado de pessoas. Ótimo, se eu não o via, ele também não seria capaz de me ver.

Corri até Frei Lourenzo e sorri da forma mais sincera que pude. Meu coração martelava em meu peito. Eu precisava de noticias de Justin, saber o que haviam feito com meu namorado.

-Como ele está? Onde ele está? O machucaram muito? Diga-me Lourenzo, ande! – diante da minha euforia, ele riu pelo nariz e apontou algo atrás dele.

Atrás de uma estátua, ainda mais escondido do que Lourenzo, estava uma silhueta. Sorri desesperada e dei dois passos em sua direção, mas antes me virei para ver Salimbeni.

-Ande menina, não tens muito tempo até que Salimbeni sinta tua falta. – me apressou. – Vá, eu fico de vigia.

Caminhei com o coração quase saindo pela minha boca e parei em frente ao ser encapuzado, que permanecia de cabeça baixa. Mordi o lábio e toquei seu ombro esquerdo. Sua mão agarrou gentilmente a minha, levando-a até os lábios e beijando com necessidade. Ao erguer um pouco a cabeça, vi seus olhos e fios de seu cabelo dourado escapar da proteção da touca e me vi sorrindo como uma criança que acabara de ganhar um doce.

-Justin. – murmurei e senti que ele me puxava para um abraço apertado.

-O que esse lunático fez com você, meu amor? – perguntou, enquanto me abraçava ainda mais. – Não me diga que ele tentou... Você sabe. – ele suspirou e me olhou. – Se ele tentou forçar você fazer algo com ele, eu juro que o mato Julieta. Ah eu o mato.

-Shiiu. – calei-o com um selinho e ele agarrou minha cintura, pedindo por mais, infelizmente tive que afastá-lo. – O que ele fez com você?

-Nada, que eu não pudesse aguentar. – ele sorriu, tentando me convencer de que tudo estava bem e beijou meu queixo, subindo até meus lábios. – Ó, Julieta, que saudades eu senti de ti, dos seus beijos. Ó, meu amor, como fizeras falta em minha vida.

-Eu te amo. – disse, antes que ele tomasse meus lábios com um beijo que me tirou o folego.

Apertei seus ombros com força, e deslizei minhas mãos por seus braços, dissipando toda a saudade que sentira dele e de seu corpo. Justin mordeu meu lábio inferior e me segurei para não emitir nenhum som, com medo de que alguém me ouvisse. Se Salimbeni nos visse agora, com certeza nos mataria.

-Eu amo você, Julieta. – respondeu, enquanto apertava minha cintura e me prensava contra a parede. – V-Vamos sair daqui, hum? Vamos para um lugar mais... Solitário.

-Não podemos. – Justin bufou de decepção e colei nossas testas, olhando-o nos olhos. – É tão bom te ter de novo, amor.

-É bom tê-la em meus braços outra vez, Julieta. – respondeu enquanto sorria de um jeito sedutor. Ri pelo nariz e contornei seu pescoço com meus braços, afundando o rosto na curvatura entre seu pescoço e seu ombro. – Que Deus me permita tê-la em meus braços todos os dias.

-Ele há de permitir, Jus, eu tenho certeza que sim. – sussurrei. Ele beijou o topo da minha cabeça e voltou a me abraçar. – Mas você não me disse o que eles lhe fizeram, assim que eu fui raptada.

-Eles... – Justin hesitou por alguns instantes e eu o encarei, com uma expressão séria. Seja lá que tenham feito com ele, eles iriam pagar. – Eles só bateram em mim, mas, como eu disse, não foi nada que eu não pudesse aguentar.

-Ó, Justin. – exclamei, enquanto segurava seu rosto entre minhas mãos e beijava seus lábios com delicadeza. – Eu sinto muito e já perdi a conta de quantas vezes desejei estar em casa.

-Você está aqui agora e só isso que me importa. – Justin afagou meus cabelos e me encarou. – Estás tão bela, que eu quase não me contive quando aquele homem disse que tu foras entregue a ele pela Virgem Maria, para que tu foste dele pelo restante de sua vida. – silenciei-o novamente com outro beijo, murmurando juras de amor eterno – Mas eu não entendo o que fazemos aqui, porque quem quer que seja essa Julieta, ela não é você.

