Notas iniciais
Mais um capítulo, Girls!

Prendi a respiração, em um ato automático. Meu coração acelerou e parecia que iria sair do meu peito, tal como estava sua pulsação. Mas, mesmo diante do meu pavor, Justin pareceu não se sentir abalado ou com medo das palavras daquele homem. Um homem que eu mal conhecia, mas já aprendera a odiar.

Soltei o ar que havia em meu pulmão, ouvindo que Justin gritava cada vez mais e vi-me sendo arrastada por Salimbeni. Tentei fazer ele me soltar, mas não obtive sucesso.

-Não. – disse baixinho. – Não o mate. – pedi. – Por favor, não o machuque. Eu irei com você, só não o machuque.

Messer Salimbeni me olhou por alguns instantes e sorriu. Estufei o peito, em sinal de que não sentia nenhum medo dele, mas na verdade eu sentia. Tinha medo do que esse homem seria capaz de fazer, tanto comigo ou com Justin e Lourenzo. Ele continuou me olhando por alguns segundos e depois, se dirigindo aos homens, disse algo em italiano, que eu não consegui compreender.

Um dos homens assentiu e Salimbeni olhou para mim.

-Decisão sensata a sua. – disse em um tom calmo. – Pena que não vai salvar o rapaz.

Desesperei-me. Odiava me sentir assim, mas foi inevitável. Quando suas palavras penetraram meus ouvidos, eu senti um medo terrível. Perguntei-me, então, por que nós estávamos passando por isso, tendo nossas vidas em risco, prestes a ver a morte um do outro, porque algo me dizia que esse homem me mataria se eu não obedecesse a suas ordens.

-Não! – gritei, enquanto lutava para que ele me soltasse. – Por favor!

Ele fez uma careta e segurou meu pulso com mais firmeza, puxando-me até uma espécie de carruagem. Relutei por mais alguns segundos. Não seria fácil me levar com ele, a menos que me prometesse que não faria mal a Justin.

Paramos quase em frente ao meio de transporte e eu juntei todas as minhas forças, empurrando-o. No principio eu achei que pudesse dar certo, mas vi que me enganei, assim que o senti agarrar minha cintura, jogando-me contra a carruagem e me prensando contra seu corpo e a mesma.

Tentei me debater, mas senti sua mão se chocar contra meu rosto e o mesmo arder levemente. Coloquei minha mão sobre o local que latejava e estava quente, enquanto o olhava com ódio. Esse filho da puta havia me dado um tapa na cara.

-Aquieta-te! – gritou. – Sóis minha agora! – abaixei o olhar, sentindo meus olhos lagrimejarem de ódio. Queria gritar e chorar, mas não poderia parecer uma fraca. Ele tinha que saber que independente do que fizesse ou dissesse, comigo as coisas não seriam tão fáceis. E eu ainda não conseguira fazer com que ele prometesse que não relaria em Justin outra vez. Meu namorado precisava ficar a salvo. – Seu tio sentiria vergonha de ti agora, Julieta. – ele riu brevemente e o olhei por entre alguns fios de cabelo. – Creio que poucas pessoas em Siena conseguiram fazer o velho Tolomei sentir-se envergonhado.

-Vou com você sem relutar novamente. – o homem esboçou um sorriso satisfeito e eu endireitei a postura, mostrando-lhe que estava decidida. Salimbeni se aproximou, tentando me tocar, mas eu empurrei sua mão. Ele pareceu não gostar. – Mas antes deverás me prometer que o rapaz e o frade ficaram sãos e salvos. – mantive minha postura ereta e até ergui um pouco o queixo, demonstrando minha total decisão.

-Vocês mulheres choramingam demais pela vida desses vermes. – disse firme, de uma forma que quase me fez murchar diante de seus olhares maldosos. – Não sou obrigado a preservar a vida do garoto, mesmo que me prometas que cumprirá todas as minhas ordens sem protestar uma só vez.

-Pois lhe dou minha palavra que assim será. – ele hesitou por alguns instantes e eu estranhei o fato de não ouvir mais os gritos nervosos de Justin. Há quanto tempo ele havia se calado? Droga, o que fizeram com ele? – Eu lhe prometo que se preservares a vida dos dois, você poderá me ter a hora que quiser, sem nada para lhe atrapalhar.

