Notas iniciais
– Aí, a professora falou que a minha nota foi a maior! – falou Pedrinho, empolgado.
– Que ótimo filho! E você Julie? Alguma coisa nova? – perguntou o pai de Julie.
– Não, pai. Nada de novo. – falou, ansiosa para seu pai sair.
– E o namorado? – seu pai colocou um pouco de macarrão na boca.
– Hã? – falou, desatenta.
– Seu namorado, filha. O tal do Nicolas, não é? – tentou se lembrar.
– Há. O Nicolas. Tá bem pai. – resmungou ela. Julie mal prestava atenção a conversa. .
– Eu até que gosto daquele garoto. Qualquer coisa pode falar comigo, viu filha? Papai entende tudo de namoro. – Martim apareceu. Ele adorava assistir jantares em família.
– Claro, pai. Eu falo sim. – fingiu. – Até parece. – murmurou ela, em voz baixa.
– Seja educada com o seu pai! – Daniel apareceu.
– É. Depois você morre, e nem aproveitou ele. – Félix falou aparecendo. Pronto! Agora sua cozinha estava infestada de fantasmas e conversas chatas. Perfeito!
– Pai, eu posso sair? – perguntou, sem responder Félix e Daniel.
– Você mal comeu o seu macarrão. Não está bom? – seu pai falou, preocupado.
– É Julie, coma seus legumes! – Daniel falou, com um sorriso estampado no rosto.
– Claro. Eu já ia sair mesmo. Já estou atrasado para o trabalho. Tchau. – disse se levantando da mesa, e beijando a cabeça dos filhos.
– Está sim, pai. É porque eu não estou com fome mesmo. Posso? – falou, ignorando o comentário de Daniel.
– Oh! – Daniel brincou, rindo com Martim e Félix.
Julie levantou-se da mesa e foi direto para a edícula.
– Muito engraçado viu, senhor Daniel! – arrumou o microfone.
Daniel nem respondeu e começou a arrumar os equipamentos de som. Ouviram a porta bater e começaram a tocar.
– Finalmente! – Julie exclamou.
Tocavam normalmente, do mesmo jeito insólito de sempre. Começaram a ouvir um ruído estranho. De ruído o som começou a se transformar em música. Era uma guitarra. Tocando “O que o mundo escolheu”! Julie olhou para Daniel e ele levantou as mãos para mostrar que não era ele que tocava a guitarra. O som vinha da rua. De repente, algumas pedrinhas começaram a bater a janela. Julie saiu correndo, e a abriu. Olhou para baixo, e viu Nicolas, com uma guitarra na mão. Na verdade, a guitarra velha com tampinha de garrafa como botão que Julie havia emprestado para ele treinar em casa. Nicolas gritou seu nome, e ao ouvir sua voz, Daniel correu para a janela, invisível.
– Essa é para você, meu amor! – Nicolas gritou e começou a tocar “ O Que o Mundo Escolheu”. Julie nunca havia ensinado essa música para ele. Devia ter aprendido sozinho. Ele tocava bem, e quando começou a cantar, percebeu que sua voz até que era boa. Daniel, foi até a rua visível para Julie, e levemente, empurrou a mão de Nicolas, fazendo com que ele errasse a nota. Nicolas corou, e Julie olhou para Daniel, reclamando com os olhos. Daniel sorriu travesso.
– Desculpa. – Nicolas, falou envergonhado. – Eu não treinei muito e...
– Continua. – Julie disse, apaixonada.
O ódio surgiu nos olhos de Daniel. Então começou a desafinar a guitarra. A música ficou horrível.
Nicolas tentava acompanhar o tom e acabou desafinando também. Parecia um pimentão, de tão corado que estava. De repente parou de tocar.
– Julie, eu vou voltar para casa treinar mais... – virou-se para sair andando.
– Não! Sobe aqui e a gente conversa. – respondeu ela, com a voz meio alterada.
Nicolas sorriu e entrou na casa. Foi direto para a edícula, e Daniel foi atrás.
– Oi. – Julie beijou-o, apaixonada. – Foi lindo!
– Foi nada! Eu errei tudo! – ele beijou-a, retribuindo o carinho.
– Foi lindo por que VOCÊ tocou. – enfatizou o você. Daniel estava tão irritado, que dava para perceber só olhando em seus olhos.
– Mentira. Garanto que você prefere o Daniel tocando a mim. – falou, sentando-se junto a ela no sofá.
– O Daniel não faz serenatas para mim, nem canta músicas lindas a minha janela. – beijou-o novamente. Daniel se irritou tanto que saiu da edícula, para caminhar um pouco, e fez questão de bater a porta de sua casa. Julie e Nicolas nem se importaram com o susto que levaram e continuaram a namorar na edícula, como se nada estivesse acontecido.