-Sei disso, mas... – parei de falar, assim que me dei conta de que soaria absurdo demais para ser verdade. Teria de haver uma razão bem melhor do que essa.

-Mas? – perguntou. – Você sabe de algo?

-Justin, eu sei que pode soar de um jeito absurdo e extremamente surreal, mas... Eu acho que estamos aqui por causa de uma maldição. – fechei os olhos, esperando ouvir uma risada da parte dele, mas ela não veio. O que? Ele também acha que isso pode ser possível?

-Que tipo de maldição? – o encarei. Justin tinha uma expressão séria e eu me surpreendi ao constatar que ele estaria ponderando minhas palavras.

-Hã... Minha avó sempre dizia que Romeo e Julieta existiram de verdade, na antiguidade, e que nossa família descendia originalmente de uma irmã de Julieta. – ele assentiu, como se o que eu dissesse fizesse algum sentido. – Dizia também que pouco antes de morrer a própria Julieta, com raiva de sua família por terem a entregue nas mãos de um facínora, amaldiçoou todas as mulheres com nome Tolomei, ou que descendessem de alguma delas... Então...

-Você é amaldiçoada por descender dos tais Tolomei? – assenti. – E que maldição era essa exatamente?

-Sofremos no amor. – ele riu pelo nariz e eu bufei. Sabia que era surreal demais pra ser levado a sério. – Viu você não acredita.

-É estranho. – disse dando de ombros. – Mas se for verdade o que temos que fazer para acabarmos com isso e voltarmos para nossa vida feliz em Atlanta?

-Não sei. – ele bufou e enterrou o rosto em meu ombro. – Sinto muito por ser uma namorada amaldiçoada.

Ouvi Justin rir contra meu pescoço e deixar um beijo delicado no mesmo. Fechei os olhos aproveitando a sensação de ter sua pele junto a minha, pois sabia que não o teria sempre que desejasse. E isso acabava comigo. Respirei fundo, enquanto seus beijos subiam cada vez mais, deixando um rastro de paixão por onde passavam. Sorri maliciosa e o senti morder o glóbulo da minha orelha.

-Amaldiçoada ou não, ainda assim eu escolheria você. – sorri e o puxei para um beijo.

Em questão de segundos nossas línguas batalhavam em nossas bocas e ambos implorávamos por mais. Queríamos mais um do outro e eu queria a vida eterna ao seu lado. Bem, talvez nem que se passassem mil anos eu estaria satisfeita, por que nem a eternidade ao lado dele seria o suficiente para mim, de modo a me fazer desejar sempre mais.

-Falha-me Deus, o que estão fazendo? – perguntou uma voz assustada. Separamo-nos rapidamente e vimos Lourenzo, em um estado de inquietação ao nosso lado. – Ó céus, se Salimbeni pegam você dois juntos... – ele não terminou de falar, apenas agarrou minha mão, tirando-me de perto de Justin. – Por falar no demônio, Salimbeni já deu por sua ausência, Julieta. – bufei e olhei ao meu redor, mas não vi Salimbeni, então tornei a olhar Justin. – Rápido, meu jovem, arrume o capuz e se esconda, — e virando-se para mim, começou a me empurrar levemente para a direção oposta a que Justin estava. – enquanto a você, vá, vá antes que ele lhe encontre.

-Não. – protestei. – Preciso dizer algo a Justin!

-Não tens mais tempo. – tentei protestar, mas Justin já havia se camuflado na penumbra. – Salimbeni já esta perguntando por ti.

Mas antes que ele me empurrasse para a luz e eu pudesse ser vista por aquele monstro, o segurei pelos ombros e lhe implorei que dissesse algo à Justin.

-O que quereis? – perguntou agoniado, enquanto olhava para todos os lados.

-Diga a ele para ter cuidado, não dizer nada sobre nós ou sobre ele, pois eu sinto que Salimbeni ainda vai se vingar... – o frade assentiu e tornou a me empurrar levemente. – E diga a ele que o amo muito, muitíssimo e que a Virgem Maria há de nos abençoar.

-Digo, digo, agora vá! – apressou-me. Então senti a luz me agarrar com força, tirando-me de vez dos braços do meu namorado, que continuava escondido atrás da estátua.

Notas finais
O que acharam?