Seu sorriso me dissera que ele estava prestes a aceitar, mas aquele silêncio estava me matando. Eu precisava ver Justin e pedir-lhe que tivesse cuidado e que não se metesse em nenhuma enrascada. Se Deus permitisse, nós logo estaríamos juntos outra vez. E em casa.

-Ótimo. – disse por fim. – Me convencestes. – eu sorri de alivio e o senti agarrar meu braço outra vez. – Agora entre, meu pequeno amor, nós logo iremos para casa.

-Quero ver o jovem novamente! – protestei.

-Ora, Julieta, tu prestaste bem a atenção no que me propusera? – perguntou. – Me pediste para zelar pela vida dos dois cavalheiros, mas nunca para vê-los novamente.

-Agora estou pedindo.

-Agora é tarde demais! – então me vi empurrada para dentro daquele transporte do demônio e senti meu corpo estremecer, quando o homem entrou, sentando-se a minha frente.

Ainda não tinha certeza de que Justin estaria bem, mas se fizessem algo de ruim para ele, eu mataria esse verme. E faria isso com todo o prazer.

Salimbeni me olhou possessivamente e eu estava cada vez mais assustada, temendo não só pela vida de Justin e Lourenzo, mas pela minha também. Afinal eu não sabia até onde ele seria capaz de chegar para conseguir o que queria e algo me dizia que eu estava entre seus objetos de desejo.

Suspirei pela quarta vez, pensando no por que disso tudo, se é que existia um por que, razoável.

-O que vai fazer com Justin? – perguntei baixinho, sentindo meu coração pulsar. – Vai mata-lo, não vai?

-A principio, sim, eu iria. – respondeu suavemente, o que me fez estremecer. Ele falava de matar uma pessoa, como se dissesse “bom dia”. – Mas eu lhe dei minha palavra, assim como você me deu a sua.

Lembrei-me então da promessa que eu fizera. Ó, meu Deus, eu estava perdida. Precisava ver Justin e combinar uma fuga rapidamente, antes que fosse tarde demais.

-Mas, então, vai deixá-lo em paz? – perguntei hesitante.

-Deixá-lo em paz? – ele riu alto e depois me olhou com um olhar zombeteiro. – Não, ele vai aprender que nunca se deve mexer com um Salimbeni. – abaixei meus olhos, sentindo que desabaria no choro a qualquer instante.

-E quanto à Lourenzo? – foi só então que percebi que minha voz estava carregada, chorosa e arrastada, quase denunciando o quão vulnerável eu me encontrava agora.

-Dio! – ele exclamou. – Lourenzo é um homem de Deus, eu não posso machucá-lo!

Suspirei pesadamente. Ao menos alguém sairia sem machucados.

[...]

Agora eu estou parada em frente a uma janela, observando o céu e o jardim que está bem abaixo de mim. Sentia-me estranhamente calma nesse momento, embora tudo o que eu queria fazer era sair daqui.

Durante a viagem, Salimbeni não trocara muitas palavras comigo, mas não tirara seus olhos de mim. Assim que chegamos, ele me trouxe até esse quarto e mandou que alguém me desse um banho, o que, em partes, me ajudou a relaxar. Mas minha mente ainda pensava em Justin e no que eu faria para vê-lo.

Ouvia burburinhos, mas não entendia uma palavra. Então desisti de tentar bisbilhotar e decidi ficar trancada em meu quarto. Ah, como eu gostaria de ficar aqui até que tudo estivesse resolvido, mas eu sabia que teria de cumprir minha palavra. Maldito seja esse homem.

Lembrei-me, então, de minha avó e de tudo o que ela me dissera sobre Julieta Tolomei e de haver uma maldição sobre minha cabeça. Maldição essa que não atingia somente a mim, mas aquele que eu amava também, ou seja, Justin.