O fantasma saiu caminhando pelas ruas pensando na vida. Pensava, em como era burro. Era burro por se apaixonar por uma garota, que mal o admirava. Era burro, por não perceber que qualquer coisa que o babaca do Nicolas fizesse, ela nunca perceberia de sua existência. E nem da existência de seu amor por ela. E além de tudo, era burro, por não acordar, e notar que ele era um fantasma e Julie ainda estava viva, e não ia morrer tão cedo. Já tinha feito de tudo, para que pudessem ficar juntos. E mesmo quando ele havia se declarado para ela, ela preferiu ficar com outro garoto. Um garoto, que era apenas bonito por fora, que já havia falado coisas horríveis dela, e a desprezado. Eles deveriam ser só amigos. Só amigos, Daniel pensava. Como era possível, uma menina, olhar nos seus olhos desesperados e não perceber o quanto necessitava de seu amor? De seu apoio, de seus lábios colados nos dele. Achava que Julie deveria ser muito cega, para não perceber o quanto a amava. O quanto a necessitava, e o quanto queria ser mais do que apenas seu amigo, por toda a eternidade. Não conseguia entender como era possível uma coisa dessas. Ele era um fantasma. Um fantasma, com sentimentos. E mesmo em conhecimento vivo deles, nem ao menos tentava.
Decidiu então, que desistiria de lutar. Não haveria mais Nós. Não haveria mais Eles. Só haveria Ele. Sozinho e sem amor. Sem amor, e sem felicidade. Apenas com a dor e a mágoa que o próprio havia o causado. Queria chorar, mas não podia. Queria gritar, mas não podia. Qual era o propósito então da vida após a morte, se não há vida? E aonde quer que você conquiste, uma chama sequer, de esperança, ela é apagada por tudo e por todos.
Estava determinado, então. Diante de tudo aquilo que havia sofrido, e passado, que por ele mesmo havia apagado todas as suas chamas, e que não iria precisar de mais algumas justamente agora morto, para sofrer o que já havia sofrido em vida.
Depois de pensar muito voltou para a edícula, e encontrou Nicolas tocando sua guitarra. Não resistiu. Apesar do que havia pensado sobre Julie, independentemente de ser seu namorado, Nicolas era um babaca, e nada, nada que ele fizesse iria mudar isso. Vestiu-se rapidamente, com uma roupa qualquer do pai de Julie, e alguns acessórios que tapavam seu rosto. Correu para a edícula e abriu a porta com raiva. Nicolas tocava a SUA música e Julie cantava, deitada em seu colo.
– Daniel?! – Julie perguntou confusa, não o reconhecendo.
Sem responder pulou para cima do babaca, que largou a guitarra deixando-a cair no chão. Gritava com ele, chingando-o de coisas terríveis e tentando o atingir. Nicolas começou a gritar também, e aproximou-se de Daniel para fazer-lhe mal, mas ambos foram contidos por Julie, que colocou-se entre os dois,com as mãos no peito de Daniel, impedindo-o de chegar mais perto.
– Saia! – Daniel gritou para Nicolas com raiva, que protestou dizendo que não mandava nele.
Julie pediu educadamente que ele saísse, e ele foi embora, batendo a porta. Assim que foi embora, Daniel correu até sua guitarra caída no chão. Pegou com carinho, e revistou-a para ter certeza que não havia “se machucado”. Nicolas havia riscado ela, no canto da caixa acústica. Começou a tocar alguns acordes, para ver se estava tudo bem. Quando checou tudo, tirou as roupas e jogou em um canto. Voltou-se para o instrumento, e continuou a tocar calado. Julie estava em pé, a sua frente ofegante, sem entender o que havia acabado de acontecer.
– Daniel. – ele como sempre, não respondeu, apenas continuou a tocar sua guitarra em silêncio. – Daniel. – ela chamou de novo. Nada. – Por que você fez aquilo? – sentou-se, e pegou sua mão. – Você estava com ciúmes? – afastou um pouco do seu cabelo, olhando em seus olhos. – Por favor, fala comigo. Você não faz idéia de como eu estou confusa. – Daniel se levantou tirou a guitarra, e guardou-a em seu devido lugar. Julie seguia-o com os olhos.
– Julie. – Sentou ao seu lado. – Por favor, só peça a ele que não cante aquela música de novo.
– Por quê? Daniel, por favor me ajuda. – ele respirou fundo e se virou para ela.
– Bem... – afastou uma mecha do cabelo de Julie de seu olho. – Aquela música. – pegou sua mão. – Eu fiz ela para você. E ela significa muito para mim. Por que é a única lembrança que tenho do meu amor por você. – Julie sorriu, meio sem jeito. – Você lembra quando você me perguntou se eu tinha encontrado algo seu, naquele dia, por causa do que a cartomante tinha dito? – Julie assentiu. – E eu disse que não? Aí, uns dois dias depois, o João Paulo achou o seu colar? – Julie assentiu novamente, confusa. – Fui eu que peguei aquele colar e coloquei no caminho do J.P. Fui eu, que inventei aquilo sobre seus olhos, não o Nicolas. Na verdade, ele tinha dito que a tinha achado meio sem sal, e que você não era seu tipo. – Julie desconfiava de tudo, mas continuava ouvindo. – E não fui eu que mandei aquele bilhete, aquele dia na festa. Foi o Nicolas. – nisso Julie realmente acreditava. – Eu fiz tudo isso por amor. Pelo meu amor por você. – ele ficou um tempo calado, e depois disse: – Julie, você é linda, mas percebi já faz um tempo que somos e seremos para sempre só amigos. Me desculpa. – saiu da edícula, deixando Julie, sozinha e perplexa.
Notas finais
Nicolas recebe uma ligação que deixa Julie desconfiada.
Fale com o autor