Fechei meus olhos com força, e logo depois caminhei até a cama, que era um pouco grande para mim. Após alguns segundos eu deduzi que ela talvez não fosse minha, mas de Salimbeni e, se nada desse certo, logo eu teria que compartilhá-la com ele. Lágrimas brotaram em meus olhos e eu me encolhi, enquanto choramingava baixinho. Senti-me tão fraca, tão inútil, que me vi chorando com mais necessidade, como se isso me ajudasse a descarregar toda a aflição que passei.

Minutos depois, encolhida na cama, sentindo-me completamente segura e já estando cansada demais para estar acordada, eu adormeci como um anjo que descansa tranquilamente depois de ter feito um ótimo trabalho na Terra.

**

Ah, como eu queria ser atendida uma só vez em toda a minha vida. Agora, com certeza, eu deixaria de lado todos os pedidos que eu já sentira vontade de fazer e somente pediria para que nada disso estivesse acontecendo.

Acordei a algumas horas e continuei trancada nesse quarto, alternando entre idas a sacada e alguns cochilos. E eu fora despertada do último com uma mulher trazendo uma bandeja de comida. Agradeci e ela pareceu entender, sorrindo de leve para mim.

Comi pouco, não sentia fome, sentia angustia, raiva e, sobretudo saudade. Saudade de ser livre, não só para estar onde quisesse, mas com quem eu quisesse. Salimbeni, com certeza controlaria todos os meus passos de agora em diante. Mas eu achava estranho não tê-lo visto desde que chegamos, ou talvez ele só tentasse algo comigo depois do casamento, claro, quando finalmente fossemos marido e mulher. Eu só desejava que esse dia nunca chegasse.

Ouvi passos e não tive tempo nem de recuar, ou de chegar até a cama. A porta se abriu com rapidez e vi aquela alma detestável, que me trouxera até aqui, prostrada em frente à porta, com uma mulher e dois homens, que deduzi serem necessários caso eu me recusasse a ir com ele.

Mas tudo o que eu fiz foi caminhar até a cama e vestir uma espécie de roupão por cima da camisola branca, que, apesar de se de gola alta, era um tanto quanto transparente demais e algo me disse que ele não me esperaria trocar de roupa, e que seria capaz de me arrastar pelo cabelo para sei lá onde.

Assenti quando o mesmo fez um gesto para que eu fosse à frente. Levantei o queixo quando passei por ele, que riu provavelmente me achando ridícula. Mas ele teria que saber que eu não me afeiçoara com ele em nada, absolutamente nada.

Caminhamos por longos corredores, até que chegamos a um cômodo grande, porém menor que outros que havia aqui. Vi um casal um pouco distante, e a mulher me encarou seriamente. Virei para Salimbeni, questionando sobre quem eram.

-Seus tios vieram te visitar. – respondeu ríspido. Uma chama de esperança se ascendeu em mim.

Tive esperanças de que me reconhecessem e dissessem a Salimbeni que eu era a garota errada e ele, enfim, me deixasse ir, então eu iria até Justin e sairíamos desse lugar esquisito.

Mas tudo o que fizeram foram caminhar até mim, calados. Quando a mulher finalmente se viu perto o suficiente, ela me envolveu em seus braços, apertando-me. Tive vontade de empurrá-la para longe e gritar com todos eles. Como eu poderia ser sobrinha deles se nunca os tinha visto antes?

Sufocando entre os braços daquela mulher eu apenas senti lágrimas banhando meus olhos, enchendo-os com suas tristezas, enquanto o veneno de Salimbeni escorria por entre aquele sorriso falso, que ele exibia.

-Ora, por que choras Julieta? – perguntou a mulher. Apenas mordi os lábios, até que me vi desabando em lágrimas na frente de todos esses desconhecidos. Então tapei meu rosto com as mãos, enquanto deixava que toda a minha frustação transbordasse por meus olhos.

-Porque eu não sou sua sobrinha. – protestei, assim que consegui controlar minhas emoções. – Eu nem ao menos conheço você.

-Vós não sóis minha sobrinha? – perguntou incrédula. – Como podes dizer algo assim, Julieta? – ela me encarou, como uma mãe encara seu filho, enquanto lhe dirige uma bronca daquelas. – Criei você desde os seus dez anos, criança. Como poderei, eu, não ser sua tia? – ela riu pelo nariz e colocou suas mãos em meu rosto, enxugando-o. – Reconheceria você, mesmo se eu ficasse anos sem vê-la.

Solucei diversas vezes, antes de olhá-la com uma mistura de medo e desdém. Eu não gostava dela, porque mesmo que fosse “minha tia”, essa velha rabugenta havia me entregado nas mãos de um crápula. Ela pareceu não gostar da minha expressão e logo depois olhou friamente para Salimbeni.

-O que fizeste com minha Julieta? – perguntou no mesmo instante em que me envolvia com seus braços, que me pareceram materno.

-Sua não! – protestou o homem, enquanto me olhava com olhos de cobiça. – Sabeis muito bem que Julieta é minha agora.

-Não são casados ainda. – ela protestou. – Não tens o direito de encostar um dedo sequer na menina! – me empurrando levemente ela me olhou seriamente e depois passou as mãos pelo meu rosto. – Olhe só, Tolomei, como ele a deixou assustada.

-Garanto a você que Julieta permanece com sua honra intacta! – exclamou. – Mas não é à que deves pedir explicações se o contrario tiver acontecido.

-O que disse? – perguntou-lhe imediatamente. Fechei meus olhos imaginando que ele mencionaria Justin.

-Quando mandei procurá-la por toda a Siena, algumas pessoas de minha contrada me disseram que viram uma jovem na carroça do Frei Lourenzo, mas que ela não era a única a ir com ele. – ele parou de falar, olhando-me com provocação. Amaldiçoei-o então. – Junto dela seguia um rapaz. – A mulher rapidamente me olhou incrédula, como se não soubesse o que dizer a respeito de Justin. – E, imagine, o mesmo se apresentou à Lourenzo e a um de meus homens como marido de vossa sobrinha.

Messer Tolomei me olhou com raiva e ao mesmo tempo com surpresa. O que? Eles raptam garotas e seus namorados, e além de obriga-las a se casar com um desconhecido, ainda querem que elas sejam mais puras que uma freira?

Não deixei que nenhuma de minhas emoções escapulisse. Fiquei imóvel, deixando que tudo acontecesse ao meu redor, sem minha interferência, exatamente como aconteceu até agora. O casal me olhou de uma forma que eu não saberia explicar, e depois se entreolharam.

-Isto que ele disse é verdade? – perguntou Tolomei. – Existia um rapaz no seu plano de fuga?

Plano de fuga? Ó, meu Deus, essas pessoas só podiam estar loucas. Eu nem ao menos havia planejado minha fuga. E com certeza o faria dar certo, ou morreria tentando escapar daqui.

Não ficaria com Salimbeni, nem que me pagassem. Preferiria a morte e era o que eu faria se tudo desse errado. Mas assim que tive esse pensamento, lembrei-me das palavras calmas, porém terríveis de vovó: “Muitas mulheres de nossa família morreram, por não ter com elas o homem amado.” E mais uma vez, uma coisa sem nexo parecia ter o mínimo de sentido possível.

Será que eu também estava sendo amaldiçoada por Julieta? Será que eu estava em seu lugar agora? Mas por que diabos essa vadia havia me mandado em seu lugar? Para sofrer o que ela sofreu? Ou será que ela queria que eu desfizesse todo o erro, que fora cometido anos atrás? Ora, eu acho que estou ficando paranoica.

-Foi para isso que quis fugir, Julieta? – a mulher perguntou ríspida, e a essa altura nem me abraçava mais. – Ó, pela Virgem Maria, o que fizemos de errado?

E foi nesse momento que percebi o porquê Salimbeni mencionou Justin. Assim que viu “minha tia” se colocar contra ele por míseros segundos, o homem deveria fazê-la pensar que eu fugira com algum rapaz e que para que isso não se repetisse ou que eu não chegasse a vê-lo de novo, nós deveríamos nos casar o quanto antes. E para nosso azar, havia mesmo um rapaz no meio, o que tornara as coisas ainda mais difíceis. Como convenceria esses loucos agora? O que eu diria? Ó, meu Deus, precisava dizer a Justin para que nada mais dissesse nem ao seu, nem ao meu respeito, ou acabaria dando tudo errado.

Notas finais
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